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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">    <b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><a name="top"></a><b>Os    usos e sentidos da liberdade de express&atilde;o na contemporaneidade</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b> Maria Marta    Avancini </b></font></p>     <p /> <font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">      <p>&nbsp; </p> </font>      <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em setembro de    2012, a revista francesa <i>Charlie Hebdo</i> publicou s&aacute;tiras em que    o profeta e l&iacute;der religioso do islamismo, Maom&eacute;, aparece nu e    em cenas pornogr&aacute;ficas. A publica&ccedil;&atilde;o ocorreu no contexto    de uma onda de levantes antiamericanos, desencadeada pela exibi&ccedil;&atilde;o    do filme <i>A inoc&ecirc;ncia dos mu&ccedil;ulmanos</i> nos Estados Unidos.    Em protesto contra o filme, multid&otilde;es de mu&ccedil;ulmanos foram &agrave;s    ruas, o que resultou em embaixadas fechadas, feridos em v&aacute;rios pa&iacute;ses    e na morte do embaixador do pa&iacute;s norte-americano na L&iacute;bia, Chris    Stevens.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O epis&oacute;dio    acabou trazendo &agrave; tona um dos debates centrais da contemporaneidade:    o da liberdade de express&atilde;o. Afinal, num mundo em que, gra&ccedil;as    &agrave; tecnologia, o acesso aos meios de comunica&ccedil;&atilde;o e de publica&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o &eacute; mais exclusivo de grupos empresariais e em que a express&atilde;o    dos pontos de vista dos distintos grupos que integram a sociedade &eacute; um    valor, onde fica o limite entre o direito de se dizer o que se pensa e o respeito    &agrave; cultura do outro? Quais os contornos da liberdade de express&atilde;o    no nosso mundo atual?</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Essa &eacute; uma    discuss&atilde;o que remete &agrave; hist&oacute;ria. Forjado em meio &agrave;s    revolu&ccedil;&otilde;es burguesas dos s&eacute;culos XVII e XVIII, o conceito    de liberdade de express&atilde;o, tal como conhecemos hoje, foi a pedra fundamental    &eacute;tica e pol&iacute;tica daquelas revolu&ccedil;&otilde;es. A Declara&ccedil;&atilde;o    dos Direitos do Homem e do Cidad&atilde;o elaborada durante a Revolu&ccedil;&atilde;o    Francesa - marco do pensamento liberal - atesta que a livre comunica&ccedil;&atilde;o    de pensamentos e opini&otilde;es &eacute; um dos direitos mais preciosos do    homem. Afinal, numa sociedade em que as hierarquias estavam sendo destronadas,    era preciso abrir espa&ccedil;o para a voz do cidad&atilde;o. Desse modo, o    artigo XI da Declara&ccedil;&atilde;o afirma: "Todo cidad&atilde;o pode falar    livremente, sob condi&ccedil;&atilde;o de responder pelo abuso dessa liberdade    nos casos determinados pela lei".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No s&eacute;culo    XIX, o fil&oacute;sofo e economista ingl&ecirc;s Stuart Mill postulou, em rea&ccedil;&atilde;o    ao conservadorismo da sociedade vitoriana e em contraposi&ccedil;&atilde;o &agrave;    "tirania da maioria", a defesa irrestrita da liberdade de express&atilde;o -    entendida aqui como a liberdade do indiv&iacute;duo se manifestar e confrontar    seus pontos de vista com os demais integrantes da sociedade, alimentando, assim,    livre fluxo de informa&ccedil;&otilde;es e mensagens no espa&ccedil;o p&uacute;blico.    "Na Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa, a liberdade de express&atilde;o aparecia    mais ligada &agrave; ideia de democracia, como manifesta&ccedil;&atilde;o de    oposi&ccedil;&atilde;o ao governo institu&iacute;do", explica Maria Cristina    Castilho Costa, coordenadora do Observat&oacute;rio em Comunica&ccedil;&atilde;o,    Liberdade de Express&atilde;o e Censura (Obcom) da Universidade de S&atilde;o    Paulo (USP). "A concep&ccedil;&atilde;o liberalista, de Mill, remete ao livre    fluxo de informa&ccedil;&otilde;es e mensagens. Est&aacute; ligada &agrave;    liberdade de mercado", complementa.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b><strong>O direito    &agrave; livre express&atilde;o</strong></b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao longo do s&eacute;culo    XX, a liberdade de express&atilde;o se consolidou como um direito. A Declara&ccedil;&atilde;o    Universal dos Direitos Humanos, proclamada em pleno p&oacute;s-guerra, em 1948,    postula, no artigo 19&ordm;, que "todo o indiv&iacute;duo tem direito a liberdade    de opini&atilde;o e de express&atilde;o, o que implica o direito de n&atilde;o    ser inquietado pelas suas opini&otilde;es e o de procurar, receber e difundir,    sem considera&ccedil;&atilde;o de fronteiras, informa&ccedil;&otilde;es e ideias    por qualquer meio de express&atilde;o". &Eacute; da&iacute; que vem o conceito    de direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o, assim como a valoriza&ccedil;&atilde;o    e o respeito &agrave; diversidade e &agrave;s minorias.