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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana"><B>O ilusionismo do cinema 3D estereosc&oacute;pico</B></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>H&eacute;lio Augusto Godoy de Souza</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Graduado em biologia pela Universidade de S&atilde;o Paulo (USP), mestre em cinema pela Escola de Comunica&ccedil;&atilde;o e Artes da mesma universidade e doutor em comunica&ccedil;&atilde;o e semi&oacute;tica pela PUC-SP. Atualmente dedica-se &agrave; pesquisa da estereoscopia aplicada ao document&aacute;rio</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><font size="2" face="Verdana"><I>Um olho n&atilde;o &eacute; s&oacute; um transdutor de signos, ou um    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   eficiente produtor de signos: &eacute; uma interface real entre    <br>   o real e o signo, regido em sua evolu&ccedil;&atilde;o por leis    <br>   compat&iacute;veis com as leis que "inventamos", leis que n&atilde;o    <br>   s&atilde;o nossas, mas que viemos a aprender usando, entre    <br>    outras coisas, esse olho. (Jorge de Albuquerque Vieira)</I><a name="tx01"></a><a href="#nt01"><sup>1</sup></a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">O cinema &eacute; considerado uma arte ilusionista por natureza. Quando alguns te&oacute;ricos do cinema referem-se a essa arte, falam de ilus&atilde;o do movimento, da ilus&atilde;o de continuidade, e agora, com o 3D estereosc&oacute;pico<a name="tx02"></a><a href="#nt02"><sup>2</sup></a>, da ilus&atilde;o de profundidade. Mas, ao olharmos bem  esse ilusionismo, o que vemos &eacute; uma janela da percep&ccedil;&atilde;o por onde essa ilus&atilde;o penetraatrav&eacute;s de nossos sentidos e atinge o sistema nervoso central. &Eacute; com esse olhar que compreendemos que a ilus&atilde;o cinematogr&aacute;fica s&oacute; funciona porque encontra correspond&ecirc;ncia em nosso sistema perceptivo e processador das coisas do mundo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O neurocientista Oliver Sacks apresenta a interessante ideia de que possivelmente "achemos o cinema convincente precisamente porque n&oacute;s mesmos fragmentamos o tempo e a realidade de maneira semelhante ao que faz a c&acirc;mera cinematogr&aacute;fica, em quadros distintos, que ent&atilde;o remontamos num fluxo aparentemente cont&iacute;nuo"<a name="tx03"></a><a href="#nt03"><sup>3</sup></a>. Se ampliarmos essa ideia, teremos de considerar o efeito ou resultado da montagem  cinematogr&aacute;fica<a name="tx04"></a><a href="#nt04"><sup>4</sup></a>, ou seja, a hist&oacute;ria contada no filme como uma esp&eacute;cie de estrutura que s&oacute; faz sentido (por meio da ilus&atilde;o de continuidade) porque est&aacute; perfeitamente adequada ao modo pelo qual nosso c&eacute;rebro/mente organiza os nossos diferentes pontos de vista e viv&ecirc;ncias do dia a dia e, assim, vai construindo o fio narrativo de nossa pr&oacute;pria experi&ecirc;ncia di&aacute;ria.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A situa&ccedil;&atilde;o se repete quando pensamos em rela&ccedil;&atilde;o ao filme 3D estereosc&oacute;pico. Esse tipo de filme n&atilde;o faz mais do que estimular e ao mesmo tempo satisfazer a predisposi&ccedil;&atilde;o de nossa percep&ccedil;&atilde;o visual das tr&ecirc;s dimens&otilde;es do espa&ccedil;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana"><B>O 3D n&atilde;o &eacute; uma inven&ccedil;&atilde;o do s&eacute;culo XX</B></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Melhor seria dizer que o 3D existe desde que a humanidade &eacute; humanidade, ou melhor, desde que os primatas apareceram sobre o planeta (a bem da verdade, n&atilde;o somente os primatas, pois muitos predadores veem em 3D). Basta que um animal tenha dois olhos dispostos frontalmente na face para que a dist&acirc;ncia entre eles gere ligeiras diferen&ccedil;as entre o que o olho direito v&ecirc; e o que o olho esquerdo v&ecirc;. S&atilde;o essas diferen&ccedil;as que informam ao c&eacute;rebro a respeito da profundidade e do volume dos objetos. Foi o que o m&eacute;dico Charles Wheatstone demonstrou quando, por volta de 1830, montou o primeiro estereosc&oacute;pio, um aparelho composto por um jogo de dois espelhos que refletiam dois desenhos, ligeiramente diferentes, e fazia com que cada olho visse seu desenho espec&iacute;fico, recuperando a sensa&ccedil;&atilde;o de ver o objeto retratado em todo seu volume.