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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana"><B>ARTIGO</B></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana"><B>A epistemologia gen&eacute;tica de Jean Piaget</B></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Luciana Maria Caetano</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">Jean Piaget nasceu na Su&iacute;&ccedil;a, na    cidade de Neuch&acirc;tel, em 1896. Considerado uma crian&ccedil;a precoce,    desde cedo demonstrou interesse pela observa&ccedil;&atilde;o da natureza e    pela organiza&ccedil;&atilde;o sistematizada dos dados coletados, tanto que    aos onze anos publicou um pequeno artigo cient&iacute;fico a respeito de suas    observa&ccedil;&otilde;es de um p&aacute;ssaro albino. Durante sua adolesc&ecirc;ncia,    trabalhou como assistente do diretor do Museu de Hist&oacute;ria Natural de    Neuch&acirc;tel, onde se interessou e estudou <U><a href="http://www.comciencia.br/comciencia/www.sbma.uerj.br/" target="_blank">malacologia</a></U>,    chegando a publicar v&aacute;rios artigos sobre o tema, os quais tiveram not&oacute;rio    reconhecimento pela comunidade cient&iacute;fica. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ainda na adolesc&ecirc;ncia, influenciado pelo padrinho, que era professor de filosofia, iniciou os estudos, especialmente interessado pelas quest&otilde;es epistemol&oacute;gicas, que o acompanhariam por todo o seu trabalho como pesquisador. Entretanto, precisou escolher entre a biologia e a filosofia aos 18 anos, para definir a sua profiss&atilde;o. Optou pela forma&ccedil;&atilde;o universit&aacute;ria em biologia e aos 20 anos doutorou&#45;se em malacologia. Piaget, desde a adolesc&ecirc;ncia, desejou criar uma teoria biol&oacute;gica do conhecimento, e, perseguindo esse ideal, acabou buscando na psicologia da intelig&ecirc;ncia o meio termo para os seus interesses biol&oacute;gicos e epistemol&oacute;gicos. A psicologia &eacute; a ci&ecirc;ncia que investiga o comportamento humano e, portanto, investiga como o ser humano aprende e se apropria do conhecimento. Especialmente, admite o m&eacute;todo experimental de pesquisa, fato que chamou a aten&ccedil;&atilde;o de Piaget.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Piaget recebeu um convite para trabalhar no laborat&oacute;rio de Binet (j&aacute; falecido), tendo como chefe Simon, que tamb&eacute;m n&atilde;o permanecia no laborat&oacute;rio. Atrav&eacute;s do trabalho de padroniza&ccedil;&atilde;o dos resultados de testes de intelig&ecirc;ncia, Piaget encontrou um espa&ccedil;o de trabalho privilegiado, no qual p&ocirc;de analisar n&atilde;o os resultados dos testes, mas a regularidade das respostas das crian&ccedil;as e a an&aacute;lise verbal do racioc&iacute;nio delas. O encontro com a crian&ccedil;a levou Piaget a retornar &agrave; Su&iacute;&ccedil;a (1921) trazendo consigo esses dados interessantes que d&atilde;o in&iacute;cio &agrave; constru&ccedil;&atilde;o da Teoria da Epistemologia Gen&eacute;tica. Piaget elaborou um m&eacute;todo pr&oacute;prio de pesquisa, o m&eacute;todo cl&iacute;nico, e iniciou sistematicamente as investiga&ccedil;&otilde;es sobre o desenvolvimento infantil e a constru&ccedil;&atilde;o da intelig&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O autor produziu uma vasta obra, com mais de 50 livros e 300 artigos. O seu trabalho teve r&aacute;pida repercuss&atilde;o mundial, o que aconteceu quando Piaget ainda era jovem e publicava os seus primeiros livros, que representavam, na verdade, um esbo&ccedil;o da Teoria Epistemol&oacute;gica Gen&eacute;tica. Ele recebeu mais de 30 doutoramentos<I> honoris causa</I>, foi diretor do Instituto Jean Jacques Rousseau, na d&eacute;cada de 1920, sub&#45;diretor geral da Unesco na d&eacute;cada de 1940, encarregado do Departamento de Educa&ccedil;&atilde;o da Su&iacute;&ccedil;a, professor universit&aacute;rio. Depois de mais de 60 anos dedicados &agrave; pesquisa, Piaget faleceu em Genebra em 1980. Os seus estudos foram replicados em um n&uacute;mero significativo de pa&iacute;ses e a sua teoria ainda &eacute; utilizada como fundamenta&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica de pesquisas contempor&acirc;neas em psicologia em v&aacute;rios lugares do mundo, inclusive no Brasil. Mas quais as principais ideias da Teoria Epistemol&oacute;gica Gen&eacute;tica de Jean Piaget?