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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">    <b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><a name="top"></a><b>Engordurando    a arte contempor&acirc;nea: as imagens de Fernanda Magalh&atilde;es</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b> Vinicios Kabral    Ribeiro</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Doutorando em comunica&ccedil;&atilde;o    e cultura na Universidade Federal do Rio de Janeiro, professor da Escola de    Belas Artes na mesma institui&ccedil;&atilde;o</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No document&aacute;rio    <em>Rotundus</em><b><sup><a href="#back">1</a></sup></b>, em pouco menos de    cinco minutos, o corpo da artista visual Fernanda Magalh&atilde;es (1962-) &eacute;    revelado em pequenos detalhes: orelhas, m&atilde;os, olhos, silhueta. Ao final    do v&iacute;deo uma resposta &eacute; dada, entre risadas, a uma pergunta que    possivelmente seria: "voc&ecirc; se considera uma pessoa gorda?" A resposta:    "Eu sou gorda? Claro, com certeza, com orgulho. Sou gorda, sempre serei uma    pessoa gorda, uma pessoa redonda, n&eacute;? Eu adoro, &eacute; a minha constitui&ccedil;&atilde;o,    essa sou eu".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nascida na cidade    de Londrina (PR), a artista visual &eacute; graduada em educa&ccedil;&atilde;o    art&iacute;stica pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e doutora em arte    pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Fernanda Magalh&atilde;es    desenvolve pesquisas e experimenta&ccedil;&otilde;es sobre os limites e potencialidades    de representa&ccedil;&otilde;es do corpo na arte, em uma predile&ccedil;&atilde;o    por corpos catalogados como acima do peso. Os trabalhos da artista inserem-se    em um panorama da arte em que o corpo torna-se central na constru&ccedil;&atilde;o    de obras produzidas a partir de diferentes linguagens.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; produtivo    considerar algumas quest&otilde;es ao analisar os trabalhos desenvolvidos por    Fernanda Magalh&atilde;es: as met&aacute;foras do corpo nas visualidades art&iacute;sticas,    o enfrentamento aos discursos biom&eacute;dicos e patologizantes, o engendramento    do campo da arte e das ci&ecirc;ncias na formula&ccedil;&atilde;o de outros    saberes e olhares. A artista entende seus trabalhos como uma a&ccedil;&atilde;o    poss&iacute;vel dentre as tantas pol&iacute;ticas do corpo. Essa tomada do corpo    como pol&iacute;tico pode ser interpretada como linhas de fuga e dobras nas    estruturas e redes de poder, al&eacute;m de um enfrentamento aos discursos de    patologiza&ccedil;&atilde;o e medicaliza&ccedil;&atilde;o dos corpos vigentes    na sociedade.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em 1993, a artista    participou, na Universidade Federal Fluminense (UFF), da oficina "Atelier Livre    de Fotografia", ministrada pelo fot&oacute;grafo e cr&iacute;tico de arte Pedro    Karp Vasquez (1954-). Desde ent&atilde;o ela pesquisa e produz o que denomina    fotografias contaminadas e manipuladas. Seus trabalhos materializam-se em colagens    e instala&ccedil;&otilde;es que dialogam constantemente com a fotografia. A    manipula&ccedil;&atilde;o pode ser entendida como o gesto artesanal e criativo    disparado pela artista. Ela recorta fragmentos de imagens, insere refer&ecirc;ncias    midi&aacute;ticas, inscreve textos nas superf&iacute;cies das imagens, cola    materiais diversos. A manipula&ccedil;&atilde;o &eacute;, tamb&eacute;m, digital,    valendo-se de programas de computadores em seu repert&oacute;rio po&eacute;tico.