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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="verdana" size="2"><b>ENTREVISTA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="4"><b>Gilles Lipovetsky</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="verdana" size="2">Flávia Natércia; Luciano Valente</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Para Lipovtesky, vivemos um período em que    as grandes ideologias que marcaram a modernidade, perderam força, forma e estabilidade.    Nas sociedades contemporâneas, o interesse por temas públicos tornou-se à-la-carte:    os cidadãos podem, eventualmente, mobilizar-se por uma questão ou outra, e logo    em seguida deixar de manifestar interesse.</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Professor de filosofia da Universidade de Grenoble,    pesquisador do Conselho de Análise da Sociedade da mesma instituição, Gilles    Lipovetsky é um dos mais conhecidos pensadores de questões acerca da atualidade.    Publicou dez livros sobre uma ampla gama de assuntos, como artes, educação,    psicologia, política, luxo, moda, cultura da mídia, consumo e ética. O fio que    reúne sua obra é a condição do homem moderno, que vive, segundo ele, na era    do hiperindividualismo, hiperconsumismo, perdido em meio ao excesso de informações    e sem valores para se apegar. Procurando entender esse homem da sociedade atual,    Gilles Lipovetsky, com sua filosofia, dá novos traços na definição do indivíduo    hipermoderno, como ele definiu na entrevista que concedeu à <i>ComCiência.</i></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2"><b><i>ComCiência </i>- Em 1983, o senhor publicou    o livro <i>A era do vazio,</i> no qual diz que nossa sociedade sofre de uma    falta de interesse pela esfera pública. O senhor acredita que essa tendência    tenha se aprofundado desde então? </b>    <br>   <b>Lipovetsky - </b>O que eu quis dizer em <i>A era do vazio </i>era que vivíamos    um período em que as grandes ideologias que marcaram a modernidade, como o nacionalismo,    o socialismo, a revolução e o progresso, tinham perdido sua força, forma e estabilidade    no mundo contemporâneo. Acho que isso continua verdadeiro. Atualmente, a descrição    deva ser que, nas sociedades contemporâneas, o interesse por temas públicos    é variável, tornou-se <i>à-la-carte.</i> Isto é, os cidadãos podem, eventualmente,    mobilizar-se por uma questão ou outra, e logo em seguida deixar de manifestar    interesse. Penso que não seja um desinteresse absoluto, um vazio absoluto e    niilista. É um estágio em que os cidadãos mobilizam-se em função de seus interesses,    e não de maneira sistemática ou em função de uma problemática do dever da cidadania.    Hoje, por exemplo, nota-se um grande interesse pelas grandes questões climáticas,    como o aquecimento global, mas essas grandes questões afetam diretamente a vida    das pessoas. As pessoas voltam-se menos para causas anônimas ou abstratas, pois    se mobilizam mais por coisas que podem concernir diretamente à sua existência,    como a ecologia e o clima. Elas também se interessam por suas cidades e os lugares    onde moram. Penso, por exemplo, no interesse de muitas pessoas pelas associações,    que se mobilizam pela defesa de algum aspecto da vida social - os pobres, os    portadores de deficiências, as crianças doentes. Entendo, então, que não haja    um desinteresse absoluto, e sim um interesse que se manifesta menos em função    de perspectivas universalistas. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b><i>ComCiência </i>- É por isso que o senhor    fala do vazio, e não do nada em seu livro? </b>    <br>   <b>Lipovetsky - </b>O vazio era uma metáfora. Não é um vazio absoluto. Hoje,    o vazio, se eu tivesse de defini-lo, é antes uma desorientação, um vazio de    referências estruturantes que não vem do fato de não existirem, mas de simplesmente    terem se tornado flutuantes e muito numerosas. Podemos tomar diversos exemplos.    Tomemos um ao acaso: a arte. Por muito tempo houve uma definição clara da arte.    