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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="verdana" size="2"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="4"><b>Tecnologia social: a inova&ccedil;&atilde;o a favor   do desenvolvimento e da inclus&atilde;o</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Maria Marta Avancini</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">Em maio, a Articula&ccedil;&atilde;o no Semi&aacute;rido Brasileiro   (ASA-Brasil), uma rede composta por 3 mil organiza&ccedil;&otilde;es dedicadas &agrave; gest&atilde;o e ao   desenvolvimento de pol&iacute;ticas de conviv&ecirc;ncia com a seca, atingiu a marca de   458,6 mil cisternas de placas constru&iacute;das desde 2003 no &acirc;mbito do Programa Um   Milh&atilde;o de Cisternas (P1MC), implementado em parceria com governo, empresas e   ag&ecirc;ncias de coopera&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Desenvolvidas a partir da ideia de um agricultor   sergipano, chamado Manoel Apol&ocirc;nio de Carvalho, as cisternas de placa t&ecirc;m   possibilitado que fam&iacute;lias armazenem &aacute;gua de chuva para consumo durante todo o   ano, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida da popula&ccedil;&atilde;o em uma das   regi&otilde;es mais empobrecidas do pa&iacute;s. Cada cisterna tem capacidade para estocar 16   mil litros de &aacute;gua.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">"Manoel aprendeu a mexer com placas de cimento   pr&eacute;-moldadas durante o per&iacute;odo em que trabalhou em S&atilde;o Paulo construindo   piscinas. Quando voltou para o Nordeste, usou esses conhecimentos para criar um   novo modelo de cisterna de forma cil&iacute;ndrica com placas pr&eacute;-moldadas curvadas",   conta a coordenadora nacional da ASA-Brasil, Valqu&iacute;ria Lima. Ao longo desses dez   anos, a tecnologia simples e barata, baseada na coleta de &aacute;gua de chuva por   meio de calhas instaladas nos telhados das casas, vem sendo aprimorada por meio   da intera&ccedil;&atilde;o entre as fam&iacute;lias, pedreiros, t&eacute;cnicos e gestores do programa.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">As cisternas de placa s&atilde;o um exemplo bem sucedido de   tecnologia social, um conceito que coloca o debate sobre a inova&ccedil;&atilde;o sob uma   perspectiva diferente da convencional: a da inclus&atilde;o. Uma tecnologia social   pode ser definida como uma t&eacute;cnica, material ou produto desenvolvido a partir   de uma necessidade social, com a finalidade de solucionar um problema   enfrentando por um grupo ou comunidade.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>Para al&eacute;m da inova&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">"O conceito de tecnologia social prop&otilde;e um contraponto em   rela&ccedil;&atilde;o ao conceito tradicional de inova&ccedil;&atilde;o", explica Ma&iacute;ra Baumgartem,   coordenadora do Laborat&oacute;rio de Divulga&ccedil;&atilde;o de Ci&ecirc;ncia, Tecnologia e Inova&ccedil;&atilde;o   Social (LaDCIS), ligado &agrave;s universidades federais do Rio Grande do Sul e do Rio   Grande. Isto porque, no contexto da sociedade capitalista, o conceito de inova&ccedil;&atilde;o   se revestiu de um enfoque excessivamente econ&ocirc;mico, vinculando-se &agrave;s ideias de   competitividade, aumento da produtividade e lucro. Ou, como argumenta o   soci&oacute;logo Ricardo Toledo Neder, da Universidade de Bras&iacute;lia (UnB), inova&ccedil;&atilde;o   pode ser definida como uma express&atilde;o do poder de monop&oacute;lio do capital   financeiro, que se concretiza em aplica&ccedil;&otilde;es setoriais na agricultura,   ind&uacute;stria, com&eacute;rcio ou servi&ccedil;os, exercendo veto ou barrando inova&ccedil;&otilde;es que   ameacem sua posi&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Um exemplo &eacute; o setor automobil&iacute;stico brasileiro. "As   inova&ccedil;&otilde;es de novos atores neste segmento s&atilde;o controladas pelas grandes   montadoras, internacionalizadas h&aacute; quatro ou cinco d&eacute;cadas no pa&iacute;s, que barram   a dissemina&ccedil;&atilde;o de inova&ccedil;&otilde;es trazidas pelos coreanos, japoneses e franceses &ndash; o   que explica a baixa qualidade dos autom&oacute;veis brasileiros", defende Neder, que &eacute;   coordenador do Observat&oacute;rio do Movimento pela Tecnologia Social na Am&eacute;rica   Latina.