<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>1519-7654</journal-id>
<journal-title><![CDATA[ComCiência]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[ComCiência]]></abbrev-journal-title>
<issn>1519-7654</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Universidade Estadual de Campinas - Labjor]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S1519-76542011000700011</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Da coisa ao objeto, do artefato à tecnologia ubíqua]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Duarte]]></surname>
<given-names><![CDATA[Fábio]]></given-names>
</name>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Firmino]]></surname>
<given-names><![CDATA[Rodrigo]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2011</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2011</year>
</pub-date>
<numero>131</numero>
<fpage>0</fpage>
<lpage>0</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1519-76542011000700011&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1519-76542011000700011&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1519-76542011000700011&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align=right><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ARTIGO</b></font><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>&nbsp;</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>Da coisa ao    objeto, do artefato &agrave; tecnologia ub&iacute;qua</b></font><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>&nbsp;</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Por F&aacute;bio Duarte;    Rodrigo Firmino</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Era 1988, e Mark    Weiser, ent&atilde;o chefe do setor de tecnologia da Xerox, previa que uma mir&iacute;ade    de sistemas tecnol&oacute;gicos perpassaria nossos ambientes f&iacute;sicos e biol&oacute;gicos.    Um mundo repleto de m&aacute;quinas, computadores e sistemas que se comunicariam entre    si e agiriam e tomariam decis&otilde;es pelos seres humanos. E a hist&oacute;ria da rela&ccedil;&atilde;o    entre o humano e o computador poderia ser dividida em tr&ecirc;s fases: muitas pessoas    operando uma m&aacute;quina (mainframe); uma pessoa, uma m&aacute;quina (computa&ccedil;&atilde;o pessoal);    muitas m&aacute;quinas por pessoa (computa&ccedil;&atilde;o ub&iacute;qua).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mas era, muito    antes, um mundo de coisas. E as coisas existiam por si mesmas. E o humano vivia    entre as coisas. E o humano, para sobreviver entre as coisas, e para dominar    o mundo de coisas, buscou entend&ecirc;-las. Fr&aacute;gil, n&atilde;o podia apossar-se delas, tom&aacute;-las    para si. Mas foi capaz de entend&ecirc;-las, em suas caracter&iacute;sticas f&iacute;sicas, biol&oacute;gicas,    qu&iacute;micas. E o humano apropriou-se do mundo de coisas pelo seu entendimento.    O humano sabia a coisa antes de possu&iacute;-la. E dominou-a. A coisa n&atilde;o valia pelo    que era, mas pelas suas possibilidades. E o humano fez da coisa, ci&ecirc;ncia; e    fez da coisa, objeto; e fez da coisa, ferramenta. Frutos ganharam valor pela    semente - n&atilde;o pela saciedade da fome imediata, mas por evitar fomes futuras.    Pedras tornaram-se muro - e a possibilidade de prote&ccedil;&atilde;o. Ossos tornaram-se armas    de ca&ccedil;a - e a possibilidade de ingest&atilde;o constante de prote&iacute;na. E o mundo de    coisas deu lugar ao mundo da ci&ecirc;ncia, dos objetos e das ferramentas. Ci&ecirc;ncia,    objetos, ferramentas s&atilde;o o mundo de coisas entendido e transformado.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">E o humano criou    um mundo de objetos e ferramentas. Os objetos s&atilde;o o fim de um processo de entendimento    e transforma&ccedil;&atilde;o de coisas. Em uma cadeira, senta-se. Em uma cabana, abriga-se.    