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"Livre express&atilde;o,    respeito &agrave; diferen&ccedil;a, diversidade e direitos iguais s&atilde;o    axiomas que pertencem &agrave; mesma ordem de conceitos. A pluraliza&ccedil;&atilde;o    nasce do m&uacute;ltiplo - as diferen&ccedil;as dos indiv&iacute;duos e dos    grupos. S&atilde;o v&aacute;rios os grupos sociais que se diferenciam na comunidade",    postula Maria das Gra&ccedil;as Sousa, coordenadora do Grupo de Estudos de M&iacute;dia    (Gemini), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; nesse    sentido que os conceitos de liberdade de express&atilde;o e liberdade de imprensa    se aplicam &agrave; ordem mundial contempor&acirc;nea, analisa o jornalista    e professor da Escola de Comunica&ccedil;&atilde;o e Artes (ECA) da USP Eug&ecirc;nio    Bucci. Se originalmente este era um valor t&iacute;pico do liberalismo, no s&eacute;culo    XX, ela passou a ter a dimens&atilde;o de um direito humano fundamental - independentemente    de classes, religi&otilde;es ou nacionalidades. "&Eacute; nesses termos que    devemos pensar a liberdade de imprensa hoje: ela &eacute; um direito fundamental",    sentencia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Para ele, a liberdade    de imprensa pode ser vista como sin&ocirc;nimo de liberdade de express&atilde;o    no sentido de que uma cont&eacute;m a outra. "A distin&ccedil;&atilde;o &eacute;    de &ecirc;nfase, pois quando se fala em liberdade de express&atilde;o, tenta-se    destacar o direito que cada um tem de se manifestar livremente, at&eacute; numa    conversa. A liberdade de imprensa remete ao direito de imprimir sem autoriza&ccedil;&atilde;o    do Estado, uma ideia que vem de John Milton, no s&eacute;culo XVII. Mas uma    n&atilde;o existe sem a outra", explica.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b><strong>H&aacute;    limites para a liberdade?</strong></b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Uma quest&atilde;o    se imp&otilde;e, contudo: em sociedades plurais e m&uacute;ltiplas, como se    prop&otilde;em a ser as contempor&acirc;neas, como definir a fronteira entre    a liberdade de express&atilde;o e o respeito ao outro? &Eacute; justamente esse    o debate suscitado pela pol&ecirc;mica em torno das charges anti-isl&acirc;micas.    O professor Murilo Ramos, da Faculdade de Comunica&ccedil;&atilde;o da Universidade    de Bras&iacute;lia (UnB), postula que o limite da liberdade de express&atilde;o    &eacute; o ataque mentiroso &agrave; integridade do outro. "Sempre foi assim.    &Eacute; preciso assegurar o direto &agrave; privacidade, o direito de uso da    imagem", analisa.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Essa demarca&ccedil;&atilde;o,    no entanto, se torna mais "pantanosa" quando o assunto &eacute; religi&atilde;o    e moral - caso em que se enquadram as charges publicadas na revista sat&iacute;rica    francesa. Como se trata de uma quest&atilde;o que envolve f&eacute;, cultura,    valores, o debate precisa ser contextualizado. "&Eacute; uma disputa que envolve    uma s&eacute;rie de vari&aacute;veis. Os limites s&atilde;o el&aacute;sticos,    pois o que &eacute; normal para uma cultura, n&atilde;o &eacute; para outra",    diz Ramos. Desse modo, ele v&ecirc; o bom senso como a sa&iacute;da para o impasse.    "N&atilde;o se pode baixar uma lei nem regras gerais e, ao mesmo tempo, n&atilde;o    se pode demonizar o chargista", conclui.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A legisla&ccedil;&atilde;o    &eacute;, na opini&atilde;o de Eug&ecirc;nio Bucci, a dimens&atilde;o que demarca    os limites da liberdade express&atilde;o, j&aacute; que, em sua concep&ccedil;&atilde;o,    a liberdade deve ser plena. "Se n&atilde;o for plena, n&atilde;o pode ser chamada    de liberdade. O limite &eacute; dado pela pr&oacute;pria responsabiliza&ccedil;&atilde;o    do autor", defende. Em outras palavras, se um jornalista - ou um cidad&atilde;o    qualquer - ofende ou calunia outra pessoa, ele deve responder por isso nos termos    da lei. "Mas a liberdade n&atilde;o ser&aacute; alterada. O abuso deve ser punido,    mas <i>a posteriori</i>, sempre e somente <i>a posteriori</i>".