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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>O flerte entre    a astronomia e a ficção científica</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>André Gradvohl</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A astronomia é    uma das mais antigas entre as ciências naturais. Desde que os egípcios começaram    a utilizar o movimento do Sol para contar o tempo &#150; em 750 a.C. &#150; até as últimas    descobertas com os grandes telescópios, os humanos têm fascínio por essa ciência.    Esse encanto vai além do que é concreto, visível e adentra no imaginário, isto    é, na ficção. A ficção científica difere da fantasia, porque alguns de seus    elementos imaginários se baseiam em postulados científicos fundamentados nas    leis da natureza. Ao ser questionado sobre a relação entre ficção científica    e astronomia, Andrew Fraknoi, chefe do Departamento de Astronomia da Faculdade    Foothill, na Califórnia, e consultor educacional da Sociedade Astronômica do    Pacífico diz: "A ficção científica amplia nosso pensamento, torna bem vindas    novas percepções. A astronomia é a ciência mais aberta a tais ideias". </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">E é também fonte    para a criação. "A astronomia tem uma grande influência na ficção científica.    Muitos dos autores da chamada '<i>hard science fiction</i>' &#150; onde '<i>hard</i>'    significa com forte embasamento científico &#150; mantêm-se em contato com a astronomia    e tentam retratar as novas ideias", complementa Fraknoi. Entre os autores de    ficção científica, aqueles que mais estão em contato com as grandes questões    da astronomia atual, segundo Fraknoi, são Alastair Reynolds, Jack McDevitt e    Geoffrey Landis. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Entusiasta da área,    Andrew Fraknoi compilou uma lista de histórias curtas de ficção científica "<i>hard</i>"    que abordam os principais temas da astronomia atual. Os tópicos variam desde    arqueoastronomia (que estuda a astronomia de povos antigos), passando pela busca    por inteligência extraterrestre (como o programa Search for Extraterrestrial    Intelligence), até super novas e telescópios. A lista, em inglês, está disponível    no <a href="http://www.astrosociety.org/education/resources/scifi.html" target="_blank">site</a>    da Sociedade Astronômica do Pacífico.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Primeiras relações    com a literatura </b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os laços entre    astronomia e ficção científica datam do século XVII. Em 1634, o filho de Johannes    Kepler, Ludwig Kepler, após a morte do pai, publica o manuscrito <i>Sonminum    </i>(Sonho), no qual um aluno do astrônomo Tycho Brahe é transportado para a    Lua por forças ocultas. No manuscrito, Kepler apresenta uma descrição imaginativa    detalhada de como a Terra pode parecer quando vista da Lua. Esse é considerado    o primeiro tratado científico sério sobre astronomia lunar.<i>&nbsp;</i>Ainda    nessa época, por volta de 1638, Francis Godwin escreveu o conto <i>The man in    the Moon </i>(O homem na Lua). Nessa e em outras obras, Godwin se declara partidário    do sistema cartesiano e adota os princípios da lei da gravitação, ao supor que    a massa inercial decresce com a distância da Terra.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No mesmo século,    usando os argumentos de Godwin, Cyrano de Bergerac escreveu sua obra <i>L'autre    monde </i>(O outro mundo) que se dividia em duas partes: <i>Histoire comique    des états et empires de la Lune </i>(História dos estados e impérios da Lua,    1657) e <i>Histoire comique des états et empires du Soleil </i>(História dos    estados e impérios do Sol, 1662). Os contos, publicados por Henri Le Bret após    a morte de Cyrano, relatam as aventuras de Dyrcona, que, na primeira parte,    ao pousar na Lua, descobre que os habitantes de lá veem a Terra como uma lua    sem vida. Na segunda parte, ao voltar da viagem à Lua, Dyrcona é acusado de    bruxaria e preso, mas escapa e voa em direção ao Sol. Apesar de ter elementos    fantasiosos, essa obra faz com que Cyrano de Bergerac seja considerado por Arthur    C. Clarke, consagrado autor de ficção científica, como o primeiro a usar em    suas obras foguetes para viagens espaciais. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align=center><img src="/img/revistas/cci/n112/a05fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Aquelas obras do    século XVII motivaram várias outras que reforçam as relações entre ficção científica    e as grandes questões da astronomia. Entre elas, pode-se citar <i>Micromégas</i>,    de Voltaire, publicado em 1752; <i>Da Terra à Lua,</i> de Júlio Verne, publicado    em 1865; <i>A guerra dos mundos </i>(1898) e <i>O primeiro homem na Lua </i>(1901),    de H. G. Wells, entre outros clássicos que permearam o século XX e motivaram    muitos dos avanços científicos nessa época. Dos principais ficcionistas, nos    últimos tempos, destacam-se Arthur Clarke &#150; autor e um dos idealizadores dos    satélites geoestacionários &#150; e Carl Segan &#150; astrônomo e autor do livro <i>Contact    </i>(1985), em que relata a busca por inteligência extraterrestre através da    inspeção de sinais de rádio, ao mesmo tempo em que discute a relação entre ciência    e fé.