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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="verdana" size="2"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="4"><b>O mal-estar na contemporaneidade: performance    e tempo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="verdana" size="2">Olgária Matos</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">A modernidade é produzida pelo capitalismo contemporâneo    e dominada pelo princípio do desempenho, sua temporalidade não é a da experiência,    do conhecimento, da felicidade; ela é institucionalmente organizada e este é    "o atributo mais eminente da dominação"<b><a name="top1"></a><a href="#nt1"><sup>1</sup></a>    </b>- o que corresponde a um encolhimento do "espaço de experiências" na vida    social e de liberdade; liberdade de acesso ao passado e ao futuro como construção    de uma subjetividade democrática.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A temporalidade aderida à aceleração do presente    - o presenteísmo - apodera-se de todos os espaços democráticos, a começar pela    educação, que deixa de ser "educação para a liberdade", tornando-se "educação    para a adaptação", substituindo-se a noção de "cultura geral" pela de "cultura    comum", cuja finalidade essencial é "preparar os jovens para entrar no mundo    tal como ele é"<b><a name="top2"></a><a href="#nt2"><sup>2</sup></a>.</b> Essa    adesão ao presente plano, caso permita algum sonho, este é paradoxal, sonha    tão somente com o <i>status quo,</i> deseja que nada de novo venha a abrir o    tempo histórico e o futuro. O tempo na contemporaneidade é fatalizado pela ordem    das urgências que significa uma oscilação na razão instrumental, o culto dos    meios e esquecimento dos fins. Ele é o reino das revoluções tecnológicas do    progresso.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">A modernidade ocidental nasce sob o signo da    mudança incessante. Seu protótipo foi o Iluminismo filosófico e seu desejo de    claridade. Com a metáfora da luz o Iluminismo<b><a name="top3"></a><a href="#nt3"><sup>3</sup></a></b>,    no século XVIII europeu, inaugura a crença no progresso científico, político,    social, moral e econômico contra as trevas do obscurantismo. A noção de progresso    traz consigo a idéia de superioridade do presente em relação ao passado, o que    resulta em associar-se tradição a atraso, modernidade à revolução científica    e tecnológica. O moderno é, também, ontologicamente bom. A utilização anti-humana    da ciência e da técnica, porém, e, sobretudo a partir da primeira Guerra Mundial<b><a name="top4"></a><a href="#nt4"><sup>4</sup></a></b>- questiona o conhecimento e a prática científica já que ela serve    aos senhores do mundo, como observam Adorno e Horkheimer, "na fábrica ou no    campo de batalha"<b><a name="top5"></a><a href="#nt5"><sup>5</sup></a>.</b>    Para os filósofos, só há progresso se às transformações materiais corresponder    bem-estar espiritual do homem.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A modernidade capitalista, do industrialismo    à micro-eletrônica, supõe a plena luz. Desta forma, com a substituição dos lampiões    a gás pela iluminação elétrica em fins do século XIX, "a Via-Láctea foi secularizada"<b><a name="top6"></a><a href="#nt6"><sup>6</sup></a>.