<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>1519-7654</journal-id>
<journal-title><![CDATA[ComCiência]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[ComCiência]]></abbrev-journal-title>
<issn>1519-7654</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Universidade Estadual de Campinas - Labjor]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S1519-76542014001000009</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Egas Moniz e os seus colegas no Brasil: a arquitetura de um Prêmio Nobel]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Correia]]></surname>
<given-names><![CDATA[Manuel]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2014</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>12</month>
<year>2014</year>
</pub-date>
<numero>164</numero>
<fpage>1</fpage>
<lpage>3</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://127.0.0.1/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1519-76542014001000009&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://127.0.0.1/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1519-76542014001000009&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://127.0.0.1/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1519-76542014001000009&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b><a name="top"></a>Egas    Moniz e os seus colegas no Brasil: a arquitetura de um Pr&ecirc;mio Nobel</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Manuel Correia</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ocorreu no final    do m&ecirc;s passado, em 29 de novembro, em Avanca, concelho de Estarreja, distrito    de Aveiro, a celebra&ccedil;&atilde;o dos 140 anos do nascimento de Ant&oacute;nio    Caetano de Abreu Freire Egas Moniz, m&eacute;dico neurologista, pol&iacute;tico,    empres&aacute;rio, cientista, ensa&iacute;sta abarcando diferentes dom&iacute;nios    das ci&ecirc;ncias e das artes, vencedor do Nobel de fisiologia ou medicina    de 1949.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na sua terra natal,    na casa onde habitou com a sua fam&iacute;lia, hoje Casa Museu Egas Moniz, os    sobrinhos-netos animaram uma tert&uacute;lia virada para a evoca&ccedil;&atilde;o    do seu antepassado. &Agrave; noite, um concerto musical homenageou o gosto art&iacute;stico    do antigo propriet&aacute;rio, encerrando o ritual celebrativo.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>***</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Quando a revolu&ccedil;&atilde;o    republicana de 1910 dep&ocirc;s a monarquia em Portugal, Egas Moniz estava com    os revoltosos. Enquanto Dom Manuel II rumava a Londres, onde se exilou, os republicanos    tomavam assento para redigir uma nova constitui&ccedil;&atilde;o e, entre os    deputados constituintes que viriam, na sua maioria, a desempenhar cargos de    relevo no novo regime, estava o deputado Ant&oacute;nio Caetano de Abreu Freire    Egas Moniz, m&eacute;dico neurologista, ent&atilde;o com 36 anos de idade, formado    pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, que entretanto montara    consult&oacute;rio em Lisboa.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Entrara ativamente    na pol&iacute;tica na d&eacute;cada anterior, em 1900, ocupando o lugar de deputado    pelo Partido Progressista, ainda no sistema pol&iacute;tico mon&aacute;rquico.    Cinco anos depois, distancia-se do <i>status-quo</i> rotativista, passando para    o campo dos republicanos. Vir&aacute; a ter um papel destacado entre 1917 e    1918, quer como chefe do Partido Nacional Republicano, l&iacute;der parlamentar,    embaixador em Madri, secret&aacute;rio de Estado dos Neg&oacute;cios Estrangeiros    (cargo correspondente ao de ministro no modelo pol&iacute;tico adotado por Sid&oacute;nio    Pais) e presidente da delega&ccedil;&atilde;o portuguesa &agrave; Confer&ecirc;ncia    de Paz de Paris, onde foram estabelecidos os termos da rendi&ccedil;&atilde;o    alem&atilde; que p&ocirc;s fim &agrave; 1&ordf; Grande Guerra. A sua carreira    pol&iacute;tica &eacute; marcada por duas ruturas principais: primeiro com o    sistema mon&aacute;rquico, em 1905; depois, em pleno regime republicano, ao    apoiar a ditadura de Sid&oacute;nio Pais que tomou o poder em dezembro de 1917    e presidiu a chamada Rep&uacute;blica Nova at&eacute; ao momento em que foi    assassinado, em dezembro de 1918. No seu livro <i>Um ano de pol&iacute;tica</i>,    Egas Moniz justifica as suas op&ccedil;&otilde;es e, de certo modo, anuncia    o abandono da atividade pol&iacute;tica.