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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><b><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">ARTIGO</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A Caatinga e suas aves</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Caio Graco Machado </font></b></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Professor pleno do curso de ci&ecirc;ncias iol&oacute;gicas da Universidade   Estadual de Feira de Santana, Bahia. Contato: <a href="mailto:caiogracomachado@gmail.com">caiogracomachado@gmail.com</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Quando se ouve a palavra   &quot;caatinga&quot;, acredito que, para a maioria das pessoas que n&atilde;o a conhecem, as   primeiras imagens que v&ecirc;m &agrave; mente s&atilde;o tristes cenas de seca, de esqueletos e   carca&ccedil;as de gado ardendo ao sol, de a&ccedil;udes sem &aacute;gua e de um povo pobre, sofrido   e faminto.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Sim, essas cenas ocorrem, uma   vez que a caatinga se situa em uma regi&atilde;o semi&aacute;rida, onde chove pouco (m&eacute;dia   pluviom&eacute;trica anual varia de 240 a 1.500 mm, com 50% da regi&atilde;o recebendo menos que 750 mm e em algumas &aacute;reas centrais, menos que 500 mm) e o regime de chuvas n&atilde;o &eacute; regular, havendo longos per&iacute;odos de estiagem, &agrave;s vezes por mais de   um ano, o que castiga as popula&ccedil;&otilde;es locais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No entanto, conhecendo um pouco   mais a caatinga, se descobre que h&aacute; o outro lado da moeda: bastam as primeiras   chuvas, no in&iacute;cio do per&iacute;odo chuvoso, que a paisagem se transforma   radicalmente, ficando, ent&atilde;o, dif&iacute;cil imaginar que toda a exuber&acirc;ncia verde da   vegeta&ccedil;&atilde;o desse per&iacute;odo, preenchida pela intensa movimenta&ccedil;&atilde;o e sons dos   animais que ali vivem, possa um dia desaparecer com a seca, que chegar&aacute;,   invariavelmente, nos pr&oacute;ximos meses.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a href="/img/revistas/cci/n149/a07img01.jpg">Figura 1</a></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; bem   comum, ainda na escola, aprendermos que a palavra &quot;caatinga&quot; vem do tupi e quer   dizer &quot;mata branca&quot;. Isto est&aacute; relacionado ao fato de que, durante a estiagem,   com praticamente todas as esp&eacute;cies de plantas desfolhadas ou secas, o aspecto   da vegeta&ccedil;&atilde;o &eacute; esbranqui&ccedil;ado &ndash; da&iacute; o nome &quot;caatinga&quot;. No entanto, &eacute; importante   sabermos que h&aacute; duas diferentes defini&ccedil;&otilde;es para a palavra caatinga: a   &quot;Caatinga&quot; e a &quot;caatinga&quot;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A Caatinga, iniciada com letra   mai&uacute;scula, se refere ao bioma, que &eacute; a regi&atilde;o semi&aacute;rida, que se estende por   todos os estados do nordeste brasileiro at&eacute; o norte de Minas Gerais. A Caatinga   &eacute; o quarto maior bioma do Brasil, ocupando cerca de 10% de seu territ&oacute;rio e,   dentre todos os biomas brasileiros (h&aacute; outros cinco: Amaz&ocirc;nia, Cerrado, Mata   Atl&acirc;ntica, Pampa e Pantanal), &eacute; o &uacute;nico end&ecirc;mico do Brasil, uma vez que os   demais tamb&eacute;m se estendem aos pa&iacute;ses vizinhos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No bioma Caatinga ocorrem   diversos tipos vegetacionais, incluindo &aacute;reas de cerrado, de campos rupestres,   v&aacute;rios encraves de mata atl&acirc;ntica; por&eacute;m o tipo de vegeta&ccedil;&atilde;o predominante, que   d&aacute; o nome ao bioma, &eacute; a caatinga. Desta forma, a caatinga (escrita com letra   min&uacute;scula) &eacute; um tipo de vegeta&ccedil;&atilde;o, que &eacute; primariamente florestal, apesar de   tamb&eacute;m possuir forma&ccedil;&otilde;es mais abertas, campestres, e que &eacute; bastante adaptada   aos acentuados per&iacute;odos de estiagem ocorrentes no semi&aacute;rido brasileiro.