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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Di&aacute;logos entre a vida e a morte nos filmes de zumbis: aproxima&ccedil;&otilde;es e disrup&ccedil;&otilde;es</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Paula Gomes</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Formada em r&aacute;dio e TV pela Unesp e mestre em imagem e som pela Universidade Federal de S&atilde;o Carlos. <a href="mailto:paulagomesrtv@gmail.com">paulagomesrtv@gmail.com</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">"O &uacute;nico mito moderno &eacute; o mito dos zumbis" (2010: 445), anunciaram Gilles Deleuze e F&eacute;lix Guattari em 1972. Esta ideia adquire novo f&ocirc;lego atualmente, um momento marcado pela presen&ccedil;a quase ub&iacute;qua do mito do zumbi nas mais variadas inst&acirc;ncias significativas do cen&aacute;rio cultural global. Mas, se considerarmos apenas a trajet&oacute;ria da representa&ccedil;&atilde;o cinematogr&aacute;fica dessas criaturas, podemos observar uma produ&ccedil;&atilde;o bastante extensa e heterog&ecirc;nea, que se inicia logo nas primeiras d&eacute;cadas do s&eacute;culo 20. Desde as primeiras apari&ccedil;&otilde;es do zumbi nos cinemas at&eacute; a sua quase onipresen&ccedil;a em todas as m&iacute;dias nos dias atuais, muitas mudan&ccedil;as podem ser observadas nessas criaturas. Neste artigo iremos tratar especificamente de uma delas. A natureza da rela&ccedil;&atilde;o estabelecida entre os personagens e os zumbis sempre se caracterizou pela no&ccedil;&atilde;o de proibi&ccedil;&atilde;o: n&atilde;o era poss&iacute;vel estabelecer qualquer tipo de v&iacute;nculo entre eles al&eacute;m da abje&ccedil;&atilde;o que essas criaturas causavam aos vivos. No entanto, podemos observar um movimento recente de dilui&ccedil;&atilde;o dessas fronteiras em hist&oacute;rias de zumbis contempor&acirc;neas que seguem explorando diferentes possibilidades de di&aacute;logo entre esses dois tipos de personagens.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quando assistimos aos primeiros filmes de zumbis realizados nos Estados Unidos nas d&eacute;cadas de 1930 e 1940, &eacute; bastante percept&iacute;vel que nessas hist&oacute;rias a rela&ccedil;&atilde;o entre os zumbis e os humanos &eacute; marcada pela ideia de impedimento, de impossibilidade de intera&ccedil;&atilde;o afetiva. Podemos observar isto muito claramente em <i>Zumbi branco </i>(Victor Halperin, 1932) e <i>A morta-viva </i>(Jacques Tourneur, 1943). Estes filmes s&atilde;o ambientados no Caribe, e suas tramas giram em torno do mito do zumbi haitiano, figura da cultura do Haiti que pode ser descrita como um indiv&iacute;duo que, por meio de feiti&ccedil;os, morre e retorna &agrave; vida para servir a um mestre<sup>(</sup><a name="01b"></a><a href="#01a"><sup>1</sup></a><sup>)</sup>. As tramas giravam em torno de personagens norte-americanos que abandonavam seus territ&oacute;rios familiares com destino a uma ilha do Caribe que, no decorrer dos filmes, revelava-se um local perigoso, regido por for&ccedil;as sobrenaturais, de modo que o espa&ccedil;o era bipartido simbolicamente entre o dom&iacute;nio da racionalidade (os Estados Unidos) e o espa&ccedil;o dominado pelo sobrenatural e numinoso (o Caribe). A entrada dos norte-americanos no espa&ccedil;o caribenho &eacute; representada como um movimento transgressor que coloca em risco suas vidas, e a retalia&ccedil;&atilde;o se materializa por meio da amea&ccedil;a de que as personagens norte-americanas femininas sejam transformadas em zumbis.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Segundo o mito haitiano, a transforma&ccedil;&atilde;o de um indiv&iacute;duo em zumbi corresponde a um "roubo" de sua alma e, deste modo, resulta na impossibilidade de estabelecer qualquer v&iacute;nculo afetivo com outra pessoa. No entanto, nesses filmes, a transforma&ccedil;&atilde;o de uma personagem feminina em um zumbi tamb&eacute;m representava a amea&ccedil;a de que ela pudesse ser possu&iacute;da sexual e simbolicamente por um caribenho. A premissa de que uma mulher branca pudesse se tornar um zumbi sob o dom&iacute;nio de um caribenho era particularmente assustadora nesse per&iacute;odo, na medida em que simbolizava o temor norte-americano em rela&ccedil;&atilde;o ao contato com essa cultura, e com a miscigena&ccedil;&atilde;o racial, de modo que "o verdadeiro horror desses filmes estava centrado da possibilidade de um ocidental se tornar dominado, subjugado, e efetivamente 'colonizado' por um nativo pag&atilde;o" (Bishop, 2008: 141).