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Durante as duas    primeiras d&eacute;cadas do s&eacute;culo XX, Egas Moniz, al&eacute;m da intensa    atividade pol&iacute;tica, distribui a sua aten&ccedil;&atilde;o pela c&aacute;tedra    universit&aacute;ria de neurologia e pelo correspondente servi&ccedil;o no Hospital    Escolar de Santa Marta, em Lisboa. Estuda aprofundadamente as afec&ccedil;&otilde;es    neurol&oacute;gicas e psiqui&aacute;tricas dos militares no teatro de guerra,    introduz a psican&aacute;lise na Faculdade de Medicina, publica profusamente    ensaios de cr&iacute;tica liter&aacute;ria, biografias e textos diversos, num    leque tem&aacute;tico que ia da sua especialidade m&eacute;dica at&eacute; a    hist&oacute;ria dos jogos de cartas, pintura, sexualidade, hipnotismo, cr&iacute;tica    liter&aacute;ria e medicina legal.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Por&eacute;m, as    realiza&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas que viriam a coloc&aacute;-lo em    destaque e que explicam muito provavelmente a principal raz&atilde;o pela qual    continua a ser recordado mundialmente, acontecer&atilde;o mais tarde, no per&iacute;odo    entre guerras, ap&oacute;s o desmoronamento da 1&ordf; Rep&uacute;blica portuguesa.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Debatia-se ent&atilde;o,    dentre as limita&ccedil;&otilde;es e insufici&ecirc;ncias da cl&iacute;nica    neurol&oacute;gica, a incerteza do diagn&oacute;stico. Os raios X tinham dotado    a medicina de um potente meio de observa&ccedil;&atilde;o da anatomia interna,    mas os tecidos moles, de baixa densidade at&ocirc;mica - e o enc&eacute;falo    em particular - n&atilde;o possibilitavam a localiza&ccedil;&atilde;o de anomalias    (tumores, quistos, aneurismas e outras malforma&ccedil;&otilde;es). Era, pois,    um t&oacute;pico da agenda de investiga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica da    &eacute;poca. Egas Moniz, ap&oacute;s numerosas tentativas que tiveram in&iacute;cio    por volta de 1924, realiza a transla&ccedil;&atilde;o da experimenta&ccedil;&atilde;o    animal para o humano vivo e apresenta os primeiros resultados em 1927, em Paris.    Depois de muitas atribula&ccedil;&otilde;es, a angiografia cerebral firmou-se    como m&eacute;todo de diagn&oacute;stico, consistindo numa inje&ccedil;&atilde;o    de l&iacute;quido opacificante na car&oacute;tida. O contraste assim obtido    permitia registar, com o aux&iacute;lio dos raios X, imagens da &aacute;rvore    vascular cerebral e, a partir dos desvios verificados, apurar com maior rigor    a natureza e a localiza&ccedil;&atilde;o das patologias.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A paternidade da    angiografia cerebral foi a pedra de toque da biografia cient&iacute;fica de    Egas Moniz. O capital de prest&iacute;gio e credibilidade que foi consolidando    internacionalmente pavimentou o seu trajeto de investigador. Logo a seguir &agrave;    apresenta&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica do m&eacute;todo, em Paris, no H&ocirc;pital    Necker, no ver&atilde;o de 1927, Moniz foi nomeado pela primeira vez para o    Pr&ecirc;mio Nobel de Fisiologia ou Medicina. Nos arquivos da Funda&ccedil;&atilde;o    Nobel, em Estocolmo, duas cartas de dois m&eacute;dicos conterr&acirc;neos,    indicam-no, sublinhando a import&acirc;ncia dessa inven&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dado que a t&eacute;cnica    angiogr&aacute;fica estava ainda nos seus prim&oacute;rdios, o debate em torno    do seu alcance revelou alguns contornos curiosos. Primeiramente a escolha da    subst&acirc;ncia opacificante, depois o procedimento complicado