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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="verdana" size="2"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="4"><b>O que os dados podem dizer sobre nós</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Juliana Passos</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">Um   garoto pisou na bola ao terminar com a namorada pelo Instagram. Expôs a menina   e a si mesmo em uma situação que virou notícia no mundo inteiro, com direito a   lições de moral em diversas línguas. Uma moça perdeu a chance de concorrer a um   posto de trabalho, porque seu possível empregador descobriu que ela estava processando   a antiga empresa &#150; do mesmo setor &#150; no banco de dados online disponibilizado   pelo judiciário. Uma bebê foi acordada por uma voz estranha durante a   madrugada. Um hacker entrara no sistema de sua babá eletrônica e pedira que   acordasse, algo de proporção bem menor do que a espionagem da Agência Nacional   de Segurança (NSA) dos Estados Unidos feita a milhares de usuários do Yahoo que   conversavam via webcam. Esses são alguns exemplos chocantes, revoltantes ou   engraçados de situações às quais estamos expostos em um mundo cibermediado.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">"As pessoas ainda estão aprendendo a lidar com a exposição de   dados na rede. A internet é muito nova e (muitos usuários) não viram até agora   nenhum problema acontecer, mas a partir do momento em que você coloca várias   informações suas na rede, pode sofrer invasão", diz o ativista Silvio Rhatto,   um dos sócios da empresa de segurança Oblivia. Ele aponta que as violações de   privacidade podem ser feitas tanto por um plano de saúde que consegue acessar   suas informações a partir de prontuários eletrônicos quanto pela Serasa, com   sua construção de banco de dados feita com informações repassadas pelo Tribunal   Superior Eleitoral, além das recorrentes invasões de conta bancária por   estelionatários.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Em entrevista ao jornal <i>Folha de S. Paulo</i>, o consultor   Andreas Weigend, que foi cientista-chefe da Amazon e hoje dá aulas na   Universidade Stanford, coloca a exposição de dados como algo irreversível, mas   vê a necessidade de regulamentação do destino desses dados. "A questão não é   mais se queremos revelar ou compartilhar algo, já que informações que a KGB   (agência russa de espionagem) não conseguia arrancar das pessoas sob tortura   estão agora disponíveis na internet. A questão é o que a sociedade vai fazer   com essas informações. Se um empregador descobre pelo Facebook que eu sou gay e   ele não quer contratar homossexuais, o que a sociedade vai fazer com isso?".</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Ele compara a quantidade de dados disponíveis na rede, o "big   data", com o petróleo bruto. "Do mesmo modo, no caso do ‘big data’, as grandes   companhias, aquelas que vão ganhar muito dinheiro, serão aquelas que   transformarem essas informações em produtos que permitam que nós tomemos   decisões melhores". Weigend se refere ao poder de mineração dos dados, o <i>data mining</i>. Um exemplo de mineração dos dados foi apresentado em uma matéria do jornal <i>The New York Times</i> em   2012, ao explicar que usuários que visualizavam uma certa quantidade de itens   para bebês tinham alta probabilidade de estarem próximos de ganhar um filho e,   partir disso, os sites visitados passaram a enviar pelo correio cupons   promocionais desses produtos. Dentro das redes sociais, a mineração de dados é   intensa para mapear as principais conexões entre indivíduos e seus gostos ou   hábitos de consumo.