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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Os preceitos ecológicos do Padre Cícero como lições de convivência harmoniosa com o semiárido nordestino]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">ARTIGO</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Os preceitos ecol&oacute;gicos do Padre C&iacute;cero como   li&ccedil;&otilde;es de conviv&ecirc;ncia harmoniosa com o semi&aacute;rido nordestino</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Judson Jorge da Silva </font></b></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Graduado em geografia pela   Universidade Regional do Cariri e mestre em geografia pela Universidade Federal   do Cear&aacute;. &Eacute; professor e coordenador do curso de geografia da Universidade   Estadual do Piau&iacute;, campus S&atilde;o Raimundo Nonato. &Eacute; tamb&eacute;m coordenador local do   Plano Nacional de Forma&ccedil;&atilde;o de Professores da Educa&ccedil;&atilde;o B&aacute;sica e pesquisador do   N&uacute;cleo de Estudos e Pesquisas em Geografia do Interior do Piau&iacute;</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A regi&atilde;o Nordeste vivenciou nos   &uacute;ltimos dois anos (2011-2012) mais um per&iacute;odo de seca. Em 2013, os institutos   meteorol&oacute;gicos apontam que novamente os &iacute;ndices de precipita&ccedil;&atilde;o ficar&atilde;o abaixo   da m&eacute;dia necess&aacute;ria para garantir o abastecimento satisfat&oacute;rio dos   reservat&oacute;rios h&iacute;dricos, tampouco ser&atilde;o capazes de garantir condi&ccedil;&otilde;es para a   safra de gr&atilde;os, sobretudo dos pequenos produtores que realizam seus plantios   sem uso de t&eacute;cnicas de irriga&ccedil;&atilde;o, dependendo exclusivamente da quadra chuvosa   para o cultivo.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No Cear&aacute;, que possui uma &aacute;rea   total de 148.825,6 km 2, 86,8% desse total, ou seja, 126.514,9 km 2 est&atilde;o inseridos em pleno semi&aacute;rido, que abrange um total de 150 dos 184 munic&iacute;pios   cearenses. Em 2013, apesar de nem todo o estado se encontrar dentro do   semi&aacute;rido, dos 184 munic&iacute;pios que o comp&otilde;em, 177 declararam situa&ccedil;&atilde;o de   emerg&ecirc;ncia em virtude da falta de chuvas, demonstrando a gravidade da situa&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se em pleno s&eacute;culo XXI, per&iacute;odo   no qual se disp&otilde;e de maiores recursos t&eacute;cnico-cient&iacute;ficos, tanto para prever   quanto para mitigar os efeitos da seca, as consequ&ecirc;ncias desse fen&ocirc;meno natural   s&atilde;o alarmantes para as lavouras, os rebanhos e a sociedade, sobretudo para o   homem do campo, em especial os mais pobres, observando seus efeitos na   atualidade, podemos concluir como eram devastadoras as consequ&ecirc;ncias da seca   nos s&eacute;culos anteriores. Mas &eacute; justamente do passado, de experi&ecirc;ncias ocorridas   em comunidades rurais da regi&atilde;o do Cariri, surgidas em torno de aconselhamentos   do Padre C&iacute;cero, de Juazeiro do Norte, que podemos buscar li&ccedil;&otilde;es de como melhor   conviver com o semi&aacute;rido, na tentativa de encontrar metodologias e a&ccedil;&otilde;es que,   se postas em pr&aacute;tica, podem vir a amenizar os efeitos das peri&oacute;dicas secas que   assolam parte da regi&atilde;o nordestina.