</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><B>Epistemologia Gen&eacute;tica</B></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Inicialmente, &eacute; importante explicar o nome da teoria de Jean Piaget. As quest&otilde;es epistemol&oacute;gicas interessaram a Piaget desde sua juventude. A epistemologia &eacute; utilizada comumente para designar o que chamamos a teoria do conhecimento. O objetivo da pesquisa de Piaget foi definir, a partir da perspectiva da biologia, como o sujeito passaria de um conhecimento menor anterior para um n&iacute;vel de maior conhecimento. O problema que buscou solucionar durante toda a sua vida de pesquisador e que fez dele um te&oacute;rico e autor conhecido e respeitado mundialmente, foi o da constru&ccedil;&atilde;o do conhecimento pelo sujeito, o que o fez, partindo da biologia, estudar filosofia, epistemologia, l&oacute;gica, matem&aacute;tica, f&iacute;sica, psicologia, entre outras ci&ecirc;ncias.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A forma&ccedil;&atilde;o inicial de Piaget na biologia influenciou todo o desenvolvimento da sua teoria, primeiramente, na perspectiva dos instrumentos cient&iacute;ficos utilizados por ele como comprovadores emp&iacute;ricos, sempre baseados em m&eacute;todos cient&iacute;ficos rigorosos, isto &eacute;, poss&iacute;veis de serem replicados. A outra influ&ecirc;ncia da biologia na teoria piagetiana diz respeito &agrave; concep&ccedil;&atilde;o de intelig&ecirc;ncia enquanto algo ligado &agrave; a&ccedil;&atilde;o e &agrave; adapta&ccedil;&atilde;o ao meio. A principal obra do autor que exp&otilde;e esse assunto &eacute; o livro intitulado <I>Biologia e conhecimento</I>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Tal modelo te&oacute;rico explica o desenvolvimento da intelig&ecirc;ncia, tendo como conte&uacute;do b&aacute;sico a a&ccedil;&atilde;o do sujeito que interage com os objetos, construindo, a partir dessas a&ccedil;&otilde;es, formas e/ou estruturas de intelig&ecirc;ncia que lhe permitem, cada vez mais, adaptar&#45;se ao mundo em que vive. Os trabalhos do autor, na psicologia, conduziram&#45;no &agrave; ideia da utiliza&ccedil;&atilde;o do modelo l&oacute;gico&#45;matem&aacute;tico como meio de an&aacute;lise e instrumento de descri&ccedil;&atilde;o do funcionamento e do desenvolvimento da intelig&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Essa &eacute; uma das quest&otilde;es principais    que fazem da sua teoria uma das refer&ecirc;ncias para a compreens&atilde;o    do homem moderno. N&atilde;o houve nenhum cientista depois de Piaget que elaborasse    como ele um modelo formalizado, utilizando a linguagem l&oacute;gico&#45;matem&aacute;tica    (<U><a href="http://www.ufpe.br/filosofia/arquivos/Os%20oito%20agrupamentos.pdf" target="_blank">o    agrupamento e o grupo INRC</a></U>) para explicar o desenvolvimento e a organiza&ccedil;&atilde;o    das estruturas cognitivas do ser humano. Trata&#45;se de um modelo universal,    refut&aacute;vel, hipot&eacute;tico&#45;dedutivo, para explicar o funcionamento    das estruturas mentais org&acirc;nicas (n&atilde;o pass&iacute;veis de serem    observadas), respons&aacute;veis pela intelig&ecirc;ncia e pela constru&ccedil;&atilde;o    do conhecimento pelo ser humano.