</b>    Estas palavras não se referem apenas ao desencantamento psíquico e da cultura,    mas também ao significado socioeconômico desta realização: a atividade sem trégua    do modo de produção capitalista tornou-a desmedida, não tolerando o tempo noturno    - de passividade, repouso e contemplação. A economia, em sua forma atual de    acumulação (cuja infra-estrutura são as nanotecnologias e a microeletrônica),    exige a extensão e a intensificação da atividade até os últimos limites físicos    e biológicos do indivíduo. Razão pela qual, com a eletrificação, o dia iluminado    terá vinte e quatro horas. A organização institucional do tempo é a figura mais    eminente da alienação e da dominação do homem pelo mercado mundializado, pois    cada um perde o sentido e o mestrado do tempo e de sua vida. Consciente da heteronomia    do tempo de trabalho, o Maio de 1968 francês eternizou nos muros da cidade a    inscrição: "não mude de emprego, mude o emprego de sua vida". </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A ética protestante foi abandonada em nome do    espírito capitalista segundo a fórmula de Benjamin Franklin, para quem "tempo    é dinheiro". Se tempo é dinheiro, ele não é busca de sentido e subjetividade,    mas quantidade e heteronomia imposta pela temporalidade do capitalismo tardio    - o que só aprofunda a crise do sentido da atividade: a desagregação do sentido    da vida em comum arrisca subsumir o homem nessa alienação particular que Hannah    Arendt nomeava "acosmismo", o sentir-se estranho no mundo, o sentimento do não    pertencimento, o de ser supérfluo. Deve-se, aqui, diferenciar o capitalismo    de produção do capitalismo de consumo. No primeiro, o "homem só se sentia em    casa quando fora do trabalho e quando no trabalho, estava fora de si"<b><a name="top7"></a><a href="#nt7"><sup>7</sup></a>.</b>    Na sociedade do consumo, quando o homem está fora do trabalho, tampouco se encontra    junto a si. A "escalada da insignificância" resulta em uma lógica do desengajamento    em relação a um mundo compartilhado e com respeito também a si mesmo, com a    dificuldade de criação de laços duradouros, com a obsolescência de valores como    respeito, solidariedade, responsabilidade e fidelidade. O eu procura eliminar    todos os laços e sentimentos, reduzidos, agora, a valor de troca, e o mercado    conduz ao consumo permanente, induzindo à pressa, constrangendo à rapidez e    à aceleração, acentuando a superficialidade nos vínculos (na medida em que os    sentimentos exigem a duração para desenvolverem-se), produzindo a "pobreza interior".</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">No século XIX, o aumento tanto absoluto, quanto    relativo do tempo de trabalho era ainda experimentado como uma espécie de tortura:    "durante um longo período, as pessoas tentaram uma resistência desesperada contra    o trabalho noturno ligado à industrialização. Trabalhar antes do alvorecer ou    depois do pôr-do-sol era considerado imoral"<a name="top8"></a><b><a href="#nt8"><sup>8</sup></a></b>.    À maneira dos mercados financeiros, o homem não deve dormir nunca e, assim,    se institui o <i>stress </i>como modo de vida, seja para aqueles ligados a um    trabalho, seja para a massa crescente de trabalhadores precários e desempregados.    Predomina aqui uma percepção do tempo na qual não mais se tem tempo - sentimento    este paradoxalmente presente, também, entre os desempregados<a name="top9"></a><b><a href="#nt9"><sup>9</sup></a>.</b>    O capitalismo ultra-liberal confisca o "espaço da experiência" e o "horizonte    de expectativas", resumindo-se a um "presente perpétuo"<b><a name="top10"></a><a href="#nt10"><sup>10</sup></a>.</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A aceleração do tempo do mercado mundial entra    em conflito com a temporalidade política das democracias que, desprovidas da    experiência do passado e do futuro, não mais possuem a possibilidade de construção    de uma memória representável, isto é, contestável - o que põe em questão o próprio    exercício democrático: a contemporaneidade transforma a capacidade humana de    duvidar em simples falta de convicção. Mas não engajar-se significa "não se    empenhar na criação de valores espirituais"<b><a name="top11"></a><a href="#nt11"><sup>11</sup></a>.</b>    Sem laços estáveis, produz-se um déficit simbólico no indivíduo e na sociedade,    uma vez que valores dependem de um espaço comum de experiências compartilhadas<b><a name="top12"></a><a href="#nt12"><sup>12</sup></a>.