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O coordenador do Pimenta Lab &#150; Laboratório de Tecnologia, Política   e Conhecimento da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Henrique Parra,   lembra do potencial de rastreabilidade inerente às tecnologias digitais, não   necessariamente ligadas a redes de relacionamento ou email. Em uma simples   compra, ao utilizar o cartão de crédito e solicitar a nota fiscal eletrônica,   suas informações são enviadas ao seu banco, à operadora do cartão, à Receita   Federal e à prefeitura do município onde a compra foi realizada. Também é   possível pagar o transporte público com seu bilhete com cadastro do CPF e   entrar no escritório de trabalho passando por uma catraca eletrônica ao   introduzir seu crachá. Para o pesquisador, a facilidade das novas tecnologias   cria um paradoxo. "Ao mesmo tempo em que oferece uma facilidade, ela, de alguma   maneira, tem implícita uma racionalidade política para o seu funcionamento. E   essa técnica é tão mais eficiente quanto mais facilidade ela apresenta no seu   uso e quanto mais indireta for a forma que ela instala uma racionalidade   política no seu funcionamento. É a possibilidade de relações plenamente   transparentes com um mecanismo de controle implícito". Ele lembra que as   possibilidades de registro atuais não são sinônimos de monitoramento, pois isso   depende da forma de armazenamento de dados. "Uma coisa é a difusão   das tecnologias de registro, outra coisa é a integração desses bancos de dados,   que é uma coisa que está acontecendo mais facilmente à medida que cresce a   convergência digital".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>Resistência ao uso</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Um   dos motivos para o uso da criptografia &#150; método de codificação de mensagens   para que apenas o seu destinatário consiga lê-la &#150;, na opinião de Ricardo   Dahab, pesquisador do Instituto de Computação da Universidade Estadual de   Campinas (Unicamp), vem de uma lógica simples. "Se existe um mercado paralelo   para venda de roupas, eletrônicos, existe também um para o comércio de   dados". Um dos objetos de pesquisa de Dahab é a produção de segundas   formas de verificação para acesso a contas, como envio de códigos para celular   e o uso de geradores de senhas &#150; <i>tolkiens &#150; </i>para bancos. Atualmente ele   trabalha com a produção de transparências capazes de serem visualizadas apenas   com uma luz específica com função parecida com a do <i>tolkien</i>. Apesar de   acreditar na necessidade de proteção, ele considera que há uma certa   resistência do usuários em adotar medidas de segurança porque elas, em geral,   criam barreiras para o acesso fácil a determinados serviços. "As pessoas também   acabam ficando com medo de criar senhas e esquecerem e perder todos os dados   que tinham em um computador", aponta.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O   pesquisador avalia que, para a maioria das pessoas, adotar sistemas de   segurança ainda é visto como um estorvo. "Quem quer ter 10 cadeados na sua   porta? Ficar lidando com cadeado, guardando chave. Não é uma coisa que você   quer fazer, nunca, é?" Tanto ele, quanto o presidente da Associação Brasileira   de Internet (Abranet), Eduardo Neger, consideram que o interesse por medidas de   segurança por parte do usuário comum ainda é pequeno. No caso da Abranet, que   representa provedores de conteúdo e pequenos provedores de conexão, Neger   relata que diversas empresas que estão investindo em sistemas de segurança não   estão recebendo o número de propostas que esperavam. "Nem mesmo usuários   corporativos &#150; empresas de grande e médio porte &#150; têm demonstrado interesse em   proteger seus dados", diz.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O   manual do grupo Saravá, coletivo formado para desenvolver instrumentos   tecnológicos para movimentos sociais, avisa que não existe segurança sem algum   esforço para evitar "paranoia" ou excesso de senhas, e recomenda "estabelecer   uma política pessoal de segurança levando em conta qual o nível de privacidade   você quer nas suas informações" e sugere que, a partir disso, você "construa   seu esquema de segurança informacional".</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O   número de projetos para desenvolvimento de comunicação segura é imenso. A   maioria, de acordo com Silvio Rhatto e Ricardo Dahab, está focada em boa   implementação da criptografia para facilitar a própria atividade dos   programadores. Eles apontam usabilidade como um dos desafios para tornar a   criptografia como algo de uso das massas. "Assim como existem vários botões que   permitem uma série de funções, deveria ter um ‘tranque (criptografe) o meu   celular totalmente’, um botãozinho só", exemplifica Dahab.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Para   garantir uma navegação anônima sem coleta de registro de acesso (<i>logs</i>),   um dos programas mais usados é o Tor &#150; sigla em inglês para The onion router.   