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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana"><b>Toda hist&oacute;ria de vida &eacute; interessante e merece ser biografada</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Carolina Medeiros</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">No final de 2013, a pol&ecirc;mica sobre a publica&ccedil;&atilde;o de biografias n&atilde;o autorizadas ganhou destaque na m&iacute;dia, e acabou indo parar no Supremo Tribunal Federal (STF). Al&eacute;m da quest&atilde;o da privacidade de celebridades (veja reportagem sobre o assunto), outro debate pode ser levantado a respeito do motivo pelo qual cada vez mais as biografias, tanto de an&ocirc;nimos quanto de famosos, v&ecirc;m ganhando espa&ccedil;o no mercado liter&aacute;rio, superando at&eacute; mesmo os livros de autoajuda e romances. De acordo com Jos&eacute; Carlos Sebe Bom Meihy, professor do Departamento de Hist&oacute;ria da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP), esse fen&ocirc;meno se deve porque atualmente vivemos em um tempo no qual n&atilde;o existem mais her&oacute;is, santos ou artistas de destaque; para ele, somos todos participantes de um ambiente comum e globalizado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Isso s&oacute; comprova que quando se fala em elevado n&uacute;mero de biografias publicadas e lidas, n&atilde;o se faz a distin&ccedil;&atilde;o entre o artista que est&aacute; estampando as capas de revistas &#150; uma not&oacute;ria celebridade &#150; e aquele an&ocirc;nimo que se tornou famoso ao contar sua hist&oacute;ria de vida, e muitas vezes de supera&ccedil;&atilde;o nas p&aacute;ginas de um livro. Um exemplo &eacute; a obra <i>Quarto de despejo - di&aacute;rio de uma favelada</i>, de Carolina Maria de Jesus, uma catadora de papel, nascida em Sacramento, no interior de Minas Gerais, filha de meeiros, que, apesar da pouca escolaridade, escreveu a sua autobiografia. Na &eacute;poca do lan&ccedil;amento, em uma semana, foram vendidos os 10 mil exemplares da primeira tiragem da obra.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">No caso de <i>Quarto de despejo</i>, em particular, para o historiador Meihy, o sucesso da obra vai al&eacute;m da identifica&ccedil;&atilde;o com a hist&oacute;ria de supera&ccedil;&atilde;o da autora, semelhante &agrave; de muitos brasileiros de origem pobre, e se justifica dentro do contexto no qual foi lan&ccedil;ado."O sucesso se deveu a um conjunto de fatores explic&aacute;veis naquele contexto, na nascente da contracultura. No per&iacute;odo que vai de 1956 a 1960, tivemos um fulgor democr&aacute;tico que combinou v&aacute;rios fatores: a instala&ccedil;&atilde;o da ind&uacute;stria automobil&iacute;stica; a constru&ccedil;&atilde;o de Bras&iacute;lia; o aparecimento da Bossa Nova; a vit&oacute;ria da nossa sele&ccedil;&atilde;o na Su&eacute;cia em 1958. Nesse conjunto de acontecimentos, o movimento negro ganhou espa&ccedil;o e Carolina se explica nessa efervesc&ecirc;ncia", explica o historiador.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Mas h&aacute; outros fatores, inerentes &agrave; &eacute;poca em que as biografias s&atilde;o publicadas, que contribuem para o sucesso dessas obras. A jornalista Adriana Menezes, autora do livro <i>Dalva</i> &#150; que conta a hist&oacute;ria de uma catadora de papel que se tornou uma empres&aacute;ria de sucesso &#150; defende a ideia de muitas vezes o perfil do leitor &eacute; muito diferente do perfil do biografado, e que &eacute; o interesse por entender essa diferen&ccedil;a que leva &agrave; leitura. "A explica&ccedil;&atilde;o para haver tanto interesse em ler biografias, no meu ponto de vista, &eacute; que existe, por parte do leitor, uma eterna curiosidade de saber at&eacute; onde pode ir o ser humano, quais os seus limites e qual a sua real capacidade, associado &agrave; falta de refer&ecirc;ncias &eacute;ticas, morais e comportamentais. E muitas vezes o leitor busca essas refer&ecirc;ncias nas biografias", explica a jornalista.