</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Que se pense na flexibilização dos direitos socais    e trabalhistas, bem como nas privatizações forçadas das instituições públicas.    Por princípio, a intervenção estatal e os serviços públicos são regidos por    uma temporalidade diversa daquela dos negócios privados e do mercado. Serviços    de saúde, aposentadorias, rede de transporte, educação, até há algum tempo operavam    na duração em longo prazo, senão permanente, para responder a necessidades sociais    inscritas, por sua natureza, no tempo de longa duração. Se hoje esses serviços    foram tomados pela lógica dominante do lucro em curto prazo, essas reformas    significam que o Estado transfere ao mercado sua capacidade e responsabilidade    de assegurar o futuro de seus cidadãos: "de agora em diante é o mercado, com    suas altas e baixas, que 'garante' o recebimento futuro (a aposentadoria). O    Estado cede assim sua capacidade de garantir o futuro (...) ao mercado"<b><a name="top13"></a><a href="#nt13"><sup>13</sup></a></b>.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Se espacialização do tempo corresponde a sua    mensuração abstrata, à quantidade de trabalho socialmente necessário à produção    para o mercado, ela é patológica, pois determina o decréscimo das faculdades    criadoras e fantasmáticas dos indivíduos, submetidos às leis do mercado, isto    é, à insegurança e ao medo. Quando se trata da situação de trabalho, o trabalhador    está permanentemente sob pressão das empresas nas quais ele se sente "a mais",    "custando muito caro". Na perda da identidade profissional e da auto-estima    encontra-se uma situação traumática, uma vez que não apenas perde-se um posto    de trabalho para, talvez, encontrar um outro como - e antes de tudo - toda uma    vida pode ser desfeita: "advêm sentimentos de desvalorização de si, ruptura    de redes de solidariedade, perda de elementos constitutivos da identidade profissional,    culpabilidade, vergonha, introversão, dilaceramento da comunidade de trabalho    que sustentava a existência (...). A perda de confiança no futuro - (...) que    se anuncia incompreensível - produz uma profunda ansiedade a que respondem a    angústia e o medo do abandono. Angústias arcaicas (...) que podem ter efeitos    devastadores"<a name="top14"></a><b><a href="#nt14"><sup>14</sup></a></b>.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Modernização significa, assim, a passagem de    um mundo com regras conhecidas a um mundo instável e incerto. A temporalidade    contemporânea assim constituída produz - não o tédio, mas monotonia. Se o tédio    ( <i>l'ennui),</i> como magistralmente o tematizou Baudelaire em poesia e prosa,    é a temporalidade do passado que se repete continuamente no presente - como    a moda - isso não significava perda do futuro. Ao contrário, o <i>spleenático    </i>vislumbra os paraísos artificiais. Por isso Baudelaire escreve <i>Spleen    e Ideal, </i>o <i>spleen </i>como ideal para se contrapor à lógica da produção    de mercadorias que é a da multiplicação e da repetição, em princípio ilimitada,    do mesmo objeto. O dândi, por seu hábito de "mudar de rosto" e a cada dia surpreender    com vestimentas excêntricas, é um ser dotado de singularidade em meio à multidão    anônima. O olhar do dândi é capaz de reconhecer no novo o antigo e no antigo    o novo, conferindo ao repetitivo a raridade do objeto único, captando na repetição    o surpreendente e o extraordinário. Como a maquiagem. O pó-de-arroz é como a    mica do mármore que confere à mulher moderna a aura de uma estátua grega.