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa situa&ccedil;&atilde;o se evidencia ainda mais nesses filmes quando observamos que as norte-americanas efetivamente se transformam em zumbis no decorrer das tramas, mas o seu contato com o caribenho n&atilde;o se efetiva, sugerindo que a transposi&ccedil;&atilde;o das barreiras entre a vida e a morte estaria mais pr&oacute;xima de ser aceita do que a dilui&ccedil;&atilde;o das barreiras que separavam os norte-americanos e os caribenhos. Esta representa&ccedil;&atilde;o, no entanto, tamb&eacute;m precisa ser entendida como parte integrante da estrat&eacute;gia discursiva dos Estados Unidos, que legitimava a coloniza&ccedil;&atilde;o e interven&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica no Haiti (1915-1934), cuja estrutura&ccedil;&atilde;o &eacute; apontada por Frantz Fanon:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O mundo colonial &eacute; um mundo manique&iacute;sta. N&atilde;o &eacute; o suficiente para o colonizador delimitar fisicamente o espa&ccedil;o do nativo com a ajuda de um ex&eacute;rcito ou for&ccedil;a policial. Para mostrar o perfil totalit&aacute;rio da explora&ccedil;&atilde;o colonial, o colonizador retrata o nativo como uma esp&eacute;cie de quintess&ecirc;ncia do mal (Fanon, 1963: 41).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A partir da segunda metade do s&eacute;culo 20, os zumbis dos filmes norte-americanos gradualmente perdem a heran&ccedil;a caribenha e passam por diversas experimenta&ccedil;&otilde;es, sendo relacionados com alien&iacute;genas, pessoas contaminadas por experi&ecirc;ncias at&ocirc;micas, e at&eacute; mesmo com comunistas, refletindo as ansiedades norte-americanas da d&eacute;cada de 1950, at&eacute; estabilizarem-se como os famosos mortos-vivos que se alimentam de carne humana. A primeira apari&ccedil;&atilde;o destes remonta ao filme <i>A noite dos mortos-vivos</i>(1968)deGeorge A. Romero, cuja narrativa segue um grupo que se abriga em uma casa relativamente afastada da cidade para tentar sobreviver a uma epidemia que estaria trazendo os mortos de volta &agrave; vida, investindo-os do desejo de se alimentar dos vivos. Deste modo, vemos que nesse per&iacute;odo os filmes de zumbis norte-americanos voltam-se para seu pr&oacute;prio territ&oacute;rio, discutindo, por meio de sua estrutura espacial, os rumos da sociedade norte-americana da &eacute;poca. Muitos outros cineastas se apropriaram dessa mesma f&oacute;rmula para criar suas pr&oacute;prias hist&oacute;rias de zumbis durante toda a segunda metade do s&eacute;culo 20.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nesses filmes a tentativa de proximidade entre humanos e zumbis sempre gerava consequ&ecirc;ncias catastr&oacute;ficas: a cena em que uma crian&ccedil;a de transforma em um zumbi e mata seus pr&oacute;prios pais em <i>A noite dos mortos-vivos</i> &eacute; ic&ocirc;nica. No entanto, o que mais chama a aten&ccedil;&atilde;o &eacute; a total falta de rela&ccedil;&atilde;o entre os pr&oacute;prios humanos, na medida em que &eacute; o comportamento violento e antissocial destes que acaba transformando o interior dos abrigos em espa&ccedil;os t&atilde;o ou mais contaminados do que o lado externo, povoado por zumbis. Muitos filmes exploraram esse comportamento agressivo dos sobreviventes para desenvolver cr&iacute;ticas ao militarismo, ao racismo, ao territorialismo, ao modelo patriarcal, entre outras quest&otilde;es sociais do per&iacute;odo. No entanto, talvez a maior cr&iacute;tica social desses filmes esteja relacionada a um comportamento que o autor Kim Paffenroth chama de "individualismo autoconfiante" norte-americano, caracterizado por uma profunda desconfian&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o ao governo e aos seus especialistas, ao endeusamento de armas de fogo e de autom&oacute;veis, e &agrave; m&iacute;stica da figura do lobo solit&aacute;rio. O autor reflete que todas essas caracter&iacute;sticas