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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana"><b>RESENHA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana"><b>Conte-me os detalhes</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Por Simone Caixeta de Andrade</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">Livro re&uacute;ne obitu&aacute;rios do <i>New York Times</i>, que retratam em escrita mais liter&aacute;ria a vida de desconhecidos ou celebridades de um modo que nem eles se descreveriam</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"> Ao contr&aacute;rio de outros jornais de grande circula&ccedil;&atilde;o (isso ainda existe?), a se&ccedil;&atilde;o de obitu&aacute;rios do <i>New York Times</i> n&atilde;o se encontra espremida e envergonhada entre an&uacute;ncios publicit&aacute;rios, &agrave;s vezes, reduzida a minimalista f&oacute;rmula "quem, quando e onde" (nesse caso o cemit&eacute;rio!); por vezes, s&oacute; nome, idade e local do vel&oacute;rio. Ao contr&aacute;rio, mostra-se orgulhosa e sem economia de caracteres. O ilustre desconhecido &eacute; retratado t&atilde;o minuciosamente que, ao terminar a leitura do obitu&aacute;rio, uma sensa&ccedil;&atilde;o de ang&uacute;stia por n&atilde;o t&ecirc;-lo conhecido toma conta do leitor.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">&Eacute; essa a constante sensa&ccedil;&atilde;o presente durante a leitura do <i>Livro das vidas</i>, da Cole&ccedil;&atilde;o Jornalismo Liter&aacute;rio, organizada por Matinas Suzuki Jr, que re&uacute;ne nessa se&ccedil;&atilde;o, textos publicados no <i>New York Times</i> sobre ilustres desconhecidos. Em alguns casos, respons&aacute;veis por um &uacute;nico e grande feito na vida, como o aviador Douglas Corrigan, tamb&eacute;m conhecido como "Corrigan dire&ccedil;&atilde;o errada", cujo plano de voo previa uma viagem entre Nova York e Calif&oacute;rnia, mas terminou na Irlanda.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Os t&iacute;tulos das hist&oacute;rias ao longo do livro s&atilde;o um interessante exerc&iacute;cio liter&aacute;rio. O obitu&aacute;rio de Corrigan recebeu o t&iacute;tulo: "Entrando na Hist&oacute;ria pelo lado errado", assim como sucederam-se outros t&iacute;tulos inspirados ("O Calvin Klein do espa&ccedil;o", "O Mr. Chips de Harvard") e hist&oacute;rias igualmente incr&iacute;veis.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O autor mais frequente da colet&acirc;nea, Robert McG foi o respons&aacute;vel, segundo Suzuki, pela valoriza&ccedil;&atilde;o da "cl&aacute;usula Quem", elevando a se&ccedil;&atilde;o de obitu&aacute;rios ao status liter&aacute;rio. Suzuki Jr defende que os obitu&aacute;rios, enquanto jornalismo liter&aacute;rio, podem ser explicados dentro da conceitua&ccedil;&atilde;o de Felipe Pena (<a href="http://www.felipepena.com/download/jorlit.pdf" target="_blank">http://www.felipepena.com/download/jorlit.pdf</a>) ao afirmar que: "n&atilde;o se trata da dicotomia fic&ccedil;&atilde;o ou verdade, mas sim de uma verossimilhan&ccedil;a poss&iacute;vel. N&atilde;o se trata da oposi&ccedil;&atilde;o entre informar ou entreter, mas sim de uma atitude narrativa em que ambos est&atilde;o misturados. N&atilde;o se trata nem de jornalismo, nem de literatura, mas sim de melodia".