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Primeiramente, &eacute; necess&aacute;rio   desmistificarmos alguns (pr&eacute;)conceitos sobre o Nordeste brasileiro. &Eacute; muito comum   que essa regi&atilde;o seja, muitas vezes, associada apenas &agrave; paisagem da Caatinga em   seu per&iacute;odo de queda das folhagens em virtude do per&iacute;odo de estiagem e a   contextos de mis&eacute;ria em decorr&ecirc;ncia da seca. No entanto, n&atilde;o &eacute; todo o Nordeste   do Brasil que sofre com esse fen&ocirc;meno natural. Nem todo o Nordeste &eacute; abrangido   pela Caatinga, existindo outros biomas na regi&atilde;o. &Eacute; preciso desmistificar   tamb&eacute;m a falsa compreens&atilde;o da Caatinga como sendo uma &aacute;rea &quot;sem vida&quot;. Ao   contr&aacute;rio do que o senso comum imagina, a Caatinga possui uma rica   biodiversidade de fauna e flora, ainda pouco conhecida e pesquisada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tamb&eacute;m &eacute; preciso compreender   que a seca &eacute; um fen&ocirc;meno natural recorrente e que as mazelas vivenciadas pela   popula&ccedil;&atilde;o, quando ela ocorre, s&atilde;o de car&aacute;ter eminentemente social. Se a   concentra&ccedil;&atilde;o de renda e concentra&ccedil;&atilde;o fundi&aacute;ria n&atilde;o fosse t&atilde;o intensa, se o   desenvolvimento regional do Nordeste n&atilde;o se desse de maneira t&atilde;o desigual entre   capitais, cidades m&eacute;dias e o interior, os efeitos da estiagem n&atilde;o seriam t&atilde;o   impactantes. Da mesma forma, se o acesso &agrave; educa&ccedil;&atilde;o e o n&iacute;vel de escolaridade   da popula&ccedil;&atilde;o fossem maiores, se o acesso a recursos financeiros, tecnol&oacute;gicos e   a assist&ecirc;ncia t&eacute;cnica fossem satisfat&oacute;rios e se existisse diversifica&ccedil;&atilde;o   produtiva e que ocupasse a popula&ccedil;&atilde;o economicamente ativa em atividades   din&acirc;micas, a realidade do semi&aacute;rido seria bastante diferente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; na &aacute;rea definida como   pol&iacute;gono das secas, que compreende partes dos territ&oacute;rios dos estados do Piau&iacute;,   Cear&aacute;, Rio Grande do Norte, Para&iacute;ba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e   extremo norte de Minas Gerais e do Esp&iacute;rito Santo que a semiaridez e os efeitos   da escassez de chuva s&atilde;o mais intensos. Por&eacute;m, mesmo nessa &aacute;rea politicamente   delimitada, n&atilde;o existe homogeneidade do quadro ambiental. Nos estados   mencionados existem &aacute;reas mais &uacute;midas, menos &uacute;midas, h&aacute; os microclimas que   favorecem a ocorr&ecirc;ncia de precipita&ccedil;&otilde;es, diminuindo o d&eacute;ficit h&iacute;drico e dando   origem a solos profundos, f&eacute;rteis e prop&iacute;cios ao cultivo agr&iacute;cola. Esse &eacute; caso   da regi&atilde;o do Cariri cearense, localizada no extremo sul do Cear&aacute;, na divisa com   os estados de Pernambuco, Para&iacute;ba e Piau&iacute;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Encravado em pleno sert&atilde;o   nordestino, o Cariri do Cear&aacute; apresenta caracter&iacute;sticas peculiares que o   diferenciam do seu entorno sertanejo, embora tamb&eacute;m seja sert&atilde;o, por se   configurar como um enclave &uacute;mido em pleno semi&aacute;rido. Essa caracter&iacute;stica &eacute;   possibilitada pela exist&ecirc;ncia do relevo aren&iacute;tico da Chapada do Araripe e pela   Floresta Nacional do Araripe, que d&atilde;o origem a 348 fontes, segundo dados do   Departamento Nacional de Produ&ccedil;&atilde;o Mineral (DNPM), formando uma s&eacute;rie de riachos   perenes, o que resulta em uma &aacute;rea de solos mais produtivos, fazendo da regi&atilde;o   do Cariri cearense uma &quot;ilha agr&iacute;cola&quot; no meio da Caatinga.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entretanto, at&eacute; mesmo o Cariri,   com essa enorme quantidade de fontes, n&atilde;o escapa ileso dos per&iacute;odos de estiagem   prolongados. Foi nesse cen&aacute;rio que cresceu e viveu Padre C&iacute;cero Rom&atilde;o Batista,   um importante l&iacute;der religioso e pol&iacute;tico com grande influ&ecirc;ncia no Nordeste,   sobretudo no Cear&aacute;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Figura bastante controversa em   raz&atilde;o do seu tr&acirc;nsito livre entre as diferentes classes sociais, o Padre C&iacute;cero   &eacute; visto por uns como sendo o &quot;padinho&quot;, uma figura carism&aacute;tica que costumava   chamar os romeiros e os habitantes da cidade de Juazeiro do Norte de   &quot;amiguinhos&quot;, um homem que se tornou um santo popular ainda em vida, em   decorr&ecirc;ncia dos supostos milagres de transforma&ccedil;&atilde;o da h&oacute;stia consagrada em   sangue, durante comunh&otilde;es que ministrava &agrave; beata Maria de Ara&uacute;jo. Desses   acontecimentos, surgiu uma enorme devo&ccedil;&atilde;o em torno do sacerdote, dando origem &agrave;   s romarias que na atualidade atra em cerca de dois milh&otilde;es e meio de fi&eacute;is por   ano &agrave; cidade de Juazeiro do Norte. J&aacute; outros o veem como uma figura   estritamente pol&iacute;tica, por ter sido o primeiro prefeito da cidade de Juazeiro   do Norte e em raz&atilde;o das atitudes e alian&ccedil;as que o caracterizariam como um   tradicional coronel nordestino, ligado &agrave;s oligarquias fundi&aacute;rias do estado do   Cear&aacute;. Sem entrar nesses m&eacute;ritos, este artigo tem o intuito de refletir sobre a   influ&ecirc;ncia do Padre C&iacute;cero na forma&ccedil;&atilde;o de n&uacute;cleos rurais na regi&atilde;o do Cariri,   que se formaram a partir das romarias em torno de sua pessoa, quando ainda era   vivo, e analisar como as suas a&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, sociais e suas concep&ccedil;&otilde;es   ecol&oacute;gicas influenciaram na organiza&ccedil;&atilde;o e nas rela&ccedil;&otilde;es de conv&iacute;vio e   apropria&ccedil;&atilde;o da natureza realizada por essas comunidades.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se na atualidade os efeitos   dessas secas peri&oacute;dicas ainda geram problemas sociais de significativa   relev&acirc;ncia, de meados do s&eacute;culo XIX a meados do s&eacute;culo XX, quando viveu o Padre   C&iacute;cero (1844-1934), os efeitos eram ainda mais desastrosos, dada a falta de   equipamentos estruturais m&iacute;nimos, como a&ccedil;udes, cisternas, adutoras, rodovias,   estradas de ferro e um sistema de log&iacute;stica para a distribui&ccedil;&atilde;o de &aacute;gua e   mantimentos nos per&iacute;odos mais cr&iacute;ticos. Observando suas a&ccedil;&otilde;es, &eacute; poss&iacute;vel   perceber que as v&aacute;rias secas, com todas as suas consequ&ecirc;ncias, vivenciadas   desde a inf&acirc;ncia pelo Padre C&iacute;cero, atuaram de modo marcante em sua estrutura   psicol&oacute;gica e em seu imagin&aacute;rio, de maneira a influenciar suas a&ccedil;&otilde;es sociais,   pol&iacute;ticas, econ&ocirc;micas e ambientais na regi&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Padre C&iacute;cero sabia da   import&acirc;ncia e sentia a urg&ecirc;ncia de a&ccedil;&otilde;es voltadas ao combate dos efeitos desse   fen&ocirc;meno natural e, ao mesmo tempo, social. C&iacute;cero aprendeu do jeito mais   doloroso que era necess&aacute;rio encampar desde ora&ccedil;&otilde;es &agrave; constru&ccedil;&atilde;o de obras   h&iacute;dricas e assistencialistas, al&eacute;m de a&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas e ensinamentos de   conviv&ecirc;ncia com o semi&aacute;rido. O fen&ocirc;meno devastador da seca, que insistia em   ceifar a vida de milhares de pessoas quando ocorria, sempre levara consigo   algu&eacute;m do seio familiar do sacerdote.