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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana"><B>REPORTAGEM</B></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana"><B>Muito al&eacute;m da tecnologia: os impactos da Revolu&ccedil;&atilde;o Verde</B></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Carolina Octaviano</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">Conceitualmente, a Revolu&ccedil;&atilde;o Verde &eacute; considerada como a difus&atilde;o de tecnologias agr&iacute;colas que permitiram um aumento consider&aacute;vel na produ&ccedil;&atilde;o, sobretudo em pa&iacute;ses menos desenvolvidos, que ocorreu principalmente entre 1960 e 1970, a partir da moderniza&ccedil;&atilde;o das t&eacute;cnicas utilizadas. Embora tenha surgido com a promessa de acabar com a fome mundial, n&atilde;o se pode negar que essa revolu&ccedil;&atilde;o trouxe in&uacute;meros impactos sociais e ambientais negativos, conforme afirma Jos&eacute; Maria Gusman Ferraz, p&oacute;s&#45;doutorando em agroecologia pela Universidade de C&oacute;rdoba, na Espanha, e pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu&aacute;ria (Embrapa). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O caso brasileiro ilustra bem a situa&ccedil;&atilde;o definida pelo pesquisador: se de um lado est&aacute; a melhoria econ&ocirc;mica, do outro persistem os problemas sociais. "Para usarmos exemplos brasileiros, entre 1970 e 1985, o aumento na produ&ccedil;&atilde;o de alimentos b&aacute;sicos para a popula&ccedil;&atilde;o foi de 20%, enquanto que a de produtos de exporta&ccedil;&atilde;o (cacau, soja etc) cresceu da ordem de 119 a 1.112%. O pa&iacute;s ocupa hoje lugar de destaque entre os pa&iacute;ses exportadores de alimentos, contrastando com uma popula&ccedil;&atilde;o de milh&otilde;es de subnutridos", destaca.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Al&eacute;m de n&atilde;o ter resolvido os problemas nutricional e da fome, a Revolu&ccedil;&atilde;o Verde tamb&eacute;m &eacute; reconhecida por aumentar a concentra&ccedil;&atilde;o fundi&aacute;ria e a depend&ecirc;ncia de sementes, alterando a cultura dos pequenos propriet&aacute;rios que encontraram dificuldades para se inserir nos novos moldes. "A concentra&ccedil;&atilde;o da posse da terra e o decorrente &ecirc;xodo rural causaram um incha&ccedil;o das cidades, levando a uma faveliza&ccedil;&atilde;o nunca vista. Houve uma transfer&ecirc;ncia do lucro decorrente da atividade agr&iacute;cola para a agroind&uacute;stria, deixando o produtor rural com uma estreita margem, levando ao seu endividamento", avalia Ferraz.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Pedro Abel Vieira J&uacute;nior, dourando do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e tamb&eacute;m pesquisador da Embrapa, aponta para o contraponto gerado por essa revolu&ccedil;&atilde;o. "De uma forma cr&iacute;tica, a Revolu&ccedil;&atilde;o Verde proporcionou ganhos consider&aacute;veis para a produ&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola. Por outro lado, &eacute; ineg&aacute;vel que esses ganhos foram associados a alguma degrada&ccedil;&atilde;o ambiental e que os lucros extraordin&aacute;rios gerados pelos ganhos de produtividade da terra, da m&atilde;o de obra e do capital n&atilde;o foram apropriados pelos produtores rurais", afirma.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Para Vieira J&uacute;nior, entretanto, atualmente, esses danos ao meio ambiente s&atilde;o quase inexistentes, pois a agricultura evoluiu no sentido da sustentabilidade. Ele cita como exemplo que "em v&aacute;rias regi&otilde;es do planeta, os sistemas agr&iacute;colas s&atilde;o entendidos como produtores de &aacute;gua. Culturas n&atilde;o destinadas ao consumo humano ou animal s&atilde;o irrigadas com efluentes industriais e dom&eacute;sticos. Desse modo, o sistema agr&iacute;cola filtra os efluentes, devolvendo ao meio ambiente a &aacute;gua pura", ilustra.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">J&aacute; Ferraz defende a cria&ccedil;&atilde;o de um novo modelo que contemple a ecologia e o sustent&aacute;vel. "Temos que ter um pensamento sist&ecirc;mico para repensar um novo sistema produtivo, o que &eacute; poss&iacute;vel. As propostas de mudan&ccedil;a elaboradas pela agroecologia apontam um caminho que pode nos levar a uma nova forma de produ&ccedil;&atilde;o sustent&aacute;vel. A valoriza&ccedil;&atilde;o e incentivo para a agricultura familiar, que de fato produz os alimentos que consumimos no dia a dia, dentro dos conceitos agroecol&oacute;gicos, &eacute; uma proposta que pode mudar o rumo de nossa agricultura numa dire&ccedil;&atilde;o realmente sustent&aacute;vel", acredita.