juntas talvez pudessem dar uma vantagem a essa sociedade no in&iacute;cio de uma trag&eacute;dia, mas logo a incapacidade de um comportamento solid&aacute;rio e comunit&aacute;rio iria levar a popula&ccedil;&atilde;o ao decl&iacute;nio, como de fato ocorre com os sobreviventes da casa de campo em <i>A</i> n<i>oite dos mortos-vivos, </i>e em outros tantos filmes de zumbis desse per&iacute;odo:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Considerando o cen&aacute;rio de uma invas&atilde;o zumbi, ou qualquer conflito civil ou desastre natural, os cidad&atilde;os norte-americanos, individualistas autoconfiantes, profundamente desconfiados em rela&ccedil;&atilde;o ao governo, aos intelectuais, armados com um n&uacute;mero de armas de fogo que os europeus consideram incompreens&iacute;vel entre as na&ccedil;&otilde;es "civilizadas", provavelmente passariam melhor do que outras pessoas de outros pa&iacute;ses. N&oacute;s iriamos todos nos trancar em nossas casas individuais e come&ccedil;ar&iacute;amos a atirar. Ou, melhor ainda, n&oacute;s todos usar&iacute;amos a outra m&aacute;quina intrinsecamente americana: o autom&oacute;vel, para dirigir por a&iacute; e atirar em zumbis. N&oacute;s iriamos provavelmente ganhar certa vantagem sobre os zumbis a curto prazo em algumas regi&otilde;es, como &eacute; mostrado em <i>A noite dos mortos-vivos </i>e <i>Despertar dos mortos</i>. Mas na medida em que a crise continuaria, a n&atilde;o ser que o nosso individualismo desse lugar a sentimentos de confian&ccedil;a, solidariedade e comunidade, n&oacute;s estar&iacute;amos condenados no momento em que nossos estoques de muni&ccedil;&atilde;o e comida come&ccedil;assem a acabar e n&oacute;s come&ccedil;&aacute;ssemos a lutar contra n&oacute;s mesmos. Not&iacute;cias sobre o fura&ccedil;&atilde;o Katrina em que as pessoas come&ccedil;aram a pilhar e a atirar nos funcion&aacute;rios de resgate, atrapalhando-os, infelizmente confirmam isso. Nosso mito americano do lobo solit&aacute;rio, o cara dur&atilde;o que resolve todos os seus problemas com seus punhos, ou mais frequentemente, com suas armas, n&atilde;o &eacute; muito realista ou &uacute;til no mundo real; se a compaix&atilde;o pela comunidade e a ajuda ao pr&oacute;ximo &eacute; posta de lado, pode-se dizer que &eacute; um caminho direto para a perdi&ccedil;&atilde;o (Paffenroth, 2006: 21).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os filmes de zumbis subsequentes de George Romero lidam intensamente com essa situa&ccedil;&atilde;o de deteriora&ccedil;&atilde;o da humanidade dos sobreviventes, que ocorre em paralelo a outro movimento, o da "humaniza&ccedil;&atilde;o" dos zumbis. Essa din&acirc;mica fica bem evidente no terceiro filme de zumbis de Romero, <i>Dia dos mortos</i> (1985), no qual um zumbi chamado Bub &eacute;, de certa forma, "adestrado" por um cientista, que vislumbra na experi&ecirc;ncia a possibilidade de neutralizar a epidemia de zumbis. O condicionamento mostra sinais de sucesso, mas acaba frustrado, pois, ironicamente, o comportamento dos cientistas e militares do bunker militar onde os experimentos s&atilde;o realizados n&atilde;o consegue ser civilizado o bastante para servir de exemplo ao zumbi: os militares hostilizam Bub, e o cientista apresenta comportamentos &eacute;ticos bastante controversos. Ao final do filme, o zumbi adestrado demonstra mais solidariedade e humanidade do que os militares e cientistas do bunker, quando lamenta intensamente a morte de seu mestre. No quarto filme de zumbis de Romero, <i>Terra dos mortos </i>(2005); n&atilde;o h&aacute; outra tentativa de adestrar os zumbis, mas estes s&atilde;o representados de forma muito mais humanizada do que os sobreviventes, revelando-se as verdadeiras v&iacute;timas desse conflito entre humanos e zumbis, invertendo assim o eixo de polariza&ccedil;&atilde;o inicial entre v&iacute;timas e monstros.