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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>A busca por    números da devastação</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Cristina Caldas</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Uma vereda de água    gelada e cristalina, cercada de imponentes buritis. Um cheiro característico,    que só quem já caminhou por um Cerrado fechado pode reconhecer. Um fruto avermelhado    aberto de chichá, com suas sementes pretas perfeitamente alinhadas, como se    fossem contas de um colar. Uma moita repleta de gabiroba, fruta amarelada, deliciosa.    Esses são exemplos do que uma visita ao Cerrado pode propiciar, bioma com características    marcantes e ainda pouco conhecidas de muitos brasileiros, embora seja um dos    mais ricos em biodiversidade do mundo, patrimônio genético sem preço, região    de nascentes das grandes bacias brasileiras e com inúmeras espécies nativas    com potencial ornamental, interesse farmacêutico e frutas comestíveis. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n105/a04img01.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nem bem completou    50 anos que o bioma começou a ser ocupado de forma mais agressiva, por meio    da expansão da fronteira agrícola, e o Cerrado vem sendo devastado a olhos vistos.    No entanto, monitorar a destruição dos dois milhões de quilômetros quadrados    desse que é o segundo maior bioma brasileiro é um desafio. Responder a perguntas    simples sobre a área que se mantém preservada e as taxas de desmatamento ao    longo dos anos ou mesmo anual, não é fácil, dado o alto nível de incertezas.    </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao contrário da    Amazônia, que conta com sistema oficial de monitoramento do desmatamento há    muito tempo, cada vez mais sofisticado, o Cerrado não tem ainda vigilância parecida.    "Estamos criando agora um sistema para monitorar os demais biomas do Brasil,    aplicando metodologia semelhante ao que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais    (Inpe) faz na Amazônia. Já no ano de 2009, teremos um novo produto atualizado,    e o Cerrado será prioridade. A idéia é fazer monitoramentos anuais", diz Bráulio    Ferreira de Souza Dias, diretor do Departamento de Conservação da Biodiversidade,    do Ministério do Meio Ambiente (MMA). </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O dado oficial    mais recente de mapeamento da vegetação natural remanescente do Cerrado foi    publicado em 2007, uma iniciativa do MMA, por meio do Projeto de Conservação    e Utilização Sustentável da Diversidade Biológica Brasileira (Probio). As análises    de imagens do satélite Landsat, todas de 2002, indicaram que, aproximadamente,    39,5% da área do bioma já tinha sido convertida em diferentes formas de uso.    As pastagens cultivadas e a agricultura ocupavam, em 2002, 26,5% e 10% do Cerrado,    respectivamente. Nos estados do Mato Grosso do Sul, Goiás, São Paulo e no sul    de Minas Gerais, o Cerrado praticamente desapareceu. "Nessas áreas, a vegetação    remanescente está abaixo do mínimo exigido pelo <a href="http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L4771.htm" target="_blank">Código    Florestal</a>", afirma Dias. Os remanescentes são o centro e norte de Minas    Gerais, oeste da Bahia, Piauí, Maranhão, Tocantins e Mato Grosso. O diretor    do MMA conta que a região montanhosa do nordeste do Goiás está razoavelmente    bem preservada, assim como a região alagada do Araguaia, embora projetos de    irrigação de arroz já tenham alterado a vegetação. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Usar a área dos    limites oficiais dos biomas estabelecidos pelo IBGE em 2004 foi a primeira sistematização    do estudo. "Antes, existia o bioma de cada especialista, o que dificultava as    comparações", acredita Dias. O IBGE usa o critério de contiguidade, considerando    as manchas de Cerrado dentro da Amazônia, por exemplo, como disjunções do bioma    Amazônia e não como pertencente ao bioma Cerrado. O mesmo vale para o Cerrado    das chapadas Diamantina e Araripe, que fazem parte do bioma Caatinga. Além dos    demais ajustes metodológicos de escalas e resoluções, a equipe optou também    por separar pastagem plantada da nativa. Segundo Bráulio Dias, em alguns mapeamentos    prévios todas as pastagens foram colocadas na categoria de vegetação degradada.    Mas é importante destacar que o objetivo do mapeamento não foi avaliar o status    de conservação da vegetação remanescente, e sim mapear áreas potenciais para    ações de conservação, recuperação e promoção do uso sustentável. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Quando esses dados    foram publicados, houve muita discussão na imprensa e na literatura. "Muita    ONG reclamou, alegando que não temos os 61% de vegetação remanescente no Cerrado,    que estamos trabalhando contra a agenda ambiental e que colocamos o problema    como menor do que ele realmente é", diz Bráulio Dias. De fato, os dados são    diferentes das "<a href="http://www.conservation.org.br/arquivos/RelatDesmatamCerrado.pdf" target="_blank">Estimativas    de perda da área do Cerrado brasileiro</a>", publicada em 2004 pela Conservação    Internacional &#150; referência largamente citada por pesquisadores, mídia e ONGs    &#150;, na qual os autores calcularam que a área já desmatada para o bioma até o    ano de 2002 era de cerca de 55% da área original. Na ocasião, o lema foi "o    Cerrado pode sumir até 2030", muito embora os próprios pesquisadores tenham    destacado no texto que "considerando a resolução das imagens utilizadas (1 km    x 1 km) e a falta de verificação em campo, os resultados apresentados devem    ser encarados com ressalva". As estimativas da <a href="http://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/biomas/bioma_cerrado/bioma_cerrado_ameacas/" target="_blank">WWF</a>    são ainda mais pessimistas, destacando que somente 19,15% da área atual do Cerrado    corresponde a áreas nas quais a vegetação original ainda está em bom estado.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As taxas de desmatamento    são também controversas. No documento de 2004 da Conservação Internacional,    a estimativa era de que 1,5% do Cerrado estava sendo desmatado por ano, dado    vastamente utilizado. Uma avaliação mais recente do Sistema Integrado de Alerta    de Desmatamentos para o bioma Cerrado (Siad Cerrado), uma parceria entre a Universidade    Federal de Goiás (UFG), a própria Conservação Internacional e a The Nature Conservancy,    mostram que os desmatamentos continuam. "Para o período entre outubro de 2003    e outubro de 2007, detectamos em torno de 18.980 km<sup>2</sup> de possíveis    novos desmatamentos", afirma Laerte Guimarães Ferreira, do Laboratório de Processamento    de Imagens e Geoprocessamento (Lapig), da UFG. Esse valor equivaleria a uma    média de 0,25% de desmatamento por ano. "Com a expansão do álcool, quando os    países se recuperarem desta crise financeira e voltar a ter uma demanda maior    por soja e alimentos, certamente vai aumentar a pressão", pondera Bráulio Dias.    </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Antes da iniciativa    MMA/Probio, o RadamBrasil, realizado na década de 1970, havia sido o único mapeamento    completo da cobertura vegetal feito em detalhe para o Brasil. Eram sobrevôos    que geravam imagens de radar por avião. Desde então, iniciativas estaduais de    mapeamento e monitoramento da vegetação nativa do Cerrado, por meio de imagens    de satélites, têm sido efetivas para São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso,    que tem um programa financiado pelo Banco Mundial. No estado de São Paulo, por    exemplo, um acompanhamento da devastação ao longo dos anos mostra que a cana-de-açúcar    fez o Cerrado paulista sumir, restando atualmente meros 2% da vegetação original,    segundo dados do Instituto Florestal de São Paulo. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n105/a04img02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Todos os dados    gerados nos estados têm sido de grande valor para acompanhar o desmatamento,    mas não fornecem o quadro geral. "Como cada estado usa uma metodologia diferente,    não é possível juntar os dados, porque cada um utiliza, por exemplo, categorias    de uso de terra diferentes", explica Dias. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Dificuldades    e avanços </b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A dificuldade aumenta    quando a análise do desmatamento é feita para os 2 milhões de km<sup>2</sup>    do bioma. As dificuldades e desafios são muitos. Além da vasta extensão, "o    Cerrado é marcado por uma conspícua sazonalidade e um complexo mosaico vegetacional",    explica Laerte Ferreira, referindo-se às alterações naturais, ao longo do ano,    características da vegetação. O desafio é conciliar um sistema de monitoramento    o mais automatizado possível, capaz de rastrear a extensa área em uma frequência    desejada (monitoramentos anuais, semestrais, mensais), com uma série de fatores.    "Por exemplo, uma mudança no padrão, época ou intensidade da chuva, de um ano    para outro, faz com que áreas naturais, principalmente referentes às fisionomias    campo limpos, campo sujo e Cerrado <i>stricto sensu </i>sejam facilmente confundidas    com áreas já desmatadas, o que gera os chamados erros de comissão ou falsos    alertas de desmatamentos", diz o geólogo, que é também do Instituto de Estudos    Sócio-Ambientais (IESA). </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Além das dificuldades    inerentes ao próprio bioma, as controvérsias surgem em função não só da escala    espacial, mas também dos métodos de pesquisa. Wendy Jepson, da Universidade    do Texas A&amp;M, nos Estados Unidos, publicou um trabalho, em 2005, no periódico    científico <i>The Geographical Journal </i>(Vol. 171, pág. 99-111), comparando    as diferentes estimativas que haviam sidA destruição do Cerrado ocorre em larga    escala. Há uns anos, para que uma viagem nas proximidades de Brasília pela rodovia    BR-040 passasse rapidamente, bastava contar o número de ipês amarelos na beira    da estrada. Hoje, falta pouco para que as lavouras alcancem o próprio asfalto.    