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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana"><B>ARTIGO</B></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana"><B>A estrutura da Terra e a teoria da deriva continental</B></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Leonardo Moledo e Esteban Magnani</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><B>Dil&uacute;vio em dificuldades</B> </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Era inevit&aacute;vel que em algum momento ap&oacute;s a revolu&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica do s&eacute;culo XVII, que imaginava o mundo como um imenso mecanismo, olhasse ao redor e se perguntasse pela origem da Terra, que havia deixado &#150; em apenas cem anos &#150; de ser um objeto &uacute;nico e central, quase teol&oacute;gico, para receber o <I>status</I> de um planeta como os demais, um peda&ccedil;o de mat&eacute;ria flutuando no espa&ccedil;o, digno de converter&#45;se em um apreci&aacute;vel objeto de estudo. Os homens da revolu&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica se esfor&ccedil;aram para compreender a superf&iacute;cie terrestre, perguntaram&#45;se sobre a natureza dos f&oacute;sseis e a origem das montanhas e tamb&eacute;m investigaram os fen&ocirc;menos e processos naturais que afetam a Terra, como os terremotos, os vulc&otilde;es ou a eros&atilde;o e refletiram sobre eles. Mas o aparato b&iacute;blico continuava impondo uma estrutura r&iacute;gida da qual era dif&iacute;cil safar&#45;se e dentro desse aparato aparecia o Dil&uacute;vio, considerado o principal acontecimento geol&oacute;gico. A persist&ecirc;ncia, ainda hoje, da palavra "antidiluviano" mostra a for&ccedil;a da tradi&ccedil;&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">No entanto, mesmo o Dil&uacute;vio tinha suas dificuldades: Thomas Burnett (1635&#45;1715), que publicou <I>A hist&oacute;ria sagrada da Terra</I> (1681&#45;9) e se guiava pela B&iacute;blia, fazia a sensata observa&ccedil;&atilde;o de que n&atilde;o havia maneira de o Dil&uacute;vio Universal haver coberto toda a Terra. A superf&iacute;cie do nosso planeta &eacute; de, aproximadamente, 432 milh&otilde;es de quil&ocirc;metros quadrados. Se chovesse <I>toda</I> a &aacute;gua contida na atmosfera (ao redor de um bilh&atilde;o e trezentos milh&otilde;es de litros, ou 13 mil quil&ocirc;metros c&uacute;bicos) s&oacute; alcan&ccedil;aria uma camada de menos de tr&ecirc;s cent&iacute;metros de espessura, que n&atilde;o apenas n&atilde;o cobriria os altos montes, como nem sequer os baixos pastos deste mundo. E, al&eacute;m do mais, aonde teria ido parar a &aacute;gua depois?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Como era imposs&iacute;vel para um religioso renunciar ao Dil&uacute;vio, Burnett chegou &agrave; conclus&atilde;o de que a &aacute;gua teria vindo de <I>baixo</I>. Imaginou que, no momento da Cria&ccedil;&atilde;o, a Terra era uma esfera perfeita e paradis&iacute;aca, coberta por uma crosta de mat&eacute;ria s&oacute;lida, lisa e sem trincas, com os oceanos fluindo por <I>debaixo</I> dela. A inunda&ccedil;&atilde;o teria ocorrido quando a crosta se partiu, e os fragmentos afundaram na &aacute;gua. Os peda&ccedil;os irregulares da carapa&ccedil;a original constitu&iacute;ram o relevo da Terra que observamos hoje. A ideia era ao mesmo tempo uma genialidade e um disparate, mas atraiu a aten&ccedil;&atilde;o at&eacute; do pr&oacute;prio Newton, muito propenso a divaga&ccedil;&otilde;es esot&eacute;ricas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Menos literal e muito mais sensato, Nicol&aacute;s Steno (1638&#45;1686), depois de analisar as rochas sedimentarias (material que se compacta com o passar do tempo) viu que est&atilde;o dispostas de forma horizontal. Assim determinou dep&oacute;sitos de distintas &eacute;pocas, diferenciando inclusive quais eram anteriores e quais eram posteriores ao Dil&uacute;vio. Tamb&eacute;m reconheceu a origem org&acirc;nica dos f&oacute;sseis, que muitos renascentistas viam como produto de for&ccedil;as misteriosas que operavam dentro das rochas e que consideravam meros objetos minerais. Sem renegar a B&iacute;blia deliberadamente, Steno admitiu que os f&oacute;sseis encontrados nas rochas eram testemunhas de algum epis&oacute;dio remoto que n&atilde;o aparecia nas escrituras.