de inje&ccedil;&atilde;o    que implicou, na primeira fase, uma pequena cirurgia para destacar e expor um    segmento da car&oacute;tida, e o car&aacute;ter limitado dos primeiros resultados    que se restringiam &agrave; parte arterial da rede vascular. Por tratar-se de    um t&oacute;pico forte da agenda de investiga&ccedil;&atilde;o da &eacute;poca,    outros investigadores tentaram tamb&eacute;m a sorte, levantando d&uacute;vidas,    por vezes, quanto &agrave; primazia de Egas Moniz. Ele pr&oacute;prio descreve    o caso mais complicado que teve de enfrentar. Viu-se ent&atilde;o for&ccedil;ado    a recorrer ao escrut&iacute;nio cient&iacute;fico de Georg Schaltenbrand (1897-1979),    reputado neurologista alem&atilde;o que, ap&oacute;s exame aturado, concluiu    pela prioridade do cientista de Lisboa. A intensidade da concorr&ecirc;ncia    que ent&atilde;o se estabeleceu entre investigadores pode ser avaliada pela    leitura dos relat&oacute;rios internos do Comit&ecirc; Nobel do Instituto Carolino    e, de certo modo, tamb&eacute;m pela resist&ecirc;ncia dos avaliadores em valorizar    a t&eacute;cnica de Moniz face &agrave;s alternativas ent&atilde;o existentes.    Apesar de a angiografia cerebral ter sido adotada pelos suecos desde o in&iacute;cio,    e de se destacar entre os m&eacute;todos que a Escola Neurorradiol&oacute;gica    de Estocolmo trabalhou exaustivamente, aperfei&ccedil;oando-o e promovendo-o,    o Pr&ecirc;mio Nobel foi sempre recusado a Egas Moniz com base na angiografia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A visita que Moniz    faz ao Brasil em 1928 inscreve-se nesse esfor&ccedil;o de divulga&ccedil;&atilde;o    e difus&atilde;o da angiografia cerebral, conseguindo, assim, apoios importantes    entre os cientistas brasileiros. A rede de contatos estabelecida vir&aacute;    a ser futuramente de uma enorme import&acirc;ncia para a sua consagra&ccedil;&atilde;o    cient&iacute;fica.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">De fato, Egas Moniz    foi nomeado para o Pr&ecirc;mio Nobel em 1928, 1933, 1937, 1944 e 1949, sempre    com base no m&eacute;rito da angiografia cerebral (com exce&ccedil;&atilde;o    de 1944), e mesmo em 1949, no ano em que o pr&ecirc;mio lhe foi atribu&iacute;do,    o relator do Comit&ecirc; Nobel sublinhou a circunst&acirc;ncia de o pr&ecirc;mio    lhe ser descerrado pelo "valor terap&ecirc;utico da leucotomia pr&eacute;-frontal    no tratamento de certas psicoses" e n&atilde;o pela angiografia cerebral. Esta    oposi&ccedil;&atilde;o doutrin&aacute;ria do Comit&ecirc; Nobel face aos m&eacute;ritos    da angiografia cerebral merece uma especial an&aacute;lise pela riqueza de elementos    que proporciona.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O m&eacute;todo    angiogr&aacute;fico, inicialmente aplicado ao c&eacute;rebro, rapidamente foi    aproveitado para visualizar outros &oacute;rg&atilde;os. A aortografia, angiopneumografia,    linfangiografia, flebografia e microangiografia, derivadas do m&eacute;todo    inicial, consubstanciaram um conjunto de t&eacute;cnicas de diagn&oacute;stico    e especialidades que deram origem, no conjunto, &agrave; Escola Portuguesa de    Angiografia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Egas Moniz prosseguiu    a investiga&ccedil;&atilde;o visando o incremento da t&eacute;cnica angiogr&aacute;fica    generalizadamente aceita ao longo dos anos 1930. Praticamente at&eacute; ao    fim da vida, empenhou-se no estudo e divulga&ccedil;&atilde;o da angiografia    cerebral. Perto do fim, no ano da sua morte, apresentou ainda uma comunica&ccedil;&atilde;o    &agrave; Academia de Ci&ecirc;ncias de Lisboa sobre o tema.</font></p>     <p>***</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em 1936, Egas Moniz    revelou os resultados de uma outra investiga&ccedil;&atilde;o que levara a cabo    em estreita colabora&ccedil;&atilde;o com o cirurgi&atilde;o Almeida Lima que,    ali&aacute;s, desempenhara j&aacute; um papel destacado na experimenta&ccedil;&atilde;o    que conduziu &agrave; angiografia. Na monografia que ent&atilde;o publicou ,    anunciava um tratamento para as perturba&ccedil;&otilde;es mentais profundas.    