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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Panorama do desenvolvimento tecnológico em vacinas no Brasil]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ 
    <p align="right"><font face="verdana" size="2"><b>ARTIGO</b></font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="4"><b>Panorama do desenvolvimento tecnol&oacute;gico
  em vacinas no Brasil</b></font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>Akira Homma; Cristina A. Possas;
  Reinaldo M. Martins</b></font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2">A vacina&ccedil;&atilde;o de doen&ccedil;as imunopreven&iacute;veis &eacute; considerada como
  uma das atividades de maior impacto em sa&uacute;de p&uacute;blica e de melhor
  custo-benef&iacute;cio. Os resultados s&atilde;o t&atilde;o impactantes que a Organiza&ccedil;&atilde;o
  Mundial da Sa&uacute;de considera que somente a &aacute;gua pot&aacute;vel &eacute; superior &agrave;s
  atividades de preven&ccedil;&atilde;o de doen&ccedil;as por vacinas.</font></p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Aproveitando a euforia da grande conquista da erradica&ccedil;&atilde;o da
  var&iacute;ola no pa&iacute;s, o Brasil criou, em 1973, o Programa Nacional de
  Imuniza&ccedil;&otilde;es (PNI) do Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de, com apenas 6 vacinas no
  calend&aacute;rio b&aacute;sico. Desde ent&atilde;o, todos os governos apoiaram o
  fortalecimento do PNI, e hoje, gra&ccedil;as ao envolvimento de profissionais
  altamente competentes e a ado&ccedil;&atilde;o de estrat&eacute;gias e procedimentos muito
  efetivos, o programa brasileiro &eacute; reconhecido internacionalmente como um
  dos mais efetivos e completos, alcan&ccedil;ando altas coberturas de vacina&ccedil;&atilde;o,
  com resultados de grande impacto, como a erradica&ccedil;&atilde;o da poliomielite e
  sarampo, e redu&ccedil;&atilde;o significativa de notifica&ccedil;&otilde;es de todas outras doen&ccedil;as
  imunopreven&iacute;veis.</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Quase todas as vacinas existentes no mercado internacional
  j&aacute; foram incorporadas na rotina do PNI, para o que foi crucial a
  contribui&ccedil;&atilde;o de produtores p&uacute;blicos nacionais, como
  Bio-Manguinhos/Fiocruz e o Instituto Butantan, entre outros. Entre as
  vacinas incorporadas est&atilde;o as de rotavirus, pneumococos conjugada,
  meningite meningoc&oacute;cica sorogrupo C conjugada, influenza, HPV e, no
  corrente ano, hepatite A &#8211; todas de alto custo e de alta
  complexidade tecnol&oacute;gica. O PNI, em face de seriedade, compet&ecirc;ncia e
  qualidade dos resultados obtidos, tem merecido alta confiabilidade da
  popula&ccedil;&atilde;o em geral e das sociedades cientificas e m&eacute;dicas especializadas.</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Em 1980, com a crise de produ&ccedil;&atilde;o e desabastecimento de soros
  imunes contra venenos de of&iacute;dios e vacinas, o Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de criou o
  Programa Nacional de Auto-sufici&ecirc;ncia em Imunobiol&oacute;gicos (Pasni),
  investindo de forma cont&iacute;nua, em mais de uma d&eacute;cada, cerca de US$ 100
  milh&otilde;es na moderniza&ccedil;&atilde;o e aumento da capacidade de produ&ccedil;&atilde;o. Essa clara
  defini&ccedil;&atilde;o de prioridade pelo governo brasileiro, na ocasi&atilde;o, foi muito
  importante para o pa&iacute;s. Possibilitou a amplia&ccedil;&atilde;o da capacidade
  tecnol&oacute;gica instalada, tornando-a capaz de atender &agrave; demanda de insumos
  estrat&eacute;gicos como vacinas. Esta pol&iacute;tica, al&eacute;m de possibilitar a
  regula&ccedil;&atilde;o de pre&ccedil;os e evitar o desabastecimento, tem efeito multiplicador,
  demandando novas tecnologias e abrindo o mercado interno para novos
  insumos, equipamentos e profissionais de alta qualifica&ccedil;&atilde;o.</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Nesse contexto de busca do dom&iacute;nio tecnol&oacute;gico na produ&ccedil;&atilde;o
  nacional de imunobiol&oacute;gicos com o objetivo de acelerar a incorpora&ccedil;&atilde;o
  tecnol&oacute;gica de novas vacinas, destacou-se a politica do uso do poder de
  compra p&uacute;blico pelo Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de, adotada por diferentes governos
  como pol&iacute;tica de Estado. Essa utiliza&ccedil;&atilde;o do poder de compra governamental