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Já a monotonia é um tempo estagnado, como se    a eternidade do céu se plasmasse na Terra. É uma temporalidade que se exprime    na ansiedade de "matar o tempo". Tempo patológico, seu vazio de significado    tem o <i>stress </i>como <i>ideal </i>porque na monotonia o tempo não passa,    pois está alienado na perda do sentido das ações. Ele promete a felicidade pelo    consumo de bens materiais, mas permanentemente frustra essa esperança, pois    não é possível, em regime de acúmulo, reposição e acréscimo do capital, democratizar    o excedente e o supérfluo. Tempo que se comprime no desejo de consumo ilimitado,    por um lado, determina a exaustão, de outro. Diferem a exaustão e o cansaço.    Se neste ainda é possível pensar e imaginar, na exaustão não há possibilidade    de exercício do pensamento, apenas hiperatividade vazia e também destrutiva.    Abulia e sofreguidão constituem dois aspectos do tempo presente, embora aparentemente    diversos: "as duas atitudes possuem um traço comum: a reificação de si"<a name="top15"></a><b><a href="#nt15"><sup>15</sup></a></b>,    apreensão de si como objeto sem valor e sem sentido. Não podendo escolher nem    deliberar acerca do trabalho ou dos usos que poderia fazer do tempo, os homens    não são mais agentes, mas "agidos": "a atividade tornou-se uma variante da passividade    e mesmo onde as pessoas se cansam até seu limite (...), ela tomou a forma de    uma atividade - mas para nada -isto é, uma inatividade"<b><a name="top16"></a><a href="#nt16"><sup>16</sup></a>.</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Ou melhor: vive-se, hoje, uma inflação das possibilidades    de significados e, portanto, a impossibilidade em reconhecê-los, seja em nosso    mundo interno quanto no externo. Nas palavras de Leder: "o imaginário da sociedade    contemporânea encontra-se condicionado (...) por uma extrema saturação. O imaginário    caracteriza-se por uma abundância potencial que se apresenta ao alcance da mão,    mas que se encontra, no entanto, inacessível (...). É precisamente a tensão    entre a intuição da presença da satisfação ao alcance da mão e a realidade de    seu afastamento e inacessibilidade, o que determina a situação da consciência    contemporânea (...). Um exemplo pode ser encontrado na sociedade polonesa, na    dicotomia entre sociedade da penúria material e uma sociedade de consumo que    ocorreu há quinze anos e transformou totalmente o imaginário social. A mudança    da valorização e principalmente da saturação do campo simbólico foi muito mais    acelerada que a melhora da qualidade de vida. Paradoxalmente, nos anos sessenta,    depois da desestalinização, quando praticamente a totalidade dos poloneses vivia    em profunda penúria, mas ao mesmo tempo seu imaginário estava relativamente    pouco saturado e, além do mais, estruturado pelo vetor do progresso, a vivência    da falta era fraca e cada aquisição material tornava-se um símbolo valorizado    positivamente. Nos anos noventa, a transformação econômica melhorou muito a    situação material da maioria da população, mas ao mesmo tempo, forçou a integração    do campo simbólico dos poloneses no espaço da civilização global. O sentimento    de falta e de frustração tornou-se generalizado em todas as camadas da sociedade"<b><a name="top17"></a><a href="#nt17"><sup>17</sup></a>.</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Encontra-se aqui o mal-estar contemporâneo que    se expressa em um sentimento de monotonia ou "tédio crônico", monotonia que    conduz a um desinvestimento em valores. Tudo isso se passa em uma temporalidade    monótona, específica de uma sociedade organizada, também, de maneira específica    - e que é uma desorganização da consciência social pelo sentimento de desvalorização    de si e de humilhação: "a privação específica de si, a questão do sentimento    mais do que o da consciência da humilhação, do não reconhecimento de si pelo    outro, encontra-se no cerne da humilhação nas sociedades contemporâneas"<b><a name="top18"></a><a href="#nt18"><sup>18</sup></a>.