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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="verdana" size="2"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p align="right">&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="4"><b>Ciência   e guerra: era uma vez a internet</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Gabrielle   Adabo</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">O   mundo está em guerra, dividido em duas grandes facções coordenadas, cada uma,   por uma nação. A cada dia uma nova arma é criada e a ameaça de um conflito   direto se torna mais iminente. Os limites da Terra são ultrapassados e a   disputa agora toma as dimensões do espaço. Os países investem na ciência e na   tecnologia e surgem invenções para permitir a defesa das informações. Esse bem   que poderia ser o enredo de uma ficção científica, mas é um relato que faz   parte da história do surgimento de muitas das tecnologias que nos cercam, como   o próprio mecanismo que torna possível que este texto chegue até o leitor: a   internet.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A   origem do sistema que conecta em rede os computadores de todo o mundo remete ao   período que começou logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. A   Guerra Fria, então estabelecida entre os Estados Unidos e a União Soviética,   levou ao desenvolvimento de tecnologias nas corridas armamentista e espacial.   Em 1957, a União Soviética lançou os satélites Sputnik 1 e 2 e, como resposta,   o Departamento de Defesa dos Estados Unidos criou a ARPA (Advanced Research   Projects Agency), agência por meio da qual o governo norte-americano incentivou   a pesquisa em tecnologias de computadores nas universidades.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">"Essa   Agência, em convênio com algumas universidades escolhidas a dedo, investiu   milhões de dólares em diversos projetos, entre os quais estava a criação de uma   rede que pudesse conectar os diferentes computadores, distantes e isolados   entre si, das universidades patrocinadas, de maneira a compartilhar e otimizar   o uso desses caríssimos recursos, além de desenvolver conhecimento nessa área",   explica o arquiteto   de tecnologia da informação Marcelo Sávio, professor adjunto da Universidade do   Estado do Rio de Janeiro (Uerj), que traçou, em sua dissertação de mestrado, a   história do surgimento da internet e a trajetória da rede no Brasil.   "Essa rede, que veio a ser chamada de Arpanet, entrou em operação no final de   1969, expandiu-se ao longo dos anos 1970 e desvinculou-se dos militares na   década de 1980, quando integrou-se com outras redes acadêmicas existentes   (NSFNET, CSNET etc.) dando origem ao que hoje chamamos de internet", continua.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">De   acordo com os historiadores Asa Briggs e Peter Burke, no livro <i>Uma história   social da mídia</i>, a visão do Pentágono era que a Arpanet seria um importante   mecanismo de defesa: ainda que os computadores ou mesmo a infraestrutura de   comunicação fossem destruídos em um ataque nuclear do rival soviético, a rede   ainda seria mantida. A visão da universidade, segundo esses autores, no   entanto, era de uma rede de acesso livre a pesquisadores e professores, por   meio da qual eles poderiam se comunicar. A rede criada quebrava as informações   enviadas em partes que eram codificadas e unidas novamente no computador   receptor. Um dos principais usos da Arpanet era a troca de mensagens. Briggs e   Burke contam que as primeiras convenções de símbolos na internet começaram   nessa troca: o @ já aparecia nos endereços de e-mail. Em 1986, surgem as   abreviações "com" para comércio, "mil" para forças armadas e "edu" para   educação.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>Do   militar ao civil</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A   relação entre ciência e militarismo esteve presente não apenas no nascimento da   internet, mas desde a criação da informática. O período das duas grandes   guerras, paradoxalmente, foi especialmente frutífero para o desenvolvimento de   tecnologias que mais tarde ganhariam uma importância social gigantesca e se   tornariam indispensáveis na vida atual. A historiadora Aracele Torres, ativista   do software livre, defende em sua dissertação de mestrado sobre o projeto GNU   que é necessário conhecer o contexto histórico no qual essas ferramentas de   comunicação foram concebidas, para desnaturalizá-las e compreender que elas   surgiram como tecnologias de guerra. Os computadores nasceram com a reputação   de máquinas ligadas aos conflitos e esse estigma só iria se transformar,   segundo ela, na década de 1970 nos Estados Unidos, graças à atuação de grupos   dos quais faziam parte hackers, acadêmicos e hippies, em São Francisco, na   Califórnia.