<b>&nbsp; </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Astronomia na    literatura de ficção nacional </b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Não é apenas a    literatura estrangeira que tem laços com a astronomia. De acordo com Flavia    Mara de Macedo, doutora em literatura comparada pela Universidade de Sorbonne,    o brasileiro Monteiro Lobato também entrou nessa seara, sob influência de Júlio    Verne. No livro <i>Serões de Dona Benta,</i> publicado em 1935, o personagem    Pedrinho imagina uma viagem à Lua. Também no livro <i>Viagem ao Céu,</i> publicado    três anos antes, Lobato narra flutuações na Via Láctea, encontro com marcianos    e outras incursões na área da astronomia. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Segundo Roberto    de Sousa Causo &#150; escritor brasileiro de ficção científica e editor do livro    <i>Os melhores contos brasileiros de ficção científica </i>&#150;, outros autores    também merecem destaque no cenário nacional. Entre eles, Causo indica Jorge    Luiz Calife, um jornalista científico, considerado pai da ficção científica    "<i>hard</i>" no Brasil e autor da trilogia <i>Padrões de Contato,</i> relançada    neste ano em um único volume pela editora Devir. "Calife foi o sujeito que tirou    Arthur C. Clarke da aposentadoria, resultando no romance <i>2010: uma odisséia    no espaço II,</i> uma continuação do clássico <i>2001: uma odisséia no espaço</i>",    ressalta Causo. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Além de Jorge Luiz    Calife, Causo cita o astrofísico Gerson Lodi-Ribeiro, o jornalista Clinton Davisson    Fialho e o doutor em letras Nelson de Oliveira como escritores importantes na    ficção científica brasileira contemporânea. Mas esses autores brasileiros não    gozam do mesmo status que Segan e Clarke no meio acadêmico. "Como a ficção científica    brasileira é um fenômeno intermitente dentro da literatura nacional, só agora    ganhando algum impulso, eu imagino que os nossos astrônomos nem sabem que ela    existe &#150; com exceção talvez de Ronaldo de Freitas Mourão, que já resenhou o    gênero para os jornais", enfatiza.<b>&nbsp; </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Sétima e nona    artes e a astronomia </b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Quem acompanha    a indústria do entretenimento sabe que não é só na literatura que a astronomia    e a ficção científica flertam. O cinema e as histórias em quadrinhos &#150; nomeados,    respectivamente, de sétima e nona artes, após o manifesto de Ricciotto Canudo,    em 1923 &#150; também são fontes de inspiração da astronomia através da ficção científica.    Antes de 1995, viagens a planetas fora do sistema solar eram apenas frutos da    imaginação retratados em filmes como a trilogia <i>Guerra nas estrelas </i>(George    Lucas, 1977) ou <i>Jornada nas estrelas </i>(Robert Wise, 1979). Hoje, essas    possibilidades são estudadas com muita seriedade por agências espaciais. Outros    temas como viagens estrelares utilizando motores baseados na fusão nuclear também    são temas abordados com frequência no cinema e que são pautas de pesquisas.    </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nas histórias em    quadrinhos, a obra pioneira foi <i>As aventuras de Buck Rogers,</i> publicada    por Philip Francis Nolan em agosto de 1928. Pouco tempo depois, em janeiro de    1934, Alex Raymond publica <i>Flash Gordon,</i> onde as questões dos foguetes    para viagens interplanetárias também são abordadas. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n112/a05fig02.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>A ficção científica    como estratégia para o ensino da astronomia </b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Além da inspiração    mútua, a ficção científica também é útil no ensino da astronomia. "A ficção    científica também ajuda na divulgação das descobertas e ideias da astronomia,    de maneira que o público leigo pode apreciar", sustenta Fraknoi. O professor    da USP e um dos colaboradores do portal <a href="http://www.cienciamao.if.usp.br/aliens" target="_blank">Aliens    da Ciência</a> (Arte e Literatura no Ensino da Ciência), Luis Paulo de Carvalho    Piassi, corrobora as afirmações do professor Fraknoi. "A ficção científica pode    desempenhar um papel no ensino de astronomia e há diversos exemplos desse uso.    Particularmente, os materiais didáticos da nova proposta curricular do estado    de São Paulo fazem uso da ficção para abordar conceitos astronômicos", destaca    Piassi. Como exemplo do ensino de astronomia através da ficção científica, Piassi    descreve a utilização do romance <i>Os náufragos de Selene,</i> de Arthur Clarke,    para explicar a força da gravidade. No romance, um grupo de turistas em viagem    à Lua em um ônibus espacial sofre um naufrágio em um depósito de poeira lunar    (cratera). Os problemas decorrentes da menor força da gravidade na Lua são os    argumentos para a explicação desse fenômeno físico.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"O aspecto interessante    é que a ficção permite voos pela imaginação que uma simples descrição não é    capaz de proporcionar. Além disso, a ficção especula também sobre as questões    sociais e políticas que podem advir do desenvolvimento do conhecimento científico,    coisa que raramente outros materiais didáticos enfocam", finaliza Piassi. Um    bom modelo de reflexão sobre questões sociais e políticas feitas pela ficção    são os debates que se apresentam no livro <i>Contact,</i> de Carl Segan. Nesse    romance, as relações entre ciência e fé, o impacto da divulgação de informações    científicas ao público leigo e as questões entre financiamento público e privado    da ciência são trazidas à baila. Agora, a nós, resta uma pergunta: se muito    do que a ficção científica imaginou no passado hoje é realidade, o que será    que o futuro da astronomia nos reserva?</font></p>      ]]></body>

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