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Contudo, &eacute; preciso ter em mente que a t&eacute;cnica &ndash; entendida   como a arte de transformar as coisas para atender necessidades &ndash; &eacute; inerente &agrave;   hist&oacute;ria da humanidade. "A tecnologia social coloca a inova&ccedil;&atilde;o como algo que   est&aacute; al&eacute;m da inova&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica", argumenta a coordenadora do LaDCIS. "Inova&ccedil;&atilde;o   tamb&eacute;m &eacute; qualquer movimento destinado &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de algo novo, que traga   satisfa&ccedil;&atilde;o de necessidades e car&ecirc;ncias em determinado contexto", defende   Baumgartem. Dessa forma, o territ&oacute;rio &eacute; o ponto de refer&ecirc;ncia para se   compreender as tecnologias sociais. Afinal, argumenta Neder, elas est&atilde;o   relacionadas &agrave; necessidade de se iniciar um processo, sob condi&ccedil;&otilde;es dadas pelo   ambiente espec&iacute;fico onde ele ocorrer&aacute;. A autogest&atilde;o &eacute; outra caracter&iacute;stica das   tecnologias sociais.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">No caso das cisternas de placas, que s&atilde;o constru&iacute;das em   sistema de mutir&atilde;o, as fam&iacute;lias beneficiadas se envolvem diretamente na   constru&ccedil;&atilde;o, o que acarreta benef&iacute;cios a elas e &agrave;s comunidades. "H&aacute; um processo   de mobiliza&ccedil;&atilde;o social protagonizado pelas pr&oacute;prias fam&iacute;lias. Elas aprendem uma   tecnologia que pode ser reproduzida, ajudando na renda. H&aacute; agricultores que   come&ccedil;am a viajar de um munic&iacute;pio para outro para construir as cisternas",   afirma Lima. Paralelamente, a economia local &eacute; dinamizada: por exemplo, o   com&eacute;rcio local vende a mat&eacute;ria-prima para que as cisternas sejam constru&iacute;das.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>O desenvolvimento em quest&atilde;o</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">H&aacute;, ent&atilde;o, uma rela&ccedil;&atilde;o entre tecnologia social &ndash; ou   inova&ccedil;&atilde;o social &ndash; e desenvolvimento. Mas n&atilde;o o desenvolvimento na acep&ccedil;&atilde;o   exclusivamente econ&ocirc;mica, e sim o desenvolvimento enquanto promotor de   bem-estar social. Para Maur&iacute;cio Fran&ccedil;a, superintendente da &Aacute;rea T&eacute;cnica para o   Desenvolvimento Social da Ag&ecirc;ncia Brasileira de Inova&ccedil;&atilde;o (Finep), as   tecnologias sociais s&atilde;o estrat&eacute;gias para a solu&ccedil;&atilde;o de v&aacute;rias problem&aacute;ticas que   requerem inova&ccedil;&atilde;o, mas n&atilde;o costumam ser alvo do interesse empresarial, como por   exemplo, tecnologia assistida, tratamento de esgoto, drenagem urbana, doen&ccedil;as   negligenciadas, agricultura familiar, economia solid&aacute;ria, dentre outras. "Nessa   perspectiva, o conceito de inova&ccedil;&atilde;o social se sobrep&otilde;e ao de tecnologia social,   pois o foco &eacute; o desenvolvimento de estrat&eacute;gias que fomentem o desenvolvimento   em um dado territ&oacute;rio", defende Fran&ccedil;a.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">&Eacute; nesse campo que &oacute;rg&atilde;os como a Finep atuam. Desde 2003,   a ag&ecirc;ncia financia projetos de tecnologia social propostos por organiza&ccedil;&otilde;es   sociais ou &oacute;rg&atilde;os de governo &ndash; como &eacute; o caso das a&ccedil;&otilde;es de fomento &agrave; economia   solid&aacute;ria, ou seja, atividades de produ&ccedil;&atilde;o ou oferta de servi&ccedil;os baseados na   democracia, na coopera&ccedil;&atilde;o e na autogest&atilde;o (caso das cooperativas de   trabalhadores).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">"As cooperativas populares, como as de catadores de lixo   recicl&aacute;vel s&atilde;o uma forma de organiza&ccedil;&atilde;o social capaz de gerar emprego e renda,   promovendo a melhoria da qualidade de vida de pessoas que est&atilde;o entre as mais   pobres", afirma Daniel Soares, coordenador do Departamento T&eacute;cnico para o   Desenvolvimento Urbano e Territorial da Finep. A economia solid&aacute;ria conquistou   espa&ccedil;o entre as pol&iacute;ticas de governo: h&aacute;, no Minist&eacute;rio do Trabalho e Emprego,   uma secretaria dedicada ao tema.