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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana"><b>Pol&ecirc;mica das biografias: o privado como interesse p&uacute;blico?</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Juliana Passos</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ap&oacute;s as discuss&otilde;es acaloradas dos &uacute;ltimos meses em torno da pol&ecirc;mica das biografias, o deputado Newton Lima (PT) comemora o despertar de aten&ccedil;&atilde;o para o debate de seu projeto de lei criado em 2011 e que deve votado nas pr&oacute;ximas semanas. Segundo ele, a retomada do assunto pelo grupo Procure Saber o salvou de "arquivamento", ap&oacute;s o deputado Marcos Rog&eacute;rio (PDT) apresentar um recurso com o apoio de 72 deputados para que o PL fosse debatido no plen&aacute;rio. Na pr&aacute;tica, segundo explica Lima, esse pedido inviabilizava a vota&ccedil;&atilde;o, ao coloc&aacute;-lo no fim de uma fila com mais de mil projetos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O PL 393 do deputado prop&otilde;e a revis&atilde;o do artigo 20 do C&oacute;digo Civil criado em 2002. Na atual reda&ccedil;&atilde;o, a divulga&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es sobre qualquer pessoa s&oacute; ser&aacute; permitida "salvo se autorizadas, ou se necess&aacute;rias &agrave; administra&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a ou &agrave; manuten&ccedil;&atilde;o da ordem p&uacute;blica". A nova reda&ccedil;&atilde;o proposta muda para "a mera aus&ecirc;ncia de autoriza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o impede a divulga&ccedil;&atilde;o de imagens, escritos e informa&ccedil;&otilde;es com finalidade biogr&aacute;fica de pessoa cuja trajet&oacute;ria pessoal, art&iacute;stica ou profissional tenha dimens&atilde;o p&uacute;blica ou esteja inserida em acontecimentos de interesse da coletividade".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Rog&eacute;rio, por outro lado, defende seu recurso. "Entendemos, por&eacute;m, que n&atilde;o seria poss&iacute;vel, at&eacute; por imposi&ccedil;&atilde;o do que disp&otilde;e a Carta Magna no que diz respeito ao direito que todos t&ecirc;m &agrave; intimidade, "absolutizar" o p&uacute;blico a ponto de eliminar o privado, que &eacute; o que parece que acontecer&aacute; se aprovarmos o presente projeto que, a nosso ver, assim o faz sob o fr&aacute;gil argumento de que artistas, esportistas e pol&iacute;ticos, porque homens p&uacute;blicos, n&atilde;o podem ter intimidade", diz.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em outubro de 2013, o l&iacute;der da c&acirc;mara dos deputados, Ronaldo Caiado (DEM), prop&ocirc;s a inclus&atilde;o de um rito sum&aacute;rio do projeto. Pela proposta, ap&oacute;s uma biografia publicada, o biografado ou fam&iacute;lia &#150; em caso de morte &#150; que se sentir lesado ter&aacute; um julgamento mais r&aacute;pido com prazo de tr&ecirc;s meses para a decis&atilde;o. Com a inclus&atilde;o aceita, um acordo entre os l&iacute;deres de todos os partidos presentes na C&acirc;mara coloca o projeto em regime de vota&ccedil;&atilde;o urgente. A pressa do deputado tamb&eacute;m se deve &agrave; declara&ccedil;&atilde;o do presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, de que o tema &eacute; prioridade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O advogado respons&aacute;vel por representar a Associa&ccedil;&atilde;o Nacional dos Escritores (Anel), Gustavo Binenbojm, na A&ccedil;&atilde;o Direta de Inconstitucional (Adin) tamb&eacute;m atribui a cria&ccedil;&atilde;o da associa&ccedil;&atilde;o de artistas &agrave; declara&ccedil;&atilde;o do presidente do STF. "O tema ganhou muita relev&acirc;ncia. Tivemos primeiro uma mobiliza&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica dos que sofrem com isso diretamente, depois vieram intelectuais independentes e Minist&eacute;rio da Cultura", diz. Ele enfatiza que a discuss&atilde;o sobre biografias &eacute; algo pontual e que o artigo abrange in&uacute;meras outras situa&ccedil;&otilde;es com as quais o jornalismo convive diariamente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Na Adin, Binenbojm sustenta que "as figuras p&uacute;blicas, ao adquirirem posi&ccedil;&atilde;o de visibilidade social, t&ecirc;m inseridas suas vidas pessoais e o controle de dados pessoais no curso da historiografia social, expondo-se ao relato hist&oacute;rico e &agrave;s biografias liter&aacute;rias, dramat&uacute;rgicas e audiovisuais".