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">"Todas   as tecnologias, quando nascem, são caracterizadas por um uso inicial   específico, mas esse uso pode variar (e geralmente varia) com o passar do   tempo. Foi isso que aconteceu com o computador e a internet, uma   ressignificação desse uso", explica Torres. O computador, segundo ela, foi   criado como uma máquina de calcular para uso militar que, mais tarde, passou a   ser vendida a civis e usada por empresas para o processamento de informações. A   produção das máquinas pelos próprios usuários levou ao surgimento dos primeiros   computadores pessoais na década de 1970.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">"Essa   trajetória do computador do ambiente militar até o ambiente doméstico demonstra   como as ferramentas tecnológicas podem variar de função de acordo com as nossas   demandas sociais. Com a internet, ocorreu o mesmo. Inicialmente, ela era usada   apenas para a comunicação entre cientistas; depois, com o passar do tempo, os   usuários foram atribuindo a ela outras novas funções, uma rede de pesquisa se   tornou uma rede social que liga pessoas do mundo inteiro e onde é possível   comprar, jogar, namorar, estudar, fazer política etc.", afirma a historiadora.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>Consolidação   e formatação</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A   partir dos anos 1980, a internet se consolida e ganha mecanismos que foram   essenciais para formatar a rede como a conhecemos hoje. Mas já na década de   1970, havia surgido um conjunto de protocolos chamado de TCP/IP (Transmission   Control Protocol/Internet Protocol) que hoje é responsável por permitir a   comunicação entre os computadores e a transmissão de dados. O TCP garante que   as informações cheguem inteiras do emissor ao receptor. Já o IP é a   identificação do computador, um endereço único de cada máquina para que ela   possa enviar e receber informações.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">De   acordo com Marcelo Sávio, da Uerj, o TCP/IP surgiu com o objetivo de   interconectar a Arpanet com outras duas redes (a PRNET, via rádio, e a Satnet,   rede por satélite) e substituiu o protocolo NCP (Network Control Protocol), o   primeiro utilizado. O pesquisador explica que o IP só se tornou um protocolo   independente no final da década de 1970; no início, as funções do IP estavam   embutidas no TCP. No início da década de 1990, o TCP/IP estava disponível para   praticamente todos os computadores do mercado norte-americano.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Um   passo fundamental, de acordo com Briggs e Burke, para transformar um sistema de   comunicação de elite em comunicação de massa e em uma rede de abrangência   mundial, aconteceu em 1989, com a criação da world wide web pelo então   consultor de informática de um dos projetos do Cern (chamado Conselho Europeu   para Pesquisa Nuclear à época e, hoje, Organização Europeia para Pesquisa   Nuclear) Timothy Berners-Lee.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">De   acordo com a história refeita por Marcelo Sávio em sua dissertação de mestrado,   o consultor do Cern passou a desenvolver, para facilitar seu trabalho, sistemas   que permitissem o acesso, por uma rede de computadores, de dados do laboratório   no qual atuava e, para isso, usou o hipertexto, uma tecnologia que permitia que   dentro dos documentos houvesse referências para outros documentos, os   hiperlinks. O principal desafio de Berners-Lee era desenvolver uma ferramenta   de hipertexto que funcionasse para a internet. Com o auxílio do físico Robert   Cailliau, ele obteve o apoio do Cern ao projeto e codificou a world wide web.   Entre os principais elementos da web que Berners-Lee desenvolveu estavam a   linguagem HTML (Hypertex Markup Language), que foi baseada em uma linguagem   para marcação de documentos, a SGML (Standard Generalized Markup Language), e o   protocolo HTTP (Hypertex Transfer Protocol).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>A   internet para os brasileiros</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>"</b>O   primeiro acesso à internet no Brasil ocorreu em 1991, através da rede ANSP (Academic Network at São Paulo) da Fundação de   Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp)", conta Marcelo Sávio. A   implantação da rede no país, no entanto, de acordo com o pesquisador, começou   como um assunto de Estado na década de 1980, ainda durante o regime militar, e   estava ligada à ampliação da competitividade da indústria nacional e,   inclusive, a questões estratégico-militares. "A indústria   nacional alcançaria um maior desenvolvimento tecnológico se estivesse em   sintonia com o que estava acontecendo nos países desenvolvidos e, uma vez que o   Brasil era governado por militares, as questões geopolíticas decorrentes das   telecomunicações eram estratégicas para a autonomia e a segurança nacionais",   explica.