Hoje a arte, a não-arte, o marketing, tudo se mistura. O que é arte hoje? Bom,    tudo isso se tornou muito vago. Essa perda de referência também se encontra    no casamento, por exemplo, hoje há homossexuais que têm o direito de se casar    ou reivindicam este direito. Então, o que significa o casamento a partir do    momento em que os gays podem se casar e querem adotar crianças? Há também uma    mistura na oposição direita x esquerda no plano político. Hoje as pessoas de    esquerda aceitam o mercado e o capitalismo. Então, para muita gente, a oposição    direita x esquerda já não é mais clara. Estamos, portanto, numa situação de    confusão, de complexidade... Não estamos no vazio puro, mas sim perdidos entre    tantas referências... Um outro exemplo: a moda. Por muito tempo, no domínio    da moda, as coisas eram claras: havia a moda e os <i>démodés.</i> Era uma oposição    muito clara e que mudava a cada seis meses. Hoje, a oposição da moda e dos <i>démodés    </i>se tornou vaga, confusa, portanto eu diria que, mais do que uma "era do    vazio", vivemos a "era do vago", a era da confusão, a era da desorientação.    </font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b><i>ComCiência </i>- Podemos pensar, então,    que as causas comuns, questões como a ecologia ou o aquecimento global, podem    se tornar efetivamente uma outra tendência na sociedade de hiperconsumismo?    </b>    <br>   <b>Lipovetsky - </b>Claro. Há, de um lado, o colapso das grandes ideologias    da história, mas ao mesmo tempo elas se recompõem por certos "grandes discursos".    Primeiramente, os direitos do homem; em segundo, a ideologia médica - há uma    espécie de obsessão pela saúde hoje em dia - e, por fim, a preocupação com o    ambiente e a natureza. É algo extremamente importante. Todo mundo sabe bem que    a lógica de hiperconsumismo não poderá ser seguida indefinidamente e que há    limites ligados à natureza. Tudo isso foi interiorizado, cada vez mais, as preocupações    relativas à natureza vão se tornar essenciais. Agora há toda uma pesquisa motivada    pelo aumento do preço do petróleo: motores limpos, motores elétricos que, ao    mesmo tempo, vêm para responder a esses custos crescentes, e também às preocupações    ligadas ao aquecimento global e emissão de gás carbônico. O ambiente pode ser    uma causa mobilizadora. É um bom sinal, quer dizer que o individualismo não    é completamente cego e deixa a porta aberta para uma tomada de consciência dos    problemas do futuro. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b><i>Com Ciência </i>- O homem da atualidade,    que persegue um ideal elevado de beleza, que desfruta de uma tecnologia cada    vez mais acelerada e que está submetido a um excesso de informação - o qual    suscita um sentimento de desinformação - chegará a uma espécie de limite ou    crise? </b>    <br>   <b>Lipovetsky - </b>A crise já existe. Sobre a beleza, a época em que vivemos    é marcada por uma espécie de exigência cada vez mais forte dirigida aos padrões    corporais, especialmente para as mulheres. Nunca o corpo foi tão solicitado,    sendo objeto de trabalho, ginástica, <i>body-building,</i> regimes etc. E isso    é vivido como uma forte pressão, como as feministas falam: uma "tirania da beleza".    Mas, ao mesmo tempo, nunca houve tantos casos de pessoas obesas. Nos Estados    Unidos quase 40% da população está com sobrepeso. Isso, evidentemente, explica-se    em parte pelo aniquilamento das tradições, mas também por um universo de consumo    no qual há informações complexas, múltiplas e contraditórias. O consumidor fica    perdido. Hoje, muitos não sabem como se alimentar, por exemplo. Aí também há    um estado de confusão que se choca frontalmente com as exigências estéticas.    Então a crise é, a princípio, subjetiva. Há uma crise, porque muitas pessoas    vivem mal, as mulheres ficam mal, por exemplo, por estarem gordas demais, vivem    mal quando fazem regimes nos quais fracassam. A situação, de hiperconsumismo    na qual estamos, acarreta uma situação de crise, tanto numa escala global, com    o problema do ambiente, quanto na escala individual, com a multiplicação das    depressões, das ansiedades, das angústias, das tentativas de suicídio. Há, portanto,    com a sociedade de hiperconsumo, uma fragilização dos indivíduos que faz com    que o bem-estar material cresça, mas ao mesmo tempo a existência se torne mais    difícil, mais geradora de ansiedade. As pessoas têm menos defesas pessoais para    enfrentar as crises. Então, creio que o século XXI vai ver se desenvolver esse    tipo de processo que está ligado à individualização pelo fato de que os planos    conectivos tradicionais, religiosos, são menos fortes que antes, menos estruturantes    que antes, e isso acarreta uma fragilização das pessoas, uma espécie de desequilíbrio    que se traduz por toda essa espiral de problemas subjetivos. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b><i>Com Ciência </i>- Na sua análise, as mulheres    são as principais vítimas dessa ordem, dessa sociedade de hiperconsumo? </b>    <br>   <b>Lipovestky - </b>Sim, primeiramente, porque os estudos mostram que 80% das    compras são feitas pelas mulheres. A consumidora majoritária em nossa sociedade    é a mulher. Em segundo lugar, a relação com a beleza é muito mais importante    para as mulheres. Parece-me que as mulheres são mais vítimas do consumo que    os homens. O indivíduo-consumidor, hoje, assim como no começo do século XX,    continua sendo a mulher, porque é ela que se ocupa da casa, das crianças. São    elas que se ocupam mais delas mesmas, de seus corpos, de sua aparência, portanto,    o consumo é um fenômeno muito mais importante para as mulheres do que para os    homens. Vale ressaltar que o consumo não envolve somente aspectos frívolos.    Hoje há uma sociedade que liga o consumo à causa das questões de saúde. Há uma    inquietação sobre o que se come, o que se bebe e o que se respira. Todos os    elementos que encontramos numa casa são suscetíveis de fazer mal à saúde e,    como as mulheres ocupam-se mais das crianças, há toda uma relação extremamente    preocupante com relação a esse domínio de consumo. Portanto, sim, as mulheres    são as primeiras vítimas. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2"><b><i>ComCiência - </i>Mas é possível dizer que    uma nova revolução individualista está sendo gestada? </b>    <br>   <b>Lipovetsky </b>- Não, a revolução individualista coincide com a modernidade,    em meados do século XVIII. Vivemos uma segunda revolução individualista depois    nos anos 1960, 1970, que chamo de hipermoderna para distingui-la da primeira,    que era moderna. Acredito que haverá um aprofundamento da lógica individualista,    que vai mudar coisas muito contraditórias ao mesmo tempo: todas as demandas    de diversão, de consumo, de jogos, de atividades lúdicas, de viagens, as demandas    de participação, de atividade... O consumo não pode satisfazer completamente    às pessoas. No século XXI, haverá todo um conjunto de comportamentos nos quais    vamos ver pessoas que querem fazer mais por elas mesmas. Fotos, filmes, escrever    blogs na internet, participar de associações... Não creio que haja uma nova    revolução individualista sendo preparada, e sim um aprofundamento dessa segunda    revolução individualista, que irá - como eu dizia antes - produzir muita inquietude.    Cada vez mais as pessoas procuram soluções individuais para seus problemas,    sofrimentos, para suas existências e não vejo nenhum discurso, nenhum programa    capaz de colocar fim a essa dinâmica. Não entendo que a modernização ou que    os problemas do ambiente vão parar a lógica individualista. Todos esses fenômenos    podem, de certa maneira, responsabilizar mais o individualismo, torná-lo mais    ansioso e, sem dúvida, medicalizado. Por muito tempo buscaram-se soluções políticas    para as desgraças da modernidade e, hoje, buscam-se soluções... talvez pela    educação, pelos remédios, terapias, até por novas formas de religião. Mas creio    que todas essas dinâmicas aprofundam a dinâmica individualista, e não preparam    uma nova revolução. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b><i>Com Ciência </i>- Nossa sociedade desprovida    de valores morais coletivos reflete-se na educação das crianças. Qual é o desafio    da educação das crianças neste momento de crise? </b>    <br>   <b>Lipovetsky </b>- Inegavelmente, há uma crise múltipla na educação. No primeiro    nível, há um fracasso geral na aquisição dos saberes mais elementares. Mesmo    nos países ricos da Europa e da América, há entre 10 e 20% da população que    não escrevem e nem lêem corretamente. É um fracasso escandaloso. Há, portanto,    um desafio enorme a se enfrentar. É preciso que a escola saiba encarar tais    desafios, já que não há nada de impossível. Não devemos aceitar que os cidadãos    das sociedades desenvolvidas não dominem saberes tão fundamentais. Há uma crise    da escola, porque a escola se choca agora contra os <i>mass media.