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Quem descartou inteiramente o Dil&uacute;vio foi o franc&ecirc;s Benoit de Maillet (1656&#45;1738), contempor&acirc;neo de Burnett, que tamb&eacute;m acreditava, como havia sugerido Descartes, que a Terra era um peda&ccedil;o desprendido do Sol e que se havia resfriado lentamente. Maillet foi muito audaz para sua &eacute;poca e calculou que a Terra tinha uns dois bilh&otilde;es de anos de antiguidade e que o mar vinha retrocedendo desde ent&atilde;o, como pareciam demonstrar as conchas marinhas encontradas nas montanhas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Foi o onipresente e ub&iacute;quo Robert Hooke (1635&#45;1703), quem p&ocirc;s um pouco de ordem cient&iacute;fica no interesse pela Terra. Contempor&acirc;neo de Newton, em sua obra<I>Discurso sobre os terremotos</I> arriscou uma explica&ccedil;&atilde;o sobre a origem org&acirc;nica dos f&oacute;sseis e viventes, depois de usar o microsc&oacute;pio para comparar a estrutura de bosques f&oacute;sseis e viventes: basicamente eram o mesmo, mas separados por muito tempo de diferen&ccedil;a. E mais ainda: aqueles f&oacute;sseis que apareciam nas montanhas indicavam que a superf&iacute;cie terrestre havia sofrido mudan&ccedil;as profundas...</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><B>O Dil&uacute;vio se transforma numa teoria cient&iacute;fica</B></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Hooke n&atilde;o desafiou a ideia tenaz do Dil&uacute;vio. Mas isso foi feito pelo seu importante contempor&acirc;neo, o fil&oacute;sofo e cientista Gottfried Leibniz (1646&#45;1716), que imaginou um bom substituto que tiraria todo o mundo dos apuros. Depois da Cria&ccedil;&atilde;o, sugeriu, todo o planeta esteve coberto por um imenso oceano que se havia retirado, pouco a pouco, para deixar atr&aacute;s a terra firme: esse oceano primitivo possu&iacute;a os minerais dissolvidos que, ao se depositarem, secaram, formaram as rochas, as montanhas e tudo o mais. Foi o substituto mais popular do Dil&uacute;vio Universal, pelo menos entre os ge&oacute;logos que necesitavam justificar, por exemplo, os restos de f&oacute;sseis submarinos que se encontravam nas montanhas. Quase todas as explica&ccedil;&otilde;es dadas sobre a origem da Terra durante o s&eacute;culo XVIII seguiam essa linha.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O mais importante te&oacute;rico da tese do oceano em retirada &#150; tamb&eacute;m chamada neptunismo (de Netuno, o deus romano do mar) &#150;, e que lhe deu o <I>status </I>de verdadeira teoria cient&iacute;fica, ao abord&aacute;&#45;la com todo rigor, foi Abraham Gottlob Werner (1749&#45;1817), professor da Escola de Minera&ccedil;&atilde;o de Freiburg, na Alemanha, para onde aflu&iacute;am estudantes de toda a Europa ansiosos para escut&aacute;&#45;lo. Werner observou que algumas rochas haviam sido formadas no mar e, generalizando apressadamente, atribuiu essa origem a <I>todas </I>as rochas. Ent&atilde;o, pensou Werner, quando o grande oceano primitivo se retirou, as rochas mais antigas ficaram expostas ao ar e sobre elas se acumularam rochas novas, produto da eros&atilde;o, que se instalaram em camadas sucessivas, formando as montanhas e todos os acidentes geol&oacute;gicos. Era uma teor&iacute;a muito s&eacute;ria e que explicava v&aacute;rios enigmas como haver f&oacute;sseis de animais marinos nas montanhas, ou que o mar B&aacute;ltico se tornasse cada vez menos profundo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">No entanto, a teoria tinha pontos muito fracos: para come&ccedil;ar, n&atilde;o deixava claro de onde havia sa&iacute;do o oceano original, nem aonde ia parar a &aacute;gua restante, &agrave; medida que o oceano retrocedia. E segundo &#150; e fatal &#150; n&atilde;o explicava, ou explicava mal, a exist&ecirc;ncia dos vulc&otilde;es. Werner n&atilde;o se comovia muito por esses argumentos: pensava que os vulc&otilde;es eram fen&ocirc;menos modernos e isolados e acreditava que as erup&ccedil;&otilde;es se deviam &agrave; combust&atilde;o subterr&acirc;nea de hulha, uma forma de carv&atilde;o de pedra.