</b>    Tanto mais humilhante é uma situação quanto mais cada um é chamado a consumir    e quanto menos poderá fazê-lo. Desprezo dos dominantes, por um lado, humilhação    dos excluídos do luxo e da abundância, de outro, resultam em apatia e hiperatividade    - ambos os sintomas de excessos - de frustração, de possibilidade de consumir    efetivamente o que o que quer que seja. Esse tempo patológico é preenchido por    esportes radicais, obesidade mórbida, anorexia, bulimia, terrorismos e guerras    contemporâneos. Esta agitação permanente é a expressão do empobrecimento psíquico    e da perda de qualquer sentido da vida - de onde a "desvalorização de todos    os valores". A contemporaneidade é a do "crepúsculo do dever", pois requer tão    somente uma "ética indolor" à qual corresponde ausência de normatividade na    vida pública, a descrença nas instituições, na aplicabilidade e na eficácia    das leis.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Como observava Marx, com a produção que visa    tão somente o mercado, dá-se a queda do tempo qualitativo em tempo quantificado,    tempo que é reificação da duração, pois esta se encontra plasmada no presente    - o que resulta na perda da qualidade dialética do vivido, vivido que se tecia    de lembrança e esquecimento. E onde não há tempo, tampouco pode haver recordação    nem redenção. Como escreveu Benjamin: "as rugas e marcas em nosso rosto são    as assinaturas das grandes paixões que nos estavam destinadas. Mas nós, os senhores,    não estávamos em casa"<b><a name="top19"></a><a href="#nt19"><sup>19</sup></a>.</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">Olgária Matos é filósofa, professora titular    da Universidade de São Paulo     <!-- ref --><br>   *Este artigo foi publicado originalmente    em Medeiros, Beatriz; Monteiro, Marianna; MATSUMOTO, Roberta. <i>Tempo e performance.</i>    Brasília: Editora de pós-graduação em arte da Universidade de Brasília, 2007.        Republicação autorizada pela autora </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>Notas</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font face="verdana" size="2"><b><a name="nt1"></a><a href="#top1">1</a> </b>Canetti,    Elias, <i>Masse et puissance,</i> trad. R. Rovini, Paris, 1966, p. 422    <!-- ref --><br>   <b><a name="nt2"></a><a href="#top2">2</a> </b>Cf. Dufet,F., M. DuruBellat,    <i>L'hypocrisie soclaire. Pour un college enfin démocratique?,</i> ed. Seuil,    Paris, 2000, p. 178.    <br>   <b><a name="nt3"></a><a href="#top3">3</a> </b>Lembrese que o radical de Aufklärung    é klar, Enlightenment, é light, Lumières, Ilustración ou Esclarecimento.    <!-- ref --><br>   <b><a name="nt4"></a><a href="#top4">4</a> </b>A Primeira Guerra Mundial inaugura    o bombardeio a populações civis, foi a guerra de trincheiras onde milhões de    combatentes se entregaram ao massacre. A afasia daqueles que voltavam da guerra    foi estudada por Freud na obra <i>Considerações sobre a guerra e a morte.</i>    Walter Benjamin, por sua vez, fala dessa mudez como resultado de um horror sem    voz, Do traumatismo que paralisa o tempo e inviabiliza a experiência o poder    de narrar a própria história para cicatriz as cicatrizes. Cf, Benjamin, "Experiência    e pobreza", "O narrador", in <i>Obras escolhidas I,</i> ed. Brasilense, 1983    <!-- ref --><br>   <b><a name="nt5"></a><a href="#top5">5</a> </b>Cf. Adorno e Horkheimer, <i>Dialética    do esclarecimento,</i> ed Zahar, RJ, 1983.    <!-- ref --><br>   <b><a name="nt6"></a><a href="#top6">6</a> </b>Cf. Benjamin, Walter, "Arquivo    J", PassagenWerk, ed. Suhrkamp; trad. <i>Le livre des passages,</i> ed. Cerf,    Paris, 1980.     <!-- ref --><br>   <b><a name="nt7"></a><a href="#top7">7</a> </b>Cf Marx, <i>Manuscritos econômicofilosóficos    de 1844,</i> ed Martin Claret, SP 2001     <!