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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="verdana" size="2"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="4"><b>O poder da técnica e o esvaziamento da política</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Carolina Raquel Justo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">Pesquisadores e filósofos têm procurado entender    e explicar o vazio que habitaria o mundo de hoje anunciado pela ruína da essência    dos humanos, da "morte" da história, da literatura e dos deuses. O desenvolvimento    e aposta no progresso técnico são apontados como os principais catalisadores    desses processos. Emergem das análises compreensões distintas sobre como esse    vazio impacta as sociedades contemporâneas e seus possíveis perigos e potenciais:    a tecnocracia estaria triunfando e destituindo a crença e a política de suas    forças, abolindo-as, jogando-as no nada da descrença e despolitização, em que    só o tempo presente vale; o vazio da crença e da política seria antes a possibilidade    de pensar em "crenças" e "políticas", múltiplas e inacabadas, a chance que os    seres humanos teriam de reinventar suas histórias, pensamentos e futuros. "É    do vazio da política que a verdadeira política necessita. Nesses momentos é    que podem emergir as ações inesperadas, que possibilitam uma tomada de palavra,    um exercício de poder, uma reação que signifique uma reorganização da ordem    social", argumenta o filósofo Silvio Gallo, da Faculdade de Educação da Universidade    Estadual de Campinas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="3"><b>O vazio das crenças e das palavras</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Durante séculos da história os homens cultuaram    deuses, tanto no Oriente quanto no Ocidente. Entretanto, desde o século XVIII,    o chamado século das luzes, teria ocorrido um processo que o sociólogo alemão    Max Weber chamou de "desencantamento do mundo". O avanço da razão sobre o misticismo    teria feito com que o mundo perdesse sua aura encantada, tornando os homens    mais céticos. "A filosofia crítica e as ciências tornaram o mundo vazio dos    deuses que durante milênios pareceram habitá-lo", explica José Augusto Mourão,    da Universidade Nacional de Lisboa.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O filósofo alemão Nietzsche - segundo Mourão    um dos pais do niilismo, corrente de pensamento que nega ou dissolve qualquer    fundamento último -, afirma que "Deus morreu". Com isso ele pretende dizer que    a crença no Deus cristão caiu em descrédito. Com o vazio dos deuses e das crenças,    esvaziaram-se também valores, princípios, normas e categorias que neles se baseavam.    "A decomposição duma doutrina cristã deixou a desordem, deixou um vazio em lugar    das percepções essenciais de justiça social, de sentido da história humana,    das relações entre o corpo e o espírito, do papel do saber na nossa conduta    moral", analisa.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Já Sílvio Gallo, acredita que por sermos conscientes,    somos seres cindidos, fragmentados, sem uma essência que nos preencha. Em outras    palavras, nossa grandeza e nossa miséria consiste em sermos seres do vazio,    da incompletude. Ou seja: aquilo que nos torna incompletos é exatamente o que    nos faz agir; se nada somos, de antemão, se não há uma essência que nos determine,    podemos ser qualquer coisa.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Em outras palavras, nossa grandeza e nossa miséria    consiste em sermos seres do vazio, da incompletude. Em outras palavras, nossa    grandeza e nossa miséria consiste em sermos seres do vazio, da incompletude.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Viver num mundo vazio de deuses e crenças teria    ainda, para José Mourão, outra conseqüência: a morte da literatura: "A literatura    vive do imaginário, da utopia que implica a crença num mundo melhor e outro.    A literatura está a morrer porque deixou de ser alimentada pela crença de um    mundo (admirável porque outro)".</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O mundo repleto de imagens e informações é paradoxalmente    o do vazio das palavras. Segundo Mourão, ao mesmo tempo em que a linguagem,    como a literatura, pode representar coisas reais, as palavras podem ser não    mais do que palavras. "Há um abismo que separa as palavras das coisas", afirma    ele. É o que acontece com palavras "mágicas" da publicidade e da política, exemplifica.    Ajoelhamo-nos diante delas sem identificarmos o seu conteúdo, sem capturarmos    o seu sentido, a essência do que representam. São palavras vazias.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>Poder da técnica e vazio da política</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O homem que deixou de acreditar em Deus e de    submeter-se a ele tornou-se "o todo poderoso". O progresso técnico seria o resultado    deste homem onipotente: "O homem poderoso, faustiano, é hoje o cientista - que    emerge da neurologia ou da biotecnologia, que reduz mesmo o bem e o mal ao biológico    e que promete a imortalidade", analisa Mourão.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n101/a06img1.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">Franklin Leopoldo e Silva, professor de filosofia    da Universidade de São Paulo (USP), destaca que o homem perdeu o controle do    processo civilizatório em decorrência do progresso científico e tecnológico.    "Não é mais o homem que é autônomo no exercício da atividade técnica, mas é    a técnica que se torna autônoma e a partir daí se desenvolve de maneira irrefletida",    explica. A conclusão do filósofo lembra algumas cenas de <i>Matrix,</i> o homem    sendo "engolido" por máquinas todo-poderosas. Hoje o homem subordina-se ao que    faz. Ele já não sabe porque faz e deixa de perguntar-se sobre isso. Seria o    vazio da reflexão que permitiria a colonização do homem. Para Leopoldo e Silva    esta é a base da tecnocracia. A técnica se confunde com o poder e deixa de estar    a serviço dele. "Os meios deixam de estar sujeitos aos fins", diz o professor.    A esfera dos fins esvaziou-se e foi ocupada pela dos meios.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Na análise de Leopoldo e Silva, o poder da técnica    esvaziou a política, que se diluiu na esfera econômica, numa tecnocracia economicista.    "O triunfo da tecnocracia é a abolição da política", explica. Entretanto, este    vazio da política pode ser só aparente: a despolitização é uma estratégia política    utilizada pela tecnocracia. Segundo o professor, escondido por trás da máscara    de objetividade técnica estaria um projeto político de dominação transnacional.    A base deste projeto é negar a política como deliberação, isto é, como exercício    das palavras, da discussão. "A tecnoburocracia, que ocupou o vazio da deliberação    política, despreza a palavra, trivializa e degrada a interação política que    a palavra deveria proporcionar, no propósito, desgraçadamente bem-sucedido,    de afirmar o caráter supérfluo do sujeito histórico como agente de transformação",    conclui Leopoldo e Silva.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O vazio político da ausência de deliberação elimina    as possibilidades de projeção e planejamento do futuro. O futuro incerto antecipou-se:    não representa mais uma possibilidade de ação porque se tornou presente e dado.    Como dizem slogans de diversas propagandas, "o futuro já chegou!". Para Leopoldo    e Silva, o futuro foi "presentificado", apropriado de maneira irrefletida e    irreflexiva. O futuro ocupou o presente e mandou-o para trás, para o passado.    Com isso, o presente ficou vazio.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>O vazio cheio de possibilidades</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Sílvio Gallo enxerga o vazio de outra forma.    "Se pensamos o mundo como multiplicidade, o vazio não é um problema, ele é mais    um constitutivo dessa multiplicidade. O vazio passa então a ser tomado de modo    positivo, como possibilidade de traçar linhas de fuga, de inventar, de construir    o futuro. Assim, as saídas não estão dadas, não estão definidas de antemão.    É preciso inventá-las, é necessário criá-las", avalia ele. O mundo fragmentado,    vazio de crenças e de política, é, na opinião de Gallo, o que permite a ação.    O homem está livre para ocupar espaços e com isso (re)criar crenças e a própria    política.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Gallo se opõe aos pesquisadores que vêem a vida    como uma totalidade cheia de sentido. "Se vejo o vazio, é porque antes o mundo    era considerado 'cheio', 'pleno'. Mas será mesmo que o mundo foi, alguma vez,    pleno de sentido, íntegro, completo?", questiona ele. "Não será esta uma fantasia    que construímos sobre o passado?", continua. Para Gallo, o vazio, a incompletude,    a fragmentação, a falta de essência e de sentido fazem parte da vida, do mundo    e do ser humano. Por isso, aí, onde outros pensadores vêem um problema, ele    vê uma solução. "O mundo em que vivemos é dinâmico, está aberto, em transformação    constante. Esta abertura é justamente onde podemos encontrar possibilidade,    projeto, construção", completa.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Essas possibilidades para o futuro, o filósofo    Gallo também encontra na política, no exercício da reflexão e da palavra. "O    problema é que costumamos pensar o poder como plenitude, e a política como o    exercício dessa plenitude. E quando a plenitude não se dá, incomoda-nos o vazio    que fica em seu lugar", pondera ele.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n101/a06img2.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">O vazio é, para Gallo, o caminho para o pensamento,    a criação e a ação. Num mundo onde a informação preenche tudo, onde há, referindo-se    aos filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari, "o império da opinião", Gallo    vê no oposto, no vazio, uma saída. Se a opinião está na plenitude das informações,    trata-se, então, de criar um vazio nesta plenitude, de rasgar o céu da opinião    e ver o que está atrás dele". Como no filme <i>O show de Truman,</i> é quando    "o céu se rasga e o mundo cai" que a dúvida se instala, as certezas se dissolvem    e torna-se preciso desconfiarmos de nós mesmos e do mundo, e irmos atrás das    respostas. "Penso que esta é uma boa metáfora para a resistência hoje necessária.    Precisamos desconfiar da opinião, inventar um vazio na plenitude de informações    que torne possível que pensemos, que inventemos, que ajamos autonomamente, que    façamos política (a verdadeira política)", conclui Gallo. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Leia mais </b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Resenha <i>Matrix</i></font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><a href="http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&amp;tipo=resenha&amp;edicao=26" target="_blank">www.comciencia.br</a>    </font></p>      ]]></body>

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