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</front><body><![CDATA[ <p align="center"></p>     <p align=right><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>A cosmologia    numa fronteira escura </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Victoria Flório    </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Questões como:    "Qual a origem do homem?" e "O que é &nbsp;o universo?"    fazem parte do imaginário popular e nos intrigam desde a Antiguidade, quando    tentativas de respondê-las estiveram intimamente ligadas a aspectos místicos    e religiosos do pensamento humano. A problemática é atualmente tratada, no escopo    da pesquisa científica, pela cosmologia. Há muito encarada como um conjunto    de questões mais filosóficas ou religiosas, à margem das outras disciplinas    acadêmicas, a cosmologia se define&nbsp;como o estudo do universo &#150; cuja concepção    se alterou bastante nos&nbsp;últimos quatro séculos quando a Terra deixou de    ser considerada o centro do universo e o Sol saiu do centro da galáxia. Nos    últimos cem anos os avanços nesse campo foram&nbsp;enormes&nbsp;e&nbsp;se tornaram&nbsp;possíveis    graças à evolução&nbsp;da computação, da física teórica&nbsp;e da tecnologia    observacional da astronomia&nbsp;&#150;&nbsp;como&nbsp;os grandes telescópios que    possibilitam enxergar além dos limites do&nbsp;sistema&nbsp;solar e da&nbsp;galáxia.&nbsp;Embora    a busca de respostas para as questões já colocadas, mudou de foco, as inquietações    se sofisticaram e surgiram janelas teóricas e filosóficas na cosmologia. A principal    delas tenta responder a: O que está causando a aceleração cósmica observada?    O que é energia escura? E qual a natureza da matéria escura? </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n112/a04fig01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Áreas diferentes    têm influência sobre a cosmologia e segundo&nbsp;Raul Abramo,&nbsp;professor    do Instituto de Física da U niversidade de S ão P aulo (USP), "tanto a&nbsp;cosmologia    implica resultados novos para a física, quanto vice-versa" e completa "    O dia-a-dia da c iência parece uma coleção de resultados técnicos em áreas especializadas,    mas qualquer (bom) cientista é também, no fundo, um generalista, já que todas    as partes da c iência estão em contínuo contato umas com as outras. Isso significa    que áreas diferentes têm influência&nbsp;umas sobre as outras &#150; e na c osmologia    não é diferente ". &nbsp;&nbsp;Legitimada pelo status conferido a atividade    científica, a cosmologia está obrigando os astrônomos a reverem&nbsp;algumas    posições&nbsp;a respeito da constituição do cosmo e da posição que nele ocupamos.&nbsp;Por    exemplo, só no início do século XX&nbsp;foi possível compreender que o universo    é constituído por conjuntos de bilhões de galáxias que parecem estar se distanciando    umas das outras. Mesmo com o sucesso de seu modelo padrão &#150; que está basicamente    ligado à ideia da expansão do Big Bang &#150; existem questões inexplicadas,    janelas, que levam a cenários desconhecidos ou mesmo tenebrosos dentro das teorias.    Nos últimos anos, algumas janelas observacionais se abriram no desconhecido    campo da matéria escura. Busca-se encontrar evidências indiretas que apontem    para sua existência e revolucionar nosso conhecimento sobre sua natureza, o    que também ocorre para a energia escura, que se associa aos modelos de expansão.    Não restam dúvidas sobre a importância&nbsp;da cosmologia e dessas componentes    misteriosas de seus modelos para astrônomos, físicos e mesmo para o público    leigo. A natureza dessas questões e as controvérsias envolvidas ainda deixam    a cosmologia cercada por especulações filosóficas&nbsp;a respeito da interação    entre o&nbsp;mundo&nbsp;que observamos e&nbsp;a formulação de explicações racionais    para nossa própria existência e do mesmo.