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O   controle da comunicação de dados era, então, realizado pelo Ministério das   Comunicações e pela Secretaria Especial de Informática (SEI). "A SEI possuía   comissão especial para analisar o panorama da teleinformática nacional e   orientar a si e também ao Ministério das Comunicações no direcionamento de uma   política para o desenvolvimento do setor, que deveria, obviamente, estar   integrada no quadro mais geral da Política Nacional de Informática", completa   Marcelo Sávio. Outra de suas funções era autorizar as comunicações de dados do   Brasil com o exterior. A SEI havia sido criada em 1984, durante o governo do   general Figueiredo, baseada em resultados de uma investigação do Serviço   Nacional de Informações (SNI).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O monopólio da instalação e exploração dos serviços foi   concedido pelo Ministério das Comunicações à Empresa Brasileira de   Telecomunicações (Embratel). As empresas, também estatais, operadoras do   sistema Telebrás ficaram com serviços de valor agregado. "Esses serviços (Transdata, Renpac, Cirandão, Videotexto),   entretanto, tiveram pouca penetração no meio acadêmico e, até o final dos anos   1980, a comunidade acadêmica brasileira ainda estava, do ponto de vista da   comunicação de dados, totalmente desintegrada entre si e com o exterior",   explica Marcelo Sávio.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Por volta da metade dos anos 1980, o Brasil ainda   não possuía nenhuma rede nacional ou regional. "Havia mais de cinquenta redes   acadêmicas em mais de trinta países e no Brasil não havia nada", diz o   pesquisador da Uerj. A ANSP, criada em 1988, foi a primeira rede acadêmica do   país. "A conexão inicial era somente com a Bitnet, através de um circuito de   4800 bps (bits por segundo); depois, veio o tráfego Hepnet. Em 1991, as   pressões pelo uso da internet, resultaram no primeiro acesso acadêmico à   internet no Brasil, realizado em fevereiro de 1991, quando a Fapesp começou a   transportar, na sua rede ANSP, o tráfego TCP/IP (além do tráfego Hepnet e   Bitnet) e a ter acesso à rede Energy Sciences Network<i> </i>(Esnet), que   estava ligada à NSFNET, a qual, por sua vez, fazia parte da internet", relata.   A conectividade foi ampliada e estendida para outras universidades brasileiras   e incentivou a criação de redes internas.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">"A organização do acesso à internet no Brasil, até o   final de 1991, era eminentemente cooperativa, na qual cada instituição   participante custeava sua ligação para São Paulo. A solução definitiva, que   proporcionaria uma redução nos custos de conexão das universidades brasileiras   e uma maior distribuição e otimização no uso dos recursos de rede remetia à implantação   da RNP (Rede Nacional de Pesquisa)", diz Marcelo Sávio. O projeto da RNP foi   anunciado em setembro de 1989, durante o Congresso de Informática da Sociedade   de Usuários de Informática e Telecomunicações (Sucesu), mas enfrentou diversos   problemas até ser implementada em 1992, como a discussão sobre a utilização do   TCP/IP, protocolo que era vetado pelo governo por não seguir o modelo OSI então   adotado para protocolos de comunicação.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">A década de 1990 marcou a expansão da internet no   país por meio de sua comercialização. Marcelo Sávio lembra que, no final de   1994, o governo federal anunciou a intenção de promover o desenvolvimento da   internet no país e deixou a cargo da Embratel a criação da estrutura necessária   para sua exploração. Logo em seguida, iniciou-se o serviço de internet via   linha discada em caráter experimental, com cinco mil usuários, e em maio de   1995 o serviço passou a ser oferecido comercialmente de forma definitiva.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">"Em relação à organização da comercialização da   internet, o feito mais relevante foi quando, em junho de 1995, o governo   federal, na pessoa do (hoje falecido) ministro das Comunicações Sérgio Motta,   anunciou que a internet era um serviço de valor adicionado onde não haveria   monopólio e que as empresas de telecomunicações (na época ainda estatais) não   poderiam prover acesso aos usuários finais. Em seguida, uma portaria   interministerial (Ministério da Ciência e Tecnologia e Ministério das   Comunicações) criou o Comitê Gestor da Internet, formado por representantes do   governo, operadoras de <i>backbones</i>, provedores de acesso, comunidade   acadêmica e representante dos usuários", afirma Marcelo Sávio.</font></p>      ]]></body>

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