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em 1861, Oliver Wendell Holmes desenvolveu um estereosc&oacute;pico no qual eram colocados pares de imagens fotogr&aacute;ficas produzidas por c&acirc;meras com duas lentes posicionadas lado a lado. O visor estereosc&oacute;pico de Holmes permitia que virtualmente fossem visitados diferentes locais, que eram vistos em todo o seu esplendor volum&eacute;trico. As pir&acirc;mides do Egito, o pal&aacute;cio imperial japon&ecirc;s, o museu do Louvre, as cataratas do Ni&aacute;gara eram visualizadas na sala de visitas de muitas fam&iacute;lias europeias no final do s&eacute;culo XIX. At&eacute; empresas fotogr&aacute;ficas especializadas na produ&ccedil;&atilde;o de pares fotogr&aacute;ficos exploraram o promissor mercado 3D estereosc&oacute;pico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">N&atilde;o nos &eacute; estranha essa predile&ccedil;&atilde;o pela profundidade nas representa&ccedil;&otilde;es figurativas. Devemos lembrar que a descoberta da <I>perspectiva artificial, </I>na qual as linhas paralelas parecem afunilar-se ao longe, forneceu uma eficiente t&eacute;cnica para representa&ccedil;&atilde;o espacial tridimensional. Descoberta no in&iacute;cio do Renascimento (s&eacute;c. XV), foi a grande contribui&ccedil;&atilde;o &agrave; representa&ccedil;&atilde;o pict&oacute;rica daquele per&iacute;odo para a humanidade. Com a perspectiva artificial, foi poss&iacute;vel representar-se, na imagem bidimensional, a profundidade espacial de templos, castelos e paisagens silvestres, provendo especial deleite &agrave; percep&ccedil;&atilde;o espacial em pinturas e desenhos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Todavia, n&atilde;o somente a perspectiva artificial estimula a capacidade de percep&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o tridimensional. Existem ainda outros indutores dessa capacidade que podem, resumidamente, serem descritos da seguinte forma:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><I>Oclus&atilde;o dos objetos </I>&#150; um indutor no qual os objetos opacos mais pr&oacute;ximos sobrep&otilde;em</B>se a partes de objetos mais distantes;    <br>     <I>Perspectiva a&eacute;rea &#150; </I>n&oacute;s a percebemos na medida em que objetos mais distantes no horizonte v&atilde;o ficando mais enevoados e azulados;    <br>     <I>Luz e sombra &#150;</I> indutores que destacam o relevo dos objetos pela modelagem entre &aacute;reas claras e escuras;    <br>     <I>Gradiente de textura </I>&#150; indutor relacionado &agrave; repeti&ccedil;&atilde;o de padr&otilde;es em profundidade (uma cal&ccedil;ada de pedras que aparentemente diminuem de tamanho conforme se distanciam do observador);    <br>     <I>Acomoda&ccedil;&atilde;o visual &#150; </I>associada &agrave; percep&ccedil;&atilde;o da mudan&ccedil;a da curvatura do cristalino (lente do olho respons&aacute;vel por ajustar o foco dos objetos), em que objetos pr&oacute;ximos determinam maior curvatura para serem focalizados;    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>     <I>Paralaxe de movimento &#150; </I>percep&ccedil;&atilde;o de profundidade que surge quando um observador desloca-se lateralmente em rela&ccedil;&atilde;o aos objetos e os mais pr&oacute;ximos parecem mover-se com maior velocidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A maioria desses indutores &eacute; utilizada em imagens figurativas como o desenho, a pintura e a fotografia. No caso do cinema, ainda em que bidimensional, ou 2D, al&eacute;m de todos os indutores anteriormente usados pelas imagens est&aacute;ticas, adicionaram-se tamb&eacute;m aqueles que dependem do movimento, como a acomoda&ccedil;&atilde;o visual (simulada pela focaliza&ccedil;&atilde;o das lentes da c&acirc;mera cinematogr&aacute;fica) e a paralaxe de movimento observada nos deslocamentos de c&acirc;mera.