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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>EDITORIAL</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="top"></a><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>Memorial    da Fapesp<a href="#nt1">*</a></b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Carlos Vogt</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align=center><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>I</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nasci em Sales    Oliveira, pequena e nada pr&oacute;spera cidade da velha Mogiana (com-g-, que    era assim que os trens e vag&otilde;es traziam grafados o nome da companhia    e levavam nossos sonhos de conhecer mundos e vir para a capital). Mojiana (com    -j-) era tamb&eacute;m o apelido de um velho mendigo ranzinza que na juventude    teria apostado muitas corridas com trens de carga e de passageiros ganhando    todas elas, n&atilde;o s&oacute; na velocidade mas tamb&eacute;m na altura do    apito que seu peito soltava mais forte do que o de vapor das m&aacute;quinas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em Sales Oliveira,    posta &agrave;s margens da linha da Mogiana com o progresso do caf&eacute;,    cortada pela estrada de rodagem que ligava S&atilde;o Paulo ao Tri&acirc;ngulo    Mineiro, em Sales Oliveira, de onde acompanhamos, meninos, a passagem dos trens    pela esta&ccedil;&atilde;o e a dos carros, &ocirc;nibus e caminh&otilde;es que    cruzavam a rua Volunt&aacute;rio N&eacute;lio Guimar&atilde;es, a principal    da cidade, em Sales Oliveira, pois, sentados nos degraus das portas da selaria    de meu pai e de meu tio Alberto, a mesma selaria, no mesmo casar&atilde;o-sobrado    que fora de meu av&ocirc; alsaciano, ali sonhamos viagens nos nomes das placas    dos caminh&otilde;es; em Sales Oliveira, descendente de alsacianos, alem&atilde;es,    italianos e espanh&oacute;is, nasci no dia 6 de fevereiro de 1943.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No Grupo Escolar    Capit&atilde;o Get&uacute;lio Lima fiz o prim&aacute;rio. Como n&atilde;o havia    ginasial na cidade, a prefeitura nos transportava para Orl&acirc;ndia, 7 km    distante, numa perua Opel dirigida pelo Am&acirc;ncio. De 1954 a 1957 frequentei    o gin&aacute;sio estadual de Orl&acirc;ndia e ali me diplomei. Em 1958 fui para    Ribeir&atilde;o Preto para fazer o curso Cl&aacute;ssico. J&aacute; queria vir    para S&atilde;o Paulo, apesar das primeiras paix&otilde;es me convidarem a permanecer    em Sales, ou nas vizinhan&ccedil;as. Meus pais decidiram por mim. Era muito    novo, S&atilde;o Paulo, longe, e a vida, perigosa. Fiquei dois anos no Instituto    de Educa&ccedil;&atilde;o Otoniel Mota. Finalmente, em 1960, vim para a capital    e conclu&iacute; o curso Cl&aacute;ssico no Col&eacute;gio Estadual Presidente    Roosevelt, na rua S&atilde;o Joaquim, na Liberdade.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em 1961, voltei    para Sales Oliveira at&eacute; que em julho de 1962 tomei o trem na esta&ccedil;&atilde;o    da Mogiana, retomei os estudos em S&atilde;o Paulo e ingressei na Faculdade    de Filosofia, Ci&ecirc;ncias e Letras da Universidade de S&atilde;o Paulo, &agrave;    rua Maria Ant&ocirc;nia. Ingressei tamb&eacute;m na Faculdade de Direito do    Largo S&atilde;o Francisco. Frequentava esta no per&iacute;odo da manh&atilde;,    e aquela no per&iacute;odo da noite. Logo abandonei o curso de direito: a gravata    e o terno me incomodavam, e a necessidade de trabalhar foi decisiva.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na &quot;Maria    Ant&ocirc;nia&quot;, fiz o curso de letras de 1962 a 1965 . Muitos fatores ajudaram    a fazer com que o curso fosse apenas m&eacute;dio: o gosto pelas leituras independentes,    pelo cinema, pela pol&iacute;tica universit&aacute;ria (fui presidente do Centro    Acad&ecirc;mico de Estudos Liter&aacute;rios-Cael) e nacional, os amores e o    trabalho como professor.