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Contudo, seus pr&oacute;prios disc&iacute;pulos, seguindo os conselhos de seu mestre, sa&iacute;ram a ver o mundo, e, pouco a pouco, demonstraram que havia vulc&otilde;es muito antigos, que muitas das montanhas atuais eram vulc&otilde;es extintos e, como se isso fosse pouco, comprovaram que a lava que sa&iacute;a deles n&atilde;o parecia ser muito diferente das rochas que, segundo Werner, se originavam apenas no mar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Apesar de tudo, a teoria resistia, apoiando&#45;se em sua capacidade de organizar os dados sobre os minerais, identificando cada forma&ccedil;&atilde;o com um per&iacute;odo particular na forma&ccedil;&atilde;o da crosta terrestre. Mas as dificuldades que se acumulavam fizeram com que nas primeiras d&eacute;cadas do s&eacute;culo XIX, a teoria do oceano que se retirava foi abandonada por completo, enquanto a aten&ccedil;&atilde;o se dirigia para outro extremo: o fogo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><B>Os plutonistas imaginam uma Terra que vem do fogo</B></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Neptuno foi destronado por Plut&atilde;o, o deus do mundo subterr&acirc;neo e rei dos infernos. Os plutonistas aceitavam a ideia, muito em voga, proposta por Descartes e utilizada por Buffon, de que a Terra era resultado de uma imensa massa de fogo que se resfriava paulatinamente. O centro da Terra continuava sendo para eles uma imensa fonte de calor e <I>dali</I> vinha o impulso geol&oacute;gico: a terra firme n&atilde;o era outra coisa sen&atilde;o rocha fundida que havia surgido a partir do mundo subterr&acirc;neo e depois se havia resfriado e endurecido. Para os plutonistas os vulc&otilde;es constitu&iacute;am a grande for&ccedil;a que mantinha as coisas em marcha.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O grande te&oacute;rico do plutonismo foi James Hutton (1726&#45; 1797), um escoc&ecirc;s do Iluminismo. Hutton, muito crente, pensava que a teoria do oceano em retirada implicava que a eros&atilde;o terminaria arrastrando toda a terra firme para o fundo do mar e n&atilde;o podia aceitar que o Criador fosse converter a superficie terrestre em um lugar inabit&aacute;vel. Calculava que teria que haver mecanismos de regenera&ccedil;&atilde;o e de eleva&ccedil;&atilde;o da crosta que compensassem o ciclo de eros&atilde;o. E, assim, imaginou um eterno balan&ccedil;o entre nascimento e eros&atilde;o, um ciclo no qual permanentemente surgiam novas rochas a partir do mundo subterr&acirc;neo, transformando o planeta numa m&aacute;quina em perp&eacute;tuo movimento, criada pela perfei&ccedil;&atilde;o divina. O resultado era "um sistema sempre renov&aacute;vel, sem sinais de come&ccedil;o e final". Em pouco tempo se demonstrou que certas rochas que segundo Werner s&oacute; podiam ter se originado no mar, eram de origen vulc&acirc;nica. O qu&iacute;mico e ge&oacute;logo James Hall (1761&#45;1832), amigo de Hutton, em um ataque de empirismo esquentou granito em altos fornos e comprovou que se solidificava a partir de um estado l&iacute;quido. A rocha provinha de um estado l&iacute;quido... como a lava. Toda rocha tinha sido produzida desta maneira? Para que essas hip&oacute;teses funcionassem, era necess&aacute;rio mudar as escalas de tempo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><B>As escalas de tempo mudam</B></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">No s&eacute;culo XVII o arcebispo James Ussher (1581&#150;1656), depois de uma conscienciosa an&aacute;lise das escrituras, &agrave; maneira de Burnett, determinou que a Terra havia sido criada em 22 de outubro de 4004 a.C. &agrave;s 6 da tarde. Ussher chegou a essa conclus&atilde;o estudando muito seriamente as