&nbsp; </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>A matéria no    universo </b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em <i>O universo    é um lugar estranho? </i>,&nbsp;Frank Wilczek&nbsp;&#150;&nbsp;o&nbsp;ganhador do    prêmio Nobel de física de 2004&nbsp;&#150;&nbsp;descreve o modelo padrão da cosmologia    como um "modelo híbrido" que envolve a expansão do universo e algumas hipóteses    sobre flutuações da radiação cósmica de fundo, dois de seus pilares.&nbsp;A    expansão do&nbsp;universo se deu a partir de uma explosão primordial, pelo modelo    do Big Bang. Para o autor, o&nbsp;sucesso desse modelo se deve entre outros    pela explicação&nbsp;de fenômenos como o&nbsp; <i>redshift </i>&nbsp;das galáxias    &#150; Edwin Hubble detectou,&nbsp;em 1927,&nbsp;que as galáxias estão se afastando    umas das outras com velocidade crescente, o que faz com que detectemos um deslocamento    para o vermelho nas medidas de&nbsp;suas velocidades&nbsp;&#150; e a existência de    uma radiação cósmica de fundo (RCF)&nbsp;&nbsp;&#150; detectada em 1964 por Arno    Penzias e Robert Wilson, agraciados com&nbsp;o Nobel de física em 1978.&nbsp;    No entanto, o modelo padrão da cosmologia não é um consenso, ainda não é possível    afirmar a existência de componentes como matéria e energia escura, por exemplo.    </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n112/a04fig02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Quando se fala    em energia e matéria escura&nbsp;a impressão que se tem é de que tratamos do    desconhecido, e em cosmologia esse é mais ou menos o sentimento vigente entre    os cientistas. Frank Wilczek explica que, pelo que sabemos, o&nbsp;universo    é constituído por três tipos de "substância": matéria comum (ou matéria bariônica,    com 3% da densidade total do universo); matéria escura (com cerca de 30% da    densidade total) e energia escura (os outros 67% restantes da densidade total).    Sobre a matéria comum&nbsp;sabemos bastante e podemos detectá-la&nbsp;a grandes    distâncias por métodos diferentes e conhecidos. Já sobre&nbsp;matéria e energia&nbsp;escura    não sabemos muita coisa&nbsp;&#150; apesar do nome, matéria e energia escura são    transparentes aos olhos humanos e, por isso, só são detectadas a partir de métodos    indiretos. Wilczek não desanima: "Felizmente, nossa quase-total ignorância a    respeito da natureza da maior quantidade de massa no&nbsp;universo não nos impede    de traçar modelos para sua evolução".&nbsp; </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Algumas flutuações    da RCF estão ajudando os cosmólogos a medir parâmetros básicos do modelo padrão    incluindo densidade e a composição do universo. Essas medidas têm sido feitas    por uma &nbsp;sonda espacial lançada pela N asa em 2001, a WMAP (Wilkinson Microwave    Anisotropy Probe). Ela é capaz de determinar algumas propriedades e interações    da matéria não-bariônica (matéria escura), porque os detalhes das interações    afetam a RCF. Segundo o professor Abramo, "as anisotropias da radiação de fundo    são a observação mais limpa e mais direta que aponta para um cenário em que    o nosso espaço é simples, como um espaço euclidiano de três dimensões". De acordo    com os resultados expostos do site da <a href="http://map.gsfc.nasa.gov/" target="_blank">WMAP</a>,    o universo é chato, com uma densidade de cerca de seis átomos de hidrogênio    por metro cúbico.&nbsp;</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Uma das&nbsp;evidências    observacionais&nbsp;da matéria escura é a detecção da curva de rotação galáctica,    técnica a partir da qual é possível "pesar as galáxias". &nbsp;Elas&nbsp;permitem    saber&nbsp;se a velocidade&nbsp;com que as&nbsp;estrelas&nbsp;giram&nbsp;em&nbsp;torno&nbsp;do    centro da galáxia&nbsp;estão de acordo com a quantidade de matéria nela existente.&nbsp;A    velocidade&nbsp;observada&nbsp;do Sol, por exemplo, é muito maior do&nbsp;que    deveria ser caso houvesse&nbsp;apenas matéria comum. Deve existir então uma    quantidade maior de massa que a observada, que faz com que a velocidade do Sol    seja maior do que a prevista teoricamente. Essa matéria ficou conhecida como    "matéria escura". Resta saber como&nbsp;ela se distribui no&nbsp;universo    algo impossível de se fazer diretamente, com observações já que ela não interage    gravitacionalmente, como a matéria comum. Os candidatos mais aceitos a matéria    escura atualmente, segundo o time científico da WMAP, são anãs marrons, buracos    negros supermassivos ou matéria não-bariônica, propostas dos fisicos de partículas.