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><B>Como a Revolu&ccedil;&atilde;o Verde chegou ao Brasil</B></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Essa revolu&ccedil;&atilde;o foi introduzida no pa&iacute;s na &eacute;poca da ditadura militar, nos anos 60 e 70, com as mesmas caracter&iacute;sticas do restante do mundo, uma vez que o modelo sustenta a premissa de que a agricultura pode ser industrializada. Um dos impactos marcantes dessa moderniza&ccedil;&atilde;o do setor est&aacute; na incid&ecirc;ncia de monoculturas com plantas h&iacute;bridas, al&eacute;m de ser fortemente apoiada em energias n&atilde;o renov&aacute;veis como os agrot&oacute;xicos, os adubos e na intensa mecaniza&ccedil;&atilde;o e na altera&ccedil;&atilde;o gen&eacute;tica dos alimentos, o que &eacute; bastante questionado em debates sobre seguran&ccedil;a alimentar. "Essa necessidade de insumos &eacute; decorrente da n&atilde;o valoriza&ccedil;&atilde;o da biodiversidade funcional nos agroecossistemas, caracterizando&#45;se por ser um pacote tecnol&oacute;gico desenvolvido para a produ&ccedil;&atilde;o em larga escala, em grandes monoculturas", explica Ferraz.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Na &eacute;poca em que foi introduzida, foram criadas pol&iacute;ticas p&uacute;blicas para ado&ccedil;&atilde;o do novo modelo por parte dos agricultores. Entre elas, pode&#45;se citar o cr&eacute;dito subsidiado atrelado &agrave; compra de insumos como agrot&oacute;xicos e adubos. A cria&ccedil;&atilde;o de &oacute;rg&atilde;os de pesquisas nacionais e estaduais para dar suporte ao modelo tamb&eacute;m &eacute; considerada como um incentivo, junto ao treinamento, no exterior, dos professores das faculdades de agronomia e a cria&ccedil;&atilde;o de um servi&ccedil;o de extens&atilde;o rural para levar a tecnologia at&eacute; o agricultor.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Vieira J&uacute;nior afirma que o Brasil e a &Iacute;ndia foram grandes beneficiados economicamente pelo novo sistema e pela moderniza&ccedil;&atilde;o da cultura agr&iacute;cola. Para ele, parte disso se deve ao fato de, no Brasil, ter sido desenvolvida uma tecnologia pr&oacute;pria para a chamada agricultura tropical, o que culminou, atualmente, na lideran&ccedil;a do pa&iacute;s em tecnologia para a produ&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola nos tr&oacute;picos. "A partir da d&eacute;cada de 1990, a dissemina&ccedil;&atilde;o dessas tecnologias em todo o territ&oacute;rio nacional permitiu que o Brasil vivesse um grande desenvolvimento agr&iacute;cola, com aumento das fronteiras de produ&ccedil;&atilde;o e dissemina&ccedil;&atilde;o de culturas em que o pa&iacute;s &eacute; recordista de produtividade, como a soja, o milho e o algod&atilde;o, entre outros. H&aacute; quem denomine esse per&iacute;odo da hist&oacute;ria brasileira de a Era do Agroneg&oacute;cio", sustenta.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana"><B>A discuss&atilde;o sobre os alimentos geneticamente modificados</B></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Sem d&uacute;vida, uma das mais acaloradas discuss&otilde;es sobre as consequ&ecirc;ncias da Revolu&ccedil;&atilde;o Verde reside nos alimentos transg&ecirc;nicos ou geneticamente modificados. Ainda n&atilde;o se chegou a um consenso sobre o assunto, que divide a opini&atilde;o de especialistas e da sociedade civil. H&aacute; quem defenda que os transg&ecirc;nicos possam acabar com a fome no mundo. Contudo, h&aacute; quem afirme que eles podem acarretar in&uacute;meros danos &agrave; sa&uacute;de humana e animal e tamb&eacute;m ao meio ambiente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em <U><a href="http://www.comciencia.br/reportagens/genetico/gen11.shtml" target="_blank">artigo</a></U>    publicado na <I>ComCi&ecirc;ncia</I>, Lav&iacute;na Pessanha aponta que Estados    Unidos e Uni&atilde;o Europeia representam vis&otilde;es distintas sobre o tema    e que se contrap&otilde;em: os primeiros s&atilde;o a favor da libera&ccedil;&atilde;o,    alegando n&atilde;o haver nenhuma comprova&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica    dos malef&iacute;cios dos alimentos geneticamente modificados; j&aacute; os    