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A viv&ecirc;ncia    de Fernanda Magalh&atilde;es no curso de Vasquez foi fundamental para a aproxima&ccedil;&atilde;o    e uma melhor percep&ccedil;&atilde;o de seu corpo e de suas experi&ecirc;ncias    subjetivas nos processos de cria&ccedil;&atilde;o. Nos trabalhos exigidos para    a oficina fotogr&aacute;fica, a artista explorou a quest&atilde;o da solid&atilde;o    e o isolamento que sentia em alguns momentos na sua chegada &agrave; cidade    do Rio de Janeiro onde o exagerado culto ao corpo fez aumentar as suas ang&uacute;stias    e os seus questionamentos acerca do (seu) corpo tido como "fora de forma". Dentro    dessa experimenta&ccedil;&atilde;o surgiu a s&eacute;rie <em>Autorretrato no    RJ</em> (1993, <a href="#f01">Figura 1</a>), na qual a artista aparece agachada,    de costas, em um quarto com pouca luminosidade, apoiada em um colchonete no    ch&atilde;o, tendo ao seu lado um carrinho para transportar mercadorias, malas,    ou o peso da discrimina&ccedil;&atilde;o imputada ao seu corpo.</font></p>     <p align="center"><a name="f01"></a></p>     <p align="center">&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n145/08f01.jpg"></p>     <p align="center">&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Fernanda Magalh&atilde;es,    ainda em 1993, amplia o processo de investiga&ccedil;&atilde;o de seus autorretratos    e inicia o seu desnudamento, em inser&ccedil;&otilde;es de tra&ccedil;os do    seu corpo, em uma dificuldade em revel&aacute;-lo totalmente. Nessa s&eacute;rie,    intitulada <em>Autorretratos nus no RJ</em>(<a href="#f02">Figura 2</a>), a    artista trabalha com bricolagem e apropria&ccedil;&atilde;o de outros materiais,    como texto de jornais, bilhetes de &ocirc;nibus, recorte de revistas, cartas    pessoais; uma caracter&iacute;stica que aparecer&aacute; nos pr&oacute;ximos    trabalhos da artista.</font></p>     <p align="center"><a name="f02"></a></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center">&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n145/08f02.jpg"></p>     <p align="center">&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em 1995, a artista    submeteu uma proposta de projeto dessa s&eacute;rie &agrave; Funarte, tendo    sido contemplada com uma bolsa de pesquisa. Ap&oacute;s desenvolver o projeto    pelo per&iacute;odo de um ano, apresentou 28 obras de arte, que comp&otilde;em    a s&eacute;rie aqui analisada. Fernanda Magalh&atilde;es &eacute; premiada no    mesmo ano com o VII pr&ecirc;mio Marc Ferrez de fotografia. A diferen&ccedil;a    substancial dessa s&eacute;rie de trabalho para o anterior, <em>Autorretratos    nus no RJ,</em> &eacute; a consci&ecirc;ncia de seu corpo, ora em fragmentos    ora visualmente revelado.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; instigante    a forma como a artista intitulou esses trabalhos: gorda, em uma escala de 1    a 28. Um ind&iacute;cio de como a mulher gorda &eacute; percebida no tecido    social, pelo saber biom&eacute;dico e pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o    de massa apenas por sua corporeidade. E, tamb&eacute;m, a t&ocirc;nica que movimenta    a representa&ccedil;&atilde;o do corpo n&atilde;o apenas dirigida &agrave;s    mulheres gordas, mas a todas e todos que vivenciam diariamente alguma insatisfa&ccedil;&atilde;o    ou sentimento de n&atilde;o pertencimento em raz&atilde;o de algum atributo    f&iacute;sico. Al&eacute;m de enumerar sequencialmente os trabalhos da s&eacute;rie    <em>A representa&ccedil;&atilde;o da mulher gorda nua na fotografia,</em> &eacute;    comum em algumas obras a retirada do rosto da artista, assim como a sobreposi&ccedil;&atilde;o    de outras imagens.