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Cedo comecei a    dar aulas, muitas aulas: no Departamento de Cursos do Gr&ecirc;mio da Filosofia,    no Col&eacute;gio Brasil Europa.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em 1966 s&oacute;    dei aulas. Em 1967, comecei a frequentar, como ouvinte, o curso de 4&ordm; ano    de teoria liter&aacute;ria oferecido pelo professor Ant&ocirc;nio C&acirc;ndido,    de quem eu j&aacute; fora aluno de teoria geral da literatura, no 1&ordm; ano.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mestre, primeiro,    e depois tamb&eacute;m amigo, o professor Ant&ocirc;nio C&acirc;ndido teria    ao longo de minha vida pessoal e intelectual um papel decisivo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Quando acompanhei,    em 1967, seu curso sobre o romance <i>Mem&oacute;rias de um sargento de mil&iacute;cias</i>,    de Manuel Ant&ocirc;nio de Almeida, compreendi definitivamente que estava diante    n&atilde;o s&oacute; de um grande pesquisador, te&oacute;rico e historiador    da literatura mas tamb&eacute;m que tinha a rara e feliz chance de conviver    com um grande ser humano.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em 1968, consegui    desvencilhar-me de algumas aulas e encontrar alguns vazios no trabalho, o que    me permitiu, ainda que restritamente, tentar inscrever-me num curso de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o.    Falei com o professor Ant&ocirc;nio C&acirc;ndido: fui aceito.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Foi um ano agitado    esse de 1968, para mim, para todos e principalmente para os jovens de minha    gera&ccedil;&atilde;o. Inscrevi-me na p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o em    letras, modalidade teoria liter&aacute;ria, da Faculdade de Filosofia, Ci&ecirc;ncias    e Letras da USP. No primeiro ano, fiz o curso de teoria liter&aacute;ria, com    o professor Ant&ocirc;nio C&acirc;ndido, e o curso de sociologia da literatura,    com o professor Rui Coelho.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Participei da ocupa&ccedil;&atilde;o    da &quot;Maria Ant&ocirc;nia&quot;, das &quot;Parit&aacute;rias&quot; e da resist&ecirc;ncia    &agrave; invas&atilde;o do CCC e da pol&iacute;cia aquartelados no Mackenzie.    O pr&eacute;dio foi incendiado, arquivos e bibliotecas violados pela direita    oficial e oficiosa; um estudante secund&aacute;rio foi morto na rua de nossos    sonhos. Fomos mudados para o pr&eacute;dio da Geografia e Hist&oacute;ria, na    Cidade Universit&aacute;ria.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em 1969, fiz o    2&ordm; ano da p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o cursando teoria geral do cinema    e teoria liter&aacute;ria.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No ano anterior,    a disciplina de teoria liter&aacute;ria havia sido oferecida sob a responsabilidade    do professor Oswaldo Elias Xidieh, pois o professor C&acirc;ndido se encontrava    em viagem ao exterior. Tive, ent&atilde;o, a oportunidade de conhecer, atrav&eacute;s    de um curso magistral sobre literatura popular e sobre fontes populares da literatura    erudita, um homem dotado de uma grande simplicidade aliada, de forma quase que    paradoxal, a uma grande cultura e erudi&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No curso de sociologia    da literatura, o cosmopolitismo e a cultura do professor Rui Coelho me fez viajar    pelos folhetins do s&eacute;culo XIX e mergulhar em busca do tempo perdido com    a grande obra de Proust.