Segundo ele, a leucotomia pr&eacute;-frontal alterava favoravelmente sintomas    e comportamentos, ao ponto de, em cerca de 1/3 dos casos inicialmente descritos,    se poder mesmo considerar ter conseguido a cura completa. O novo m&eacute;todo    consistia numa neurocirurgia muito espec&iacute;fica que ele batizou de leucotomia    pr&eacute;-frontal.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os resultados que    Egas Moniz apresentou foram e ainda hoje s&atilde;o objeto de exame e discuss&atilde;o.    No entanto, e apesar do terreno movedi&ccedil;o em que essas experi&ecirc;ncias    eram feitas - desafiando ou transgredindo fronteiras do conhecimento do c&eacute;rebro    e da mente com repercuss&otilde;es sobre a personalidade, e implica&ccedil;&otilde;es    filos&oacute;ficas, &eacute;ticas e cient&iacute;ficas que nos continuam a interpelar    - a tenta&ccedil;&atilde;o de replicar, verificar e testar foi mais forte do    que a precau&ccedil;&atilde;o e a prud&ecirc;ncia que um tal passo deveria supor.    Por todo o mundo, neurocirurgi&otilde;es, psiquiatras e neurologistas seguiram    os passos de Egas Moniz dando corpo a um vasto programa de investiga&ccedil;&atilde;o    experimental a pretexto de uma controversa efic&aacute;cia terap&ecirc;utica.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A controv&eacute;rsia    que acompanhou at&eacute; hoje a pr&aacute;tica da psicocirurgia desdobra-se    em epis&oacute;dios de maior ou menor paix&atilde;o, dirimindo certezas e incertezas,    cren&ccedil;as e convic&ccedil;&otilde;es. O conhecimento das teses e posi&ccedil;&otilde;es    em confronto &eacute; indispens&aacute;vel para compreender a possibilidade    dos argumentos pr&oacute; e contra deterem boas raz&otilde;es para n&atilde;o    prosseguir as pr&aacute;ticas de ent&atilde;o, pelo menos do modo inicialmente    adotado.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Refletindo esse    questionamento e a necessidade de afirma&ccedil;&atilde;o da nova &aacute;rea    de conhecimentos, foi realizada em Lisboa, no ver&atilde;o de 1948, a 1&ordf;    Confer&ecirc;ncia Internacional de Psicocirurgia. Os dois prop&oacute;sitos    manifestos da Confer&ecirc;ncia eram a troca de informa&ccedil;&atilde;o e reflex&atilde;o    sobre as experi&ecirc;ncias levadas a cabo, e a homenagem a Egas Moniz, considerado    o pai fundador da psicocirurgia. Na sess&atilde;o de encerramento, por iniciativa    da delega&ccedil;&atilde;o brasileira, o psiquiatra Pacheco e Silva submeteu    ao plen&aacute;rio uma mo&ccedil;&atilde;o propondo a candidatura de Egas Moniz    ao Pr&ecirc;mio Nobel. Segundo a imprensa da &eacute;poca, a mo&ccedil;&atilde;o    foi aprovada por aclama&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Da tribuna da confer&ecirc;ncia,    foi tamb&eacute;m recomendado aos conferencistas, uma vez regressados aos pa&iacute;ses    de origem, que diligenciassem junto &agrave;s respectivas autoridades nacionais    para que diplomaticamente fosse apoiada a atribui&ccedil;&atilde;o do Pr&ecirc;mio    Nobel a Egas Moniz.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As trocas de correspond&ecirc;ncia    ulteriores entre Egas Moniz, Pacheco e Silva e Aloysio de Castro comprovam as    dilig&ecirc;ncias feitas no Brasil, o elevado grau de empenho dos colegas brasileiros    para que tal galard&atilde;o cient&iacute;fico fosse parar &agrave;s m&atilde;os    de Egas Moniz.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Tudo isso apesar    de o regulamento do pr&ecirc;mio contemplar apenas as nomea&ccedil;&otilde;es    feitas pelos pares cient&iacute;ficos anteriormente credenciados pelo Comit&ecirc;    Nobel, fundamentando detalhadamente o m&eacute;rito dos nomeados...</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Foi assim que chegaram    ao Instituto Carolino de Estocolmo, onde o Comit&ecirc; Nobel para a Fisiologia    ou Medicina est&aacute; sediado, nove cartas nomeando Egas Moniz para o pr&ecirc;mio.    Tr&ecirc;s do Brasil, cinco de Portugal e uma da Dinamarca.