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esta desintegra&ccedil;&atilde;o social e afetiva tamb&eacute;m &eacute; bastante problematizada no filme ingl&ecirc;s <i>I zombie: the chronicles of pain </i>(Andrew Parkinson, 1998), uma hist&oacute;ria melanc&oacute;lica sobre o conflito de um homem que lentamente se transforma em um zumbi e por isso precisa se isolar de todos, dentre eles, de sua namorada. No entanto, as cenas do in&iacute;cio do filme nos mostram um profundo desgaste no relacionamento dos dois, de modo que a transforma&ccedil;&atilde;o do namorado em zumbi e o seu afastamento for&ccedil;ado parecem evidenciar mais uma consequ&ecirc;ncia do que um incidente tr&aacute;gico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No entanto, se observamos a produ&ccedil;&atilde;o atual de hist&oacute;rias do g&ecirc;nero, podemos observar que a no&ccedil;&atilde;o de impedimento no relacionamento entre os zumbis e os humanos vem se diluindo, visando &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rias formas de relacionamento entre os dois tipos de personagens. No aclamado seriado franc&ecirc;s <i>Les revenants </i>(Canal+, 2012) vemos um grupo de pessoas que, inexplicavelmente, retornam &agrave; vida, e tentam reconstruir, ou reformular, seus la&ccedil;os afetivos com seus amigos, namorados e familiares. A s&eacute;rie norte-americana <i>Resurrection</i> (ABC, 2014) tamb&eacute;m possui uma trama semelhante. J&aacute; o seriado ingl&ecirc;s <i>In the flesh</i> (BBC Three, 2013) centra-se na hist&oacute;ria de Kieren Walker, um adolescente que comete suic&iacute;dio, e ap&oacute;s retornar dos mortos como um zumbi, consegue ser reinserido na sociedade gra&ccedil;as ao desenvolvimento de uma droga que reverte o estado de zumbifica&ccedil;&atilde;o, de modo que todos os zumbis passam a ser chamados de "sobreviventes da s&iacute;ndrome de falecimento parcial". Sua reinser&ccedil;&atilde;o, no entanto, gera tens&otilde;es e processos de intoler&acirc;ncia e exclus&atilde;o. O fato de Kierem ser gay - e este ser o motivo de seu suic&iacute;dio - tamb&eacute;m levanta, nessa s&eacute;rie, a quest&atilde;o espec&iacute;fica de identidade sexual. Outra produ&ccedil;&atilde;o que trata da quest&atilde;o da identidade sexual por meio da intera&ccedil;&atilde;o entre um zumbi homossexual e a sociedade &eacute; o filme<i> Otto; or, up with dead people</i> (2008) de Bruce La Bruce<sup>(</sup><a name="02b"></a><a href="#02a"><sup>2</sup></a><sup>)</sup>. Estas obras, ao sobreporem as tens&otilde;es disruptivas da morte e da sexualidade, potencializam imensamente a intensidade desta discuss&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outra forma de uso pol&iacute;tico da rela&ccedil;&atilde;o entre vivos e mortos &eacute; abordada em <i>Candidado maldito</i> (<i>Homecoming,</i> Joe Dante, 2005) epis&oacute;dio da s&eacute;rie televisiva <i>Masters of horror</i>(Showtime, 2005) no qual soldados mortos nos conflitos do Oriente M&eacute;dio ressuscitam na &eacute;poca das elei&ccedil;&otilde;es para evitar que George W. Bush se reeleja. O contato que se estabelece entre os dois tipos de personagens funciona como uma esp&eacute;cie de ensinamento, que &eacute; transmitido dos zumbis para os cidad&atilde;os norte-americanos, visando &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de uma identidade nacional mais positiva. Essa intera&ccedil;&atilde;o construtiva n&atilde;o ocorria em filmes de Romero, ou em filmes de cineastas inspirados pelo diretor, como em <i>Dead of night</i> (Bob Clark, 1972), por exemplo, um filme que conta a hist&oacute;ria de Andy, um soldado do Vietn&atilde; que &eacute; trazido de volta dos mortos por meio de ora&ccedil;&otilde;es de sua m&atilde;e, mas precisa se alimentar dos vivos para evitar que seu corpo se decomponha. Um filme, portanto, de contornos muito mais niilistas do que<i>Candidato maldito</i>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">J&aacute; no filme sat&iacute;rico canadense <i>Fido - o mascote</i> (Andrew Currie , 2006) os zumbis s&atilde;o reinseridos na sociedade ap&oacute;s o desenvolvimento de um colar que os tornam d&oacute;ceis, de modo que podem ser utilizados para as mais variadas fun&ccedil;&otilde;es. O filme conta a hist&oacute;ria do casal Bill e Helen, que adquire o zumbi Fido e este se torna o melhor amigo de seu filho Timmy. No decorrer do filme, a personalidade de Fido acaba se sobrepondo a de outros personagens, culminando em um final em que Helen e Timmy descobrem-se mais contentes ao lado do zumbi do que de Bill.