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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>EDITORIAL</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="nta"></a><b>A China e as tecnopol&iacute;ticas</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Carlos Vogt<a href="#nt"><sup>*</sup></a></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Minha experi&ecirc;ncia mais direta com a China restringe-se a duas visitas que fiz a Pequim em duas circunst&acirc;ncias distintas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A primeira dessas visitas deu-se em 1991 quando, reitor da Unicamp, integrei uma miss&atilde;o diplom&aacute;tica formada tamb&eacute;m por reitores de outras universidades, para tratar do acordo de coopera&ccedil;&atilde;o da Capes, j&aacute; vigente, visando ao interc&acirc;mbio acad&ecirc;mico entre o Brasil e aquele pa&iacute;s.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Era uma viagem programada para 15 dias, sendo a primeira semana em Pequim e</font> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">o restante em outras cidades e regi&otilde;es da China. Fiquei com o grupo s&oacute; metade da viagem. Tive de regressar por causa de uma greve das universidades estaduais paulistas que se anunciava forte e que eu julgava necess&aacute;rio resolver no n&iacute;vel do Conselho de Reitores das Universidades do Estado de S&atilde;o Paulo (Cruesp) para evitar desgastes pol&iacute;ticos e preju&iacute;zos acad&ecirc;micos para as institui&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Como se tratava de miss&atilde;o oficial e como estava na China dos primeiros anos p&oacute;s-revolu&ccedil;&atilde;o cultural, a autoriza&ccedil;&atilde;o para interromper a minha participa&ccedil;&atilde;o na programa&ccedil;&atilde;o estabelecida e antecipar minha volta foi uma experi&ecirc;ncia que me fez vivenciar, mais de perto a realidade de um pa&iacute;s altamente controlado, do ponto de vista social e pol&iacute;tico e extremamente hierarquizado nas fun&ccedil;&otilde;es do estado para com a regula&ccedil;&atilde;o e administra&ccedil;&atilde;o desse controle.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m dos tr&acirc;mites junto &agrave; embaixada brasileira, tive de falar com um dos v&aacute;rios vice-ministros da pasta da educa&ccedil;&atilde;o e explicar-lhe a situa&ccedil;&atilde;o que me for&ccedil;ava a volta antecipada. Tudo isso num ritual de procedimentos que, de um lado, tornavam a experi&ecirc;ncia interessante e, de outro, esticavam a corda das dificuldades para minha libera&ccedil;&atilde;o da miss&atilde;o que havia me trazido &agrave; China. Depois, enfim, de passar pela entrevista das poltronas, paralelas numa sala de audi&ecirc;ncias com v&aacute;rias outras poltronas acompanhando o quadrado formado pelas linhas das paredes, recebi, com a compreens&atilde;o do vice-ministro, o meu passaporte que se encontrava, juntamente com os dos membros do grupo, com o pessoal que nos atendia e nos acompanhava nos nossos deslocamentos oficiais para cumprir a agenda protocolar de nossas visita&ccedil;&otilde;es, encontros e audi&ecirc;ncias.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ficamos hospedados num dos hot&eacute;is situados num dos grandes eixos das enormes avenidas da cidade que se estendiam na monotonia da arquitetura de inspira&ccedil;&atilde;o real&iacute;stico-sovi&eacute;tica e que escondiam, logo atr&aacute;s da linha reta do paralelismo que parecia infinito, aglomerados de resid&ecirc;ncias ex&iacute;guas, comprimidas e dispostas em torno de p&aacute;tios, onde viviam fam&iacute;lias cuja renda familiar devia estar na margem dos 10 d&oacute;lares, valor vigente do sal&aacute;rio m&iacute;nimo, na &eacute;poca. O Estado, teoricamente, provia a imensid&atilde;o do resto: sa&uacute;de, educa&ccedil;&atilde;o, moradia, seguran&ccedil;a e bem-estar social.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A maior parte da popula&ccedil;&atilde;o vestia-se ainda com o terninho cl&aacute;ssico de Mao, usava bicicletas para a locomo&ccedil;&atilde;o e o transporte de cargas, os &ocirc;nibus e o metr&ocirc; viviam abarrotados a qualquer hora do dia, num tr&acirc;nsito ca&oacute;tico, mas que parecia funcionar, a moeda era dupla, uma para dentro, outra para fora, o controle de natalidade era rigoros&iacute;ssimo e o pa&iacute;s parecia ensaiar os passos de uma nova situa&ccedil;&atilde;o em novos cen&aacute;rios de uma economia que se fazia pressentir mas que, amb&iacute;gua e dissimuladamente, ainda se escondia, sem deixar de revelar-se em pequenos sinais, simbolicamente expressivos, contudo, como a presen&ccedil;a da rede Mcdonald's e da Pizza Hut, onde, em uma das lojas, fomos, cansados do gosto de gordura de pato de toda comida, parar uma noite com saudade do sabor fastfood de nossos h&aacute;bitos ocidentais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pouco menos de uma d&eacute;cada depois, em 1999, voltei a Pequim, dessa vez em viagem de passeio, acompanhado de minha mulher, depois de termos estado em Macau para o IV Congresso de Jornalismo de L&iacute;ngua Portuguesa. Fiz no <em>Observat&oacute;rio da imprensa</em> um relato dessa ida a Macau e das impress&otilde;es que o ainda ent&atilde;o territ&oacute;rio portugu&ecirc;s despertara no professor apaixonado pela narrativa &eacute;pica da viagem de Vasco da Gama contida na imortalidade dos versos de Lu&iacute;s de Cam&otilde;es em Os Lus&iacute;adas que por ali quase perdera o canto e tamb&eacute;m, a vida ("<u>Aqui se fala portugu&ecirc;s?