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O que o cinema 3D estereosc&oacute;pico fez foi somar a todos esses indutores de percep&ccedil;&atilde;o de profundidade dois outros: a <I>converg&ecirc;ncia ocular, </I>que &eacute; a capacidade da musculatura que controla os olhos de direcionar os dois eixos &oacute;pticos para um &uacute;nico ponto de interesse localizado a uma determinada dist&acirc;ncia do observador; e a <I>estereopsia (ou estereopsis), </I>que &eacute; a capacidade do c&eacute;rebro de indicar a profundidade a partir das diferen&ccedil;as entre as duas imagens observadas pelo olho direito e pelo olho esquerdo. Essa diferen&ccedil;a entre as duas imagens &eacute; denominada de <I>diferen&ccedil;a de paralaxe </I>pelos especialistas em estereoscopia.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><B>Efeitos t&eacute;cnicos da ilus&atilde;o no cinema 3D estereosc&oacute;pico</B></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A realiza&ccedil;&atilde;o de um filme 3D estereosc&oacute;pico inicia-se com a filmagem feita por duas c&acirc;meras sincronizadas, colocadas uma ao lado da outra, a uma determinada dist&acirc;ncia compat&iacute;vel com a produ&ccedil;&atilde;o da desejada diferen&ccedil;a de paralaxe entre as duas imagens resultantes. Existem v&aacute;rias marcas e modelos de suportes para a coloca&ccedil;&atilde;o das duas c&acirc;meras, e a correta utiliza&ccedil;&atilde;o desses suportes, com o posicionamento dessas c&acirc;meras a dist&acirc;ncia adequada uma da outra, &eacute; o campo de atividades do <I>estere&oacute;grafo</I>, o t&eacute;cnicoartista respons&aacute;vel pela expressividade e conforto visual proporcionado pelas imagens estereosc&oacute;picas. Algumas c&acirc;meras possuem duas objetivas (lentes), o que permite produzir dois filmes sincronizados (um esquerdo e outro direito). Seja atrav&eacute;s de duas c&acirc;meras ou de uma &uacute;nica c&acirc;mera com duas lentes, o que &eacute; produzido s&atilde;o duas sequ&ecirc;ncias de imagens que devem ser montadas separadamente. O importante na montagem &eacute; que os cortes (transi&ccedil;&atilde;o de um plano ao outro) sejam feitos em tempos equivalentes tanto no filme direito como no esquerdo. No resultado final, temos dois filmes semelhantes, com pequenas diferen&ccedil;as de paralaxe entre as imagens equivalentes da direita e da esquerda.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Uma vez montado e finalizado, &eacute; hora de se visualizar simultaneamente as imagens das duas sequ&ecirc;ncias. O filme contendo as duas pistas (esquerda e direita) &eacute; reproduzido digitalmente em softwares espec&iacute;ficos para computadores (players), em Blu-rays especializados em reproduzir filmes estereosc&oacute;picos, ou no cinema digital, por potentes computadores especializados em reproduzir filmes de alta resolu&ccedil;&atilde;o. Cada um desses "reprodutores" de filmes estereosc&oacute;picos 3D enviam os sinais para sistemas de visualiza&ccedil;&atilde;o estereosc&oacute;pica, sejam telas de cinema ou monitores de TV ou de computador. De forma gen&eacute;rica, esses sistemas de visualiza&ccedil;&atilde;o estereosc&oacute;pica utilizam t&eacute;cnicas que consistem em permitir que somente o olho esquerdo veja as imagens produzidas pela c&acirc;mera (ou a lente) esquerda, e somente o olho direito veja as imagens da c&acirc;mera (ou da lente) direita. Isso &eacute; conseguido, na maioria das vezes, com a utiliza&ccedil;&atilde;o