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entre     1877 e 1879, o Nordeste viveu uma das maiores e mais dram&aacute;ticas secas da     hist&oacute;ria. Nem mesmo o o&aacute;sis caririense escapou. Como de costume, as doen&ccedil;as     vinham a galope, na garupa da falta de &aacute;gua e de comida. Uma epidemia de     var&iacute;ola elevou o obitu&aacute;rio do tri&ecirc;nio, s&oacute; na prov&iacute;ncia do Cear&aacute;, &agrave; cifra     assustadora de 180 mil almas, contra os poucos mais de 6 mil mortos em toda a     d&eacute;cada anterior. C&iacute;cero Rom&atilde;o, que na seca de 1862 perdera o pai para a c&oacute;lera,     aos 34 anos viveria nova e dolorosa trag&eacute;dia pessoal: entre as v&iacute;timas da     grande estiagem, estava sua irm&atilde; Maria Ang&eacute;lica, a filha mais nova de dona     Quino. &lsquo;Tenho tanto medo&rsquo;, confessou C&iacute;cero em carta ao bispo, atribuindo o     flagelo &agrave; f&uacute;ria divina. &lsquo;Nem se pode duvidar que tanta avareza, tanta     impudic&iacute;cia, tanto assassinato, tanto crime em escala nunca vista fa&ccedil;am     continuar o castigo e aparecer outros maiores&rsquo;, previu. N&atilde;o era s&oacute; o sert&atilde;o que     agonizava. As not&iacute;cias que chegavam de Fortaleza eram aterrorizadoras. A     capital, que possu&iacute;a cerca de 30 mil moradores, recebera 200 mil retirantes,     arranchados em pra&ccedil;a p&uacute;blica, em condi&ccedil;&otilde;es insalubres. A var&iacute;ola aproveitou     para atacar sem piedade. Em um &uacute;nico dia, 10 de dezembro de 1878, o cemit&eacute;rio     da cidade recebeu, oficialmente, 1.004 corpos. &lsquo;O n&uacute;mero de mortos devia ser     muito maior porque em torno da cidade, pelos matos e valados, inumavam-se     cad&aacute;veres ou se deixava apodrecer insepultos&rsquo;, testemunhou na &eacute;poca o m&eacute;dico     historiador cearense bar&atilde;o de Studart. Na manh&atilde; seguinte &agrave;quele que ficaria     conhecido como o Dia dos Mil Mortos, Fortaleza amanheceu com uma nuvem negra     pairando sobre a cidade. N&atilde;o era nenhum sinal de chuva: eram centenas de urubus     que davam rasantes no c&eacute;u. L&aacute; em baixo, c&atilde;es disputavam entre si restos de     carne humana ( Lira Neto, 2007, p. 56).</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tendo vivenciado esses   horrores, &eacute; mais do que natural que o misto de saberes adquiridos a partir da   influ&ecirc;ncia do meio social no qual se criou, de suas viv&ecirc;ncias e de seus estudos   mais apurados e o acesso ao saber erudito adquirido no semin&aacute;rio, tenham   cunhado um sincretismo de conhecimentos populares e cient&iacute;ficos, que constituiu   seu embasamento para suas a&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, ao chamar a aten&ccedil;&atilde;o e cobrar do   poder p&uacute;blico e seus representantes uma maior aten&ccedil;&atilde;o e cuidados para prevenir   os efeitos e/ou socorrer a popula&ccedil;&atilde;o cearense das consequ&ecirc;ncias das secas   peri&oacute;dicas que assolavam o Cear&aacute; e causavam, principalmente para a popula&ccedil;&atilde;o   mais pobre, muito penar. Tal afirma&ccedil;&atilde;o pode ser constatada nas palavras do   pr&oacute;prio sacerdote:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">S&oacute; quem     viu 1877 entre n&oacute;s, pode avaliar o que seja o flagelo das secas nos sert&otilde;es do     Norte! &Eacute; uma afli&ccedil;&atilde;o os horrores da seca; parece que fica deserto o Cear&aacute;. Cada     cearense deve ser uma trombeta na imprensa e em toda parte, gritando com toda     for&ccedil;a, pedindo socorro para o grande naufr&aacute;gio do Cear&aacute;. Pode ser que esses     governos, que t&ecirc;m dever de salvar os estados nas calamidades p&uacute;blicas,     despertem este clamor e n&atilde;o queiram passar por assassinos, deixando morrer     caprichosamente milhares de vidas que podiam salvar e n&atilde;o querem. Estamos     certos que s&oacute; a Provid&ecirc;ncia nos dar&aacute; rem&eacute;dios (Padre C&iacute;cero <i>apud</i> Walker, 2006, p. 15).