gera&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o mencionadas na B&iacute;blia que, todavia, n&atilde;o se podia questionar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A teoria do oceano em retirada, ainda que um pouco for&ccedil;adamente, podia compatibilizar&#45;se mais ou menos com o relato b&iacute;blico; j&aacute; o modelo de Hutton, n&atilde;o. Quando em 1785 prop&ocirc;s sua hip&oacute;tese diante da Royal Society de Edimburgo, houve um esc&acirc;ndalo: foi acusado de ateu, de negar a evid&ecirc;ncia da Cria&ccedil;&atilde;o presente nas rochas e de ignorar a hist&oacute;ria do Dil&uacute;vio &#150; ou inunda&ccedil;&atilde;o &#150; catastr&oacute;fico. A for&ccedil;a da tradi&ccedil;&atilde;o &eacute; grande, mas o terreno b&iacute;blico era muito estreito para as novas ideias e evid&ecirc;ncias que n&atilde;o resistiram &agrave; idade do Iluminismo e &agrave; mirada newtoniana sobre o mundo.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">O primeiro que arriscou uma estimativa cient&iacute;fica da idade da Terra foi o naturalista franc&ecirc;s Georges&#45;Louis Leclerc Buffon (1707&#45;1788), que calculou o tempo que demoraria para se resfriar uma esfera do tamanho do nosso planeta at&eacute; alcan&ccedil;ar a temperatura atual. O resultado foi 74.832 anos. A cifra produziu uma como&ccedil;&atilde;o: era dif&iacute;cil acreditar que a Terra fosse t&atilde;o velha.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em 1830, Charles Lyell (1795&#45;1875), publicou sua <I>Geologia</I>; que deixava de lado qualquer interpreta&ccedil;&atilde;o religiosa do mundo para come&ccedil;ar a encar&aacute;&#45;lo com um olhar puramente mecanisista. Lyell constru&iacute;a a geologia a partir do princ&iacute;pio da uniformidade; ou seja, a ideia de que os processos de sedimenta&ccedil;&atilde;o, eros&atilde;o e mudan&ccedil;a geol&oacute;gica eram extremadamente lentos e que assim haviam sido sempre. Pensava que ao longo da hist&oacute;ria de nosso planeta os mecanismos de mudan&ccedil;a haviam sido muito gradativos, e, sobretudo, <I>os mesmos</I> que no presente: os rios cavam seus leitos atrav&eacute;s dos s&eacute;culos, as montanhas se elevam com paci&ecirc;ncia exasperante, por a&ccedil;&atilde;o do fogo a crosta eleva&#45;se sem que o notemos e uma cordilheira pode demorar milh&otilde;es de anos para formar&#45;se.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Milh&otilde;es de anos… parecia muito a dizer. Mas John Phillips (1800&#45;1874), um dos seguidores de Lyell, baseando&#45;se no estudo dos estratos rochosos sugeriu que a Terra tinha <I>96 milh&otilde;es de anos</I>. Em 1863 William Thomson (1824&#45;1607), mais conhecido como Lord Kelvin, retomando a ideia de Buffon da Terra resfriando&#45;se, obteve 98 milh&otilde;es… tempos bem&#45;vindos pelos darwinistas j&aacute; que eram os que requeria a Teoria da Evolu&ccedil;&atilde;o. A cifra que quase todo o s&eacute;culo XIX aceitou para a hist&oacute;ria da Terra foi algo em torno de cem milh&otilde;es de anos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Parecia muit&iacute;ssimo e, no entanto, era muito pouco. At&eacute; princ&iacute;pios do s&eacute;culo XX, quando entraram em a&ccedil;&atilde;o os muito mais precisos m&eacute;todos de data&ccedil;&atilde;o radiativa, o ingl&ecirc;s Arthur Holmes (1890&#45;1965) fez uma estimativa de 1,6 bilh&otilde;es de anos. J&aacute; era monstruoso, mas <I>continuava sendo pouco.</I> O mesmo Holmes mais tarde elevou o n&uacute;mero para 4,5 bilh&otilde;es de anos, uma cifra que se aceita hoje em dia…</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><B>Uma ideia vision&aacute;ria</B></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ainda que ao longo do s&eacute;culo XIX os sistemas de classifica&ccedil;&atilde;o das rochas houvessem se estabilizado e a hist&oacute;ria da Terra come&ccedil;asse a se consolidar com firmeza, faltava uma teoria geral que englobasse todos os fen&ocirc;menos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em 1912 o meteorologista e ge&oacute;logo Alfred Wegener (1880&#45;1930), prop&ocirc;s a ideia de que os continentes em algum momento estiveram comprimidos em um s&oacute; protocontinente que chamou de Pangeia ("todas as terras") e que ao longo do tempo se havia partido, formando os continentes atuais, que se haviam "movido" at&eacute; o lugar que ocupam agora e que, em princ&iacute;pio, continuavam movendo&#45;se. Wegener partia do fato desconcertante de que as costas da &Aacute;frica e da Am&eacute;rica do Sul parecem encaixar&#45;se como as pe&ccedil;as separadas de um quebra&#45;cabe&ccedil;as e pensava que os continentes, formados por rochas mais leves, flutuavam sobre a camada mais profunda e pesada do leito oce&acirc;nico, sobre o qual se deslocavam. Calculava que Pangeia havia permanecido intacta at&eacute; ao redor de 300 milh&otilde;es de anos, quando come&ccedil;ou a romper&#45;se e separar&#45;se.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A biologia trazia informa&ccedil;&atilde;o de apoio: f&oacute;sseis de animais mais ou menos parecidos e do mesmo per&iacute;odo podiam ser encontrados tanto na Am&eacute;rica do Sul como na &Aacute;frica e se observava que depois, essas linhas haviam divergido, dando testemunho de algum tipo de separa&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m disso, a hip&oacute;tese da deriva tamb&eacute;m fornecia uma explica&ccedil;&atilde;o interessante para a forma&ccedil;&atilde;o das montanhas: se os continentes se moviam at&eacute; encontrar um limite que lhes oferecesse resist&ecirc;ncia, sua superficie dobrar&#45;se&#45;ia, formando as cordilheiras, da mesma maneira que se dobra uma toalha que se desliza sobre uma superf&iacute;cie e encontra um obst&aacute;culo. Wegener sugeriu tamb&eacute;m que a &Iacute;ndia havia se deslocado em dire&ccedil;&atilde;o ao interior do continente asi&aacute;tico formando, assim, o Himalaia.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="3" face="Verdana"><B>Mas n&atilde;o. A ideia tem uma falha fundamental</B></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A hip&oacute;tese da deriva continental teve pouco &ecirc;xito e em geral n&atilde;o foi muito bem recebida pela comunidade geol&oacute;gica. A verdade &eacute; que tinha uma grande falha: Wegener era incapaz de propor um mecanismo que explicasse os motivos desta deriva e a forma pela qual os continentes podiam vencer o enorme atrito que implicava arrastar&#45;se sobre o leito mar&iacute;timo, ainda que tenha ensaiado algumas posibilidades: a rota&ccedil;&atilde;o terrestre geraria uma for&ccedil;a centr&iacute;fuga em dire&ccedil;&atilde;o ao Equador; Pangeia havia&#45;se originado perto do Polo Sul e essa for&ccedil;a centr&iacute;fuga havia producido uma quebra no protocontinente. No entanto, o c&aacute;lculo das for&ccedil;as geradas pela rota&ccedil;&atilde;o terrestre mostrou que eram muito leves para provocar semelhantes deslocamentos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">E assim, a coisa n&atilde;o andava.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><B>Aparece uma possibilidade: as placas tect&oacute;nicas</B></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">No entanto, em 1929, mais ou menos na &eacute;poca em que Wegener deixava de ser levado em conta e um ano antes de sua norte, Arthur Holmes (1890&#45;1965) trabalhou uma hip&oacute;tese diferente: abaixo da crosta, existia um mar de rocha fundida (o manto) e dentro do manto, as zonas mais profundas e quentes subiam em forma de correntes de lava, elevando&#45;se desde as profundezas at&eacute; resfriar&#45;se e voltar a cair, formando verdadeiros jatos de rocha ardentes que sobem e depois, baixam. O processo de resfriamento e aquecimento repetido em muitas ocasi&otilde;es tem como resultado uma corrente suficientemente forte para mover os continentes.