</u>")</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O que se via em Macau, prestes a ser reintegrado &agrave; China, j&aacute; prenunciava o que ver&iacute;amos em Pequim: grandes obras, grandes mudan&ccedil;as de cen&aacute;rio urbano e um cosmopolitismo ne&oacute;fito, mas seguro da escolha da nova profiss&atilde;o de f&eacute;.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Dessa vez, como as decis&otilde;es eram pessoais, ao planejar a viagem, contratamos, atrav&eacute;s de uma ag&ecirc;ncia de turismo, al&eacute;m dos bilhetes e do hotel, um servi&ccedil;o de carro e de um guia tur&iacute;stico para nos acompanhar, com a ideia de que, assim, poder&iacute;amos aumentar um pouquinho nossas chances de ter algum acesso, mesmo que pequeno e epid&eacute;rmico a h&aacute;bitos, costumes e valores dessa impressionante cultura fechada em segredos e aberta, milenarmente, em deslumbramentos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Acertamos na decis&atilde;o e fomos sorteados com o guia que nos atendeu: uma mo&ccedil;a falante fluente de espanhol que nunca sa&iacute;ra de seu pa&iacute;s, mas que falava perfeitamente a l&iacute;ngua que aprendera na universidade para o exerc&iacute;cio competente de sua profiss&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pudemos, assim, pouco que fosse, nos aproximar da mal&iacute;cia curiosa, da intelig&ecirc;ncia viva, do humor criativo e de uma propens&atilde;o para dar um jeito nas coisas que nos fazia sentir familiarizados com tra&ccedil;os culturais t&atilde;o distantes e, ao mesmo tempo, t&atilde;o evocativos de modos de ser que caracterizam nossa cultura. Impress&otilde;es de viagem, ilus&otilde;es de simpatia!?</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pode ser. O fato &eacute; nos sentimos mais "em casa" do que eu havia me sentido da primeira vez. Esse sentimento, &eacute; claro, talvez tenha tamb&eacute;m a ver com o fato de que Pequim era um canteiro de obras e uma cidade em transforma&ccedil;&atilde;o. Ruas, cal&ccedil;adas, pr&eacute;dios, lojas, restaurantes, tudo se modificava e dava bem a medida do processo que estava em curso para alterar a economia do pa&iacute;s e transform&aacute;la na segunda do mundo, desbancando o Jap&atilde;o e perseguindo tenazmente a lideran&ccedil;a dos Estados Unidos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com uma tecnologia de governan&ccedil;a capaz de dar n&oacute; em pingo d'&aacute;gua, de um lado pela concentra&ccedil;&atilde;o hierarquizada do poder pol&iacute;tico, que continua firme e, de outro, pelo jeito sagaz e pragm&aacute;tico de conciliar centralismo pol&iacute;tico com liberdade para o crescimento econ&ocirc;mico, a China, a seu modo, n&atilde;o s&oacute; avan&ccedil;ou no crescimento de seu PIB, como tamb&eacute;m se constituiu no exemplo mais flagrante de uma nova realidade de gest&atilde;o do capitalismo no mundo contempor&acirc;neo, aquela em que os agentes econ&ocirc;micos n&atilde;o tem interesse pol&iacute;tico, propriamente dito, pelo poder, mas sim um interesse t&eacute;cnicopragm&aacute;tico pela efici&ecirc;ncia e efic&aacute;cia do modelo em produzir resultados de riqueza, crescimento e expans&atilde;o. Desse modo, poder-se-ia dizer que o modelo chin&ecirc;s instaura e inaugura um novo padr&atilde;o de governan&ccedil;a pol&iacute;tica baseado, al&eacute;m do fechamento e mesmo da clausura das decis&otilde;es dos governantes, na comunica&ccedil;&atilde;o constante e maci&ccedil;a que as novas tecnologias possibilitam como informa&ccedil;&atilde;o, como propaganda e como inclus&atilde;o, ainda que virtual, num sistema cerrado e infenso a aberturas reais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O que mais as tecnoci&ecirc;ncias t&ecirc;m a ver com o desempenho emergente e hoje j&aacute; espetacularmente emergido desse pa&iacute;s l&iacute;der nos Brics e maratonista no encal&ccedil;o dos EUA, &eacute; o que este n&uacute;mero da <i>ComCi&ecirc;ncia</i> vem tentar elencar e buscar, junto com o leitor, compreender.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><a name="nt"></a><a href="#nta">*</a> 10/04/2012</font></p>      ]]></body>

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