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O curso de teoria    liter&aacute;ria, de 1969, j&aacute; com o professor Ant&ocirc;nio C&acirc;ndido    de volta, foi todo sobre teorias cr&iacute;ticas e o meu trabalho de aproveitamento,    um ensaio sobre o estruturalismo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Foi nesse momento    que passei a me interessar de modo mais objetivo pela lingu&iacute;stica, n&atilde;o    ainda como um fim em si mesmo, mas sobretudo como instrumento metodol&oacute;gico    para o estudo da literatura.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nos anos imediatamente    anteriores haviam estado em S&atilde;o Paulo os professores Roman Jakobson e    depois Tsvetan Todorov. Eram anos de apogeu do estruturalismo europeu. As confer&ecirc;ncias    no Teatro Alian&ccedil;a Francesa na rua General Jardim, muito marcaram minhas    op&ccedil;&otilde;es intelectuais, sobretudo a do professor Jakobson sobre a    poesia de Fernando Pessoa, baseada num artigo escrito em colabora&ccedil;&atilde;o    com a professora Luciana Stegagno Picchio publicado na revista <i>Langages.</i></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No meu curso de    gradua&ccedil;&atilde;o, do ponto de vista curricular, pouca aten&ccedil;&atilde;o    se dera &agrave; lingu&iacute;stica, tanto que s&oacute; fui fazer um curso    de introdu&ccedil;&atilde;o em 1965, j&aacute; no 4&ordm; ano, embora j&aacute;    tivesse lido com cuidado e min&uacute;cia, sob orienta&ccedil;&atilde;o do professor    Isaac Nicolau Salum, na disciplina de filologia rom&acirc;nica, o fundamental    <i>Curso de Lingu&iacute;stica Geral</i> de Ferdinando de Saussure.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Foi tamb&eacute;m    em 1969 que comprei o que viria a ser, durante todo o ano, uma esp&eacute;cie    de b&iacute;blia da minha forma&ccedil;&atilde;o: o livro <i>Qu'est ce que le    structuralisme?</i> publicado pela Sueil e contendo artigos de v&aacute;rios    autores sobre o estruturalismo em diferentes &aacute;reas do conhecimento. Foi    nesse livro que primeiro vi o nome do professor Oswald Ducrot respons&aacute;vel,    a&iacute;, pelo trabalho sobre o estruturalismo em lingu&iacute;stica.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">De algum modo,    esse contacto pela leitura, visto mais tarde em <i>flash-back</i>, foi por mim    interpretado como o ponto de partida que me levaria a procurar o professor Ducrot    em Paris e a manter com ele uma intensa rela&ccedil;&atilde;o de amizade e de    respeito humano e intelectual.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ainda em 1969,    no curso de teoria e hist&oacute;ria do cinema tive outra chance feliz: fui    aluno do professor Paulo Em&iacute;lio Sales Gomes. Guardo o seu curso entre    as melhores recorda&ccedil;&otilde;es da minha vida intelectual e afetiva. &Iacute;amos,    com a maior satisfa&ccedil;&atilde;o, alunos regulares e ouvintes, convivendo    com intelectuais e escritores de prest&iacute;gio, toda segunda-feira &agrave;s    10 horas da manh&atilde; para o Teatro Alian&ccedil;a Francesa onde o curso    tinha lugar. Assist&iacute;amos &agrave; proje&ccedil;&atilde;o de cl&aacute;ssicos    da hist&oacute;ria do cinema nacional e internacional; vinham, em seguida, os    debates e a&iacute; sim o brilho da intelig&ecirc;ncia, da ironia, do esp&iacute;rito    cr&iacute;tico e pol&ecirc;mico do professor Paulo Em&iacute;lio tomava conta    do teatro, pelas observa&ccedil;&otilde;es certeiras, pelo acertado das an&aacute;lises,    pela sonoridade da gargalhada que sempre coroava a gra&ccedil;a e o humor que    s&oacute; ele, como ningu&eacute;m, sabia achar nas mais diversas situa&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Fiz, como trabalho    de aproveitamento para esse curso, uma an&aacute;lise de um filme japon&ecirc;s    chamado <i>A mulher de areia</i> que havia me impressionado bastante quando    o vi e que sempre associei, por caminhos mais afetivos do que intelectuais,    &agrave; est&oacute;ria de Miguilim em <i>Manuelz&atilde;o e Miguilim</i>, de    Jo&atilde;o Guimar&atilde;es Rosa.