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Da Faculdade de    Medicina da Universidade de S&atilde;o Paulo, Ernesto de Sousa Campos, professor    de bacteriologia, credenciado pelo Comit&ecirc; Nobel em setembro de 1948, escreve,    em ingl&ecirc;s, a carta de nomea&ccedil;&atilde;o que vai datada de 17 de dezembro    de 1948. Com brevidade, salienta a import&acirc;ncia da angiografia cerebral    e, com menor destaque, a leucotomia pr&eacute;-frontal; Jayme Regallo Pereira,    professor de farmacologia, em 6 de janeiro de 1949, diz, igualmente em ingl&ecirc;s,    ter conhecimento de que outros colegas seus, do corpo docente da Faculdade de    Medicina, tamb&eacute;m nomearam Egas Moniz, pelo que se dispensa de enfatizar    fundamenta&ccedil;&atilde;o e bibliografia, apoiando a nomea&ccedil;&atilde;o;    e, finalmente, Renato Locchi, professor de anatomia, escreve, em alem&atilde;o,    em 20 de janeiro de 1949, uma missiva mais circunstanciada, desenvolvendo com    maior detalhe a import&acirc;ncia da inven&ccedil;&atilde;o da angiografia cerebral    e da leucotomia, referindo bibliografia condizente em franc&ecirc;s e alem&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A import&acirc;ncia    das cartas de nomea&ccedil;&atilde;o dos cientistas brasileiros foi inestim&aacute;vel.    Constitu&iacute;ram tr&ecirc;s quartos das nomea&ccedil;&otilde;es estrangeiras    fornecendo, juntamente com Eduardo Busch, de Copenhagen, a componente internacional    do contingente de nomeadores.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Egas Moniz viria    mais tarde a exprimir o seu reconhecimento sob diversas formas. Nos seus di&aacute;rios    (manuscritos ainda in&eacute;ditos), descreve o regozijo e a felicidade com    que recebeu a not&iacute;cia de que o pr&ecirc;mio lhe fora atribu&iacute;do,    evocando o apoio dos colegas e amigos do Brasil.</font></p>     <p>***</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dado que os galardoados    adquirem a capacidade vital&iacute;cia de nomear candidatos ao Pr&ecirc;mio    Nobel, Egas Moniz, no gozo desse privil&eacute;gio viria a indicar alguns investigadores    cujas contribui&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas mais prezava. No uso dessa    prerrogativa, nomeou para o Pr&ecirc;mio Nobel de Fisiologia ou Medicina, entre    outros, o m&eacute;dico radiologista Manoel Dias de Abreu, do Rio de Janeiro,    em 1951, pela inven&ccedil;&atilde;o da "abreugrafia" e do seu relevo social    para a detec&ccedil;&atilde;o precoce de les&otilde;es indicadoras de tuberculose    e de outras afec&ccedil;&otilde;es pulmonares.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Foi como se no    cruzamento das biografias de Manoel de Abreu e Egas Moniz um gesto simb&oacute;lico    buscasse compensar o dever de reciprocidade: o reconhecimento de que as rela&ccedil;&otilde;es    com os cientistas brasileiros, desde a visita de 1928 e, vinte anos depois,    da din&acirc;mica participa&ccedil;&atilde;o na 1&ordf; Confer&ecirc;ncia de    Psicocirurgia, at&eacute; as cartas de nomea&ccedil;&atilde;o subsequentes,    foram decisivas para conseguir o Pr&ecirc;mio Nobel para Egas Moniz.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Permanentemente    discutido e reavaliado, o legado de Egas Moniz continua a ser objeto de estudo,    an&aacute;lise e reflex&atilde;o. Segundo a sensibilidade, perspectiva historiogr&aacute;fica    e interpreta&ccedil;&otilde;es da hist&oacute;ria das rela&ccedil;&otilde;es    da pol&iacute;tica com a ci&ecirc;ncia e as artes, ou da neurologia com a psiquiatria,    os autores que se ocupam do tema v&atilde;o presentificando os diferentes aspetos    da sua vida e obra, tentando integr&aacute;-los, procurando nexos entre eles,    ou pura e simplesmente elegendo os t&oacute;picos que consideram mais significativos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; poss&iacute;vel    proceder a uma abordagem biogr&aacute;fica em que se estuda o indiv&iacute;duo    enquanto ponto de encontro (ou desencontro) em que se entrela&ccedil;am influ&ecirc;ncias    dos sistemas culturais e das institui&ccedil;&otilde;es. Nesta perspetiva, a    densidade desses encontros e desencontros, no caso de Egas Moniz, entre outros,    p&otilde;e em destaque os jogos de poder que moldam e asseguram a longevidade    de certas biografias.