de &oacute;culos que cont&eacute;m filtros especiais e diferentes em cada um dos olhos. As t&eacute;cnicas de visualiza&ccedil;&atilde;o s&atilde;o as seguintes:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><I>Anagl&iacute;fica </I>&#150; as lentes dos &oacute;culos recebem filtros de cores complementares e as imagens exibidas s&atilde;o tingidas pelas respectivas cores<a name="tx05"></a><a href="#nt05"><sup>5</sup></a>;    <br>     <I>Polariza&ccedil;&atilde;o </I>&#150; tamb&eacute;m chamada de estereoscopia passiva, em que as lentes recebem filtros polarizadores de luz, uma polariza&ccedil;&atilde;o para a direita e outra para a esquerda, e o projetor exibe as imagens direita e esquerda com polariza&ccedil;&otilde;es compat&iacute;veis com os filtros polarizadores dos &oacute;culos;    <br>     <I>Obtura&ccedil;&atilde;o por cristal l&iacute;quido </I>&#150; tamb&eacute;m chamada de estereoscopia ativa, na qual os &oacute;culos possuem filtros de cristal l&iacute;quido que alternadamente obstruem ou permitem a passagem da luz. Projetam-se as imagens alternadamente com frequ&ecirc;ncia mais alta que o m&iacute;nimo percept&iacute;vel pela retina e, simultaneamente com a altern&acirc;ncia da proje&ccedil;&atilde;o das duas imagens, os &oacute;culos "abrem e fecham" alternadamente, sincronizando o lado esquerdo e o direito.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Essas t&eacute;cnicas s&atilde;o utilizadas tanto nas telas de cinema como em monitores de TV 3D.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; visualiza&ccedil;&atilde;o estereosc&oacute;pica, &eacute; necess&aacute;rio ainda citarmos as t&eacute;cnicas de autoestereoscopia e de proje&ccedil;&atilde;o hologr&aacute;fica. A <I>autoestereoscopia </I>&eacute; uma forma de visualiza&ccedil;&atilde;o 3D que n&atilde;o necessita de &oacute;culos. A ideia &eacute; simples: o sistema que faz a separa&ccedil;&atilde;o das duas imagens &eacute; colocado sobre a pr&oacute;pria tela, de modo que, com a cabe&ccedil;a posicionada adequadamente, percebem-se as imagens esquerda e direita separadamente pelos dois olhos. Existem dois tipos de sistemas autoestereosc&oacute;picos: os que atuam por meio de barreiras &oacute;pticas opacas e os que atuam por barreiras de pl&aacute;stico lenticular; cada um tem suas vantagens e desvantagens. Esses sistemas autoest&eacute;reos (como s&atilde;o popularmente chamados) s&atilde;o comercializados em consoles de jogos eletr&ocirc;nicos aut&ocirc;nomos (quando a tela est&aacute; inclu&iacute;da no console), ou ainda em monitores de c&acirc;meras estereosc&oacute;picas com duas lentes. Existem tamb&eacute;m fabricantes de monitores autoestereosc&oacute;picos, mas as aplica&ccedil;&otilde;es ainda est&atilde;o restritas a monitores destinados a comunica&ccedil;&atilde;o "indoor", tais como os sistemas de monitores observados em shoppings ou locais de acesso p&uacute;blico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Diz-se que esse tipo de sistema seria o futuro dos monitores de TV 3D a serem usados domesticamente, mas devemos considerar que os sistemas de <I>proje&ccedil;&atilde;o hologr&aacute;fica </I>podem substituir os sistemas autoestereosc&oacute;picos talvez daqui a mais dez ou quinze anos. O sistema de proje&ccedil;&atilde;o hologr&aacute;fica aproveita-se da caracter&iacute;stica ondulat&oacute;ria da luz e, atrav&eacute;s de interfer&ecirc;ncia entre duas ou mais ondas, pode cancelar ou tornar a luz mais evidente em um local no espa&ccedil;o. Uma proje&ccedil;&atilde;o dessa luz organizada, atrav&eacute;s de interfer&ecirc;ncia, poderia formar uma imagem luminosa real, em um local do espa&ccedil;o, com as mesmas carater&iacute;sticas luminosas do objeto tridimensional a ser representado. Esse fen&ocirc;meno vem sendo utilizado h&aacute; tempos na produ&ccedil;&atilde;o de holografias cuja aplica&ccedil;&atilde;o comercial mais encontrada s&atilde;o as imagens 3D dispostas em pequenos selos sobre cart&otilde;es de cr&eacute;dito.