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Os especialistas garantem tamb&eacute;m que o sucesso das biografias est&aacute; al&eacute;m do uso de recrusos est&iacute;listicos, t&eacute;cnicos e hist&oacute;ricos. A chave para o sucesso &eacute; o respeito pela mem&oacute;ria do biografado, o que acende um ponto muito discutido quando se trata de biografias: a &eacute;tica. At&eacute; que ponto as figuras, famosas ou n&atilde;o, podem ter sua privacidade invadida, os seus segredos expostos em nome de uma publica&ccedil;&atilde;o. Na tentativa de solucionar essa quest&atilde;o, surgiu a figura do <i>ghost writter</i>, respons&aacute;vel por todo o processo de elabora&ccedil;&atilde;o, cria&ccedil;&atilde;o e produ&ccedil;&atilde;o de uma biografia, s&oacute; que n&atilde;o recebe os cr&eacute;ditos por isso, os quais v&atilde;o para as perosnalidades que contratam o seu servi&ccedil;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Inicalmente n&atilde;o h&aacute; nada de errado em contratar uma pessoa para escrever sua biografia; mas muitos especialistas acreditam que &eacute; preciso tomar cuidado para a obra n&atilde;o ganhar um tom "falso", como enfatiza Menezes. "Com rela&ccedil;&atilde;o aos <i>ghost writers</i>, eu n&atilde;o vejo uma interfer&ecirc;ncia que coloca em risco a veracidade dos fatos. Eu mesma poderia ter sido uma <i>ghost writer</i>, quando escrevi <i>Dalva</i>. No entanto, n&oacute;s duas (autora e biografada) e a editora, entendemos que isso comprometeria a credibilidade de sua hist&oacute;ria, uma vez que os leitores que a conhecem saberiam que ela n&atilde;o teria escrito de pr&oacute;prio punho", ilustra.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Apesar do in&uacute;mero volume de biografias escritas por <i>ghost writters</i>, vale ressaltar que o sucesso da obra n&atilde;o fica restrito apenas ao biografado, que evidentemente ganha ainda mais espa&ccedil;o na m&iacute;dia caso ele seja famoso, ou se torna uma figura p&uacute;blica no caso de quem era an&ocirc;nimo antes de sua vida virar livro: esse sucesso &eacute; estendido aos escritores. H&aacute; tempos muitos se lan&ccedil;am no meio liter&aacute;rio publicando biografias de personalidades famosas ou recuperando trajet&oacute;ria de indiv&iacute;duos esquecidos. Sobre isso, a extinta revista <i>Manchete</i> havia publicado em 1996 uma mat&eacute;ria saudando os "ca&ccedil;adores da hist&oacute;ria" que "vasculham o passado, lan&ccedil;am best-sellers e tra&ccedil;am um novo retrato do Brasil". Isso porque a partir da d&eacute;cada de 1990 cresceu o n&uacute;mero de biografias escritas por jornalistas, que at&eacute; hoje s&atilde;o chamados contadores de hist&oacute;rias.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Mas nem todas as hist&oacute;rias de vida precisam ser retratadas em forma de livro, escritas por jornalistas famosos ou historiadores renomados. O Museu da Pessoa de S&atilde;o Paulo criou um projeto no qual as pessoas comuns s&atilde;o convidadas a deixar registradas as suas biografias no site do Museu, e essas podem ser acessadas posteriormente pelos frequentadores da p&aacute;gina. Jornalistas, historiadores, <i>ghost wirtters</i> ou pessoas dispostas a contar suas pr&oacute;prias hist&oacute;rias podem despertar o interesse do p&uacute;blico. Afinal, toda hist&oacute;ria de vida merece ser biografada; seja ela curta ou longa, composta de sucesso ou fracassos; toda vida &eacute; interessante, e pode, quem sabe, inspirar outras pessoas a escreverem outras biografias.</font></p>      ]]></body>

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