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Em meio &agrave; extrema varia&ccedil;&atilde;o   sazonal, h&aacute; uma rica fauna, ainda subestimada por ser pouco conhecida em sua   totalidade e pelas grandes lacunas de conhecimento sobre sua distribui&ccedil;&atilde;o,   adapta&ccedil;&otilde;es e intera&ccedil;&otilde;es ecol&oacute;gicas. Com as aves esta situa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; diferente &ndash;   de todos os biomas brasileiros, a Caatinga ainda &eacute; a que tem sua avifauna menos   estudada. At&eacute; o in&iacute;cio da d&eacute;cada passada, 510 esp&eacute;cies foram reportadas em todo   o bioma, das quais cerca de 350 ocorrem na vegeta&ccedil;&atilde;o de caatinga. No entanto,   uma investiga&ccedil;&atilde;o mais recente, a partir de novos estudos e registros, resultou   em uma riqueza de 596 esp&eacute;cies de aves apenas na por&ccedil;&atilde;o baiana do bioma   Caatinga!</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Apesar de ainda n&atilde;o haver um   consenso, se estima que existam cerca de 15 esp&eacute;cies de aves end&ecirc;micas desse   bioma; dentre elas, duas araras baianas: a arara-azul-de-lear, restrita &agrave;   regi&atilde;o do Raso da Catarina, e a ararinha-azul, considerada extinta na natureza   desde 2000 &ndash; ainda existem indiv&iacute;duos vivos em cativeiro, a maioria fora do   Brasil. Entretanto, h&aacute; v&aacute;rias esp&eacute;cies de aves que, apesar de ocorrerem tamb&eacute;m   em outros biomas, s&atilde;o considerados muito t&iacute;picas da Caatinga, como o carcar&aacute;, a   pomba asa-branca e o assum-preto &ndash; o primeiro imortalizado na can&ccedil;&atilde;o de   Jo&atilde;o  do Vale e as outras duas nas can&ccedil;&otilde;es de Luiz Gonzaga; no entanto, &eacute;   considerada a &quot;voz da caatinga&quot; a gralha-canc&atilde;, devido &agrave; vocaliza&ccedil;&atilde;o forte e   inconfund&iacute;vel, sempre comum.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="img02" id="img02"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n149/a07img02.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="img03" id="img03"></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n149/a07img03.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A avifauna da Caatinga foi   historicamente selecionada para poder ser capaz de superar os longos per&iacute;odos   de estiagem. Muitas esp&eacute;cies realizam deslocamentos populacionais durante os   per&iacute;odos de aridez, deixando as &aacute;reas secas em busca de recursos em &aacute;reas mais   &uacute;midas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Muitas outras esp&eacute;cies, por   outro lado, n&atilde;o apresentam esses deslocamentos populacionais, permanecendo   sempre na mesma &aacute;rea. Dentre elas, s&atilde;o comuns as esp&eacute;cies de aves que se alimentam   de gr&atilde;os e sementes ca&iacute;das junto ao solo. A pomba asa-branca, exemplo de uma   dessas esp&eacute;cies, &eacute; citada na can&ccedil;&atilde;o de Luiz Gonzaga que, ao narrar um epis&oacute;dio   de seca extremamente intensa, diz que &quot;<i>at&eacute;     mesmo a asa-branca bateu asas do sert&atilde;o</i>&quot;.