</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m da posi&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica,   destacam-se tamb&eacute;m seus aconselhamentos dados aos sertanejos voltados para uma   conviv&ecirc;ncia mais harmoniosa com o semi&aacute;rido, apontando pr&aacute;ticas de preserva&ccedil;&atilde;o   do meio ambiente, al&eacute;m de t&eacute;cnicas de trabalho na agropecu&aacute;ria, bem mais   acertadas para &aacute;reas sujeitas aos processos de degrada&ccedil;&atilde;o e desertifica&ccedil;&atilde;o,   presentes em grande parte do nordeste brasileiro. A esse respeito, Walker   aponta:</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No Cariri,   h&aacute; mais de cem anos, quando ningu&eacute;m falava em ecologia, o Padre C&iacute;cero &ndash; como   extraordin&aacute;rio homem de vanguarda que foi &ndash;, se antecipava e ensinava preceitos   ecol&oacute;gicos aos romeiros. Eram coisas simples, como &lsquo;n&atilde;o derrubem o mato; n&atilde;o   toquem fogo no ro&ccedil;ado; deixem os animais viverem; n&atilde;o matem os passarinhos;   utilizem as plantas medicinais&rsquo;, mas que surtiam um grande efeito. Essa   iniciativa de Padre C&iacute;cero, hoje largamente disseminada no Nordeste, foi   elogiada por ecologistas de renome, como o professor J. Vasconcellos Sobrinho,   no seu livro <i>Catecismo de ecologia</i> (Vozes, 1982), e Dr. Rubens Ricupero,   ex-ministro do Meio Ambiente, o qual, em artigo publicado no jornal <i>O     Globo</i> (19/01/94),   disse que Padre C&iacute;cero &lsquo;pregou em pleno sert&atilde;o nordestino a palavra que hoje a   consci&ecirc;ncia ambiental a duras penas come&ccedil;a a inscrever na nossa vis&atilde;o de mundo.   Muito antes de que se realizasse a I Confer&ecirc;ncia Internacional sobre o Meio   Ambiente, em Estocolmo, em 1972, ele teve essa percep&ccedil;&atilde;o aguda de algo que   constitui antes de tudo um interesse leg&iacute;timo, identificado por quem est&aacute;   pr&oacute;ximo da realidade (2006, p. 3).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nesse sentido, destacam-se os   seus onze preceitos ecol&oacute;gicos, que ensinava para os romeiros que visitavam   Juazeiro, bem como para os que, decidindo permanecer nas proximidades da   cidade, eram aconselhados pelo sacerdote a tornarem-se agricultores e, dentre   outras culturas, alertava para a necessidade de se &quot;plantar a mandioca-preta,   conservar ela, porque, quando vier a seca, n&atilde;o acha o povo desprevenido&quot; (Padre   C&iacute;cero<i>apud</i> Walker, 2006, p. 31).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; importante ressaltar que   Padre C&iacute;cero n&atilde;o deixou nenhuma obra escrita publicada. Por essa raz&atilde;o,   buscou-se saber junto ao professor e pesquisador Daniel Walker, especialista em   hist&oacute;ria do Juazeiro do Norte e sobre o Padre C&iacute;cero, as origens dos preceitos   ecol&oacute;gicos do sacerdote. Walker esclareceu que os preceitos ecol&oacute;gicos, hoje   amplamente difundidos, foram organizados pelo ecologista brasileiro Dr.   Vasconcelos Sobrinho (professor, engenheiro agr&ocirc;nomo e um dos fundadores da   Universidade Federal Rural de Pernambuco), com base nos conselhos que Padre   C&iacute;cero dava aos sertanejos atrav&eacute;s de cartas. Walker afirma ainda que alguns   desses conselhos eram dados durante as prega&ccedil;&otilde;es di&aacute;rias que o padre fazia aos   romeiros em frente &agrave; sua casa, sendo retransmitidos pelo povo atrav&eacute;s da   oralidade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em seus preceitos ecol&oacute;gicos,   Padre C&iacute;cero fazia os seguintes alertas:</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1.         N&atilde;o derrube o mato, nem mesmo um s&oacute; p&eacute; de pau</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2.         N&atilde;o toque fogo no ro&ccedil;ado nem na Caatinga</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3.         N&atilde;o cace mais e deixe os bichos viverem</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4.         N&atilde;o crie o boi nem o bode soltos; fa&ccedil;a cercados e deixe o pasto     descansar para se refazer</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5.         