  no SUS &eacute; uma pol&iacute;tica que atrela a incorpora&ccedil;&atilde;o de novas vacinas &agrave;
  obrigatoriedade do detentor da tecnologia de produ&ccedil;&atilde;o de transferir a
  tecnologia em um prazo adequado para a sua incorpora&ccedil;&atilde;o pelo laborat&oacute;rio
  nacional. A ado&ccedil;&atilde;o dessa pol&iacute;tica vem permitindo aos laborat&oacute;rios nacionais,
  notadamente a Bio-Manguinhos/Fiocruz e ao Instituto Butantan, a
  incorpora&ccedil;&atilde;o r&aacute;pida de novas tecnologias de produ&ccedil;&atilde;o de importantes
  vacinas para o PNI. No entanto, estes dois laborat&oacute;rios, al&eacute;m da
  produ&ccedil;&atilde;o, realizam tamb&eacute;m atividades de desenvolvimento de novas vacinas,
  como contra a dengue, mal&aacute;ria, leishmaniose, novas vacinas combinadas e
  outras.</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Cabe, contudo, destacar que, apesar dessas conquistas,
  precisamos avan&ccedil;ar muito mais na inova&ccedil;&atilde;o e no desenvolvimento
  tecnol&oacute;gico, criando um ambiente institucional e regulat&oacute;rio prop&iacute;cio &agrave;
  emerg&ecirc;ncia da inova&ccedil;&atilde;o. As atividades de desenvolvimento tecnol&oacute;gico e de
  inova&ccedil;&atilde;o s&atilde;o, por defini&ccedil;&atilde;o, atividades de longo prazo, com v&aacute;rias
  etapas, que requerem equipes multidisciplinares, instala&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas
  para cada etapa, al&eacute;m do seu alto custo e retorno incerto do
  investimento. Essas caracter&iacute;sticas intr&iacute;nsecas ao desenvolvimento de uma
  nova vacina torna essa atividade muito complexa, exigindo estrat&eacute;gias bem
  definidas de governan&ccedil;a, incluindo financiamento a longo prazo,
  coordena&ccedil;&atilde;o e gest&atilde;o profissional especificamente desenhadas para
  assegurar a viabilidade e continuidade dos projetos.</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Para a emerg&ecirc;ncia da inova&ccedil;&atilde;o &eacute; necess&aacute;ria tamb&eacute;m uma
  estrat&eacute;gica colaborativa bem definida na pesquisa cient&iacute;fica e
  tecnol&oacute;gica. No pa&iacute;s, e mesmo na maioria de outros pa&iacute;ses em
  desenvolvimento, n&atilde;o existe nenhuma institui&ccedil;&atilde;o com capacidade cient&iacute;fica
  e tecnol&oacute;gica para realizar todas as etapas de desenvolvimento, desde a
  descoberta, realiza&ccedil;&atilde;o da pesquisa translacional, at&eacute; chegar ao produto
  final. Isto se deve &agrave; car&ecirc;ncia de profissionais com experi&ecirc;ncia para as
  diferentes etapas de desenvolvimento e &agrave; falta de estruturas voltadas,
  sobretudo, &agrave;s etapas finais. Estas requerem instala&ccedil;&otilde;es com normas de
  boas pr&aacute;ticas de laborat&oacute;rio e voltadas &agrave; produ&ccedil;&atilde;o de lotes experimentais
  para estudos cl&iacute;nicos e requerem tamb&eacute;m o atendimento a boas pr&aacute;ticas de
  fabrica&ccedil;&atilde;o, al&eacute;m das normas de biosseguran&ccedil;a. Em sequ&ecirc;ncia, apresentamos
  a Figura 1, em que essas diferentes etapas podem ser vistas. Cabe observar
  que uma nova descoberta &eacute; um processo cumulativo que pode requerer muitos
  anos de investimento cont&iacute;nuo em pesquisa b&aacute;sica e desenvolvimento
  tecnol&oacute;gico.</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Nessas primeiras etapas, at&eacute; os estudos pr&eacute;-cl&iacute;nicos, a
  preocupa&ccedil;&atilde;o maior &eacute; a busca da prova de conceito, a partir de estudos
  laboratoriais em animais. No estudo pr&eacute;-cl&iacute;nico, busca-se demonstrar dois
  aspectos importantes para o projeto seguir adiante, que &eacute; a seguran&ccedil;a do
  material e a imunogenicidade, antes de ser aplicado em seres humanos. Os
  estudos pr&eacute;-cl&iacute;nicos requerem animais sanit&aacute;ria e geneticamente
  controlados e certificados, al&eacute;m de grandes investimentos em recursos
  humanos especializados e instala&ccedil;&otilde;es, constituindo-se, certamente por
  esta raz&atilde;o, em um dos principais gargalos para o processo de inova&ccedil;&atilde;o e
  desenvolvimento tecnol&oacute;gico em imunobiol&oacute;gicos em nosso pa&iacute;s. Deve ser
  ressaltado que, pelos motivos apontados e por sua alta complexidade, os
  estudos pr&eacute;-cl&iacute;nicos acabam, em nosso pa&iacute;s, restringindo-se a pequenos
  grupos, com experi&ecirc;ncia ainda restrita. Por essa raz&atilde;o, o desenvolvimento
