<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>1519-7654</journal-id>
<journal-title><![CDATA[ComCiência]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[ComCiência]]></abbrev-journal-title>
<issn>1519-7654</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Universidade Estadual de Campinas - Labjor]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S1519-76542012000900010</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="en"><![CDATA[Entre casos e acasos]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Ingui]]></surname>
<given-names><![CDATA[Daniela]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>11</month>
<year>2012</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>11</month>
<year>2012</year>
</pub-date>
<numero>143</numero>
<fpage>0</fpage>
<lpage>0</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1519-76542012000900010&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1519-76542012000900010&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1519-76542012000900010&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana"><b>RESENHAS</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana"><b>Entre casos e acasos: F&iacute;sico explica de maneira   bastante descontra&iacute;da como usar a matem&aacute;tica para detectar os efeitos da   aleatoriedade em nossas vidas</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Daniela Ingui</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">Lidamos   com n&uacute;meros todos os dias. Ao abrir os jornais, l&aacute; est&atilde;o eles nos informando a   temperatura do dia, o percentual de chance do candidato do partido de esquerda   ganhar a elei&ccedil;&atilde;o ou o quanto a renda de cada brasileiro aumentou de um ano para   o outro. Em nosso trabalho, podemos estimar o prazo para a conclus&atilde;o de um   projeto, avaliar o desempenho de determinado funcion&aacute;rio ou simplesmente contar   quantos dias faltam para cair o pr&oacute;ximo sal&aacute;rio. Todas essas situa&ccedil;&otilde;es nos   mostram como a matem&aacute;tica est&aacute; presente em nosso dia a dia. Mas ser&aacute; que   estamos usando-a da melhor forma? De acordo com o f&iacute;sico norte-americano   Leonard Mlodinow, que leciona sobre teorias da aleatoriedade no Instituto de   Tecnologia da Calif&oacute;rnia, n&atilde;o. Em seu livro <i>O     andar do b&ecirc;bado: como o acaso determina nossas vidas</i>, traduzido   para o portugu&ecirc;s por Diego Alfaro e publicado pela editora Zahar, ele nos   mostra como podemos evitar conclus&otilde;es equivocadas ao lidarmos com eventos   aleat&oacute;rios. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A   princ&iacute;pio, um livro que trata de probabilidade e estat&iacute;stica pode parecer restrito   a matem&aacute;ticos e profissionais afins, mas este n&atilde;o &eacute; o caso. A leitura &eacute;   bastante flu&iacute;da, mesmo &agrave;queles pouco versados no assunto, o que se deve ao modo   bastante divertido com que Mlodinow tra&ccedil;a rela&ccedil;&otilde;es entre a teoria matem&aacute;tica e   situa&ccedil;&otilde;es corriqueiras. Contudo, o leitor n&atilde;o pode ser passivo; ele &eacute; convidado   constantemente a aplicar as leis probabil&iacute;sticas em sua vida. Assim, ter um   bloco de anota&ccedil;&otilde;es em m&atilde;os pode ser bastante &uacute;til para participar da solu&ccedil;&atilde;o   dos problemas levantados pelo autor a cada cap&iacute;tulo. &Agrave;queles que temem a   matem&aacute;tica, uma boa not&iacute;cia: as respostas envolver&atilde;o muito mais l&oacute;gica do que   c&aacute;lculos propriamente ditos. E conforme se avan&ccedil;a na narrativa, mais clara fica   a rela&ccedil;&atilde;o com o andar do b&ecirc;bado, met&aacute;fora utilizada para fazer alus&atilde;o ao   movimento aleat&oacute;rio de uma pessoa alcoolizada. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">O primeiro   cap&iacute;tulo &#150; "Olhando pela lente da aleatoriedade" &#150; explica que o nosso c&eacute;rebro   est&aacute; condicionado a buscar padr&otilde;es para qualquer acontecimento cotidiano. &Eacute; por   isso que, quando nosso time come&ccedil;a a perder, logo atribu&iacute;mos a culpa das   derrotas sucessivas ao novo t&eacute;cnico contratado e passamos, ent&atilde;o, a torcer por   sua demiss&atilde;o. S&oacute; que, ao contr&aacute;rio do senso comum, uma an&aacute;lise matem&aacute;tica de   todos os grandes esportes apontou que essas demiss&otilde;es n&atilde;o costumam provocar   melhora significativa no desempenho da equipe. Como explicar o fracasso nesses   casos? De acordo com Mlodinow, trata-se apenas de uma varia&ccedil;&atilde;o aleat&oacute;ria dentro   do espectro de desempenhos poss&iacute;veis daquele time em particular. A fase ruim seria, portanto, s&oacute; uma fase de azar (o que, muitas vezes, j&aacute; &eacute;   suficiente para selar o destino do t&eacute;cnico azar&atilde;o). Para evitar decis&otilde;es   precipitadas como essa, s&oacute; conhecendo um pouco sobre estat&iacute;stica, ramo da   matem&aacute;tica que nos permite inferir probabilidades com base nos dados   observados. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Do mesmo   modo que o desempenho de uma equipe de futebol, Mlodinow afirma que a maioria   das caracter&iacute;sticas biol&oacute;gicas e/ou dos &iacute;ndices socioecon&ocirc;micos apresentam uma   distribui&ccedil;&atilde;o normal, ou seja, um espectro de varia&ccedil;&atilde;o em que grande parte dos   dados se situa pr&oacute;ximo &agrave; m&eacute;dia e apenas alguns deles se situam em um dos dois   extremos. Assim, podemos dizer que embora o Neymar tenha m&eacute;dia de um gol por   partida, &eacute; poss&iacute;vel que em alguns jogos ele n&atilde;o fa&ccedil;a nenhum gol, enquanto em outros   ele fa&ccedil;a dois ou at&eacute; tr&ecirc;s gols. A sua performance ser&aacute;, excluindo fatores como   les&otilde;es, estado emocional, entrosamento com a equipe etc., resultado da varia&ccedil;&atilde;o   aleat&oacute;ria dentro do que permitem suas habilidades. Logo, se ele jogar muito   pior do que a sua m&eacute;dia em uma dada partida, &eacute; esperado que, na pr&oacute;xima, seu   desempenho "aparentemente melhore". Isso &eacute; o que o autor chama de regress&atilde;o &agrave;   m&eacute;dia, fen&ocirc;meno que reflete a atua&ccedil;&atilde;o do acaso e n&atilde;o, por exemplo, os poss&iacute;veis   efeitos das broncas dadas pelo seu treinador. O mesmo vale quando gritamos com   algu&eacute;m que est&aacute; aprendendo a dirigir ou brigamos com nosso filho quando tira   uma nota baixa na escola. A verdadeira melhora de habilidade s&oacute; pode ser   verificada a longo prazo, quando esse espectro de desempenhos sofre um ligeiro   deslocamento. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Voc&ecirc; pode   estar pensando que nada, ent&atilde;o, pode ser previsto se todas as nossas a&ccedil;&otilde;es   sofrem influ&ecirc;ncia do acaso. Entretanto, como sugere o oitavo cap&iacute;tulo, h&aacute;   "ordem no caos". Apesar do destino de cada pessoa ser, de um modo geral   imprevis&iacute;vel, &eacute; poss&iacute;vel enxergar um padr&atilde;o a partir de um grupo de pessoas   atuando aleatoriamente. Esse padr&atilde;o, ao contr&aacute;rio do que costumamos fazer, n&atilde;o   &eacute; normalmente detectado quando analisamos um conjunto pequeno de dados. &Eacute; por   isso que um