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</front><body><![CDATA[ 
    <p align="right"><font face="verdana" size="2"><b>EDITORIAL</b></font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><b><font face="verdana" size="4">Farsa e controv&eacute;rsia</font></b></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><b>Carlos Vogt</b></font></p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2">Nem toda controv&eacute;rsia sup&otilde;e uma farsa, mas toda farsa implica uma
  controv&eacute;rsia.</font></p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Controversas s&atilde;o as hist&oacute;rias que contamos sobre n&oacute;s mesmos e as
  interpreta&ccedil;&otilde;es que oferecemos sobre acontecimentos corriqueiros, que destacamos
  como excepcionais pela mem&oacute;ria seletiva e afetiva das lembran&ccedil;as, que nos fazem
  singulares na forma de narr&aacute;-las e comuns no conte&uacute;do do que &eacute; narrado.</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Imagine isso quando os atores controversos s&atilde;o cientistas renomados
  e o que pode estar em jogo &eacute; n&atilde;o s&oacute; a vaidade do protagonismo como tamb&eacute;m
  interesses econ&ocirc;micos acompanhados de ingredientes
  que raramente deixam de comparecer nessas
  narrativas, quais sejam, sexo e poder.</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Uma das obras de fic&ccedil;&atilde;o contempor&acirc;nea mais adequada, contundente e
  divertidamente sat&iacute;rica sobre a situa&ccedil;&atilde;o de farsa e controv&eacute;rsia na ci&ecirc;ncia &eacute; o
  romance de Ian McEwan, <i>Solar</i>, publicado originalmente em 2010 na
  Inglaterra e que, traduzido para diversas l&iacute;nguas, conheceu um sucesso mundial<a
href="#_ftn1" name="_ftnref1" title=""><sup>1</sup></a>.&nbsp; </font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Michael Beard &eacute;, na hist&oacute;ria, um eminente cientista ganhador do
  Nobel de F&iacute;sica. A premia&ccedil;&atilde;o, que ocorreu alguns anos antes, ao mesmo tempo que
  o distingue, torna-o enfadado e enfadonho, maximizando sua intoler&acirc;ncia e
  irascibilidade. Michael Beard &eacute; um chato paparicado, goza de prest&iacute;gio e &eacute;
  obcecado por sexo. Tem um hist&oacute;rico de v&aacute;rios
  casamentos, feitos e desfeitos ao sabor de aventuras e trai&ccedil;&otilde;es j&aacute; um pouco
  desajustadas &agrave; sua idade e peso, na &eacute;poca em que come&ccedil;a a narrativa da saga de
  sua personalidade disfuncional e do cinismo que rege sua ambi&ccedil;&atilde;o na busca de
  uma solu&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnico-cient&iacute;fica baseada na energia solar para a quest&atilde;o das
  mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas.</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Beard est&aacute; no quinto casamento e, mais uma vez, por infidelidade, o
  v&ecirc; terminar, descobrindo, ent&atilde;o, seu grande amor por Patrice, que n&atilde;o s&oacute; o
  abandona como come&ccedil;a a ter um caso com o pedreiro que trabalhava na casa deles. </font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Beard, deprimido, vai para o &Aacute;rtico numa viagem de pesquisa sobre
  mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas, depois de se dar conta de que havia perdido a mulher de
  sua vida por obra de sua inconst&acirc;ncia, desorganiza&ccedil;&atilde;o e desequil&iacute;brio emocional
  e afetivo. Esses acontecimentos corroboram suas frustra&ccedil;&otilde;es profissionais e
  intelectuais, mas n&atilde;o impedem, antes o incentivam a que se aproprie das ideias
  de um jovem colaborador e as apresente como suas, depois que, por um sinistro
  acidente, este morre na sua antiga casa, vestindo seu roup&atilde;o de banho e
  compartilhando suas antigas intimidades, inclusive com sua ex-mulher.</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Beard se aproveita da situa&ccedil;&atilde;o, cria um cen&aacute;rio para culpar Turpin,
  o pedreiro, que vai para a pris&atilde;o, e toma para si o segredo das pesquisas de
  Tom Aldous sobre fotoss&iacute;ntese artificial; que lhe permitir&aacute; vender como sua uma
  solu&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica para o uso da energia solar e, assim, aparecer ainda, al&eacute;m
  de ganhar dinheiro, como salvador do mundo na quest&atilde;o controversa, apaixonada e
  apaixonante das mudan&ccedil;as clim&aacute;ticas.</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Claro que no fim vai dar tudo errado, mas at&eacute; l&aacute; muita gente foi
  enganada e muitos se divertiram com as perip&eacute;cias desse anti-her&oacute;i, misto de
  Sancho Pan&ccedil;a e Macuna&iacute;ma da f&iacute;sica contempor&acirc;nea e das tecnologias de salva&ccedil;&atilde;o
  do planeta das cat&aacute;strofes clim&aacute;ticas, que muitos anunciam e preconizam, outros
  ironizam, ou s&atilde;o indiferentes, e n&atilde;o poucos se aproveitam para tirar uma
  casquinha.</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Solar, al&eacute;m de ser um excelente romance da literatura atual, tamb&eacute;m
  &eacute; uma boa entrada no mundo social da ci&ecirc;ncia, da tecnologia e da inova&ccedil;&atilde;o,
  compondo uma cena inteligente, bem humorada, muitas vezes ir&ocirc;nica, do espa&ccedil;o
  contempor&acirc;neo do conhecimento para cujo desenho e delimita&ccedil;&atilde;o contribuem, de
  forma constitutiva, a farsa e a controv&eacute;rsia.</font></p>
    <p><font face="verdana" size="2">Este n&uacute;mero da <i>ComCi&ecirc;ncia</i>, &eacute; dedicado &agrave;s <b>Controv&eacute;rsias
  Cient&iacute;ficas</b>. Bem-vindos a elas! E se quiserem estar bem equipados para as
  excurs&otilde;es ao &Aacute;rtico e &agrave; Ant&aacute;rtida das disputas te&oacute;ricas e metodol&oacute;gicas, levem
  como guia, divertido e competente, esta narrativa picaresca ao rev&eacute;s, em que o
  personagem j&aacute; chegado, faz de tudo para desconstruir, por ambi&ccedil;&atilde;o de chegar
  mais, a saga de seu arrivismo controverso.</font></p>
    ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
    <p>&nbsp;</p>
    <p><font face="verdana" size="2"><a href="#_ftnref1" name="_ftn1" title="">1</a> MACEWAN,
  Ian. <i>Solar.</i> Londres: Random House, 2010. Trad. de Jorio Dauster. S&atilde;o
  Paulo: Companhia das Letras, 2010.</font></p>
     ]]></body>

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