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Assim, compreende&#45;se o motivo de Piaget ter pesquisado o desenvolvimento humano a partir do estudo e observa&ccedil;&atilde;o de beb&ecirc;s, crian&ccedil;as e adolescentes; por conceber esse estudo como o mais apropriado para as suas investiga&ccedil;&otilde;es a respeito da g&ecirc;nese do conhecimento e para demonstrar empiricamente e explicar o seu modelo te&oacute;rico de constru&ccedil;&atilde;o da intelig&ecirc;ncia. Essa &eacute;, portanto, a explica&ccedil;&atilde;o do t&iacute;tulo da sua teoria: Epistemologia Gen&eacute;tica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Para o autor, o conhecimento n&atilde;o pode ser simplesmente imposto pelo meio ao sujeito, como um reflexo das propriedades do ambiente (empirismo), tampouco estaria inteiramente pr&eacute;&#45;formado no sujeito, apenas aguardando a matura&ccedil;&atilde;o (apriorismo). A outra novidade da sua teoria &eacute; a abordagem empirista que explica que a constru&ccedil;&atilde;o do conhecimento pelo ser humano &eacute; fruto das intera&ccedil;&otilde;es do sujeito com o seu meio. Nas palavras da professora do Instituto de Psicologia da Universidade de S&atilde;o Paulo, Z&eacute;lia Ramozzi Chiarotino, respons&aacute;vel por introduzir, do ponto de vista da Teoria do Conhecimento e da Epistemologia, as ideias de Jean Piaget no Brasil: "Resumindo: de um lado, temos o organismo com suas possibilidades; de outro, o meio que o solicita".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Segundo a Teoria Epistemol&oacute;gica Gen&eacute;tica,    conforme surgem solicita&ccedil;&otilde;es do meio, as estruturas da intelig&ecirc;ncia    v&atilde;o se construindo e, a partir de novas solicita&ccedil;&otilde;es, o    sujeito tem a possibilidade de reorganiz&aacute;&#45;las, vivenciando constantes    mecanismos de assimila&ccedil;&atilde;o de novos objetos a esquemas j&aacute;    existentes e mecanismos de amplia&ccedil;&atilde;o do conhecimento denominados    acomoda&ccedil;&atilde;o. O resultado das sucessivas assimila&ccedil;&otilde;es    e acomoda&ccedil;&otilde;es &eacute; chamado por Piaget de <U><a href="http://www6.ufrgs.br/psicoeduc/piaget/problemas-de-equilibracao/" target="_blank">equilibra&ccedil;&atilde;o</a></U>    (conceito central da sua teoria construtivista do conhecimento). Assim, quando    as estruturas que o sujeito j&aacute; construiu n&atilde;o lhe permitem assimilar    um novo objeto de conhecimento, isto &eacute;, determinado objeto &eacute; resistente,    provoca uma perturba&ccedil;&atilde;o no sujeito, o desequil&iacute;brio &eacute;    desencadeado. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Para o autor, o rec&eacute;m&#45;nascido traz consigo condi&ccedil;&otilde;es de vir a se tornar inteligente e, conforme age sobre o mundo, constr&oacute;i estruturas que lhe permite cada vez mais se adaptar &agrave;s novas situa&ccedil;&otilde;es, de maneira a construir est&aacute;gios sucessivos de desenvolvimento. Uma das principais tarefas da Teoria da Epistemologia Gen&eacute;tica foi exatamente estabelecer o caminho da intelig&ecirc;ncia, desde o nascimento at&eacute; a possibilidade do racioc&iacute;nio abstrato do adulto.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Os est&aacute;gios do desenvolvimento da intelig&ecirc;ncia apresentados pela teoria psicogen&eacute;tica s&atilde;o assim denominados: o sens&oacute;rio&#45;motor (da intelig&ecirc;ncia pr&aacute;tica), o operat&oacute;rio concreto (que se constitui inicialmente de uma intelig&ecirc;ncia intuitiva e depois operat&oacute;ria, baseada na reciprocidade do pensamento) e o est&aacute;gio formal (quando se pode agir e pensar sob hip&oacute;teses e abstra&ccedil;&otilde;es). Esses est&aacute;gios talvez sejam o aspecto mais conhecido da sua teoria. Infelizmente, tamb&eacute;m s&atilde;o fonte de algumas cr&iacute;ticas mal fundamentadas ao seu trabalho, como, por exemplo, o fato de que Piaget teria investigado apenas os seus filhos, no caso do est&aacute;gio sens&oacute;rio&#45;motor, ou que "as crian&ccedil;as de Piaget" eram "meio atrasadas", uma vez que algumas pesquisas encontram respostas relativas a determinado est&aacute;gio em crian&ccedil;as com menos idade do que aquelas apontadas por sua teoria.