N&atilde;o plante em serra acima nem fa&ccedil;a ro&ccedil;ado em ladeira muito em p&eacute;;     deixe o mato protegendo a terra para que a &aacute;gua n&atilde;o a arraste e n&atilde;o se perca a     sua riqueza</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6.         Fa&ccedil;a uma cisterna no oit&atilde;o de sua casa para guardar &aacute;gua de chuva</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7.         Represe os riachos de cem em cem metros, ainda que seja com pedra     solta</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8.         Plante cada dia pelo menos um p&eacute; de algaroba, de caju, de sabi&aacute; ou     outra &aacute;rvore qualquer, at&eacute; que o sert&atilde;o todo seja uma mata s&oacute;</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">9.         Aprenda a tirar proveito das plantas da Caatinga, como a mani&ccedil;oba,     a favela e a jurema; elas podem ajudar a conviver com a seca</font></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">10.   Se o     sertanejo obedecer a estes preceitos, a seca vai aos poucos se acabando, o gado     melhorando e o povo ter&aacute; sempre o que comer</font></p>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">11.   Mas, se     n&atilde;o obedecer, dentro de pouco tempo o sert&atilde;o todo vai virar um deserto s&oacute;.</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Entendemos que foram a partir   desses fundamentos que o Padre incentivou o trabalho coletivo tempor&aacute;rio, em   forma de mutir&otilde;es, e o trabalho coletivo permanente, em forma de comunidades   agr&iacute;colas. &quot;Tornando-se conselheiro de uma crescente legi&atilde;o de fi&eacute;is, amea&ccedil;ados   pela seca, no sert&atilde;o nordestino e por limita&ccedil;&otilde;es materiais dela decorrentes, o   Padre C&iacute;cero incentivava a orar e trabalhar&quot; ( Ara&uacute;jo, 2005, p. 31).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao se formarem comunidades que   se constitu&iacute;ram como territ&oacute;rios camponeses, envoltos em um misticismo   religioso, &eacute; prov&aacute;vel que os aconselhamentos do Padre C&iacute;cero para se orar e   trabalhar, somados ao est&iacute;mulo da uni&atilde;o em mutir&atilde;o e aos preceitos ecol&oacute;gicos   que ensinava aos trabalhadores rurais, tenham se constitu&iacute;do na base estrutural   na qual seus devotos seguidores passaram a desempenhar suas atividades   produtivas em harmonia ecol&oacute;gica no ato de apropria&ccedil;&atilde;o da natureza, imprimindo,   assim, uma particularidade nos n&uacute;cleos rurais espalhados pelo Cariri cearense,   que ajudou a formar.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mediante   os desafios da seca, Padre C&iacute;cero incentivava os devotos ao trabalho de   cultivar os campos, para evitar os 'horrores da fome', e &agrave; f&eacute;, dirigindo promessas   ao santo para pedir chuva. Ap&oacute;s a seca de 1877, no Juazeiro e no Cariri, o   Padre C&iacute;cero se preocupava cada vez mais com a agricultura, solicitando junto   aos governantes a&ccedil;&otilde;es voltadas para tentar reverter o problema das estiagens   prolongadas. Neste sentido, o Padre incentivou a cria&ccedil;&atilde;o de a&ccedil;udes,   reservat&oacute;rios de &aacute;gua, reflorestamento e abastecimento alimentar. Assim, a   preocupa&ccedil;&atilde;o do Padre C&iacute;cero com a atividade agr&iacute;cola, assim como o grande   contingente de m&atilde;o de obra que aflu&iacute;a ao <i>Joaseiro</i>, em busca de   trabalho e a extensa quantidade de terras agricult&aacute;veis no topo da Chapada do   Araripe, contribu&iacute;ram para a forma&ccedil;&atilde;o de comunidades de pequenos agricultores   (Ara&uacute;jo, 2005, p. 40).