As ferramentas s&atilde;o o meio para que um fim, que est&aacute; al&eacute;m e n&atilde;o contido nelas,    seja al&ccedil;ado. No fim da lan&ccedil;a, est&aacute; o animal abatido; na l&acirc;mina do machado, est&aacute;    a cabana. O objeto traz em si o conhecimento cristalizado. A ferramenta ainda    depende de um conhecimento em a&ccedil;&atilde;o. O objeto cristaliza as caracter&iacute;sticas f&iacute;sicas    da coisa da qual prov&eacute;m: a consist&ecirc;ncia e a envergadura da madeira, a dureza    e o corte da pedra. Mas &eacute; da empunhadura, da velocidade da corrida, da inclina&ccedil;&atilde;o    da lan&ccedil;a, que depende o abate.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Para a ferramenta    se cumprir - e deixar de ser um objeto - &eacute; preciso energia para coloc&aacute;-la em    a&ccedil;&atilde;o, e conhecimento de como esta a&ccedil;&atilde;o deve ser executada para que atinja o    fim desejado: a t&eacute;cnica. O arp&atilde;o, nas m&atilde;os de um pedreiro, ter&aacute; energia, n&atilde;o    t&eacute;cnica. A ferramenta sem t&eacute;cnica &eacute; apenas um objeto.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">E o humano vivia,    ent&atilde;o, em um mundo de conhecimento, objetos e ferramentas. Um mundo que ele    criou, pois entendeu e transformou as coisas. O humano entendeu as coisas ao    ponto que n&atilde;o s&oacute; delas fez objetos e ferramentas, mas as transformou em sua    ess&ecirc;ncia. A vacina &eacute; um v&iacute;rus, uma coisa, entendida de tal modo que faz com    que ele se volte contra si mesmo. A vacina &eacute; a coisa dominada, alterando a si    mesma e ao pr&oacute;prio humano.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">E o humano entendia    tamb&eacute;m a energia e a t&eacute;cnica das quais as ferramentas dependem. E dominou-as.    E amalgamou-as nas ferramentas. E transformou-as em artefatos tecnol&oacute;gicos.    A energia produzida junto &agrave; ferramenta, para que ela agisse sempre do mesmo    modo, com a mesma intensidade. A m&aacute;quina a vapor move-se a si mesma. Um motor    a combust&atilde;o move-se a si mesmo. E o humano recriou o seu mundo - seu, com a    propriedade do possessivo - de artefatos tecnol&oacute;gicos. E reconstruiu o seu espa&ccedil;o.    Fez do espa&ccedil;o-mundo o seu territ&oacute;rio. E povoou-o de artefatos tecnol&oacute;gicos.    Que sabem o que devem fazer - foram imbu&iacute;dos de um saber-fazer. Mas dependem    de uma fonte de energia. Ent&atilde;o, o humano entendeu a energia, dominou a mais    prop&iacute;cia a ser distribu&iacute;da rapidamente, e distribuiu-a por todo o espa&ccedil;o. E    fez um mundo de energia el&eacute;trica distribu&iacute;da e de artefatos tecnol&oacute;gicos. E    recriou o seu espa&ccedil;o. E amalgamou espa&ccedil;o e tecnologia. E amalgamou-se a si mesmo    &agrave; tecnologia. E o humano fez-se sin&ocirc;nimo de tecnol&oacute;gico. E o humano arrisca-se    a pensar que o artefato tecnol&oacute;gico &eacute; coisa, &eacute; um dado inerente ao seu espa&ccedil;o.    &Aacute;gua encanada, energia el&eacute;trica. Tecnologias que foram infiltradas no espa&ccedil;o    que passam a constitu&iacute;-lo em sua ess&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">E ent&atilde;o o humano    voltou-se &agrave; sua caracter&iacute;stica fundamental: a linguagem. O mundo &eacute; entendido    e transformado quando representado, quando feito linguagem. O mundo dos artefatos    fez-se fato. E para este conjunto de artefatos havia linguagens diferentes.    E para cada linguagem, um suporte f&iacute;sico onde registr&aacute;-la. A pintura dependia    da tela. As palavras, do papel. Para comunicar a pintura, era preciso transmitir    a tela. E o humano viu no suporte uma coisa; e nela, um empecilho. O humano    dependia do suporte para obter a ess&ecirc;ncia do que desejava. E o humano, que conseguira    entender e transformar a coisa, partia agora para entender e dominar a ess&ecirc;ncia    das manifesta&ccedil;&otilde;es humanas: a linguagem. E tratou de dominar as linguagens. E    criar uma linguagem que a todas abarcasse. Ou as traduzisse em uma &uacute;nica, manipul&aacute;vel.    