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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b><a name="top"></a>O    Pr&ecirc;mio Nobel da Paz num sistema internacional an&aacute;rquico</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Carlos Frederico    Pereira da Silva Gama</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No fim do s&eacute;culo    XIX, o sueco Alfred Nobel, inventor da dinamite e fabricante de armas, dedicou    parte de sua fortuna a "compensar sua contribui&ccedil;&atilde;o involunt&aacute;ria    para o sofrimento dos homens"(<a name="top1"></a><a href="#back1">1</a>) criando    uma funda&ccedil;&atilde;o hom&ocirc;nima que, anualmente, concede pr&ecirc;mios    a pessoas e institui&ccedil;&otilde;es que se destacaram nas &aacute;reas de    qu&iacute;mica, f&iacute;sica, medicina, literatura (posteriormente, tamb&eacute;m,    economia). O mais importante foi dedicado &agrave; meta-s&iacute;ntese de seu    criador, a busca "da paz", que, em suas palavras, destina-se a quem "dever&aacute;    ter feito mais ou melhor trabalho para a fraternidade entre as na&ccedil;&otilde;es,    para a aboli&ccedil;&atilde;o ou redu&ccedil;&atilde;o de ex&eacute;rcitos permanentes    e para conserva&ccedil;&atilde;o e est&iacute;mulos de congressos de paz"(<a name="top2"></a><a href="#back2">2</a>).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Muitos indiv&iacute;duos    e organiza&ccedil;&otilde;es foram laureados desde a institui&ccedil;&atilde;o    do pr&ecirc;mio - que pode contemplar mais de um premiado no mesmo ano. Henry    Dunant, fundador da Cruz Vermelha Internacional, recebeu seu pr&ecirc;mio quase    meio s&eacute;culo ap&oacute;s ter criado (e posteriormente, deixado) a organiza&ccedil;&atilde;o.    Outros, como o presidente dos Estados Unidos Barack Obama e o primeiro-ministro    da Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica Mikhail Gorbatchev, foram premiados no exerc&iacute;cio    de suas fun&ccedil;&otilde;es. Alguns, como o l&iacute;der espiritual do Tibete,    Dalai Lama, receberam seu pr&ecirc;mio longe de sua terra natal, no ex&iacute;lio.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em outros anos,    a honraria n&atilde;o foi concedida - devido &agrave; ocorr&ecirc;ncia de guerras    mundiais, o Comit&ecirc; Noruegu&ecirc;s do Nobel (respons&aacute;vel pela escolha    do pr&ecirc;mio) declinou em apontar merecedores. E candidatos &oacute;bvios    - como o ap&oacute;stolo da n&atilde;o-viol&ecirc;ncia e l&iacute;der da independ&ecirc;ncia    da &Iacute;ndia, Mohandras Gandhi - nunca receberam o pr&ecirc;mio. Gandhi foi    indicado cinco vezes, a &uacute;ltima delas dias ap&oacute;s seu assassinato,    em 1948. O Nobel da Paz daquele ano n&atilde;o foi concedido a ningu&eacute;m,    j&aacute; que n&atilde;o costuma ser dado em car&aacute;ter p&oacute;stumo (a    &uacute;nica exce&ccedil;&atilde;o foi o secret&aacute;rio-geral da ONU Dag    Hammarksold, morto em 1961 num acidente a&eacute;reo).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dentre as institui&ccedil;&otilde;es    premiadas, destacam-se, al&eacute;m de organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o-governamentais    como a pr&oacute;pria Cruz Vermelha (premiada tr&ecirc;s vezes) e a Anistia    Internacional, organiza&ccedil;&otilde;es intergovernamentais como a Organiza&ccedil;&atilde;o    das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU) e &oacute;rg&atilde;os que comp&otilde;em    o chamado sistema da ONU, caso da Ag&ecirc;ncia Internacional de Energia At&ocirc;mica    (AIEA).