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Todavia a t&eacute;cnica da proje&ccedil;&atilde;o hologr&aacute;fica, diferentemente da holografia, ainda se encontra em fase de desenvolvimento dentro de centros de pesquisa industrial e das universidades, tal como pudemos encontrar na pesquisa desenvolvida pelo professor Jos&eacute; Joaqu&iacute;n Lunazzi, do Instituto de F&iacute;sica Gleb Wataghin da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><B>Ilusionismo cinematogr&aacute;fico?</B></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O que nos interessa ressaltar &eacute; que o denominado ilusionismo do cinema parece estabelecer uma rela&ccedil;&atilde;o de chave e fechadura entre as t&eacute;cnicas cinematogr&aacute;ficas e os sistemas perceptivos humanos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">&Eacute; digno de nota que nosso sistema de percep&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; capaz de nos informar a respeito de todos os fen&ocirc;menos que ocorrem &agrave; nossa volta. N&oacute;s n&atilde;o vemos as ondas eletromagn&eacute;ticas que transportam as informa&ccedil;&otilde;es radiof&ocirc;nicas, televisivas ou de telefonia m&oacute;vel. Nem mesmo conseguimos perceber que a luz aparentemente cont&iacute;nua das l&acirc;mpadas el&eacute;tricas na verdade pisca, pois alimentada pela corrente el&eacute;trica alternada. Existem animais migrat&oacute;rios que percebem os campos magn&eacute;ticos terrestres. Outros animais emitem pulsos el&eacute;tricos e percebem qualquer distor&ccedil;&atilde;o desse campo el&eacute;trico provocado por obst&aacute;culos ou presas. Outros, ainda, s&atilde;o capazes de emitir ondas sonoras inaud&iacute;veis aos humanos, que permitem sua localiza&ccedil;&atilde;o por reflex&atilde;o sonora (ecolocaliza&ccedil;&atilde;o).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ainda que nossa percep&ccedil;&atilde;o de mundo n&atilde;o seja completa, que n&atilde;o consiga evidenciar todos os tipos de fen&ocirc;menos que ocorrem &agrave; nossa volta, para aquilo que se prop&otilde;e a fazer &eacute; bastante eficiente e tem se mostrado coerente com a variabilidade de fen&ocirc;menos existentes no mundo &#150; pelo menos permitiu que sobreviv&ecirc;ssemos at&eacute; os dias atuais. Al&eacute;m disso, constru&iacute;mos aparatos t&eacute;cnicos que nos auxiliam a perceber esses fen&ocirc;menos impercept&iacute;veis pelos sensores biol&oacute;gicos do ser humano.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Nossos sensores biol&oacute;gicos permitem a infer&ecirc;ncia de um mundo exterior que est&aacute; representado em um mundo interior. Esse mundo interior &eacute; descrito de maneira eficiente pelo bi&oacute;logo estoniano Jakob von Uexk&uuml;ll (1864-1944) em uma teoria denominada "Teoria do umwelt"<a name="tx06"></a><a href="#nt06"><sup>6</sup></a>. Uexk&uuml;ll desenvolveu suas pesquisas na Alemanha e &eacute; considerado um dos pais da etologia, o estudo do comportamento dos animais. Seu objetivo era compreender como os animais compreendem o mundo &agrave; sua volta. De acordo com Uexk&uuml;ll, o <I>umwelt </I>&eacute; uma bolha representacional que rodeia os seres vivos; ela &eacute; invis&iacute;vel para os observadores externos, mas cont&eacute;m a representa&ccedil;&atilde;o dos fen&ocirc;menos do mundo objetivo, uma esp&eacute;cie de mapa (no sentido mais amplo que podemos dar a essa palavra) que todo ser vivo possui e que o guia para tomar suas decis&otilde;es para se manter vivo frente &agrave;s amea&ccedil;as e os favorecimentos existentes no mundo. E o que isso tem a ver com a esp&eacute;cie humana e o cinema 3D estereosc&oacute;pico?