-- ref --><br>   <b><a name="nt8"></a><a href="#top8">8</a> </b>Cf. Kurz, Robert, in <i>Avis    aux naufragés,</i> ed. Lignes/Manifestes, Paris, 2005, p. 42. Vale lembrar que    durante a Idade Média, quando os artesãos deviam, excepcionalmente, trabalhar    à noite, era preciso alimentá-los e remunerá-los principescamente. Foi proeza    do capitalismo transformar uma modalidade de tortura a da alienação do tempo    em norma de toda atividade     <!-- ref --><br>   <b><a name="nt9"></a><a href="#top9">9</a> </b>Cf. Bürge, Noëlle, <i>Minima    sociaux et conditions salariales,</i> ed. Fayard, Paris, 2000.     <br>   <b><a name="nt10"></a><a href="#top10">10</a> </b>Que se considerem os mais    recentes conflitos na França, quando adolescentes, em sua maioria com ascendência    árabe e africana, puseram a nu, em um surto incendiário, a perda desse horizonte    de expectativas. Excluídos potenciais e também efetivos do mundo do trabalho,    não obstante compulsório na organização da vida em função do capital, chamaram    a atenção para o sentimento de humilhação decorrente do tratamento que lhes    é reservado como cidadãos franceses, mas de "segunda classe".     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><br>   <b><a name="nt11"></a><a href="#top11">11</a> </b>Cf. Abensour, Miguel, posfácio    a <i>Quelques réflexions sur la philosophie de l'hitlérisme de Emmanuel Levinas,</i>    ed. Rivages, paris, 1997.Algumas reflexões sobre a Filosofia do Hitlerismo",    in <i>La philosophie de l'hitlerisme de Levinas.    <br>   </i><b><a name="nt12"></a><a href="#top12">12</a> </b>É interessante pensar    nos ensaios de Walter Benjamin supracitados "O Narrador" e "Experiência e pobreza",    nos quais o filósofo reflete sobre o mundo moderno no qual não é mais possível    dar ou ouvir conselhos, onde não se pode desenvolver uma filosofia prática como    aquela contida nas narrativas tradicionais, com suas fábulas, parábolas e provérbios    que auxiliavam os homens a enfrentar infortúnio e boasorte.    <!-- ref --><br>   <b><a name="nt13"></a><a href="#top13">13</a> </b>Santiso, J., "Lenteur politique    et vitesse économique", in <i>Malise dans la temporalité,</i>org. Paul Zawadiski,    ed publications de la Sorbonne, Paris, 2002, p. 124.     <!-- ref --><br>   <b><a name="nt14"></a><a href="#top14">14</a> </b>Gaujelac, Vincent de, in <i>La    société malade de la gestion,</i> ed. Seuil, Paris, 2005, p. 164.     <!-- ref --><br>   <b><a name="nt15"></a><a href="#top15">15</a> </b>Cf. Leder, Andrzej, "La haine    comme force formatrice dans le chmps symbolique", xerox, no prelo da publicação    do Colóquio de Cérisy, de setembro de 2005.     <!-- ref --><br>   <b><a name="nt16"></a><a href="#top16">16</a> </b>Anders, Günther, <i>L'obsolescence    de l'homme,</i> trad. De Cristophe David, ed. De L'Encyclopédie dês Nuisances/Ivrea,    Paris, 2002, p.247. O autor referese às personagens de <i>Esperando Godot </i>de    Beckett. Assim Estragon e Vladimir, que não fazem absolutamente nada, representam,    na peça, milhões de homens ativos.     <!-- ref --><br>   <b><a name="nt17"></a><a href="#top17">17</a> </b>Malgorzata Szpawoska, <i>Vouloir    e avoir. La conscience em Pologne du temps du changement,</i> Varsóvia, 2203,    apud Leder, A, "Introduction à une analyse des transformations de l'intuition    du temps dans la culture contemporaine", in <i>Malaise dans la temporalité,</i>    org. Paul Zawadiski, Publications de la Sorbonne, Paris, 2002     <!-- ref --><br>   <b><a name="nt18"></a><a href="#top18">18</a> </b>Haroche, C., "Processus psychologique    et sociaux de l'humilhation: l'appauvrissement de l'espace intérieur dans l'individualisme    contemporain, <i>in L'humilhation et le politique, </i>no prelo. Cf nota 8,    acima.     <!-- ref --><br>   <b><a name="nt19"></a><a href="#top19">19</a> </b>Cf. "A Imagem de Proust",    in <i>Obras escolhidas I,</i> ed. Brasiliense, SP, 1996 p. 46, trad modificada</font> ]]></body>
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