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A escolha do Pr&ecirc;mio    Nobel da Paz &eacute; um evento pol&iacute;tico de grande magnitude. Envia um    recado &agrave; comunidade internacional - um recado presente, quando um grande    conflito se encerra, caso de Oscar Arias, presidente da Costa Rica laureado    por seus esfor&ccedil;os de negocia&ccedil;&otilde;es de paz bem-sucedidas na    Am&eacute;rica Central. Por vezes, o recado se dirige ao futuro - caso do pr&ecirc;mio    concedido a Al Gore e ao Painel Intergovernamental de Mudan&ccedil;as Clim&aacute;ticas    (IPCC), da ONU. O pr&ecirc;mio pode tamb&eacute;m reconhecer uma longa trajet&oacute;ria    de contribui&ccedil;&otilde;es para a paz, caso de negociadores como o ex-presidente    dos EUA, Jimmy Carter, e inovadores, como o pioneiro do microcr&eacute;dito    e fundador do Banco Grameen, Muhammad Yunus (Yunus e o banco foram premiados    simultaneamente).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"> Sendo um pr&ecirc;mio    inevitavelmente pol&iacute;tico, seu an&uacute;ncio provocou in&uacute;meras    controv&eacute;rsias ao longo do s&eacute;culo XX, que se prolongam no presente.    O secret&aacute;rio de Estado norte-americano Henry Kissinger esteve no epicentro    de uma delas, ao ser contemplado junto com o l&iacute;der do Vietn&atilde; do    Norte, Le Duc Thom, em 1973 - dois anos antes do fim da Guerra do Vietn&atilde;.    Thom recusou receber seu pr&ecirc;mio ao lado da polarizadora figura de Kissinger.    O presidente do Egito, Mohamed Anwar Al-Sadat, foi premiado juntamente com o    primeiro-ministro de Israel, Menachem Begin, pela assinatura dos acordos de    paz de Camp David, em 1978. Tr&ecirc;s anos depois, Sadat seria morto por integrantes    do ex&eacute;rcito eg&iacute;pcio, alegadamente por causa do referido acordo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As duas &uacute;ltimas    edi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o fugiram &agrave; regra e foram eivadas de circunst&acirc;ncias    pol&iacute;ticas dram&aacute;ticas. Em 2013, a Organiza&ccedil;&atilde;o para    a Proscri&ccedil;&atilde;o de Armas Qu&iacute;micas (OPAQ) recebeu o Nobel da    Paz por sua controversa atua&ccedil;&atilde;o na guerra civil da S&iacute;ria.    Dois pa&iacute;ses dos BRICS e membros permanentes do Conselho de Seguran&ccedil;a    da ONU, a R&uacute;ssia e a China, bloquearam tentativas dos EUA de autorizar    o uso da for&ccedil;a na S&iacute;ria junto &agrave; ONU, como ocorrera no conflito    na L&iacute;bia, em 2011. Confrontados com o an&uacute;ncio, em agosto, feito    pelo secret&aacute;rio de Estado norte-americano John Kerry, de que armas qu&iacute;micas    teriam sido usadas na S&iacute;ria e que isso equivalia a cruzar uma "linha    vermelha" para a interven&ccedil;&atilde;o armada dos EUA na regi&atilde;o,    R&uacute;ssia e China abriram negocia&ccedil;&otilde;es para retirar as referidas    armas do conflito, invocando o princ&iacute;pio multilateral da proscri&ccedil;&atilde;o    do uso destas (criado durante a Primeira Guerra Mundial, quando seu uso foi    generalizado). A negocia&ccedil;&atilde;o foi tornada poss&iacute;vel via OPAQ.    Mesmo sem o fim do conflito na S&iacute;ria, as armas qu&iacute;micas come&ccedil;aram    a ser retiradas do pa&iacute;s e uma interven&ccedil;&atilde;o armada dos EUA    foi evitada em 2012 - motivando a premia&ccedil;&atilde;o da OPAQ. Em 2014,    por&eacute;m, ocorreria uma interven&ccedil;&atilde;o dos EUA na regi&atilde;o,    justificada para combater o "Estado Isl&acirc;mico" /ISIS, grupo insurgente    que controla territ&oacute;rios na S&iacute;ria e no Iraque. Ironicamente, o    presidente Obama, al&eacute;m de ter sido eleito para "tirar as tropas de Afeganist&atilde;o    e Iraque"(<a name="top3"></a><a href="#back3">3</a>), foi ele pr&oacute;prio    laureado com o Nobel da Paz, em 2009.