No entanto, a navegação anônima promovida por esse software livre não significa   que seus dados de conteúdo não possam ser coletados. Para isso é necessário   usar o programa Tails, queridinho de Edward Snowden e que acaba de sair em sua   versão beta, para proteger o conteúdo do seu acesso e criptografar esses dados.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Aos   poucos, programas ligados à comunicação segura estão aparecendo, com serviços   de e-mail e aplicativos seguros para troca de mensagens instantâneas. Um deles   é o TextSecure, embora tenha a necessidade de estar vinculado à <i>play store</i> da Google, mas permite a troca de mensagens criptografadas e bate-papo gratuito   entre usuários.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Um   projeto mais amplo de comunicação segura é o Leap, sediado nos Estados Unidos,   com contribuições de diversas partes do mundo, inclusive do Brasil, com a   participação da Oblivia. O projeto é desenvolvido totalmente em software livre   e tem como objetivo criar sistemas de comunicação segura. Até o final do ano,   está previsto o lançamento do serviço de e-mails. Ao falar em software livre,   Rhatto lembra que não significa que seja totalmente gratuito, pois os custos de   verificação de criptografia são extremamente altos e o ideal seria que houvesse   uma rede de financiamento de usuários. Atualmente, boa parte dos trabalhos em   software livre como Linux, Tor e o próprio Leap são financiados com dinheiro do   Estado americano.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Dahab   também pondera que o financiamento coletivo seria o ideal. "Um governo deve   trabalhar pelo cidadão, pela população, mas nem sempre se comporta assim. Você   tem uma coisa (o software livre) que é pra ser idealmente libertária, que dá   autonomia ao cidadão. Então, eu acho que idealmente deveria ser algo   independente de financiamento oficial", diz. Ele acredita que a possibilidade   de verificação permitida pelos softwares livres diminua a chance de ingerência   por parte dos governos e empresas que eventualmente financiem determinados   projetos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>Democracia</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Em   um <i>talk show</i> realizado para a conferência TED   (Tecnologia, Entretenimento e Design) em março deste ano, Edward Snowden fez um   apelo a empresas de conteúdo para que usem conexões seguras, ao explicar o que   é possível recolher com metadados. A sua coleta é prevista pela legislação   americana e permite obter todos os registros telefônicos feitos e saber se o   telefone está público &#150; nas inúmeras listas telefônicas disponíveis online, é   possível saber com quem e quando você está falando e até para onde você viajou.   Também é possível saber em quais livros você clicou no banco de dados da Amazon   &#150; e a partir deles você recebe novas sugestões de títulos relacionados. "Todas   as empresas precisam ter o hábito da navegação criptografada como padrão, para   proteger os usuários que não tenham realizado qualquer ação ou escolhido   quaisquer métodos especiais por conta própria", disse Snowden.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O   ex-analista da NSA também comentou sobre a retenção de conteúdo dos   internautas, ainda sem regulamentação prevista. "O Prism é um programa do   governo que pode obrigar as empresas americanas a fazer trabalho sujo para NSA.   E apesar de algumas empresas resistirem, pedindo que isso fosse feito por meios   legais &#150; acredito que o Yahoo e o Google sejam algumas delas &#150;, todas contribuíram,   porque isso nunca havia sido tentado em um tribunal aberto".</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">No   Brasil, uma brecha legal para monitoramento foi aprovada com o novo Marco Civil   em seu artigo 15, com a permissão de guarda de <i>logs</i> e acesso a   aplicativos e serviços por seis meses a um ano, podendo ser estendidos em caso   de pedido judicial. Para Silvio Rhatto, tal determinação respeita menos os   limites de privacidade do que os já previstos na Lei do Grampo. Em seu <i>blog</i>,   ele escreve: "Na balança dos direitos individuais ‘<i>versus</i>’ interesses   supostamente coletivos, o ganho de agilidade em investigações civis e criminais   seria muito baixo em comparação à gravidade da drástica diminuição da   privacidade de toda a população do país". Isso porque aqueles que usam a rede   para praticar crimes como de pedofilia, lavagem de dinheiro ou roubo de   informações realizam essas ações através de operações sofisticadas e utilizam   inúmeras formas de segurança de dados.