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">As provas piagetianas de diagn&oacute;stico do n&iacute;vel operat&oacute;rio &#150; instrumentos de pesquisa elaborados pelo autor como m&eacute;todo para investigar o n&iacute;vel de desenvolvimento cognitivo da crian&ccedil;a &#150; foram replicadas em muitos pa&iacute;ses e em diferentes estudos, e os resultados dessas investiga&ccedil;&otilde;es s&atilde;o exatamente similares &agrave;queles apontados por Piaget, especialmente no que diz respeito ao car&aacute;ter sucessivo (e n&atilde;o cronol&oacute;gico) e integrativo dos est&aacute;gios, porque cada um deles &eacute; necess&aacute;rio para a forma&ccedil;&atilde;o do seguinte.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Infelizmente, os estudos de Piaget s&atilde;o t&atilde;o complexos e influenciaram tanto os conhecimentos na &aacute;rea da psicologia, especialmente a psicologia de desenvolvimento humano e a psicologia da crian&ccedil;a, que qualquer tentativa de resumir ou explanar a sua teoria acaba muito aqu&eacute;m da genialidade da proposta do autor. Talvez seja interessante e de grande import&acirc;ncia, ent&atilde;o, citar o t&iacute;tulo de tr&ecirc;s obras do autor: <I>Seis estudos de psicologia</I> (1964), <I>Psicologia da crian&ccedil;a</I> (1970) e <I>Epistemologia gen&eacute;tica</I> (1970). Tais livros foram uma resposta de Piaget a solicita&ccedil;&otilde;es que lhe foram feitas para que escrevesse um resumo de sua teoria, a fim de que ela pudesse se tornar mais acess&iacute;vel a um n&uacute;mero maior de pessoas. Essa &eacute; mais uma prova da notoriedade de sua teoria e do reconhecimento de suas ideias pela comunidade cient&iacute;fica e uma grande dica para o leitor que quiser aprender um pouco mais sobre a Teoria Epistemol&oacute;gica Gen&eacute;tica.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><B>Piaget e a educa&ccedil;&atilde;o</B></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O objetivo, aqui, &eacute; tamb&eacute;m apresentar ao leitor um Piaget bem mais desconhecido, mas cujas contribui&ccedil;&otilde;es n&atilde;o podem ser de maneira alguma negligenciadas, num texto que se prop&otilde;e a apontar a sua teoria como de import&acirc;ncia significativa para a compreens&atilde;o do mundo moderno. Que essas &uacute;ltimas linhas descrevam um pouco do Piaget educador.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Desde a adolesc&ecirc;ncia, Piaget guardava uma preocupa&ccedil;&atilde;o com os valores &eacute;ticos e acreditava que somente pela educa&ccedil;&atilde;o se poderia regenerar a sociedade. Esse seu empenho humanista pode ser observado nas suas atividades de ensino e em sua atua&ccedil;&atilde;o em &oacute;rg&atilde;os como a Unesco. Para compreender a evolu&ccedil;&atilde;o do pensamento da crian&ccedil;a com rela&ccedil;&atilde;o a valores universais, como respeito e justi&ccedil;a, e suas rela&ccedil;&otilde;es com as regras e a autoridade, Piaget tamb&eacute;m elaborou estudos de not&aacute;vel import&acirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Embora Piaget tenha uma produ&ccedil;&atilde;o menos expressiva nessa &aacute;rea, uma vez que a vasta obra do autor tenha se direcionado para os estudos epistemol&oacute;gicos e cognitivos, tamb&eacute;m no campo da moralidade, Piaget foi "um poderoso pensador", pois embora tenha produzido apenas uma obra, <I>O ju&iacute;zo moral na crian&ccedil;a</I> (1932), tal livro prestou&#45;se como