</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Em certa medida, o <I>umwelt </I>de uma esp&eacute;cie &eacute; moldado pelo mesmo mundo que deu origem &agrave; esp&eacute;cie, e esse <I>umwelt </I>se acomoda ao mundo e &agrave;s necessidades da esp&eacute;cie; &eacute; um reflexo do mundo existente na esp&eacute;cie. A principal diferen&ccedil;a entre o <I>umwelt </I>humano e os <I>umwelten </I>das outras esp&eacute;cies &eacute; que nossa esp&eacute;cie pode modificar seu <I>umwelt</I>, adicionando novas rela&ccedil;&otilde;es entre signos e coisas do mundo que antes n&atilde;o estavam presentes, desde o surgimento da esp&eacute;cie no planeta. A ci&ecirc;ncia e a arte, dentre outras formas de conhecimento, permitem a dilata&ccedil;&atilde;o do <I>umwelt</I>, a amplia&ccedil;&atilde;o de sua abrang&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Por outro lado, n&oacute;s, seres humanos, somos os &uacute;nicos animais a criar representa&ccedil;&otilde;es externas significativas das imagens e sons que habitam em nossa mente, em nosso <I>umwelt</I>. Somos capazes de projetar ao exterior nossa representa&ccedil;&atilde;o de mundo interior. E a humanidade vem fazendo isso desde que um Homem de Cro-magnon resolveu desenhar nas paredes de uma caverna h&aacute; uns 40 mil anos. Ou seja, ao mesmo tempo em que o <I>umwelt </I>se dilata, as imagens e sons (signos) que recheiam esse <I>umwelt </I>s&atilde;o exteriorizadas, expostas ao exterior da mente, permitindo o compartilhamento das experi&ecirc;ncias sonoras e visuais entre os seres humanos. Da mesma forma, ideias e concep&ccedil;&otilde;es de mundo s&atilde;o expostas pela linguagem verbal. Nessa dan&ccedil;a entre o compartilhamento do <I>umwelt </I>e a produ&ccedil;&atilde;o de mais conhecimento sobre o mundo, o que se amplia &eacute; o pr&oacute;prio <I>umwelt </I>humano, abarcando mais e mais signos que representam mais e mais coisas reais, existentes no universo. Pelo menos temos sido capazes de executar bem essa dan&ccedil;a, apesar de alguns descompassos. J&aacute; a m&uacute;sica, essa que toca continuamente, n&atilde;o podemos alter&aacute;-la, apenas tentamos n&atilde;o errar o passo, e fazermos parte dessa sinfonia coreografada.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><B>De que nos serve um cinema 3D estereosc&oacute;pico?</B></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Quando pensamos em cinema, no sentido ampliado, incluindo todo o campo do audiovisual, e damos um significado maior, incluindo sua fun&ccedil;&atilde;o no interior do <I>umwelt </I>humano, podemos inferir um sentido mais objetivo desse ilusionismo. O "ilusionismo" (agora entre aspas) &eacute; express&atilde;o da pr&oacute;pria integra&ccedil;&atilde;o do cinema com a mente humana. Uma mente que cont&eacute;m seus mapas de representa&ccedil;&atilde;o, seus processadores de signos e sua capacidade de exteriorizar imagens e sons na forma de filmes, fotografias, desenhos, pinturas, sinfonias etc.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">&Agrave; medida que a extrus&atilde;o acontece, interage com outras mentes humanas e constr&oacute;i novas possibilidades de dilata&ccedil;&atilde;o do <I>umwelt</I>. O cinema 3D estereosc&oacute;pico permite vermos com maior coer&ecirc;ncia visual as espacialidades, os volumes e relevos. A capacidade desse cinema para compartilhamento da experi&ecirc;ncia visual &eacute; maior que o cinema 2D, pois integra mais indutores de percep&ccedil;&atilde;o visual do espa&ccedil;o tridimensional. As potencialidades educacionais e investigativas desse tipo de imagem devem ser consideradas. Document&aacute;rios educacionais deveriam ser produzidos neste novo formato e as escolas deveriam incluir sistemas de visualiza&ccedil;&atilde;o 3D estereosc&oacute;picos em sua tecnologia educacional.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Al&eacute;m de todo o funcionamento do cinema 3D estereosc&oacute;pico, com sua aplica&ccedil;&atilde;o educativa, especulativa ou de entretenimento; al&eacute;m de toda fun&ccedil;&atilde;o de compartilhamento da visualidade humana, encontra-se algo que transcende nossa exist&ecirc;ncia imediata. Consiste em compreender a ampla dimens&atilde;o da realidade na qual estamos inseridos, ainda que um pouco perdidos dentro desse "ilusionismo".