&nbsp;    </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Energia escura:    uma constante cosmológica? </b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Quanto à energia    escura, conhecida como matéria exótica,&nbsp;tem sido apontada como responsável    pela expansão do&nbsp;universo (aquela observada no <i>redshift </i>das galáxias).    Se apenas a matéria comum existisse no universo (considerando que a matéria    escura não interage gravitacionalmente) teríamos uma desaceleração na expansão,    uma vez que a gravidade é atrativa.&nbsp;O astrônomo da USP explica que a&nbsp;expansão    pode ter passado por três estágios bem definidos sendo o último deles uma fase    de&nbsp;expansão acelerada . " M as&nbsp;não há controvérsia porque&nbsp;ninguém    sabe direito o que causa essa aceleração&nbsp;&#150;&nbsp;apenas&nbsp;há um consenso    de chamar a causa dessa aceleração de&nbsp;energia escura" , enfatiza Abramo    .&nbsp;&nbsp;&nbsp; </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os cosmólogos têm    que ser criativos pensando em cenários alternativos que lhes ofereçam uma saída    para os aparentes "becos sem saída" que se apresentam na cosmologia. Além desses    modelos da expansão existem algumas hipóteses tradicionais de que a força da    gravidade&nbsp;não seja muito bem descrita pela Teoria da Relatividade&nbsp;Geral    de Einstein&nbsp;&#150;&nbsp;os&nbsp;chamados modelos de "gravidade modificada".    Raul Abramo lembrou que "há modelos em que nem há&nbsp;matéria exótica, nem    a gravidade é&nbsp;modificada, mas sim que de alguma maneira a não-homogeneidade    do&nbsp;universo causa, para nós, a aparência de uma expansão&nbsp;acelerada".&nbsp;Ele    acredita que a relevância dessa última hipótese, vem perdendo força porque problemas    relacionados a ela foram levantados e não muito bem respondidos.&nbsp;Mas como    detectar a causa da expansão acelerada do universo? </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"Se a causa for    um tipo exótico de matéria, então ela vai deixar rastros, seja nas estruturas    cósmicas,&nbsp;seja em experimentos de física de partículas (pelo menos&nbsp;em    princípio). Se, por outro lado, a causa for uma&nbsp;modificação das leis da    gravidade, isso pode ser testado&nbsp;por experimentos que avaliam a relatividade    geral, tanto&nbsp;aqui na Terra, quanto por satélites científicos e&nbsp;também    por observações astronômicas" responde Abramo. &nbsp;Para ele,&nbsp; existe    um cenário tenebroso, que é a situação em que a expansão acelerada é causada    pela "constante cosmológica" de Einstein &#150; um termo acrescentado pelo    físico em 1917 às equações da relatividade geral e que foi considerado anos    mais tarde como "o maior erro de sua carreira". "Se ela de fato for a culpada    estaremos numa saia justa infernal, porque a única evidência direta da constante    cosmológica (pelo menos que se saiba, até o momento) é essa expansão acelerada".&nbsp;Todas    as outras hipóteses, matéria exótica e leis de gravidade diferentes das da &nbsp;    relatividade &nbsp; geral são eliminadas nesse caso: "Não será satisfatório    para ninguém, mas temos que estar preparados para esse &nbsp; cenário pessimista!",    &nbsp; desabafa . &nbsp; </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A constante cosmológica,    no entanto, sobrevive. M uitos cosmólogos acreditam que para explicar a taxa    de expansão do universo é necessário revivê-la. Pelo menos é o que alega Donald    Goldsmith, astrofísico e autor de <i>Einstein's greatest blunder? The cosmological    constant and other fudge factors in the physics of the universe </i>( Harvard    University Press, 1997 ). Algumas observações das flutuações da RCF, consistentes    com a distribuição em larga escala de galáxias e aglomerados, obtidas pelo WMAP,    sugerem que a constante cosmológica seja acrescentada ao modelo padrão do Big    Bang. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Experimentos    atuais </b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nos últimos 40    anos, a cosmologia cresceu progressivamente, aumentou o número de pesquisadores    e também os investimentos destinados para pesquisas (leia reportagens sobre    <a href="http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&amp;edicao=50&amp;id=631" target="_blank">investimentos</a>    e <a href="http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&amp;edicao=50&amp;id=629" target="_blank">educação</a>    ) . Junto com a astrofísica, entrou para o grupo da ciência de grande porte.    A maior fonte de recursos para pesquisas são as agências governamentais &#150; nos    EUA a Fundação Nacional da Ciênc i a e a Agência Espacial Americana (Nasa).    </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align=center><img src="/img/revistas/cci/n112/a04fig03.jpg" usemap="#Map" border="0">    <map name="Map">      <area shape="rect" coords="146,636,309,673" href="http://www.sdss.org" target="_blank">   </map> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Alguns dos experimentos    mais recentes de mapeamento do universo destinam-se a identificar aglomerados    de galáxias. Mas o que aglomerados de galáxias tem a ver com energia escura?    Como a energia escura inibe a formação de aglomerados de galáxias &#150; por levar    o universo a se expandir mais rápido &#150; o número de aglomerados massivos em diferentes    períodos da história do universo expressa a luta entre gravidade e energia escura.    Dentre esses experimentos estão o Sloan Digital Sky Survey (SDSS) &#150; desde 2001    obteve imagens de mais de 930 mil galáxias e mantém projeto de busca de supernovas    (são estrelas que explodem e que podem por isso, brilhar tanto quanto uma galáxia    inteira. Elas são uma maneira de diagnosticar a taxa de expansão nos últimos    bilhões de anos); o Large Synoptic Survey Telescope (LSST) &#150; com um grande ganho    de luz conseguirá detectar objetos muito fracos com pouco tempo de exposição    e pretende fazer um mapa 3D do universo que será usado para localizar matéria    escura e caracterizar propriedades da energia escura &#150; e o South Pole Telescope    (SPT) &#150; cujo espelho primário tem 10 metros de diâmetro. Quanto às ferramentas    computacionais, redes de computadores, são capazes de simulações gigantescas,    como o maior supercomputador que existe no momento dedicado a fazer simulações    e cosmologia, localizado em Barcelona, o MareNostrum NCP (Numerical Cosmologic    Project). </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As questões relacionadas    à matéria e energia escura se ligam de maneira mais fundamental ao bom funcionamento    do modelo cosmológico padrão. De uma forma mais técnica, elas são a retomada    das antigas questões enunciadas no início da reportagem "O que é o universo    e qual nosso lugar nele?". Em <i>Memórias de Zeus </i>( Charles Scribner's Sons,    1964 ), de Maurice Druon, a deusa Mnemosyn declarou que "seríamos melhores    espelhos do universo se nos preocupássemos menos com a nossa própria imagem".    Wilczek acredita que "nós não precisaremos somente de perguntas ambiciosas e    afiadas, mas igualmente algumas respostas de convencimento". </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Para saber mais:</b></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><i>- " Cosmologia:    de Einstein à energia escura ", </i><a href="http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&amp;edicao=27&amp;id=306" target="_blank">artigo</a>    <i>de Jaílson S. Alcaniz para a ComCiência, Vol.90, 2007.    &nbsp;</i> </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><i>- </i>" <i>O    universo é um lugar estranho? " , </i><a href="http://arxiv.org/PS_cache/astro-ph/pdf/0401/0401347v2.pdf" target="_blank">artigo</a>    <i>de Frank Wilczek (2004)</i></font> ]]></body>
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