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As normas de conv&iacute;vio    social s&atilde;o outra via pela qual se pode regular a livre express&atilde;o    do pensamento, defende a coordenadora do Gemini/UFRN. "A liberdade de express&atilde;o,    por si s&oacute;, n&atilde;o garante a equidade e o equil&iacute;brio social    em uma sociedade democr&aacute;tica", afirma Sousa. Assim, de acordo com ela,    s&atilde;o as regras de conv&iacute;vio - que surgem em pactos sociais e depois    s&atilde;o ratificadas por representantes dos grupos sociais e transformadas    em leis - que asseguram a liberdade plena no contexto de uma democracia. Isso    porque s&atilde;o elas que promovem a equidade.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nessa medida, avalia    Sousa, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel defender liberdade de express&atilde;o    para comportamentos que diferem dos pactos sociais estabelecidos por determinadas    culturas. Ent&atilde;o, na pr&aacute;tica, n&atilde;o existe liberdade de express&atilde;o    se n&atilde;o h&aacute; liberdade de comportamento. Contudo, no caso das charges    sobre Maom&eacute;, a quest&atilde;o &eacute; mais complexa, exigindo estudos    mais aprofundados. "Vivemos, na contemporaneidade, num mundo cada vez mais interligado,    onde as culturas interagem e se pluralizam. E as charges foram publicadas fora    dos pa&iacute;ses isl&acirc;micos", pondera.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao mesmo tempo,    &eacute; preciso colocar a discuss&atilde;o sob a &oacute;tica do preconceito,    prop&otilde;e a coordenadora do Obcom/USP. "Para identificar se uma piada &eacute;    preconceituosa, basta trocar a categoria que est&aacute; sendo alvo. Ser&aacute;    que algum jornalista ocidental faria uma charge sobre o Holocausto nos mesmos    termos adotados no caso das charges sobre Maom&eacute;?", provoca Costa.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b><strong>O impacto    da tecnologia</strong></b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Paralelamente &agrave;    ascens&atilde;o da valoriza&ccedil;&atilde;o da diversidade, a internet imp&otilde;e    uma s&eacute;rie de desafios &agrave; liberdade de express&atilde;o. Se, por    um lado, n&atilde;o existem muitas d&uacute;vidas quanto a seu impacto no sentido    de ampliar a liberdade de express&atilde;o, por outro, a internet confunde pap&eacute;is    e lugares - tornando menos t&ecirc;nue a distin&ccedil;&atilde;o entre liberdade    de express&atilde;o e liberdade de imprensa. "Um blog pode ser considerado imprensa?    Como estabelecer responsabilidades por um conte&uacute;do publicado?", questiona    Costa.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mais do que um    debate conceitual, defende a coordenadora do Obcom/USP, essa &eacute; uma discuss&atilde;o    que diz respeito a todo e qualquer cidad&atilde;o, na medida em que a internet    est&aacute; dando voz a quem nunca teve. "H&aacute; 40, 50 anos, o debate sobre    liberdade de express&atilde;o interessava aos profissionais de comunica&ccedil;&atilde;o,    a artistas. Hoje, &eacute; diferente, interessa a todo mundo que est&aacute;    gostando e tendo prazer em falar, em escrever, em se comunicar por meio da internet.    As pessoas n&atilde;o querem perder mais isso".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao mesmo tempo,    algum tipo de regula&ccedil;&atilde;o se faz necess&aacute;ria, pois, assim    como ocorria no passado, continua n&atilde;o sendo aceit&aacute;vel caluniar,    difamar ou expor a privacidade de uma pessoa na internet. A diferen&ccedil;a    &eacute; que h&aacute; muito mais atores envolvidos e atuando num meio que facilita    e favorece a express&atilde;o individual. Por isso, de acordo com Costa, o debate    sobre a liberdade de express&atilde;o na atualidade ultrapassou a esfera pol&iacute;tica    e passou a envolver a dimens&atilde;o &eacute;tica para toda a sociedade. "Todo    mundo quer saber at&eacute; onde se pode ir. O que &eacute; permitido? O que    &eacute; v&aacute;lido? E muitas vezes, por falta de clareza, a decis&atilde;o    acaba recaindo sobre o indiv&iacute;duo. Com base no seu conhecimento e nos    seus valores o indiv&iacute;duo acaba decidindo o que &eacute; adequado, o que    pode ser feito, publicado", analisa a professora da USP. &Eacute; nesse cen&aacute;rio    que ganha for&ccedil;a o debate em torno da regula&ccedil;&atilde;o da internet,    entendida aqui n&atilde;o como uma a&ccedil;&atilde;o isolada de governo e,    sim, como uma atua&ccedil;&atilde;o do Estado, envolvendo, amplamente, a sociedade    civil.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">10/03/2013</font></p>      ]]></body>

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