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n120/a10img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">Holmes sugeriu que essa convec&ccedil;&atilde;o t&eacute;rmica funcionava como uma correia transportadora e que a press&atilde;o ascendente podia romper um continente em dire&ccedil;&otilde;es opostas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Fazia sentido, mas os ge&oacute;logos acreditavam firmemente em um interior da Terra est&aacute;tico, e a proposta de Holmes rompia drasticamente com essa convic&ccedil;&atilde;o, sem suficiente evid&ecirc;ncia concreta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Por&eacute;m, depois da Segunda Guerra Mundial, intensificou&#45;se o estudo do leito oce&acirc;nico e do magnetismo remanescente que o campo magn&eacute;tico da Terra deixava nas rochas. Por um lado, p&ocirc;de&#45;se observar que os padr&otilde;es magn&eacute;ticos impressos nas rochas, sugeriam que a convec&ccedil;&atilde;o efetivamente podia estar funcionando. Semelhantes descobertas (e outras) levaram Harry Hess (1906&#45;1969) e Robert Dietz (1914&#45;1995) a publicar a hip&oacute;tese baseada nas correntes de convec&ccedil;&atilde;o do manto, conhecida como sea floor spreading, algo como "dispers&atilde;o do leito mar&iacute;timo". Era basicamente o mesmo que havia proposto Holmes mais ou menos 30 anos antes, mas agora havia muito mais evid&ecirc;ncia para apoiar a ideia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em 1967 Dan McKenzie (n. 1942) utilizou pela primeira vez o termo "placas" em um artigo publicado na revista Nature para descrever esses blocos maci&ccedil;os que "flutuavam" sobre o manto. Esse foi o acontecimento que faltava &agrave; teoria, que pouco a pouco passou a ser aceita no mundo cient&iacute;fico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O funcionamento desse modelo est&aacute; fortemente estabelecido na atualidade, foi comprovado e &eacute; relativamente simples. A crosta est&aacute; dividida ao redor de uma d&uacute;zia de placas, que podem ter tanto continentes vis&iacute;veis na superf&iacute;cie como leitos mar&iacute;timos e que se tocam uns aos outros. As placas flutuam sobre o "manto", uma rocha fundida que quando sai pelos vulc&otilde;es se chama magma ou lava. Dentro do manto se produzem correntes de rocha que arrastam as placas da crosta at&eacute; que se choquem e come&ccedil;am a sobrepor&#45;se, como explicava Wegener. A que fica por baixo se esquenta, funde&#45;se e mistura&#45;se com o manto. Enquanto isso, no fundo dos oceanos surgem novos peda&ccedil;os de manto resfriado, ou seja, de rocha. E por que surgem rochas novas? Quando uma placa se desloca distancia&#45;se de outra produzindo uma fisura. Por ali aflora o manto em forma de magma e vai se formando nova crosta. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Assim se explicam os oceanos e as montanhas. O Oceano Atl&acirc;ntico se formou durante os &uacute;ltimos milh&otilde;es de anos porque as placas da Am&eacute;rica e &Aacute;frica se separam uns dois cent&iacute;metros por ano. E Wegener tinha raz&atilde;o: o Himalaia, a cadeia montanhosa mais alta do mundo, &eacute; consequ&ecirc;ncia do choque da placa indo&#45;australiana que empurra a placa euro&#45;asi&aacute;tica. O mesmo ocorre com a Cordilheira dos Andes, que &eacute; consequ&ecirc;ncia do choque entre as placas sul&#45;americana e a chamada placa de Nazca.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Era o come&ccedil;o da tect&ocirc;nica de placas que, como toda boa teoria, permitiu explicar e prever muitos fen&ocirc;menos que viriam e que, por sua vez, permitiram lapid&aacute;&#45;la e melhor&aacute;&#45;la.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n120/a10img02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana"><i>Leonardo Moledo &eacute; editor do jornal    </i>P&aacute;gina/12 <i>e de seu suplemento "Futuro", &eacute; tamb&eacute;m    profesor da Universidade de Buenos Aires e da Universidade de Quilmes, na Argentina.    Esteban Magnani &eacute; jornalista e docente da Universidade de Buenos Aires.    </i></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">*<i>Este artigo foi extra&iacute;do e resumido    de</i> Dez teorias que comoveram o mundo, (<i>Editora Unicamp, 2009</i>), <i>desses    mesmos autores</i>.</font></p>      ]]></body>

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