fundamenta&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica para a maior parte das pesquisas posteriores, como, por exemplo, as pesquisas de Lawrence Kohlberg nos Estados Unidos. Segundo Yves de La Taille, professor da Universidade de S&atilde;o Paulo e prefaciador da edi&ccedil;&atilde;o brasileira do livro, essa obra isolada do autor a respeito da moralidade traz tr&ecirc;s caracter&iacute;sticas ilustrativas do "poder" dos conceitos de Piaget: "a originalidade das pesquisas, a abrang&ecirc;ncia das an&aacute;lises e a articula&ccedil;&atilde;o da moralidade com os demais aspectos do universo psicol&oacute;gico".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Para Piaget, a crian&ccedil;a, ao se relacionar com outras crian&ccedil;as e com os adultos, constr&oacute;i o conhecimento das regras que organizam a conviv&ecirc;ncia com o outro e consigo mesma. O autor explica que a educa&ccedil;&atilde;o moral &eacute; fruto das rela&ccedil;&otilde;es que os adultos estabelecem com as crian&ccedil;as, uma vez que os pequenos nascem sem qualquer conhecimento sobre o certo e o errado. Todo ser humano, at&eacute; os seus 2 ou 3 anos, desconhece as regras morais e, por isso, o autor chamou essa fase do desenvolvimento infantil, em rela&ccedil;&atilde;o ao desenvolvimento moral, de <I>anomia.</I> Entretanto, ele explica que o processo da g&ecirc;nese da moral se inicia com o sentimento de obriga&ccedil;&atilde;o que a crian&ccedil;a desenvolve em rela&ccedil;&atilde;o aos mais velhos, especialmente aos seus pais e professores, pois as crian&ccedil;as pequenas nutrem pelos mais velhos, pais e professores, uma mistura de sentimentos: afeto e temor, a que o autor chama de respeito e que para ele &eacute; o sentimento de ingresso da crian&ccedil;a no mundo da moralidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Portanto, a partir do sentimento de respeito (amor e temor) que a crian&ccedil;a pequena sente pelo adulto, ela inicia um processo de imita&ccedil;&atilde;o das regras recebidas dos outros e utiliza&ccedil;&atilde;o individual desses exemplos recebidos, sendo que a fase da <I>anomia</I> &eacute; substitu&iacute;da pela moral, que o autor denominou <I>heter&ocirc;noma</I>, porque dependente das regras e dos modelos dos mais velhos que convivem com a crian&ccedil;a. Esse momento se constitui na g&ecirc;nese da moral na crian&ccedil;a e pode ser tamb&eacute;m denominado de moral da obedi&ecirc;ncia. O respeito que a crian&ccedil;a sente em rela&ccedil;&atilde;o ao adulto &eacute; exatamente o sentimento de obriga&ccedil;&atilde;o que a leva a obedecer &agrave;s regras propostas pelos mais velhos, devido &agrave; rela&ccedil;&atilde;o assim&eacute;trica que estabelece com eles, por isso, esse respeito &eacute; chamado unilateral.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">&Eacute; preciso lembrar que o conte&uacute;do b&aacute;sico da teoria psicogen&eacute;tica de Piaget &eacute; a a&ccedil;&atilde;o do sujeito que interage com os objetos, construindo, a partir dessas a&ccedil;&otilde;es, formas e/ou estruturas de intelig&ecirc;ncia que lhe permitem, cada vez mais, adaptar&#45;se ao mundo em que vive; o objeto do conhecimento, no que diz respeito &agrave; educa&ccedil;&atilde;o e ao desenvolvimento moral, s&atilde;o as regras ou limites. Mas, por se tratar de um conhecimento social, ou seja, aprendido a partir dos exemplos e da orienta&ccedil;&atilde;o recebida dos mais velhos, pressup&otilde;e, ent&atilde;o, o trabalho educativo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A quest&atilde;o &eacute; que esse trabalho nem sempre &eacute; bem realizado pelos adultos. Por um lado, porque a maioria dos adultos nada conhece a respeito do desenvolvimento moral infantil e, por outro lado, porque a maioria dos adultos tamb&eacute;m &eacute; considerada heter&ocirc;noma, ou seja, embora adultos, ainda dependentes de