</i> Antes,    a escola laica chocava-se com a religião. Hoje, a escola laica choca-se com    a televisão e a internet. E nós vamos ter de transformar muito os métodos da    educação a fim de que a escola integre a capacidade que temos hoje de ter uma    informação ilimitada e fácil. Portanto, um dos novos desafios é recompor o que    devem saber os cidadãos. Isso não está claro, pois os saberes e as informações    são superabundantes, pode-se ter tudo no plano da informação. A escola ainda    não compreendeu isso. Portanto, é preciso repensar o que deve ser uma cultura    geral, para se orientar dentro do saber e para permitir ter algumas grandes    linhas referenciais importantes, para poder depois orientar-se dentro da superabundância    de informação. A escola também deve oferecer aos jovens não somente saberes,    mas também experiências que ampliem seus horizontes. A época em que escola só    transmitia saberes fundamentais corresponde a um período passado. Hoje é mais    complicado, porque tudo está aberto às pessoas. Deveríamos abrir a escola para    o mundo exterior. As pessoas mudam muito em função das experiências, dos encontros    com outras pessoas e com coisas que elas não conhecem. E assim teríamos uma    escola mais dinâmica e estimulante, por exemplo, se as profissões diversas pudessem    chegar à escola para mostrar aos jovens todas as possibilidades que há de viver    neste mundo. Os jovens conhecem, de fato, um mundo bem pequeno, o mundo em torno    deles, de seus pais e de seus amigos. A escola deve fazê-los experimentar outras    coisas. Esse é o grande desafio que transformará os métodos fundamentais da    escola. A escola não sofre de falta de valores, mas de referências para construir    o século XXI. Ela deve ser mais aberta, mais experimental. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><i><b>Com Ciência </b></i><b>- Pode-se dizer    que, com o excesso de informações e imagens no mundo, o que diversos filósofos    assinalaram, a escola deve se tornar um espaço para vivência, experimentação,    e não somente para conhecer as coisas abstratamente?</b>    <br>   <b>Lipovetsky -</b> Exatamente. A experimentação, eu esclareço, evidentemente    não é a única função da escola. Se a escola trouxesse pessoas de fora para falar    de seus trabalhos, levasse os jovens às diferentes empresas para ver como é    a vida exterior, poderia contribuir muito para ampliar horizontes. A escola    deve, a princípio, fornecer ferramentas conceituais e teóricas, mas apenas isso    não basta, pois o mundo hoje é aberto, variado, mutante. Creio que uma escola    mais aberta a experiências mais humanas - e não somente teóricas - seria mais    estimulante. Um lugar de vida, e não simplesmente um lugar onde se aprende a    base para situar-se no futuro. Não quero voltar aos erros da educação permissiva,    em que se permitia que as experiências fizessem qualquer coisa com os jovens,    o que para mim foi um erro. Nós devemos, ao contrário, restabelecer a disciplina    nas escolas. Devemos ensinar os jovens a ver que ser um adulto é respeitar determinado    número de regras, é aprender, é progredir e, para isso, é preciso trabalhar.    A escola deve colocar isso, mas não por meio da violência ou do terror, simplesmente    porque essa é a condição para ser um adulto responsável. É preciso fazê-lo.    É preciso impor aos jovens um certo número de planos para que eles se construam,    porque não se pode educar uma criança somente em função do prazer, isso não    existe e não é possível. Há necessidade de limites, de restrições e de disciplina    para que se forme alguém capaz de dominar seu ambiente. Mas também é preciso    abrir a escola às novas dimensões do mundo e ampliar os horizontes dos jovens.    O caminho não está unicamente nos livros. No caso da escolha das profissões,    por exemplo, para proporcionar paixões aos jovens, deve haver contatos, encontros.    Não há paixão sem encontros. É essa situação que cria a paixão. E, tendo contato,    experiência com encontros, com pessoas que não são seus professores. Isso seria    enormemente rico para o futuro.</font></p>      ]]></body>

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