medicamento s&oacute; &eacute; liberado quanto o teste de sua efic&aacute;cia envolve,   digamos, mil pessoas e n&atilde;o dez. Mesmo que a taxa de melhora dos pacientes   testados seja de 30% em ambas as situa&ccedil;&otilde;es, qualquer um sabe que o seu   significado n&atilde;o &eacute; equivalente. A ideia sobre como o espa&ccedil;o amostral pode   influenciar uma an&aacute;lise estat&iacute;stica &eacute; apresentada no terceiro cap&iacute;tulo &#150;   "Encontrando o caminho em meio a um espa&ccedil;o de possibilidades" &#150; para ser   aprofundada no quinto &#150; "As conflitantes leis dos grandes e dos pequenos   n&uacute;meros". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">&Eacute; claro   que o modo mais confi&aacute;vel de determinar se um medicamento funciona ou n&atilde;o seria   test&aacute;-lo em todas as pessoas portadoras da doen&ccedil;a que ele se prop&otilde;e a tratar.   Como isso &eacute; imposs&iacute;vel de se fazer na pr&aacute;tica, precisamos escolher um grupo de   pessoas e "torcer" para que os resultados observados nelas reflitam as   probabilidades disso acontecer em qualquer indiv&iacute;duo na popula&ccedil;&atilde;o. Dif&iacute;cil   talvez seja determinar o tamanho m&iacute;nimo da amostra para que os resultados se   aproximem ao m&aacute;ximo da realidade, embora se acredite que uma amostra em torno   de mil indiv&iacute;duos costume produzir erros inferiores a 5%. Mais dif&iacute;cil ainda &eacute;   delinear como deve ser feita essa amostragem, uma vez que a popula&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute;   homog&ecirc;nea (e talvez por isso tenha sido bastante oportuno a Mlodinow sequer   tocar nesse assunto). </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Uma forma   bastante interessante de avaliarmos como o padr&atilde;o detectado em uma an&aacute;lise   estat&iacute;stica bate com o "verdadeiro" &eacute; o caso de uma elei&ccedil;&atilde;o, quando a inten&ccedil;&atilde;o   de votos &eacute; medida com base em entrevistas realizadas com um grupo de mil a duas   mil pessoas. Na elei&ccedil;&atilde;o para prefeito de S&atilde;o Paulo, por exemplo, o Datafolha   publicou no dia 27/10 que Fernando Haddad (PT) detinha 58% das inten&ccedil;&otilde;es de   votos v&aacute;lidos contra 42% do candidato Jos&eacute; Serra (PSDB). A pesquisa tinha   margem de erro de 2%, o que significa que cada um desses valores podia variar   2% para baixo ou para cima . No dia 28/10, pudemos verificar o resultado de   fato: 55,57% para Haddad e 44,43% para Serra, resultado praticamente dentro da   margem de erro do Datafolha, o que prova que a estat&iacute;stica pode mesmo nos   ajudar a detectar esses padr&otilde;es coletivos. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Outro   ponto bastante interessante que o livro mostra &eacute; que nem sempre a probabilidade   de um evento &eacute; independente de outro. Assim, quase todo mundo concorda que a   chance de uma pessoa bater o carro quando est&aacute; alcoolizada &eacute; muito maior do que   quando est&aacute; s&oacute;bria. A probabilidade condicional &eacute; um dos assuntos do sexto   cap&iacute;tulo &#150; "Falsos positivos e verdadeiras fal&aacute;cias". A partir dele, podemos   perceber que as estimativas iniciais podem ser ajustadas com o acr&eacute;scimo de   informa&ccedil;&otilde;es, o que aumenta a previsibilidade de nossos modelos. Isso &eacute; o que   fazem, por exemplo, as companhias de seguro quando d&atilde;o descontos aos "bons   motoristas": elas est&atilde;o apenas utilizando os dados rec&eacute;m adquiridos a respeito   daquele motorista, segundo os quais sua chance de acionar o seguro n&atilde;o &eacute; t&atilde;o   alta quanto o estimado no in&iacute;cio. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O mesmo   cap&iacute;tulo trata, como o pr&oacute;prio nome diz, dos falsos positivos, isto &eacute;, dos   erros inerentes de um exame diagn&oacute;stico, como o do HIV (v&iacute;rus da Aids). O   pr&oacute;prio autor, certa vez, ouviu de seu m&eacute;dico de que ele tinha 99,9% de chance   de estar com Aids, uma vez que a probabilidade de seu exame de HIV ter gerado   um falso resultado positivo era de apenas uma em mil. Contudo, reanalisando algumas estat&iacute;sticas, Mlodinow chegou &agrave; conclus&atilde;o de que apenas um   de cada 11 pacientes que tiveram exames positivos era, de fato, um portador do   HIV dentre o grupo de americanos brancos, heterossexuais e n&atilde;o usu&aacute;rios de   drogas, o que reduzia suas chances drasticamente. De fato, ele n&atilde;o tinha Aids,   mas o epis&oacute;dio serve para nos mostrar que &eacute; sempre bom ficar atento &agrave;s taxas de   erros dos exames m&eacute;dicos, bem como ao grupo de risco a que pertencemos, ao   analisar uma probabilidade condicional. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A margem   de erro de pesquisas eleitorais, exames m&eacute;dicos ou do desempenho de atletas nos   faz pensar o quanto a ci&ecirc;ncia, e por consequ&ecirc;ncia a matem&aacute;tica, &eacute; imprecisa,   embora tenhamos a impress&atilde;o de que os n&uacute;meros conferem maior exatid&atilde;o do que as   palavras. A pr&oacute;pria medi&ccedil;&atilde;o depende de um sujeito, que carrega consigo toda a   sua subjetividade. Medir, como mostra o s&eacute;timo cap&iacute;tulo &#150; "A medi&ccedil;&atilde;o e a lei   dos erros" &#150;, implica em varia&ccedil;&atilde;o, que ser&aacute; tanto maior quanto mais subjetivos   forem os dados aferidos. Por isso, n&atilde;o &eacute; de se surpreender que um mesmo   professor possa dar notas diferentes para uma mesma prova, por exemplo. &Eacute; por   isso tamb&eacute;m que os cientistas n&atilde;o costumam elaborar suas conclus&otilde;es com base em   uma &uacute;nica medi&ccedil;&atilde;o; &eacute; preciso calcular a m&eacute;dia, o desvio padr&atilde;o, enfim, avaliar   como &eacute; a distribui&ccedil;&atilde;o de seus dados. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Mesmo   assim, acreditamos nos n&uacute;meros e buscamos neles uma certeza que n&atilde;o &eacute; mais   compat&iacute;vel com a l&oacute;gica probabil&iacute;stica da ci&ecirc;ncia contempor&acirc;nea. Entender como   o aleat&oacute;rio est&aacute; presente em nossas vidas &eacute; perceber que nem sempre   conseguiremos determinar um padr&atilde;o para o nosso "andar de b&ecirc;bado"; &eacute; usar as   ferramentas probabil&iacute;sticas para inferir possibilidades mais gerais, com base   em um n&uacute;mero maior de evid&ecirc;ncias, sem esquecer das limita&ccedil;&otilde;es quanto &agrave; capacidade   preditiva dos padr&otilde;es gerados. S&oacute; assim seremos capazes de perceber que o   sucesso &eacute; resultado muito mais de nossa persist&ecirc;ncia do que de algum talento   nato. Afinal, por mais que uma moeda esteja viciada em cara, uma hora ela pode   dar coroa, n&atilde;o &eacute; mesmo? &Eacute; s&oacute; continuar jogando e aproveitar as oportunidades (e   desenvolver as habilidades) que aparecerem pela nossa frente. Boa sorte! </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><i>O   andar do b&ecirc;bado: como o acaso determina nossas vidas </i>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   Leonard Mlodinow     <br>   Editora Zahar, 2009 (261 p.)</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">10/11/2012</font></p>      ]]></body>

</article>