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Para concluirmos este artigo, gostar&iacute;amos de propor ao leitor a reflex&atilde;o a respeito de uma cita&ccedil;&atilde;o do pr&oacute;prio Jakob von Uexk&uuml;ll, que especula sobre o sentido amplo que a dilata&ccedil;&atilde;o do <I>umwelt </I>(mundo-pr&oacute;prio) representa para nossa esp&eacute;cie: "N&atilde;o &eacute; a dilata&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o do nosso mundo-pr&oacute;prio em milh&otilde;es de anos-luz que nos eleva acima de n&oacute;s pr&oacute;prios, mas o reconhecer que, al&eacute;m do nosso mundo pessoal, tamb&eacute;m os mundospr&oacute;prios dos nossos irm&atilde;os humanos e irracionais est&atilde;o contidos num plano que tudo abrange".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><B>NOTAS</B></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana"><a name="nt01"></a><a href="#tx01">1</a>-Vieira, Jorge de Albuquerque. <I>Semi&oacute;tica, sistemas e sinais</I>. Tese de doutorado em comunica&ccedil;&atilde;o e semi&oacute;tica. S&atilde;o Paulo: PUC/SP, 1994.    </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a name="nt02"></a><a href="#tx02">2</a>-&Eacute; prefer&iacute;vel usar o termo "3D estereosc&oacute;pico" para n&atilde;o confundir com as anima&ccedil;&otilde;es 3D que nem sempre s&atilde;o estereosc&oacute;picas, embora sejam produzidas em ambiente computacional tridimensional.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana"><a name="nt03"></a><a href="#tx03">3</a>-Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe1502200401.htm" target="_blank">www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe1502200401.htm</a></font><p><font size="2" face="Verdana"><a name="nt04"></a><a href="#tx04">4</a>-Montagem, em termos t&eacute;cnicos cinematogr&aacute;ficos, &eacute; a justaposi&ccedil;&atilde;o temporal dos planos/tomadas feita pela c&acirc;mera cinematogr&aacute;fica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a name="nt05"></a><a href="#tx05">5</a>-A t&eacute;cnica anagl&iacute;fica &eacute; considerada um pouco desconfort&aacute;vel por promover uma separa&ccedil;&atilde;o crom&aacute;tica radical, nem sempre aceita confortavelmente pela retina humana. Uma t&eacute;cnica que evoluiu da anagl&iacute;fica foi desenvolvida pela empresa Infitec e &eacute; utilizada nos sistemas de exibi&ccedil;&atilde;o cinematogr&aacute;fica comercializados pela Dolby 3D. Nesse sistema, utilizam-se filtros de interfer&ecirc;ncia luminosa de modo a dividir o espectro luminoso em duas bandas crom&aacute;ticas completas, contendo as cores vermelha, azul e verde. Desse modo, uma das bandas fica cromaticamente diferente da outra, apesar de conter todas as cores. Isso permite uma adequada visualiza&ccedil;&atilde;o 3D estereosc&oacute;pica por separa&ccedil;&atilde;o crom&aacute;tica, com os filtros de interfer&ecirc;ncia e sem o desconforto da t&eacute;cnica anagl&iacute;fica que lhe deu origem.</font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana"><a name="nt06"></a><a href="#tx06">6</a>-Em alem&atilde;o a palavra <I>umwelt </I>refere-se ao ambiente. As poss&iacute;veis tradu&ccedil;&otilde;es do conceito de <I>umwelt</I>, na forma do conceito desenvolvido por Uexk&uuml;ll, s&atilde;o as seguintes: universo subjetivo, mundo subjetivo, universo particular, mundopr&oacute;prio. Mas seja qual for a tradu&ccedil;&atilde;o, sempre se refere &agrave; forma como o ambiente &eacute; percebido interiormente por uma esp&eacute;cie animal, e n&atilde;o por apenas por um indiv&iacute;duo. (Uexk&uuml;ll, Jakob von. <I>Dos animais e dos homens</I>. Tradu&ccedil;&atilde;o de Alberto Candeias e Anibal Garcia Pereira. Lisboa: Edi&ccedil;&atilde;o "Livros do Brasil).    </font></p>      ]]></body>
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