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Outro tipo de proposta que se alinha com a perspectiva   das tecnologias sociais na busca de alternativas voltadas para a melhoria das   condi&ccedil;&otilde;es de vida dos segmentos mais empobrecidos s&atilde;o os bancos populares, como   o Banco Popular da Mulher (BPM), mantido por um grupo de organiza&ccedil;&otilde;es e &oacute;rg&atilde;os   p&uacute;blicos, dentre os quais o majorit&aacute;rio &eacute; a prefeitura de Campinas.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Diferentemente dos bancos convencionais, os bancos   populares oferecem microcr&eacute;dito a pessoas de baixa renda. Um de seus   diferenciais &eacute; atender pessoas que n&atilde;o costumam ter espa&ccedil;o nas institui&ccedil;&otilde;es   financeiras devido ao perfil socioecon&ocirc;mico ou porque t&ecirc;m restri&ccedil;&otilde;es   financeiras.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O BPM mant&eacute;m quatro linhas de microcr&eacute;dito orientado,   atendendo principalmente mulheres (70% da clientela). A filosofia, explica a   gerente operacional do banco, Liliam Vizel Guilherme, &eacute; colaborar para que os   empreendimentos dos clientes sejam bem-sucedidos. Assim, oferece cursos de   capacita&ccedil;&atilde;o e acompanha os neg&oacute;cios dos tomadores de cr&eacute;dito. Empreendedores   individuais podem tomar empr&eacute;stimos de at&eacute; R$ 10 mil. Cooperativas podem   emprestar at&eacute; R$ 50 mil, pagando juros de 1,6%, com car&ecirc;ncia de at&eacute; 18 meses.   "Temos v&aacute;rios clientes cujos neg&oacute;cios est&atilde;o crescendo gra&ccedil;as ao apoio do   banco", afirma Guilherme. Uma delas &eacute; Roseana Barganha, que utilizou os   recursos do BPM para ampliar seu ateli&ecirc; de costura em couro. Ela fez um   empr&eacute;stimo que usou para a compra de mat&eacute;ria-prima. Tempos depois, fez um   segundo financiamento para ampliar o empreendimento e diversificar a produ&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>Mais do que experi&ecirc;ncias isoladas</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Embora seja poss&iacute;vel dizer que j&aacute; existam, em v&aacute;rias   &aacute;reas, experi&ecirc;ncias concretas envolvendo tecnologia social &ndash; sa&uacute;de coletiva,   autoconstru&ccedil;&atilde;o popular, alimenta&ccedil;&atilde;o org&acirc;nica, produ&ccedil;&atilde;o agroecol&oacute;gica na   agricultura familiar, dentre outras &ndash; a cria&ccedil;&atilde;o de uma plataforma em larga   escala depende da cria&ccedil;&atilde;o de linhas de financiamento de projetos nesse campo.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">"O capital financeiro est&aacute; longe de ter interesse em   apoiar iniciativas desse tipo, pois s&atilde;o segmentos e setores que n&atilde;o permitem   retorno lucrativo", analisa o professor Neder.&nbsp; Nesse sentido, ele defende o   fortalecimento de a&ccedil;&otilde;es por parte dos bancos p&uacute;blicos no campo do cr&eacute;dito   solid&aacute;rio para projetos e a&ccedil;&otilde;es.&nbsp; A universidade, defende o soci&oacute;logo, tem um   papel central a desempenhar nesse cen&aacute;rio, por meio do desenvolvimento de   pesquisas que subsidiem os projetos.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">"Hoje temos uma centena de bancos comunit&aacute;rios no Brasil   que poderiam estar se associando &agrave;s universidades e &agrave;s escolas p&uacute;blicas para   financiar microcr&eacute;dito solid&aacute;rio em projetos de educa&ccedil;&atilde;o, ci&ecirc;ncia e t&eacute;cnica,   seguindo o modelo dos pontos de cultura. Dessa forma, ter&iacute;amos uma aut&ecirc;ntica   plataforma cognitiva de tecnologia social quando adotada como produ&ccedil;&atilde;o de   conhecimento", prop&otilde;e Neder.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">10/07/2013</font></p>      ]]></body>

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