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A valoriza&ccedil;&atilde;o da sess&atilde;o dos obitu&aacute;rios &eacute; um tra&ccedil;o da cultura norte-americana e segundo Hume, autora do livro <i>Obituaries in American Culture</i> (University Press of Mississippi, 2000), por mais de duzentos anos os jornais t&ecirc;m registrado publicamente a vida e virtudes dos cidad&atilde;os americanos, destilando a ess&ecirc;ncia da vida sob a forma de uma cr&ocirc;nica, refletindo o que a sociedade valoriza e quer lembrar da hist&oacute;ria do biografado. N&atilde;o foi s&oacute; o <i>New York Times</i>, outros jornais seguiram a linha do obitu&aacute;rio-literatura. No jornal ingl&ecirc;s <i>The Guardian</i> &eacute; poss&iacute;vel ler uma biografia bem constru&iacute;da na se&ccedil;&atilde;o de ilustres conhecidos, como foi o caso de Nelson Mandela (<a href="http://www.theguardian.com/world/2013/dec/05/nelson-mandela-obituary" target="_blank">http://www.theguardian.com/world/2013/dec/05/nelson-mandela-obituary</a>).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Curiosamente, outro jornal ingl&ecirc;s, <i>The Telegraph</i>, apresenta em sua vers&atilde;o online, a se&ccedil;&atilde;o de obitu&aacute;rios categorizada entre outros em: Ci&ecirc;ncia, Militar e Celebridades.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">No Brasil, a <i>Folha de S. Paulo</i>, apresenta alguns obitu&aacute;rios selecionados, escritos em linguagem mais liter&aacute;ria, enquanto outras revistas e jornais preferem seguir a linha do relato biogr&aacute;fico tradicional: do nascimento &agrave; morte, optando por seguir o estilo "perfil" do biografado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Como biografias, os obitu&aacute;rios apresentam o comum e o incomum de an&ocirc;nimos, ou celebridades. V&aacute;rios personagens dos obitu&aacute;rios ter&atilde;o nessa se&ccedil;&atilde;o do jornal, a sua &uacute;nica chance de serem biografados. Longe de se tornar um clich&ecirc; em invas&atilde;o de privacidade, para leitores &aacute;vidos por detalhes menos honrosos, a se&ccedil;&atilde;o de obitu&aacute;rios do <i>New York Times</i>, &eacute; a vida contada em poesia. Talvez nem o pr&oacute;prio biografado tenha tido a chance de ver sua vida por um lado t&atilde;o inspirador. Esse relato, longe do c&iacute;rculo familiar, nas p&aacute;ginas de um jornal &eacute;, sem d&uacute;vida, a chance de fazer parte do relato hist&oacute;rico de uma era.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">No posf&aacute;cio, "A pauta de Deus", Suzuki provocativo, afirma que "Para muita gente, &eacute; mais neg&oacute;cio ter um obitu&aacute;rio no <i>New York Times</i> do que ir para o c&eacute;u." Esse &eacute; um cap&iacute;tulo mais did&aacute;tico, onde o autor discorre sobre a transforma&ccedil;&atilde;o de estilo dos obitu&aacute;rios de Londres e Nova York, como a inser&ccedil;&atilde;o de um eufemismo com um toque de humor, "partiu desta vida na sua Harley-Davidson". A transforma&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m veio acompanhada da apura&ccedil;&atilde;o precisa das hist&oacute;rias e das informa&ccedil;&otilde;es exclusivas para a elabora&ccedil;&atilde;o de um bom obitu&aacute;rio. E, n&atilde;o obstante, do lado menos pitoresco das biografias.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">As hist&oacute;rias s&atilde;o t&atilde;o interessantes que durante a leitura cultivei a ideia de que a morte deveria fazer greve, tal qual ocorre em <i>As intermit&ecirc;ncias da morte</i>, de Jos&eacute; Saramago, para que talvez Jerry Siegel (do cap&iacute;tulo "Vida e dificuldades do Super-Homem"), tivesse outra chance e repensasse sua decis&atilde;o de, por apenas 130 d&oacute;lares, vender todos os direitos do Super-Homem &agrave; <i>DC Comics</i>. Tal qual o livro de Saramago, a morte acaba se apaixonando pela vida, e essa sem d&uacute;vida &eacute; a grande homenagem do <i>Livro das vidas</i>.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana"><b>O livro das vidas: Obitu&aacute;rios do <i>New York Times</i></b>    <br>   Organiza&ccedil;&atilde;o: Matinas Suzuki Jr.    <br>   Companhia das Letras    <br>   2008</font></p>      ]]></body>

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