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As tens&otilde;es relacionadas aos relacionamentos amorosos tamb&eacute;m est&atilde;o sendo tratadas em livros e filmes que adotam a perspectiva do zumbi em suas tramas. Para sanar a falta de densidade psicol&oacute;gica dos zumbis, condi&ccedil;&atilde;o que os tornariam protagonistas liter&aacute;rios fracos, os livros inserem complexidade cognitiva a esses monstros. Alguns livros est&atilde;o se tornando bastantes populares ao combinar em suas tramas zumbis com densidade psicol&oacute;gica e romance, como <i>Warm bodies</i> (2010) de Isaac Marion, adaptado para o cinema com o t&iacute;tulo em portugu&ecirc;s de<i> Meu namorado &eacute; um zumbi</i> ( <b>Jonathan Levine</b>, 2013); e o romance de humor negro<i> Breathers: a zombie's lament</i> (2009) de S.G. Browne, que atualmente tamb&eacute;m est&aacute; sendo adaptado para os cinemas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Certamente seria necess&aacute;rio desenvolver uma an&aacute;lise mais delongada das obras contempor&acirc;neas que apontamos, mas uma hip&oacute;tese inicial seria a de que esta dilui&ccedil;&atilde;o das barreiras comunicativas entre zumbis e humanos parece estar sendo utilizada em dois principais tipos de tramas: (1) hist&oacute;rias que exploram quest&otilde;es pol&iacute;ticas, como cr&iacute;ticas nacionais (<i>Candidato maldito</i>), e pol&iacute;ticas de identidade de minorias sociais (<i>In the flesh; Otto</i>); (2) e hist&oacute;rias que exploram quest&otilde;es afetivas (<i>Les revenants; Meu namorado &eacute; um zumbi</i>). Estes dois movimentos tamb&eacute;m podem ser encontrados de forma associada, como ocorre em muitos cap&iacute;tulos de <i>In the flesh</i>, que mesclam conte&uacute;do cr&iacute;tico pol&iacute;tico com temas e quest&otilde;es afetivas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Neste sentido, &eacute; interessante observar que os zumbis sempre parecem dizer muito sobre os vivos, mas, diante da impossibilidade destes escutarem o que eles tinham a dizer sobre a intoler&acirc;ncia com outras culturas (zumbi haitiano), ou dentro de sua pr&oacute;pria sociedade (zumbi romeriano), o zumbi contempor&acirc;neo parece ter aprendido a se comunicar melhor, para garantir que seu recado seja enfim entendido.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Notas</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="01a"></a><a href="#01b">1</a>- A principal refer&ecirc;ncia destes filmes sobre o zumbi haitiano &eacute; advinda da literatura de viagem de antrop&oacute;logos e exploradores que retratavam a regi&atilde;o e seus costumes pelo vi&eacute;s do ex&oacute;tico, como <i>The magic island </i>(1929) de William Seabrook, e <i>Tell my horse </i>(1938) de Zora Neale Hurston.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="02a"></a><a href="#02b">2</a>- Bruce la Bruce tamb&eacute;m lan&ccedil;ou em 2010 o controverso <i>L.A Zombie</i>. O filme tamb&eacute;m cont&eacute;m a tem&aacute;tica gay, mas &eacute; menos pol&iacute;tico e possui mais cenas de sexploitation do que <i>Otto</i>.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REFER&Ecirc;NCIAS</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Bishop, K. W." The sub-subaltern monster: imperialist hegemony and the cinematic voodoo zombie". In<i>: The Journal of American Culture, </i>vol.3,1 nº.2, 2008, p.141-152.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Deleuze, G. e Guattari, F. <i>O anti-&Eacute;dipo: capitalismo e esquizofrenia</i>. S&atilde;o Paulo: Editora 34, 2010.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Fanon, F. <i>The wretched of the earth</i>. New York: Grove Press, 1963.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Hurston, Z. N. <i>Tell my horse: voodoo and life in Haiti and Jamaica</i>. New York: HarperCollins, 2008.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Paffenroth, K. <i>Gospel of the living dead: George Romero's visions of hell on earth</i>. Texas: Baylor University Press, 2006.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Russell, J. <i>O livro dos mortos</i>. S&atilde;o Paulo: Leya Cult, 2010.     </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Seabrook, W. B. <i>The magic island</i>. New York: Paragon House, 1989.    </font></p>      ]]></body>
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