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em seu livro <i>Os direitos da personalidade</i>, o professor de direito da Universidade de S&atilde;o Paulo, Carlos Alberto Bittar, exp&otilde;e a flexibilidade do direito de pessoas p&uacute;blicas, mas afirma que o limite de confidencialidade permanece preservado. "Assim, sobre fatos &iacute;ntimos, sobre a vida familiar, sobre a reserva no domic&iacute;lio e na correspond&ecirc;ncia, n&atilde;o &eacute; l&iacute;cita a comunica&ccedil;&atilde;o sem consulta ao interessado", escreve.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ao avaliar o projeto de Newton Lima, em conjunto com outros dois que tratavam do mesmo tema, o conselheiro Ronaldo Lemos escreveu em parecer de novembro de 2012 ao Conselho de Comunica&ccedil;&atilde;o Social que defende a inconstitucionalidade dos artigos, mas avalia que n&atilde;o se deva prever em lei uma determina&ccedil;&atilde;o para a solu&ccedil;&atilde;o de conflitos abstratos de direitos fundamentais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Desgastados com a imagem de censores &#150; o que motivou o posicionamento dos poderes executivo e legislativo sobre o tema &#150; a associa&ccedil;&atilde;o Procure Saber, integrada por Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan, Milton Nascimento, Gilberto Gil e presidida pela produtora e empres&aacute;ria Paula Lavigne, saiu de cena. Por meio de sua assessoria, Lavigne comunicou que n&atilde;o concederia entrevista para essa reportagem por falta tempo decorrente da organiza&ccedil;&atilde;o da turn&ecirc; "Abra&ccedil;a&ccedil;o", de Caetano Veloso.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Pouco adiantou Paula Lavigne escrever que n&atilde;o se tratava de censura pr&eacute;via e dizer que est&atilde;o propondo a discuss&atilde;o de limites sobre invas&atilde;o de privacidade, pois a rotulagem de "censores" provocou brigas internas. Em novembro Roberto Carlos deixou o grupo, ap&oacute;s receber provoca&ccedil;&otilde;es de Caetano por meio de sua coluna em <i>O Globo</i>, citando que o advogado do cantor da jovem guarda, Antonio Castro, Kakay, queria posar de "Rei". Kakay chegou a sugerir em nota que o grupo fosse desfeito por excesso de exposi&ccedil;&atilde;o negativa da opini&atilde;o p&uacute;blica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em outra declara&ccedil;&atilde;o pol&ecirc;mica, Caetano Veloso disse ao jornal <i>O Estado de S. Paulo</i> que nunca fora a favor de censurar biografias, apenas estava ajudando os amigos. "Quando meus amigos queridos se mostraram contra, procurei entender o que eles diziam e explicar um pouco a quem me lesse no <i>O Globo</i>", disse, e em seguida comunicou sua sa&iacute;da do grupo. No mesmo jornal Chico Buarque acusou o jornalista Paulo C&eacute;sar Ara&uacute;jo de escrever sobre uma entrevista nunca realizada. Foi rapidamente desmentido, ao ser publicado um v&iacute;deo de registro do encontro.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Ara&uacute;jo planeja lan&ccedil;ar ainda esse ano um livro sobre os desdobramentos da pol&ecirc;mica biografia n&atilde;o autorizada que escreveu sobre Roberto Carlos, lan&ccedil;ada e recolhida logo em seguida, em 2007. "A ideia &eacute; que seja publicado at&eacute; antes da Copa", disse. O escritor tamb&eacute;m aguarda o desfecho das vota&ccedil;&otilde;es no STF ou Congresso Nacional para voltar a publicar a biografia. No &uacute;ltimo domingo (09/01), o Roberto Carlos voltou a se pronunciar sobre as biografias em coletiva para jornalistas a bordo de um cruzeiro em B&uacute;zios (RJ). Ele ressaltou a necessidade de equil&iacute;brio entre liberdade e privacidade e declarou que a comercializa&ccedil;&atilde;o de dados sobre a sua hist&oacute;ria devem passar por ele.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>P&uacute;blico e privado</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em setembro de 2013, cinco meses depois do surgimento da Procure Saber, um manifesto contra os dois artigos do C&oacute;digo Civil foi lan&ccedil;ado durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro e assinado por 42 personalidades, a maioria escritores. O texto, lido pelo escritor Ruy Castro, inicia-se com uma defini&ccedil;&atilde;o de biografia e sua contribui&ccedil;&atilde;o social. "Na segunda metade do s&eacute;culo XX, a biografia ganhou outra dimens&atilde;o: al&eacute;m de relatar os feitos dos grandes nomes, transformou o personagem em testemunha de sua &eacute;poca. A biografia moderna n&atilde;o &eacute; s&oacute; a hist&oacute;ria de uma pessoa, mas tamb&eacute;m de uma &eacute;poca, vista atrav&eacute;s da vida daquela pessoa", declarou.