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</front><body><![CDATA[ <p align=right><font face="Verdana" size="2"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="4"><b>Cotas: discussão constante e necessária</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="2"><b>Érica Guimarães</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="2">Em universidades, roda de amigos, discussão em    congressos, grupos sociais e governos, o assunto de cotas e políticas públicas    de ação afirmativa são frequentes, porém, longe ainda de um consenso. Os que    são favoráveis às cotas para negros nas universidades, por exemplo, dizem, entre    outros argumentos, que o Brasil tem uma dívida histórica com a população negra.    Já os contrários defendem que as cotas geram ainda mais preconceito e discriminação.    Os dois lados, porém, concordam que a educação é um direito de todos, sem exceção,    e deve ser melhorada desde a educação infantil. O que se discute, é se as cotas    e políticas de ação afirmativa são, de fato, instrumentos para a universalização    do direito à educação. </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">As cotas são apenas parte do que se convencionou    chamar de programas de ação afirmativa. Eles se definem como um conjunto de    estratégias, iniciativas ou políticas que visam favorecer grupos ou segmentos    sociais que se encontram em piores condições de competição na sociedade, em    razão, na maior parte das vezes, de práticas negativas de discriminação, sejam    elas presentes ou passadas. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Hoje, no Brasil, os sistemas de cotas existentes,    que integram políticas afirmativas, podem ser divididos em três grupos. Um deles    é o das cotas raciais, como ação afirmativa destinada a um público específico,    usado em algumas universidades para destinar um percentual de vagas a negros,    pardos e indígenas. Outro tipo de cota é a de gênero, como, por exemplo, a que    obriga partidos políticos e coligações a terem um mínimo de 30% de mulheres    entre seus candidatos que concorram aos cargos legislativos nas eleições municipais,    estaduais e federal. E, por fim, há as cotas sociais, voltadas para grupos de    baixa renda. </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">No caso específico do acesso ao ensino superior,    as cotas sociais são uma alternativa apresentada pelos que criticam as reservas    de vagas para negros, com o argumento de que os critérios para avaliar quem    são os afrodescendentes seriam muito subjetivos e propensos a fraudes e injustiças,    enquanto as cotas sociais beneficiariam os negros pobres, uma vez que grande    parte da população negra é de classe baixa. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="3"><b>A universalização do ensino </b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Tanto os defensores quanto os críticos das cotas    esperam que o acesso ao ensino superior seja universalizado. Em entrevista à    <i>ComCiência </i>, dois pesquisadores que estudam as cotas raciais e as políticas    de ação afirmativa, a cientista social e doutora em antropologia social, Yvonne    Maggie, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e o cientista    social, Ahyas Siss, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro    (UFRRJ), embora defendam posições contrárias, focam seus pontos de vista na    universalização do ensino. </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Maggie, contrária ao sistema de reserva de vagas    para negros, frisa que ser contra as cotas raciais não é a mesma coisa que ser    racista. Segundo ela, existem, hoje, o mito do racismo (o pensamento de que    o racismo já está superado) e o mito do combate ao racismo, que, para Maggie,    está em predominância, pois o sistema atual de combate foca na desigualdade    das raças, e, portanto, na sua interpretação, reforça a diferença entre as raças.    Ela acredita que a partir de mitos, tanto do racismo quanto do combate ao racismo,    procura-se descrever a história recente da introdução dessas políticas públicas    com base na raça, e adverte que esse não é um caminho para a igualdade. O ponto    principal levantado por Maggie é a rotulação das raças. "O objetivo do pobre    é deixar de ser pobre, mas se rotular o negro, ele será sempre negro", diz.    </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Para Maggie, o Brasil se destaca por sua Constituição.    As leis não separam negros e brancos e esse é o princípio da igualdade: não    se pode destruir o racismo criando a raça. "Raças humanas não existem, foram    criadas pelos racistas para construir a desigualdade", afirma. Ela teme que    o Brasil possa repetir o triste capítulo vivido pelos Estados Unidos, na época    em que se vivia o ódio racial e a violência, com linchamentos e até execuções    na fogueira. </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Com a recente eleição de Barack Obama, a imprensa    de todo o mundo celebrou o marco histórico representado pelo fato de ele ser    o primeiro presidente negro eleito nos Estados Unidos. Mas Obama ponderou inúmeras    vezes que representa todos os americanos, negros, brancos, ricos e pobres, afirmando,    em seu discurso de posse, que nem a riqueza e nem as posses devem medir a grandeza    de um homem, e sim suas ideias. </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Em uma metáfora, Maggie compara a escola a uma    orquestra, com aqueles que tocam o primeiro violino e aqueles que tocam triângulo.    Uma sala é feita de diversidade e respeitar isso é entender que somos diferentes.    