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Fernanda Magalh&atilde;es    opera genuinamente o jogo de esconder, em alguns momentos, o rosto que desconhece    a nudez, ao mesmo tempo em que descobre em seu corpo a nudez. Se o rosto &eacute;    a possibilidade de uma nova comunica&ccedil;&atilde;o er&oacute;tica, para a    artista, elimin&aacute;-lo constitui a possibilidade de anular a individualidade    e dirigir ao corpo das mulheres gordas nuas outras nuances de erotismo, distantes    dos habituais estere&oacute;tipos e associa&ccedil;&otilde;es com a anormalidade    do corpo feminino gordo. O que a artista provoca, questiona e subverte s&atilde;o    as condi&ccedil;&otilde;es claustrof&oacute;bicas que nossos corpos vivenciam    rotineiramente. Suas imagens circulam por um mundo onde corpos s&atilde;o reificados.    A obsolesc&ecirc;ncia e perecibilidade s&atilde;o constantes, assim como a fragmenta&ccedil;&atilde;o    dos sujeitos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em <em>Gorda 13</em>    (<a href="#f03">Figura 3</a>) temos um fundo escuro, sobreposto por uma imagem,    no canto inferior &agrave; esquerda, retirada de uma revista pornogr&aacute;fica    especializada em nudez de mulheres gordas. Ao lado direito, um retrato em 3x4    de Fernanda Magalh&atilde;es quando crian&ccedil;a &eacute; entrecruzado por    excertos textuais. Nessa impress&atilde;o, entre seu retrato fragmentado e o    texto, podemos observar um duplo desabafo repercutindo n&atilde;o apenas para    a sua experi&ecirc;ncia com o corpo, mas tamb&eacute;m sobre a corporeidade    feminina: "Quero que as mulheres magras e m&eacute;dias encarem a disforia de    sua imagem corporal e se deem conta de que h&aacute; um mundo de diferen&ccedil;a    entre suas experi&ecirc;ncias de mulheres que odeiam seus corpos e minha experi&ecirc;ncia    de ser gorda. Todos os corpos femininos s&atilde;o odiados em nossa cultura,    e isso n&atilde;o significa que todas as mulheres sejam gordas".</font></p>     <p align="center"><a name="f03"></a></p>     <p align="center">&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n145/08f03.jpg"></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center">&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">J&aacute; <em>Classifica&ccedil;&otilde;es    cient&iacute;ficas da obesidade</em> (2000, <a href="#f04">Figura 4</a>) &eacute;    uma instala&ccedil;&atilde;o onde a artista critica os diagn&oacute;sticos m&eacute;dicos    e as tabelas de &Iacute;ndice de Massa Corporal (IMC) e suas tecnologias de    enquadramento do corpo em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; quantidade de gordura    corp&oacute;rea. Ao reproduzir imagens de corpos em tamanho natural, a artista    disp&otilde;e, em espa&ccedil;os expositivos, essas varia&ccedil;&otilde;es    corporais. As imagens s&atilde;o recortadas de tal maneira que apenas a sua    silhueta &eacute; mantida, permitindo aos presentes cruzar e sentir o volume    de muitos corpos. Como lembrado pela artista, esse trabalho na &eacute;poca    de sua primeira exposi&ccedil;&atilde;o, em 2000, foi considerado por alguns    endocrinologistas da cidade de Londrina como um "desservi&ccedil;o &agrave;    medicina", pois a obesidade &eacute; considerada uma das maiores epidemias da    contemporaneidade.</font></p>     <p align="center"><a name="f04"></a></p>     <p align="center">&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n145/08f04.jpg"></p>     <p align="center">&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em rela&ccedil;&atilde;o    ao corpo com sobrepeso, gordo ou obeso, &eacute; pertinente entendermos a ojeriza    reinante contra os corpos que apresentam uma maior quantidade de gordura. H&aacute;    um sentimento coletivo de lipofobia, ou seja, uma forma&ccedil;&atilde;o social    que tem avers&atilde;o &agrave; gordura, ao sobrepeso e &agrave; obesidade.    