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O   diretor presidente da Abranet, Eduardo Neger, acredita que fixar um prazo para   guarda de dados foi um avanço da legislação. "Há provedores que guardam <i>logs</i> de acesso há muito tempo, até por tempos maiores do que foi determinado pelo   Marco Civil. O que é importante é que a legislação determinou o que cada um   pode guardar. O provedor de conexão e de telefonia não pode guardar seu   histórico de navegação e nenhuma outra informação relativa à sua navegação,   somente o <i>log</i> de acesso. Você corria o risco de sua operadora guardar   tudo o que você fazia na internet. Hoje não pode mais. A operadora só pode   guardar a hora que você entrou e quem você é (seu endereço IP), só isso. O   grande impacto que ocorreu foi nas operadoras de telecomunicação, que não fazem   parte da nossa associação (a Abranet), aquelas que estavam contra a   neutralidade da rede".</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Em   abril, o Tribunal de Justiça Europeu decidiu suspender a Diretiva de Retenção   de Dados estabelecida desde 2006, após ataques terroristas em Madri, por   considerar que há brechas jurídicas para coleta de dados que violam a   privacidade das pessoas, como hábitos da vida cotidiana, locais de residência   permanentes ou temporários, os deslocamentos diários, atividades exercidas,   relações sociais e meios sociais frequentados.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Após   as manifestações de junho de 2013 no Brasil, o governo do estado do Rio de   Janeiro criou a Comissão Especial de Investigação de Atos de Vandalismo em   Manifestações (CEIV), que previa o repasse de dados por parte das operadoras de   telecomunicação em 24 horas e sem mandado judicial. Após pressão da sociedade   civil e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o texto foi alterado: "As   empresas operadoras de telefonia e provedores de internet darão prioridade para   o atendimento dos pedidos de informações formulados pela CEIV ou decorrentes de   ordem judicial nos casos de sigilo previstos na legislação".</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Ao   propor uma reflexão sobre a retenção de dados por parte da NSA ou questionar a   exposição de dados em sites governamentais sobre pessoas físicas, Henrique   Parra faz uma diferenciação entre a divulgação dos documentos secretos   realizada pelo Wikileaks e a exposição de dados de pessoas físicas. "O   Wikileaks trabalha com uma ideia de transparência aplicada a governos e grandes   corporações. Uma diferença fundamental é pensar em uma assimetria das relações   de poder. O Wikileaks trabalha com transparência para governos, que têm um   dever de publicização. Eles respondem por isso, faz parte da democracia. E as   corporações, na medida em que fazem ações que têm impacto sobre a sociedade,   também devem prestar contas".</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A distinção   também é feita pela jornalista Natália Viana, da Pública, uma agência de   reportagem e jornalismo investigativo sem fins lucrativos e responsável pelo   Wikileaks no Brasil. "A liberação de dados não tem nada a ver com privacidade.   Os vazamentos são relatórios oficiais aos quais já tinham acesso 2,5 milhões de   pessoas. Os documentos revelaram inúmeros abusos de poder, mostraram   espionagens do governo americano a integrantes da ONU, como cartão de crédito e   DNA, em nome de empresas e governos. Mostrou como funciona a política a portas   fechadas", comenta. Viana também confirmou a tentativa de censura sofrida por   Julian Assange em sua participação durante o NetMundial, a qual classificou   como "excesso de zelo do governo brasileiro", após ministros receberem ligações   do Estado americano de que tal participação seria uma indelicadeza, o que   atrasou por alguns minutos o debate do qual Assange participaria.</font></p>      ]]></body>

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