A base não deve ser a raça, mas a igualdade, mesmo na diferença. "A raça diferencia,    não iguala", opina. Maggie acha inadmissível a cota racial, já que a maioria    da população está precisando de educação de qualidade, desde o ensino infantil    até o ensino médio. "É um escândalo falar em cotas raciais, sendo que elas atingem    apenas 10% da população, de 18 a 24 anos", afirma. Dados do Instituto Brasileiro    de Geografia e Estatística (IBGE), de março de 2009, no entanto, mostram que    independentemente da necessidade de melhoria geral do ensino básico, a desigualdade    no ensino superior é grande: apenas 10% dos negros (pretos e pardos) acima de    18 anos frequentavam ou já haviam frequentado curso de nível superior (esse    índice chega a 28,7% para brancos da mesma faixa etária). </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Siss, da UFRRJ, se diz favorável às cotas, mas    destaca que se deve democratizar o ensino e o acesso permanente por meio de    políticas públicas. Ele acredita que a universidade só representa a ascensão    social quando existem políticas públicas de acesso aos menos favorecidos. Do    contrário, corre-se o risco de privilegiar apenas uma determinada classe social,    com a manutenção do seu espaço já garantido. Com relação às políticas públicas    nacionais, Siss destaca que o atual governo tem investido pesado em políticas    de igualdade social, com bolsas universitárias, bolsa família, entre outros,    mas tem deixado a desejar no combate às desigualdades étnico-raciais. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Os números expressam de forma clara a disparidade    no ensino. Em setembro de 2006, 28,5% das pessoas declaradas pretas ou pardas    tinham pelo menos o nível médio completo, sendo que para os brancos, esse percentual    subia para 45,9%. Nos níveis de menor escolaridade, a situação se inverte: 51,2%    dos pretos e pardos tinham menos de oito anos de estudo (ou seja, menos que    o fundamental completo) contra 36,7% dos brancos. As poucas iniciativas de cotas    já implementadas não foram suficientes para diminuir a disparidade que se repete    nas universidades: em 2002, 6,7% dos pretos e pardos frequentavam ou haviam    frequentado curso de nível superior e os brancos somavam 22,4%; em 2006, subiu    para 8,2% a parcela de pretos e pardos no ensino superior e para 25,5% a de    brancos. </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Siss, portanto, destaca que, apesar do aumento    do acesso às universidades, a diferença entre os negros (pretos e pardos) e    brancos precisa ser diminuída. Portanto, segundo ele, a questão racial deve    sim ser levada em conta, considerando-se que os 350 anos de escravidão no Brasil    ainda influenciam o atual cenário de desigualdade entre brancos e negros. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="3"><b>Desigualdade no trabalho </b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Considerando as características de trabalho,    numa divisão por ocupação, a categoria de trabalhadores domésticos &#150; que não    exige nível elevado de escolaridade &#150; foi a que apresentou, em pesquisa do IBGE,    realizada em 2006, maior participação de negros (pretos e pardos), com 57,8%.    Em relação aos rendimentos, o IBGE revelou que os negros (pretos e pardos) recebiam,    em média, R$ 660,45, e os brancos, quase o dobro: R$ 1.292,29. </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Apesar da ocupação em trabalhos domésticos e    o salário inferior deixar clara a diferença em relação aos brancos, a ascensão    social dos negros tem caminhado gradativamente bem, com avanços significativos.    A universalização do ensino é um dos pontos de forte impacto nos números, os    quais mostram que hoje, sete em cada cem negros (pretos e pardos) obtêm o diploma    de curso superior e, consequentemente, podem concorrer a vagas mais bem remuneradas    no mercado de trabalho. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana" size="3"><b>Políticas afirmativas </b></font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Em 21 de março de 2003, o governo federal criou    a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência    da República (Seppir). Também em 2003, foi lançado o Programa Universidade para    Todos (ProUni), que oferece 203 mil bolsas de estudo para que alunos oriundos    de escolas públicas possam estudar em instituições privadas. Parte dessas bolsas    (63 mil) são para negros e indígenas. </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">Outra política de ação afirmativa foi a implantação    da Lei nº 10.639, que tornou obrigatório o ensino de história afro-brasileira    nas escolas e ajudou a valorizar a contribuição dos imigrantes africanos e seus    descentes à cultura e à economia brasileiras. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana" size="2">Há dez anos, está em tramitação no Congresso    o Projeto de Lei nº 73/99, que estabelece reserva de vagas nas universidades    públicas para alunos de escolas públicas, considerando a porcentagem da população    de negros e indígenas nas unidades da federação, de acordo com o censo do IBGE,    com objetivo de conter as desigualdades raciais. </font></p>     <p><font face="Verdana" size="2">O Estatuto da Igualdade Racial, aprovado pelo    Senado em novembro de 2005, não se resume ao sistema de cotas em universidades.    Em seus capítulos, são dispostos, também, temas como pesquisa, formas de prevenção    e combate de doenças prevalecentes na população negra, direito à liberdade religiosa    e de culto, especialmente no que diz respeito às religiões afro-brasileiras,    reconhecimento e titulação das terras remanescentes de quilombos e inclusão    no mercado de trabalho por meio de contratação preferencial de profissionais    negros na administração pública, entre outros itens. </font></p>      ]]></body>

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