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Voltando um pouco    para tr&aacute;s, foi tamb&eacute;m em 1968 que conheci um amigo que na &eacute;poca    fazia cursinho para o vestibular na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Grande    tocador de viol&atilde;o, Naire procurava um parceiro letrista para as m&uacute;sicas    que vinha fazendo. Come&ccedil;amos a trabalhar juntos e fizemos v&aacute;rias    composi&ccedil;&otilde;es, entre elas &quot;Senhora de luar&quot; que recebeu    o 3&ordm; lugar no Festival Universit&aacute;rio da antiga TV Tupi. Algumas    outras foram gravadas e, em 1969, em parceria com Sorocabinha, um estudante    de geologia da USP compus &quot;Urgente, urgent&iacute;ssimo&quot; que recebeu    o pr&ecirc;mio de 4&ordm; lugar no Festival Universit&aacute;rio desse ano.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em 1967, a maior    parte dos professores do Cursinho do Gr&ecirc;mio, onde trabalhava h&aacute;    alguns anos, n&atilde;o aceitou a interven&ccedil;&atilde;o que a diretoria    do Gr&ecirc;mio da Faculdade de Filosofia Ci&ecirc;ncias e Letras da USP pretendia    fazer no cursinho. Sa&iacute;mos quase todos e fundamos o Equipe Vestibulares.    A quest&atilde;o de fundo das diferen&ccedil;as estava ligada n&atilde;o s&oacute;    &agrave; gest&atilde;o do capital que o cursinho arrecadava mas tamb&eacute;m    a pontos de vista reversos, quando n&atilde;o contr&aacute;rios, quanto &agrave;s    formas de luta revolucion&aacute;ria e de resist&ecirc;ncia aos governos militares.    Muitos de meus colegas e amigos passaram para a clandestinidade da luta armada,    muitos morreram ou continuam desaparecidos, sem not&iacute;cia exata de seus    destinos. Outros conseguiram escapar, quando a repress&atilde;o recrudesceu    o empenho em destru&iacute;-los, e com eles me encontrei em Paris em 1971 e    depois no Chile, em 1973, alguns meses antes do golpe de Pinochet. Outros ainda    entregaram-se &agrave;s drogas, ou passaram a viver a utopia do pacifismo <i>hippie</i>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Outros, como eu,    seguiram no paciente jogo de espera e de atua&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica,    a ver se um dia conseguir&iacute;amos ajudar a mudar o estado de coisas reinantes    no pa&iacute;s do medo e da euforia: medo de grande parte da popula&ccedil;&atilde;o,    euforia da classe m&eacute;dia com o milagre econ&ocirc;mico e daquela mesma    popula&ccedil;&atilde;o com medo, diante dos s&iacute;mbolos mais f&aacute;ceis    da grandeza do pa&iacute;s, a conquista do tri-campeonato mundial de futebol,    no M&eacute;xico, por exemplo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em 1966, fiz concurso    para o ingresso no magist&eacute;rio secund&aacute;rio. Obtive uma classifica&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o muito promissora, j&aacute; que n&atilde;o havia me preparado o suficiente    e n&atilde;o tinha inten&ccedil;&atilde;o firme de seguir essa carreira. Em    1967 fui chamado para a escolha da escola onde deveria ensinar. O mais pr&oacute;ximo    de S&atilde;o Paulo que consegui foi Porangaba, cidadezinha pr&oacute;xima a    Tatu&iacute; e n&atilde;o longe de Sorocaba. Fui, tomei posse no Gin&aacute;sio    Estadual Aldo Angelim, para come&ccedil;ar a lecionar no ano seguinte. A sensa&ccedil;&atilde;o    que tomava conta de mim, nessa perspectiva, era a de que estava voltando para    Sales Oliveira e pondo abaixo as esperan&ccedil;as de retomar os