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><i>Manuel Correia    &eacute; pesquisador do Centro de Estudos Disciplinares do S&eacute;culo XX,    na Universidade de Coimbra, em Portugal</i></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O pr&ecirc;mio    foi atribu&iacute;do <i>ex aequo</i> a Egas Moniz (1874-1955), pelo valor terap&ecirc;utico    da leucotomia no tratamento de certas psicoses, e a Walter Rudolph Hess (1881-1973),    da Universidade de Zurique, Su&iacute;&ccedil;a, pela sua investiga&ccedil;&atilde;o    acerca do papel do dienc&eacute;falo na regula&ccedil;&atilde;o dos &oacute;rg&atilde;os    internos no animal.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Visit&aacute;vel    tamb&eacute;m na internet em <a href="http://www.casamuseuegasmoniz.com/" target="_blank">http://www.casamuseuegasmoniz.com/</a></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os dois principais    partidos do sistema pol&iacute;tico da monarquia de ent&atilde;o, o Partido    Regenerador e o Partido Progressista revezavam-se no poder administrando o estado    praticamente com as mesmas pol&iacute;ticas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Egas Moniz, <i>Um    ano de pol&iacute;tica</i>, Lisboa, Portugal-Brasil Lda, 1919.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Egas Moniz, <i>A    neurologia na guerra</i>, Lisboa, Livraria Ferreira, 1917.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Cartas de nomea&ccedil;&atilde;o    assinadas por Azevedo Neves e Bettencourt Raposo. Ver Manuel Correia, <i>Egas    Moniz e o Pr&eacute;mio Nobel</i>, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra,    2006, p. 35.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ver descri&ccedil;&atilde;o    do pr&oacute;prio Egas Moniz em <i>Confid&ecirc;ncias de um investigador cient&iacute;fico</i>,    Lisboa, &Aacute;tica, 949, pp. 157-159.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ver a este prop&oacute;sito    Correia, Manuel. <i>Egas Moniz no seu labirinto</i>, Coimbra, Imprensa da Universidade    de Coimbra, 2013, pp. 92-94.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Egas Moniz, "Subs&iacute;dios    para a hist&oacute;ria da angiografia", <i>Separata dos Anais Azevedos</i>,    Lisboa, 1955.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Egas Moniz, <i>Tentatives    op&eacute;ratoires dans le traitement de certaines psychoses</i>, Paris, Masson,    1936.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A prop&oacute;sito    da difus&atilde;o internacional da psicocirurgia, ver Collins, Brianne M. and    Stam, Henderikus J., "A transnational perspective on psychosurgery: beyond Portugal    and the United States". <i>Journal of the History of the Neurosciences: Basic    and Clinical Perspectives</i>. Published online 13 Aug 2014: <a href="http://www.tandfonline.com/loi/njhn20" target="_blank">http://www.tandfonline.com/loi/njhn20</a></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Designa&ccedil;&atilde;o    e conceito cunhado por Egas Moniz. Altera&ccedil;&atilde;o de sintomas, do humor    e do comportamento por meios cir&uacute;rgicos. Conceito acobertado atualmente    sob as designa&ccedil;&otilde;es de neurocirurgia psiqui&aacute;trica e neurocirurgia    funcional.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"Na &uacute;ltima    sess&atilde;o cient&iacute;fica, a delega&ccedil;&atilde;o brasileira, na totalidade    dos seus membros - professores Pacheco e Silva, Paulino Longo e H&eacute;lio    Sim&otilde;es, doutores Mattos Pimenta, M&aacute;rio Yahn, An&iacute;bal Silveira    e Ant&oacute;nio Carlos Barreto - apresentou uma mo&ccedil;&atilde;o aprovada    por aclama&ccedil;&atilde;o, na qual se prop&otilde;e a sugest&atilde;o de candidatura    do prof. Egas Moniz ao Pr&ecirc;mio Nobel de Medicina". "Congresso Internacional    de Psicocirurgia", <i>Anais Portugueses de Psiquiatria</i>.1, 1 (1949) 138.