europeus defendem que &eacute; preciso pesquisar melhor antes de disponibilizar    os transg&ecirc;nicos para consumo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ferraz alerta para um dos problemas ambientais e de sa&uacute;de que podem resultar da implementa&ccedil;&atilde;o das sementes transg&ecirc;nicas, seguida da utiliza&ccedil;&atilde;o de agrot&oacute;xicos. "O uso de um produto seguidamente leva &agrave; sele&ccedil;&atilde;o das plantas resistentes, que passam a competir com a cultura. Num primeiro momento, aumenta&#45;se o uso do herbicida, aumentando o impacto ambiental pelo aumento dos res&iacute;duos. Como isso n&atilde;o tem resolvido o problema, agora aparecem plantas transg&ecirc;nicas chamadas de 'piramidadas', que s&atilde;o resistentes a mais de um herbicida, ou plantas transg&ecirc;nicas que usam herbicidas com maior toxicidade, e em alguns casos sob suspei&ccedil;&atilde;o de causarem graves danos &agrave; sa&uacute;de e ao meio ambiente", explica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">De acordo com Antonio M&aacute;rcio Buainain, professor do Instituto de Economia da Unicamp, existe uma mistifica&ccedil;&atilde;o sobre o uso e consumo de alimentos geneticamente modificados. "O &uacute;ltimo relat&oacute;rio da FAO (Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para Agricultura e Alimenta&ccedil;&atilde;o) e da OCDE (<SPAN LANG="PT">Organiza&ccedil;&atilde;o de Coopera&ccedil;&atilde;o e de Desenvolvimento Econ&ocirc;mico) sobre perspectivas para a agricultura at&eacute; 2020 indica a necessidade de expans&atilde;o da produ&ccedil;&atilde;o em torno de 30% para dar conta do aumento populacional e de renda. E, para isso, n&atilde;o podemos nos dar ao luxo de negar alternativas com base apenas em hip&oacute;teses, &agrave;s vezes, mal fundamentadas e em fantasmas ideol&oacute;gicos sem nenhuma base objetiva", afirma. Para ele, a proibi&ccedil;&atilde;o dos transg&ecirc;nicos seria o equivalente a negar os medicamentos. "S&oacute; podemos negar alternativas que n&atilde;o atendam &agrave;s restri&ccedil;&otilde;es institucionais, que s&atilde;o cada vez mais duras e envolvem o meio ambiente, as rela&ccedil;&otilde;es trabalhistas, entre outros. Portanto, n&atilde;o se trata de negar os transg&ecirc;nicos em geral. Isso equivaleria a negar os rem&eacute;dios. O que temos que recusar &eacute; produto transg&ecirc;nico que fuja dessa conformidade, da mesma maneira que negamos rem&eacute;dios que n&atilde;o atendam ao conjunto de condicionalidades impostas pelos &oacute;rg&atilde;os reguladores", defende.</span></font></p><SPAN LANG="PT">     <p><font size="2" face="Verdana">Ferraz, por sua vez, lembra que o problema da alimenta&ccedil;&atilde;o mundial n&atilde;o est&aacute; na quantidade de alimento dispon&iacute;vel, mas sim no poder aquisitivo das popula&ccedil;&otilde;es, caracterizando&#45;se num problema socioecon&ocirc;mico resultante da m&aacute; distribui&ccedil;&atilde;o de renda. "A ONU e v&aacute;rias institui&ccedil;&otilde;es n&atilde;o governamentais t&ecirc;m disponibilizado informa&ccedil;&otilde;es de que os alimentos dispon&iacute;veis dariam de sobra para alimentar a popula&ccedil;&atilde;o humana. Cada pessoa no mundo poderia comer aproximadamente todos os dias: 1,7 kg de cereais, feij&otilde;es e nozes; 200 g de carne, leite e ovos; e 0,5 kg de frutas e vegetais. Isso &eacute; mais que suficiente para uma boa nutri&ccedil;&atilde;o", observa Ferraz. Para ele, o discurso de que os alimentos geneticamente modificados podem acabar com a fome no planeta &eacute; a mesma fal&aacute;cia utilizada por aqueles que defendiam a implementa&ccedil;&atilde;o da Revolu&ccedil;&atilde;o Verde, que, al&eacute;m de n&atilde;o acabar com a fome, ainda agravou os problemas sociais e ambientais. "Como esse modelo est&aacute; se esgotando, o novo rearranjo para mant&ecirc;&#45;lo por mais tempo &eacute; a introdu&ccedil;&atilde;o de plantas transg&ecirc;nicas com o uso casado do agrot&oacute;xico", conclui. Resta saber se os &oacute;rg&atilde;os reguladores ir&atilde;o de fato avaliar as rela&ccedil;&otilde;es trabalhistas, os impactos ao meio ambiente e &agrave; sa&uacute;de humana e animal dessa faceta mais contempor&acirc;nea da revolu&ccedil;&atilde;o. E se essa nova fase vai proporcionar n&atilde;o apenas um aumento da produ&ccedil;&atilde;o, mas do acesso aos alimentos.</font></p> </span>     ]]></body>

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