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Algumas dessas comunidades se   perpetuam at&eacute; os dias atuais, como a de Cacimbas, que se localiza no munic&iacute;pio   de Jardim, no topo da Chapada do Araripe, e que ainda hoje abriga tradicionais   coletores de pequi. Acredita-se que em muitas dessas comunidades, a   organiza&ccedil;&atilde;o, as pr&aacute;ticas de trabalho, a ora&ccedil;&atilde;o e a conviv&ecirc;ncia com o semi&aacute;rido,   estavam pautadas em conselhos proferidos pelo &quot;Padrinho C&iacute;cero&quot;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um exemplo dessas influ&ecirc;ncias   do sacerdote na organiza&ccedil;&atilde;o das comunidades camponesas pode ser observado nas   experi&ecirc;ncias realizadas no s&iacute;tio Caldeir&atilde;o, pelo beato Jos&eacute; Louren&ccedil;o e seus seguidores.   O Caldeir&atilde;o foi uma comunidade camponesa formada a partir de um pedido do Padre   C&iacute;cero ao beato Jos&eacute; Louren&ccedil;o, um de seus devotos, detentor de importante   carisma e lideran&ccedil;a. Trabalhando de forma coletiva, a comunidade produzia quase   tudo de que necessitava, sendo capaz de prover o sustento de sua popula&ccedil;&atilde;o.   Incompreendida e perseguida por membros das oligarquias fundi&aacute;rias do Cear&aacute;, a   comunidade foi destru&iacute;da em 1936 por for&ccedil;as da pol&iacute;cia estadual cearense em uma   a&ccedil;&atilde;o que resultou na morte de 400 camponeses.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os ind&iacute;cios apontam que no   Caldeir&atilde;o foram colocados em pr&aacute;ticas os aconselhamentos de ora&ccedil;&atilde;o, trabalho e   preserva&ccedil;&atilde;o ambientais t&atilde;o difundidos pelo sacerdote de Juazeiro. Exemplo disso   &eacute; o fato de que os camponeses do Caldeir&atilde;o constru&iacute;ram a&ccedil;udes, fizeram represas   no leito do riacho Caldeir&atilde;o, intercalaram as culturas, possibilitando maior   diversidade biol&oacute;gica, preservaram as &aacute;reas &iacute;ngremes do terreno, entre outras   pr&aacute;ticas. Tais afirma&ccedil;&otilde;es podem ser constatadas atrav&eacute;s das palavras do ge&oacute;grafo   Arlindo Siebra, em entrevista a Ara&uacute;jo:</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&lsquo;Como &eacute;     poss&iacute;vel sustentar toda uma comunidade dependendo de um solo que tem restri&ccedil;&otilde;es     agr&iacute;colas? O grande m&eacute;rito do beato foi exatamente este: ele soube utilizar os     recursos e os ecossistemas do semi&aacute;rido&rsquo;, afirma o ge&oacute;grafo Arlindo Siebra.     Al&eacute;m do<i>modus vivendi</i> igualit&aacute;rio, o Caldeir&atilde;o foi um     exemplo ecol&oacute;gico para o N ordeste. Segundo Siebra, a comunidade construiu     v&aacute;rias microbarragens e dois a&ccedil;udes. Faziam tamb&eacute;m um tipo de cisterna, que     cobriam para evitar a evapora&ccedil;&atilde;o, armazenando a &aacute;gua no subsolo. Outra     caracter&iacute;stica importante frisada por Siebra era o n&atilde;o-desmatamento da     &quot;coroa da serra&quot; &ndash; como s&atilde;o chamadas as partes mais altas da fazenda.     Normalmente os agricultores trabalham com rota&ccedil;&atilde;o de culturas, ou seja, queimam     a vegeta&ccedil;&atilde;o para adubar o solo e depois plantam durante cerca de tr&ecirc;s anos.     Posteriormente, abandonam a &aacute;rea &ndash; deixam a vegeta&ccedil;&atilde;o brotar de novo, o que     chamam de &lsquo;encapoeiramento&rsquo; &ndash; para repetir o processo ap&oacute;s tr&ecirc;s ou cinco anos.     A falta de espa&ccedil;o, por&eacute;m, impedia Jos&eacute; Louren&ccedil;o de fazer as rota&ccedil;&otilde;es. Segundo     Siebra, o beato &lsquo;s&oacute; plantava abaixo da &lsquo;coroa da serra&rsquo;, e apenas em um trecho     por ano, passando depois para outro. Como a cobertura vegetal da coroa     permanecia intacta, quando chovia as sementes eram dispersadas de cima para     baixo. Dessa maneira, utilizando a for&ccedil;a da gravidade, a &aacute;rea encapoeirava mais     r&aacute;pido que um terreno plano&rsquo;. Com esse manejo agr&iacute;cola, somado &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de     peixes e de gado, as quase 2 mil bocas da irmandade n&atilde;o sentiam falta de comida     (Ara&uacute;jo, 2005, p. 40).