estere&oacute;tipos ou outros tipos de motiva&ccedil;&otilde;es externas para agir de forma adequada. O sujeito obediente n&atilde;o &eacute; livre para pensar por si mesmo. N&atilde;o &eacute; aut&ocirc;nomo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Dessa forma, a grande novidade que a teoria piagetiana apresenta para os estudos de educa&ccedil;&atilde;o moral diz respeito &agrave; moral <I>aut&ocirc;noma</I>. Para o autor, os adultos, reconhecendo o seu papel na forma&ccedil;&atilde;o de personalidades aut&ocirc;nomas, deveriam preocupar&#45;se em estabelecer com as crian&ccedil;as rela&ccedil;&otilde;es de respeito m&uacute;tuo, ou seja, um tipo de rela&ccedil;&atilde;o social que denominou coopera&ccedil;&atilde;o, que, em substitui&ccedil;&atilde;o &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es de coa&ccedil;&atilde;o, poderia conduzir &agrave; supera&ccedil;&atilde;o da heteronomia (moral da obedi&ecirc;ncia).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O Piaget desconhecido pela maioria das pessoas &eacute;, portanto, esse homem que se interessou pela educa&ccedil;&atilde;o a partir de sua preocupa&ccedil;&atilde;o com os valores &eacute;ticos, o que o conduziu a pensar em uma educa&ccedil;&atilde;o da pessoa na sua totalidade, considerando a educa&ccedil;&atilde;o da intelig&ecirc;ncia e da moral como objetivos indissol&uacute;veis e que teriam por fun&ccedil;&atilde;o a forma&ccedil;&atilde;o para a autonomia e para a cidadania. O autor pensava que atrav&eacute;s das rela&ccedil;&otilde;es de coopera&ccedil;&atilde;o, poder&#45;se&#45;ia educar os povos para viverem em harmonia, compreendendo&#45;se mutuamente e resolvendo seus conflitos atrav&eacute;s da nega&ccedil;&atilde;o do absolutismo. Em suas palavras:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A ideia que defendemos &eacute; bem mais concreta: trata&#45;se apenas de criar em cada pessoa um m&eacute;todo de compreens&atilde;o e de reciprocidade. Que cada um, sem abandonar seu ponto de vista, e sem procurar suprimir suas cren&ccedil;as e seus sentimentos, que fazem dele um homem de carne e osso, vinculado a uma por&ccedil;&atilde;o bem delimitada e bem viva do universo, aprenda a se situar no conjunto dos outros homens. (Piaget, 1934, em "&Eacute; poss&iacute;vel uma educa&ccedil;&atilde;o para a paz?")<sup>1</sup></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Essas s&atilde;o as palavras do pr&oacute;prio    autor, escolhidas para finalizar este texto. Porque a ideia &eacute; que, se    a expectativa de que este texto cumpra o seu papel de apresentar a import&acirc;ncia    da Teoria Epistemol&oacute;gica Gen&eacute;tica para a compreens&atilde;o do    homem moderno n&atilde;o for atingida, ao menos, que as palavras de Piaget provoquem    a perplexidade. Que o convite do autor para a defesa de uma educa&ccedil;&atilde;o    que priorize compreens&atilde;o e reciprocidade, fatores alcan&ccedil;&aacute;veis    levando&#45;se em considera&ccedil;&atilde;o a condi&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria    mas n&atilde;o suficiente do racioc&iacute;nio desperto, portanto, do desenvolvimento    da intelig&ecirc;ncia, fa&ccedil;a o leitor querer conhecer mais sobre a Teoria    da Epistemologia Gen&eacute;tica de Jean Piaget.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">1 &#45; Parrat, S. e Tryphon, A. (1998). <I>Piaget    sobre a pedagogia</I>. S&atilde;o Paulo: Casa do Psic&oacute;logo.    </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><i>Luciana Maria Caetano &eacute; doutora em    psicologia escolar e do desenvolvimento humano pela USP, autora de </i>O conceito    de obedi&ecirc;ncia na rela&ccedil;&atilde;o pais e filhos<i> e professora do    curso de pedagogia da Universidade S&atilde;o Francisco.</i> </font></p>      ]]></body>
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