Porém, tão importante quanto o alerta de que o Cerrado está desaparecendo, é    gerar números confiáveis de quanto efetivamente resta da vegetação natural,    além de entender e avaliar sua notável capacidade de recuperação. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">o publicadas até    o momento sobre a devastação do bioma, com a pergunta "o Cerrado está desaparecendo?".    A conclusão foi que são ainda necessários métodos transparentes de monitoramento    por meio de análises de alta resolução, acompanhamento ao longo do tempo e classificações    homogêneas de uso da terra. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ciente de todas    as dificuldades, muitos avanços têm sido obtidos recentemente nas metodologias    e protocolos para detecção de desmatamentos no Cerrado. O Siad Cerrado desenvolveu    uma metodologia que usa imagens com resolução espacial de 250 metros, obtidas    pelo sensor Modis, que está a bordo do satélite Terra, principal satélite da    Nasa para observação terrestre. Os pesquisadores detectam mudanças na biomassa    fotossinteticamente ativa, em determinados períodos de tempo, o que pode ser    um sinal de que a área foi desmatada. "Todas essas variações são inspecionadas    visualmente, com vistas a se minimizar os falsos alertas de desmatamentos",    explica Laerte Ferreira. "Ainda que toda esta metodologia já esteja razoavelmente    amadurecida, continuamos o seu aperfeiçoamento, o que deve incluir, em futuro    próximo, o uso de imagens com maior resolução espacial (por exemplo, imagens    do satélite sino-brasileiro CBERS) e uma abordagem heurística e probabilística    para facilitar a validação dos polígonos de mudanças identificados". </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Espiral da falta    de conhecimento </b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"No mundo da conservação,    a prioridade sempre foi floresta", avalia Bráulio Dias. "Em última análise,    é cultural, pois no mundo inteiro, as vegetações abertas, como savanas e campos,    chamam menos atenção. O Pampa e a Caatinga também foram muito relegados e o    Pantanal recebeu mais atenção por conta da fauna". Aliado à questão cultural    de baixa apreciação das savanas, o Cerrado foi a área estrategicamente escolhida    pelo governo federal para a produção agrícola. "Nesta mentalidade 'PIBiana',    a transformação do Cerrado em um grande celeiro de commodities agrícolas era    (e ainda é...) a prioridade", diz Ferreira. </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Segundo o especialista    da UFG, entramos em um círculo vicioso, no qual uma das espirais e consequências    é a falta de conhecimento, nas suas várias dimensões. "Assim, só mais recentemente,    com o avanço das pesquisas, temos conseguido entender melhor o real valor e    papel desse importante e imprescindível bioma", conclui. Em 2007, foi criada    a rede de pesquisas ComCerrado, uma iniciativa conjunta do Ministério da Ciência    e Tecnologia (Coordenação de Ecossistemas ­ Seped), do MMA (Núcleo Cerrado e    Pantanal &#150; SBF), instituições de ensino e pesquisa e ONGs, que pretende entender    o funcionamento do Cerrado em suas várias "esferas" (humana, biodiversidade,    paisagens etc), subsidiando, assim, uma melhor governança territorial e ambiental.    Outras iniciativas também têm colaborado para a preservação desse bioma (leia    <a href="http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&amp;edicao=42&amp;id=508" target="_blank">reportagem</a>    nesta edição), somadas a uma participação crescente do setor privado. Além disso,    o "<a href="http://www.cpac.embrapa.br/publico/pdu_2008-2011.pdf" target="_blank">Plano    diretor da Embrapa Cerrados</a>" para o período de 2008 a 2011 contempla, em    seus cinco objetivos estratégicos, a busca por maior eficiência nos sistemas    de produção do bioma, e também desafios voltados para a sustentabilidade dos    ecossistemas. O decreto presidencial "Programa nacional de conservação e uso    sustentável do Cerrado", lançado há dois anos, mas ainda em fase incipiente    de negociação, prevê recursos para ações de conservação desse bioma, embora    com cifras em patamares muito inferiores às da Amazônia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A destruição do    Cerrado ocorre em larga escala. Há uns anos, para que uma viagem nas proximidades    de Brasília pela rodovia BR-040 passasse rapidamente, bastava contar o número    de ipês amarelos na beira da estrada. Hoje, falta pouco para que as lavouras    alcancem o próprio asfalto. Porém, tão importante quanto o alerta de que o Cerrado    está desaparecendo, é gerar números confiáveis de quanto efetivamente resta    da vegetação natural, além de entender e avaliar sua notável capacidade de recuperação.</font></p>      ]]></body>

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