E codificou o mundo, e unificou os c&oacute;digos. E, este c&oacute;digo &uacute;nico, trata de torn&aacute;-lo    constituinte dos artefatos tecnol&oacute;gicos. E os artefatos tecnol&oacute;gicos trocam    informa&ccedil;&otilde;es entre si. Compartilham uma linguagem comum. E conversam entre si,    sem que o humano participe de cada etapa desse di&aacute;logo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Era 1991, e Mark    Weiser afirmava que &quot;as mais profundas tecnologias s&atilde;o aquelas que desaparecem.    Elas se misturam no tecido da vida cotidiana at&eacute; o momento em que n&atilde;o se pode    mais distingui-las&quot;. E n&atilde;o podemos distinguir o humano da tecnologia. Somos    os artefatos que constru&iacute;mos. H&aacute; tecnologias que desaparecem por serem microsc&oacute;picas,    que n&atilde;o se deixam perceber; h&aacute; tecnologias que desaparecem por serem imensas,    que abarcam e transformam nossa percep&ccedil;&atilde;o. Apague a luz.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Era ainda a d&eacute;cada    de 1990 e o mundo t&eacute;cnico-cient&iacute;fico-informacional de Milton Santos se fez.    &Eacute; este que est&aacute; a&iacute;, aqui. &Eacute; um mundo de artefatos tecnol&oacute;gicos que dialogam    entre si. &Eacute; um mundo das tecnologias infiltradas, das tecnologias que, quanto    mais poderosas, mais invis&iacute;veis.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">E a cidade &eacute; o    espa&ccedil;o de conviv&ecirc;ncia entre o humano e os artefatos. A cidade &eacute; um artefato    tecnol&oacute;gico. E amalgamadas no espa&ccedil;o urbano, as tecnologias tornam-no meio de    comunica&ccedil;&atilde;o e troca constante de informa&ccedil;&otilde;es entre o humano e os artefatos,    entre pr&oacute;prios artefatos, independentes do humano. A cidade &eacute; o meta-artefato    tecnol&oacute;gico. A cidade &eacute; o resultado e a possibilidade de trocas materiais e    imateriais mediadas por artefatos tecnol&oacute;gicos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mas al&eacute;m do mundo    de coisas, al&eacute;m das conting&ecirc;ncias do tempo e do espa&ccedil;o, havia um outro espa&ccedil;o,    imaterial, um espa&ccedil;o ampliado pela religi&atilde;o, magia, metaf&iacute;sica, arte. Havia    um mundo que dependia da vontade, da cren&ccedil;a. Era um mundo al&eacute;m. Era um mundo    outro. E esse mundo se fez artefato. E os artefatos tecnol&oacute;gicos criam os espa&ccedil;os    ampliados, e ampliam a percep&ccedil;&atilde;o humana dos espa&ccedil;os. Um espa&ccedil;o ampliado amalgamado    no espa&ccedil;o cotidiano. Am&aacute;lgamas, am&aacute;lgamas, am&aacute;lgamas. Por que n&atilde;o h&aacute; outro.    N&atilde;o h&aacute; um al&eacute;m. A cidade como um meta-espa&ccedil;o. Mais que um espa&ccedil;o ampliado, um    espa&ccedil;o intensificado.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">E &eacute; um espa&ccedil;o ampliado,    um espa&ccedil;o intensificado que n&atilde;o depende da vontade e das cren&ccedil;as de indiv&iacute;duos    ou grupos. N&atilde;o h&aacute; ritos, N&atilde;o h&aacute; transes. Um espa&ccedil;o intensificado, ampliado pela    invisibilidade onipresente da tecnologia. Tecnologias infiltradas, tecnologias    que ampliam as capacidades comunicativas e interativas do humano, independentemente    da consci&ecirc;ncia do humano em cada a&ccedil;&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">E era uma vez um    mundo de coisas. Um mundo de objetos e ferramentas e sabedoria. Um mundo de    artefatos tecnol&oacute;gicos e ci&ecirc;ncia. Um mundo de tecnologias infiltradas. Um mundo    de computa&ccedil;&atilde;o ub&iacute;qua. Um mundo humano.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><i>F&aacute;bio Duarte    &eacute; professor e pesquisador em gest&atilde;o e mobilidade urbana, cidade e tecnologia    na PUC-PR.</i> <a href="http://www.pucpr.br/ppgtu" target="_blank">http://www.pucpr.br/ppgtu</a></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><i>Rodrigo Firmino    &eacute; professor e pesquisador em gest&atilde;o urbana, arquitetura e urbanismo, vigil&acirc;ncia    urbana e controle do espa&ccedil;o na PUC-PR. </i><a href="http://www.pucpr.br/ppgtu" target="_blank">http://www.pucpr.br/ppgtu</a>. twitter/rodrigo_firmino</font></p>      ]]></body>

</article>