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Para saber mais:</b></font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Fernandes, B. <i>Egas    Moniz, pioneiro dos descobrimentos m&eacute;dicos</i>, Lisboa, ICLP, 1983.    </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Pereira, A. L.;    Pita, J. R. (org). <i>Egas Moniz em livre exame</i>, Coimbra, Minerva, 2000.    </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Antunes, J. L.    <i>Egas Moniz. Uma biografia</i>, Lisboa, Gradiva, 2010.    </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Kotowicz, Z. <i>Psychosurgery.</i>    <i>The birth of a new scientific paradigm. Egas Moniz and the present day</i>,    Lisboa, Centre of Philosophy of Sciences, 2012.    </font></p>     <!-- ref --><p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Correia, M.; Marinho,    G. S. M. C., "A 1&ordf; Confer&ecirc;ncia Internacional de Psicocirurgia e a    influ&ecirc;ncia dos cientistas brasileiros na atribui&ccedil;&atilde;o do Pr&eacute;mio    Nobel a Egas Moniz". In: Mota, A.; Marinho, M. G. S. M. C. (org.). <i>Hist&oacute;ria    da psiquiatria: ci&ecirc;ncia, pr&aacute;ticas e tecnologias de uma especialidade    m&eacute;dica</i>, S&atilde;o Paulo. Museu Hist&oacute;rico Prof. Carlos da    Silva Lacaz, 2012, pp. 11-28.    </font></p>      ]]></body>
<back>
<ref-list>
<ref id="B1">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Fernandes]]></surname>
<given-names><![CDATA[B.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Egas Moniz, pioneiro dos descobrimentos médicos]]></source>
<year>1983</year>
<publisher-loc><![CDATA[Lisboa ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[ICLP]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B2">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Pereira]]></surname>
<given-names><![CDATA[A. L.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Pita]]></surname>
<given-names><![CDATA[J. R]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Egas Moniz em livre exame]]></source>
<year>2000</year>
<publisher-loc><![CDATA[Coimbra ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Minerva]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B3">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Antunes]]></surname>
<given-names><![CDATA[J. L.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Egas Moniz: Uma biografia]]></source>
<year>2010</year>
<publisher-loc><![CDATA[Lisboa ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Gradiva]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B4">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Kotowicz]]></surname>
<given-names><![CDATA[Z.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[Psychosurgery: The birth of a new scientific paradigm. Egas Moniz and the present day]]></source>
<year>2012</year>
<publisher-loc><![CDATA[Lisboa ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Centre of Philosophy of Sciences]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
<ref id="B5">
<nlm-citation citation-type="book">
<person-group person-group-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Correia]]></surname>
<given-names><![CDATA[M.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Marinho]]></surname>
<given-names><![CDATA[G. S. M. C.,]]></given-names>
</name>
</person-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A 1ª Conferência Internacional de Psicocirurgia e a influência dos cientistas brasileiros na atribuição do Prémio Nobel a Egas Moniz"]]></article-title>
<person-group person-group-type="editor">
<name>
<surname><![CDATA[Mota]]></surname>
<given-names><![CDATA[A.]]></given-names>
</name>
<name>
<surname><![CDATA[Marinho]]></surname>
<given-names><![CDATA[M. G. S. M. C.]]></given-names>
</name>
</person-group>
<source><![CDATA[História da psiquiatria: ciência, práticas e tecnologias de uma especialidade médica]]></source>
<year>2012</year>
<page-range>11-28</page-range><publisher-loc><![CDATA[São Paulo ]]></publisher-loc>
<publisher-name><![CDATA[Museu Histórico Prof. Carlos da Silva Lacaz]]></publisher-name>
</nlm-citation>
</ref>
</ref-list>
</back>
</article>