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Para S&eacute;rgio Vilas Boas, autor de <i>Biografismo</i>, tese de doutorado publicada em livro, nenhuma boa biografia de pessoa c&eacute;lebre poder&aacute; evitar o privado, pois essas pessoas t&ecirc;m uma obra e n&atilde;o h&aacute; como se dissociar da vida social.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O historiador Benito Schmidt, no artigo "Construindo biografias... Historiadores e jornalistas: aproxima&ccedil;&otilde;es e afastamentos" segue na mesma linha. "N&atilde;o se pode deixar de mencionar um certo <i>voyerismo</i>, mais ou menos velado, que impele muitos autores a investigar minuciosamente a vida privada dos outros, sobretudo dos personagens destacados, a fim de demolir mitos (transformando-os em 'gente como a gente') ou simplesmente para saciar a curiosidade dos leitores", aponta. Schmidt tamb&eacute;m lembra da frase do historiador Jacques Le Goff de que "a biografia hist&oacute;rica se articula em torno de certos acontecimentos individuais e coletivos".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Vilas Boas defende a mudan&ccedil;a no C&oacute;digo Civil, mas lembra que isso n&atilde;o significa total transpar&ecirc;ncia nos escritos biogr&aacute;ficos. O jornalista defende em sua tese que a subjetividade est&aacute; presente em qualquer texto e que os autores deveriam ser mais expl&iacute;citos em demonstrar seu ponto de vista. "N&atilde;o existe biografia definitiva e n&atilde;o podemos achar que a biografia n&atilde;o autorizada est&aacute; livre de conflitos de interesses, ainda que a liberdade do bi&oacute;grafo seja muito maior. As principais fontes desses bi&oacute;grafos contempor&acirc;neos s&atilde;o orais e fontes orais s&atilde;o mutantes. A maneira como as pessoas relatam as coisas depende do grau de rela&ccedil;&atilde;o com o biografado", argumenta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Impedido de publicar a biografia de Paulo Leminski, o jornalista e escritor Domingos Pellegrini colocou na internet o texto completo e aguarda a decis&atilde;o da justi&ccedil;a ou do congresso para publicar o livro por outra editora, j&aacute; contratada. O vencedor de seis pr&ecirc;mios Jabuti e amigo &iacute;ntimo de Leminski foi convidado pela vi&uacute;va e pelas duas filhas do poeta para escrever uma nova biografia, mas como j&aacute; havia obra publicada por Toninho Vaz e com vasto n&uacute;mero de entrevistas, optou por narrar suas pr&oacute;prias lembran&ccedil;as com ele, com quem conviveu por 17 anos. Trechos em que aponta Leminski como egoc&ecirc;ntrico e relatos de exageros na bebida desagradaram Alice, &Aacute;urea e Estrela Ruiz, que pediram para que fossem revisados por dar muito &ecirc;nfase na bebida e, na opini&atilde;o delas, denegrirem a imagem do poeta.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Na vis&atilde;o de Pellegrini, "a privacidade &eacute; um valor da democracia, mas ele n&atilde;o pode se sobrepor &agrave; verdade dos fatos. Em nome da privacidade, ser&iacute;amos um pa&iacute;s de chapas brancas e pessoas como mitos", disse. S&eacute;rgio Vilas Boas concorda, e avalia que todo fato pessoal que contribuiu para a obra do personagem deve ser inclu&iacute;do. "Drummond teve uma amante por 30 anos. L&iacute;dia era conhecida pela esposa e pela filha do poeta e foi tema de v&aacute;rios poemas. Seria uma afronta &agrave; intelig&ecirc;ncia do leitor n&atilde;o mencionar isso", exemplificou. Ele refor&ccedil;a que isso, por&eacute;m, n&atilde;o deve ser confundido com sensacionalismo, como relatar uma trai&ccedil;&atilde;o espor&aacute;dica ou entrar em grandes detalhes sobre o assunto.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O bi&oacute;grafo de Leminski aponta que o mesmo mercado que promove ou n&atilde;o artistas e celebridades, tamb&eacute;m julga a qualidade de uma biografia. Um exemplo recente foi o lan&ccedil;amento de <i>Dirceu &#150; biografia</i>, de Ot&aacute;vio Cabral, editor na revista Veja. Em resenha publicada na revista Piau&iacute; o jornalista M&aacute;rio S&eacute;rgio Conti cita in&uacute;meros erros de informa&ccedil;&atilde;o, como a descri&ccedil;&atilde;o em detalhes de uma viagem ao Haiti que o pol&iacute;tico n&atilde;o realizou.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O limite entre o que deve ser p&uacute;blico ou privado &eacute; uma d&uacute;vida para todos, inclusive bi&oacute;grafos. Ironicamente, ao fim de nossa entrevista com Pellegrini para elabora&ccedil;&atilde;o desta mat&eacute;ria, ele deixa escapar: "mas por que tantas perguntas?". E em seguida pede desculpas.</font></p>     ]]></body>
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