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A ativista paquistanesa    pelos direitos das mulheres e pela universaliza&ccedil;&atilde;o da educa&ccedil;&atilde;o,    Malala Yousafzai, tornou-se uma personalidade internacional ao sobreviver a    um ataque armado dos Talib&atilde;s, em 2012. Seu nome, j&aacute; aventado para    receber o Nobel da Paz em 2013, acabou sendo contemplado na premia&ccedil;&atilde;o    de 2014 - fazendo de Malala a pessoa mais jovem (17) anos a receber o Nobel    da Paz na hist&oacute;ria. Mesmo sendo uma candidatura dotada de amplo reconhecimento    internacional, ela teve que dividir sua honraria. Quest&otilde;es geopol&iacute;ticas    e et&aacute;rias motivaram, em parte, a concess&atilde;o com outro ativista,    o indiano Kailash Satyarthi, defensor dos direitos das crian&ccedil;as, que    lutou contra o trabalho infantil e a escravid&atilde;o. A concess&atilde;o simult&acirc;nea    dos pr&ecirc;mios promoveu um "equil&iacute;brio" simb&oacute;lico de poder    suave (soft power) das duas pot&ecirc;ncias nuclearizadas do Indost&atilde;o,    bem como de "g&ecirc;nero" e de faixa et&aacute;ria(<a name="top4"></a><a href="#back4">4</a>)    (&ecirc;nfase nos direitos das crian&ccedil;as e no combate ao trabalho infantil    via um premiado de meia-idade, junto &agrave; mais jovem premiada da hist&oacute;ria,    uma adolescente defensora do direito das meninas &agrave; educa&ccedil;&atilde;o).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Num sistema internacional    an&aacute;rquico, um pr&ecirc;mio como o Nobel da Paz depende de in&uacute;meras    circunst&acirc;ncias e clivagens que dificultam tra&ccedil;ar padr&otilde;es    e fazer previs&otilde;es. Para al&eacute;m de seu car&aacute;ter inexoravelmente    pol&iacute;tico, cabe lembrar, ainda, que a paz foi ressignificada desde o come&ccedil;o    do s&eacute;culo XX - da interrup&ccedil;&atilde;o do uso da for&ccedil;a armada    entre estados soberanos via confer&ecirc;ncias de paz para din&acirc;micas de    viol&ecirc;ncia da vida cotidiana, imbricadas com a soberania, como as que sofreu    Malala e contra as quais ela soube resistir.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O an&uacute;ncio    do pr&ecirc;mio, no come&ccedil;o de dezembro, marca um ritual de promessa e    resigna&ccedil;&atilde;o. Muito h&aacute; de ser feito pela causa da paz num    sistema an&aacute;rquico. Conquistas s&atilde;o relativizadas a posteriori.    N&atilde;o obstante, a paz persiste um ideal regulador nas rela&ccedil;&otilde;es    internacionais, ainda que de S&iacute;sifo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b><i>Carlos Frederico    Pereira da Silva Gama </i></b><i>&eacute; professor de rela&ccedil;&otilde;es    internacionais da PUC-Rio.</i></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>NOTAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="back1"></a><a href="#top1">1</a>    Citado em Gama, C. F. and Lopes, D. B. "Bem me queres, mal me queres: ambival&ecirc;ncia    discursiva na avalia&ccedil;&atilde;o can&ocirc;nica do desempenho da ONU".    Rev. Sociol. Polit. online. 2009, vol.17, n.33, pp. 157-173.    </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="back2"></a><a href="#top2">2</a>    <a href="http://www.nobelpreis.org/portugues/index.htm" target="_blank">www.nobelpreis.org/portugues/index.htm</a></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="back3"></a><a href="#top3">3</a>    <a href="http://www.nytimes.com/2008/07/15/us/politics/15text-obama.html?pagewanted=all&_r=0" target="_blank">www.nytimes.com/2008/07/15/us/politics/15text-obama.html?pagewanted=all&amp;_r=0</a></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="back4"></a><a href="#top4">4</a>    Para uma discuss&atilde;o cr&iacute;tica dos conceitos de "crian&ccedil;a" e    "inf&acirc;ncia" nas rela&ccedil;&otilde;es internacionais, vide Tabak, J. (2009).    "As vozes de ex-crian&ccedil;as soldado: reflex&otilde;es cr&iacute;ticas sobre    o programa de desarmamento, desmobiliza&ccedil;&atilde;o e reintegra&ccedil;&atilde;o    das Na&ccedil;&otilde;es Unidas". Disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado. Rio    de Janeiro: Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica.    </font></p>      ]]></body>
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