  de recursos humanos nessa &aacute;rea &eacute; crucial e deve passar por centros
  especializados e de excel&ecirc;ncia em outros pa&iacute;ses. A supera&ccedil;&atilde;o desses
  gargalos est&aacute;, portanto, diretamente ligada &agrave; valoriza&ccedil;&atilde;o do profissional
  envolvido e requer uma forte a&ccedil;&atilde;o indutora do Estado, devendo
  necessariamente integrar um plano estrat&eacute;gico de longo prazo.</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Uma vez obtida a prova de conceito, os resultados do projeto
  devem mostrar a possibilidade de escalonamento de produ&ccedil;&atilde;o (<i>scale-up</i>)
  e a transforma&ccedil;&atilde;o do produto em insumo aplic&aacute;vel &agrave; sa&uacute;de p&uacute;blica.&nbsp;</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p align="center"><font face="verdana" size="2"><b>&nbsp;</b></font><img src="/img/revistas/cci/n162/a07fig01.jpg"></p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2">Por outro lado, existe uma falta de compreens&atilde;o dessa
  complexidade e dos gargalos existentes, por parte das ag&ecirc;ncias de
  financiamento, para analisar e contemplar o conjunto das atividades de
  desenvolvimento tecnol&oacute;gico, sendo muito escassos no pa&iacute;s os grupos
  financiados para a&ccedil;&otilde;es espec&iacute;ficas de inova&ccedil;&atilde;o e desenvolvimento
  tecnol&oacute;gico.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="3"><b>Considera&ccedil;&otilde;es finais</b></font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">&Eacute; necess&aacute;rio que o governo brasileiro e as ag&ecirc;ncias de
  fomento definam novas estrat&eacute;gias que permitam situar o Brasil de forma
  mais adequada e competitiva no cen&aacute;rio internacional. Este cen&aacute;rio vem
  sendo marcado pelo acelerado avan&ccedil;o em campos diversos relacionados &agrave;
  &aacute;reas de fronteira, como, entre outras, a biotecnologia, com expressivas
  mudan&ccedil;as nos paradigmas tecnol&oacute;gicos, com a emerg&ecirc;ncia de produtos
  inovadores em novas plataformas de gera&ccedil;&atilde;o de conhecimentos e
  tecnologias.</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">O Brasil tem razo&aacute;vel capacidade instalada para produ&ccedil;&atilde;o de
  vacinas. Bio-Manguinhos/Fiocruz e o Instituto Butantan j&aacute; atendem a 90%
  das demandas do setor p&uacute;blico por vacinas no pa&iacute;s. Neste contexto,
  Bio-Manguinhos vem investindo no desenvolvimento e produ&ccedil;&atilde;o de kits para
  diagn&oacute;stico laboratorial de ponta, e tem fornecido para o kit NAT
  (Nuclear Acid Testing) a todos os bancos de sangue do pa&iacute;s, o teste
  r&aacute;pido para diagn&oacute;stico de HIV e de outras doen&ccedil;as infecto-contagiosas.</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Para avan&ccedil;ar nesse processo ser&aacute; necess&aacute;rio, tamb&eacute;m, al&eacute;m dos
  investimentos, superar outras importantes barreiras na &aacute;rea da regula&ccedil;&atilde;o,
  no &acirc;mbito da Conep e da Anvisa, assegurando agilidade na avalia&ccedil;&atilde;o da
  &eacute;tica e de procedimentos dos estudos cl&iacute;nicos. Essas avalia&ccedil;&otilde;es devem
  considerar a complexidade e a especificidade dos requerimentos exigidos
  para o desenvolvimento desses produtos inovadores, sendo fundamental
  assegurar a simplifica&ccedil;&atilde;o dos procedimentos. Finalmente, cabe destacar a
  import&acirc;ncia crucial de um plano estrat&eacute;gico nacional para os pr&oacute;ximos 20
  anos, voltado &agrave; supera&ccedil;&atilde;o de lacunas em campos diversos relacionados &agrave;
  inova&ccedil;&atilde;o e ao desenvolvimento tecnol&oacute;gico em imunobiol&oacute;gicos, como, entre
  outros, a revis&atilde;o e atualiza&ccedil;&atilde;o das leis que regem a propriedade
  intelectual no pa&iacute;s.</font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b><i>Akira Homma</i></b><i>&nbsp;&eacute;
  presidente do Conselho Pol&iacute;tico e Estrat&eacute;gico de Bio-Manguinhos/Fiocruz;</i></font>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>
  <font face="verdana" size="2"><b><i>Cristina Possas</i></b><i>&nbsp;&eacute;
    assessora cient&iacute;fica s&ecirc;nior de Bio-Manguinhos/Fiocruz;</i></font>    <br>
  <font face="verdana" size="2"><b><i>Reinaldo M. Martins</i></b><i>&nbsp;&eacute; assessor cient&iacute;fico s&ecirc;nior de
    Bio-Manguinhos/Fiocruz.</i></font></p>
     ]]></body>

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