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Tamb&eacute;m s&atilde;o encontradas mesmo   durante a seca as esp&eacute;cies que se alimentam de insetos, as esp&eacute;cies necr&oacute;fagas   que se valem de cad&aacute;veres de animais que sucumbem &agrave; seca, e as esp&eacute;cies   generalistas, on&iacute;voras, que possuem uma grande capacidade de explorar e de se   alimentar de diversos tipos de alimento, quer sejam insetos, frutos, gr&atilde;os ou   mesmo pequenos animais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Recentes avalia&ccedil;&otilde;es promovidas   pelo Instituto Chico Mendes de Conserva&ccedil;&atilde;o da Biodiversidade (ICMBio)   identificaram 16 esp&eacute;cies da Caatinga categorizadas em algum grau de amea&ccedil;a de   extin&ccedil;&atilde;o: duas consideradas criticamente amea&ccedil;adas de extin&ccedil;&atilde;o (a   tiriba-de-peito-cinza e o soldadinho-do-araripe), nove em perigo e cinco   vulner&aacute;veis. Para reverter esse quadro, foram elaborados tr&ecirc;s planos nacionais   de a&ccedil;&atilde;o para a conserva&ccedil;&atilde;o de esp&eacute;cies amea&ccedil;adas de extin&ccedil;&atilde;o (PAN), sendo um   exclusivo para o soldadinho-do-araripe, no Cear&aacute;, outro para a   arara-azul-de-lear, na Bahia, e o terceiro voltado para o conjunto das demais   14 esp&eacute;cies amea&ccedil;adas, em todo o bioma.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Dentre as a&ccedil;&otilde;es desses PANs h&aacute;   a identifica&ccedil;&atilde;o e a minimiza&ccedil;&atilde;o (ou mesmo a erradica&ccedil;&atilde;o) das principais amea&ccedil;as   que colocam em risco essas esp&eacute;cies. Para as aves da Caatinga, h&aacute; v&aacute;rios tipos   de amea&ccedil;as, sendo algumas geograficamente mais pontuais ou restritas a algumas   esp&eacute;cies, por&eacute;m, duas amea&ccedil;as s&atilde;o comuns a todo o bioma: a perda de habitat e a   ca&ccedil;a.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A perda de habitat &eacute; um   fen&ocirc;meno hist&oacute;rico de ocupa&ccedil;&atilde;o humana da Caatinga e decorre de diversos tipos   de atividades: a agricultura &ndash; tanto a pequena e familiar quanto as grandes   frentes agr&iacute;colas mecanizadas e irrigadas; a pecu&aacute;ria extensiva; as atividades   de minera&ccedil;&atilde;o; e as atividades relacionadas &agrave; produ&ccedil;&atilde;o de energia, tanto pelos   dist&uacute;rbios decorrentes do corte seletivo de vegeta&ccedil;&atilde;o para retirada de madeira   para abastecer carvoarias e para a instala&ccedil;&atilde;o de parques e&oacute;licos, quanto pela   supress&atilde;o total da vegeta&ccedil;&atilde;o para a forma&ccedil;&atilde;o de represas hidroel&eacute;tricas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A ca&ccedil;a de subsist&ecirc;ncia, para   obten&ccedil;&atilde;o de alimentos, de modo geral tem decrescido, por&eacute;m ainda &eacute; intensa a   captura de aves para suprir os mercados ilegais ligados ao tr&aacute;fico de animais,   que &eacute; a terceira atividade ilegal que mais movimenta dinheiro no mundo. A   captura para o tr&aacute;fico foi a causa principal da recente extin&ccedil;&atilde;o da   ararinha-azul da natureza.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A avifauna da Caatinga n&atilde;o &eacute; um   elemento isolado, uma vez que as diversas esp&eacute;cies de aves se inter-relacionam   de maneira muito complexa com outros animais e com a flora. Assim, a   conserva&ccedil;&atilde;o das esp&eacute;cies de aves da Caatinga est&aacute; intrinsecamente ligada &agrave;   conserva&ccedil;&atilde;o do bioma como um todo, o que &eacute; indispens&aacute;vel para o desenvolvimento   sustent&aacute;vel necess&aacute;rio &agrave;s popula&ccedil;&otilde;es humanas. Os termos &quot;conserva&ccedil;&atilde;o&quot; e   &quot;sustentabilidade&quot; devem deixar de ser as palavras de ordem do momento para se   tornarem a&ccedil;&otilde;es de ordem priorit&aacute;ria e permanente.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">10/06/2013</font></p>      ]]></body>

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