</font></p> </blockquote>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Baseado nesses elementos   norteadores, o beato e seus seguidores desempenharam de modo satisfat&oacute;rio suas   atividades de produ&ccedil;&atilde;o agropecu&aacute;ria. Como se pode observar nas afirma&ccedil;&otilde;es de   Siebra, a utiliza&ccedil;&atilde;o dos recursos naturais do ecossistema semi&aacute;rido de maneira   racional e harm&ocirc;nica possibilitou que a comunidade lograsse &ecirc;xito em seu   desenvolvimento, a partir de um modelo ambientalmente sustent&aacute;vel, que somado &agrave;   for&ccedil;a do trabalho coletivo, a partir dos mutir&otilde;es, permitiu &agrave; comunidade   enfrentar sem mortes, epidemia ou fome a severa seca ocorrida em 1932 e a   alcan&ccedil;ar qualidade de vida salutar, superior &agrave; dos padr&otilde;es camponeses daquela   &eacute;poca no sert&atilde;o nordestino.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Passadas mais de sete d&eacute;cadas   do fim do Caldeir&atilde;o, esse modelo de organiza&ccedil;&atilde;o e produ&ccedil;&atilde;o que a comunidade   praticava, ao inv&eacute;s de se tornar obsoleto, requer maiores reflex&otilde;es a seu   respeito para que modos alternativos de conviv&ecirc;ncia com o sert&atilde;o semi&aacute;rido   possam ser repensados, fazendo um contraponto ao avan&ccedil;o de modelos de produ&ccedil;&atilde;o   e apropria&ccedil;&atilde;o desse espa&ccedil;o, que n&atilde;o levam em considera&ccedil;&atilde;o suas peculiaridades e   que aceleram os processos de degrada&ccedil;&atilde;o e desertifica&ccedil;&atilde;o, sobretudo na &aacute;rea do   pol&iacute;gono das secas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nesse sentido, uma retomada dos   conhecimentos tradicionais, com um olhar atento para as experi&ecirc;ncias e   metodologias postas em pr&aacute;tica no passado e que se mostraram prop&iacute;cias e   exequ&iacute;veis, emergem como alternativa vi&aacute;vel para um melhor conviver com o   semi&aacute;rido. Diante desse cen&aacute;rio preocupante de seca, escassez, degrada&ccedil;&atilde;o e   desertifica&ccedil;&atilde;o, aprender com o passado, observando os antigos conselhos   ecol&oacute;gicos do Padre C&iacute;cero e a experi&ecirc;ncia da comunidade da Caldeir&atilde;o da Santa   Cruz do Deserto, se mostra bastante pertinente.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias Bibliogr&aacute;ficas</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ara&uacute;jo, Jo&atilde;o Mauro. &quot;Sopro de   liberdade: a trag&eacute;dia de uma utopia de igualdade e autossufici&ecirc;ncia&quot;.<i>Problemas Brasileiros</i>,   S&atilde;o Paulo, n&ordm; 370, p. 38-43, jul/ago 2005.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Ara&uacute;jo, Maria de Lourdes. &quot;A cidade do Padre C&iacute;cero: trabalho e f&eacute;&quot;<i>.</i>Tese de doutorado em   planejamento urbano e regional. Centro de Ci&ecirc;ncias Jur&iacute;dicas e Aplicadas,   Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro 2005. 260 p.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Departamento Nacional de Produ&ccedil;&atilde;o Mineral. &quot;Projeto avalia&ccedil;&atilde;o hidrogeol&oacute;gica da   bacia sedimentar do Araripe&quot;. Recife: DNPM, 1996.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Neto, Lira. <i>Padre C&iacute;cero: f&eacute;, poder e guerra no   sert&atilde;o</i>. 1&ordm;Ed. S&atilde;o Paulo: Companhia das Letras, 2009.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"> Walker, Daniel. <i>Padre C&iacute;cero: colet&acirc;nea de textos</i>.   Juazeiro do Norte, 2006. Dispon&iacute;vel em: .   Acesso em: maio de 2013.    </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">10/06/2013</font></p>      ]]></body>
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