O grande paradoxo &eacute; que as sociedades industrializadas criaram um ex&eacute;rcito    de cidad&atilde;os com excesso de peso. De maneira geral, o alto custo de uma    alimenta&ccedil;&atilde;o saud&aacute;vel, o tempo escasso para preparar e apreciar    uma refei&ccedil;&atilde;o e a abundante oferta de comidas r&aacute;pidas conhecidas    como <em>fast foods,</em>coadunam-se com o sedentarismo exigido para profiss&otilde;es    burocr&aacute;ticas ou ligadas ao uso de computadores para gerar indiv&iacute;duos    que acumulam gordura em seus corpos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O cen&aacute;rio    descrito &eacute; apenas uma das explica&ccedil;&otilde;es para a quest&atilde;o    da obesidade. N&atilde;o cabe, aqui, investigar as in&uacute;meras causas da    obesidade e seus m&uacute;ltiplos fatores - gen&eacute;ticos, psicol&oacute;gicos,    sociais - e, sim, problematizar como a n&atilde;o conforma&ccedil;&atilde;o    com as exig&ecirc;ncias est&eacute;ticas contempor&acirc;neas tornou-se um estigma    e uma desbonifica&ccedil;&atilde;o no tecido social.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As mulheres gordas    nuas no trabalho de Magalh&atilde;es s&atilde;o transgressoras. Considero que    no contexto da produ&ccedil;&atilde;o da arte contempor&acirc;nea brasileira    &eacute; percept&iacute;vel e necess&aacute;rio algum grau de transgress&atilde;o    ao se trabalhar temas como as sexualidades, o corpo, a obesidade, a viol&ecirc;ncia    urbana, a religi&atilde;o, ou outros assuntos caros &agrave; moral de nosso    pa&iacute;s. Meu argumento &eacute; o de que a gordura &eacute; uma transgress&atilde;o    por ferir e afrontar de diversas maneiras a idealiza&ccedil;&atilde;o do corpo    saud&aacute;vel, livre do sobrepeso, da compulsoriedade pelo bem-estar, o corpo    disciplinado e em movimento.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao desnudar seu    corpo gordo, redondo e volumoso, Fernanda Magalh&atilde;es assume uma transgress&atilde;o    em sua cria&ccedil;&atilde;o art&iacute;stica. Mais ainda, a artista trama,    investe na escrita de si mesma e do mundo, constr&oacute;i, destr&oacute;i,    fragmenta, sobrep&otilde;e imagens, discursos, medos. As obras da artista transgridem    n&atilde;o com o intuito da exibi&ccedil;&atilde;o do corpo pelo "frenesi da    exibi&ccedil;&atilde;o", mas por alinhavar as po&eacute;ticas do corpo com o    fazer criativo que supera a dicotomia normal, anormal. Moral e n&atilde;o moral.    Imagens transgressoras que violam, profanam e dan&ccedil;am sobre os fr&aacute;geis    terrenos da moralidade crist&atilde;. Imagens que devolvem o pecado aos olhos    dos que condenam e julgam. Quem est&aacute; nua n&atilde;o s&atilde;o as mulheres    gordas, n&atilde;o &eacute; Fernanda Magalh&atilde;es. Mas todas e todos que    combatem aquele corpo, que o repelem da sociedade. Seus trabalhos contestam    e denunciam, mas acima de tudo colaboram para "alargar" o lugar do corpo na    sociedade, possibilidades de se "engordurar o mundo".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">10/02/2013</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><strong><a name="back"></a><a href="#top">1</a></strong>    Realiza&ccedil;&atilde;o Kinoarte. Dispon&iacute;vel em: <a href="http://www.youtube.com/watch?v=0DDknRfJBZU" target="_blank">http://www.youtube.com/watch?v=0DDknRfJBZU</a>.    Acesso: 23 jan 2012.</font></p>      ]]></body>

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