meus estudos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Uma colega que    lecionava comigo no Col&eacute;gio Brasil-Europa sugeriu-me que tentasse ficar    lotado em S&atilde;o Paulo, respondendo pelo expediente de uma diretoria das    classes de extens&atilde;o que, ent&atilde;o, se criavam e j&aacute; eram muitas    na capital. Foi o que consegui: a partir de 1&ordm; de mar&ccedil;o de 1968    come&ccedil;aria a responder pelo expediente da diretoria das classes de extens&atilde;o    do Col&eacute;gio Estadual e Escola Normal J&aacute;como St&aacute;vale, que    funcionariam no Grupo Escolar Almirante Marqu&ecirc;s de Tamandar&eacute;, em    Morro Grande, l&aacute; para os lados da Freguesia do &Oacute;.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nessa fun&ccedil;&atilde;o,    fiquei menos de dois meses. O que me levou a requerer minha exonera&ccedil;&atilde;o    do magist&eacute;rio secund&aacute;rio foram dois fatores, fundamentalmente:    o primeiro, e mais forte deles, a situa&ccedil;&atilde;o de car&ecirc;ncia e    quase abandono em que funcionavam as extens&otilde;es. N&atilde;o t&iacute;nhamos    material, n&atilde;o havia funcion&aacute;rios, grande parte dos estudantes    trabalhava durante o dia como <i>office-boys</i> e &agrave; noite estavam mais    para o sono do que para a aten&ccedil;&atilde;o. O &uacute;nico PM que tomava    conta da escola para impedir o ass&eacute;dio de marginais, que n&atilde;o eram    poucos, fazia os servi&ccedil;os de inspetor de alunos, recolhendo, carimbando    e devolvendo suas cadernetas de notas e frequ&ecirc;ncia. Mesmo assim, receb&iacute;amos    instru&ccedil;&otilde;es regulares da Secretaria de Educa&ccedil;&atilde;o sobre    as comemora&ccedil;&otilde;es e festividades p&aacute;trias, sempre explicitadas    e enfatizadas as obriga&ccedil;&otilde;es de ensaios e a necessidade imperiosa    de cumpr&iacute;-las. Eram um pouco demais. Comecei a me desgostar da fun&ccedil;&atilde;o.    Acrescido este desgosto com o fato ? esse foi o segundo fator ? de que via,    ainda que em S&atilde;o Paulo, dificultada a possibilidade de realizar a p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o    em teoria liter&aacute;ria, para a qual j&aacute; havia sido aceito, decidi-me    e acabei me exonerando.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os amigos n&atilde;o    entendiam meu gesto e me reafirmavam a loucura de t&ecirc;-lo feito; deixar    um cargo p&uacute;blico daquela maneira n&atilde;o tinha cabimento, ou, em falas    mais idealistas, era preciso permanecer nos postos e lutar de todos os pontos    e de todas as formas, desde que de dentro, para mudar o sistema. N&atilde;o    fui convencido.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em 1969, deixei    tamb&eacute;m o Col&eacute;gio Brasil-Europa. Continuei a lecionar portugu&ecirc;s    e literatura brasileira no Equipe Vestibulares, tendo aceitado dar algumas aulas    de portugu&ecirc;s no Curso Anglo-Latino.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align=center><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>II</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No meu curso de    gradua&ccedil;&atilde;o fui aluno, na cadeira de franc&ecirc;s, do professor    Albert Audubert. Sempre tive por ele uma grande admira&ccedil;&atilde;o intelectual    e um grande carinho. Penso que, nas propor&ccedil;&otilde;es devidas, era correspondido.    Penso tamb&eacute;m que essa afei&ccedil;&atilde;o m&uacute;tua tenha tido origem    por ocasi&atilde;o do exame vestibular que prestei para ingressar no curso de    letras da &quot;Maria Ant&ocirc;nia&quot;.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na &eacute;poca,    havia ainda exame oral para os candidatos. Na prova de franc&ecirc;s, fui arguido    pelo professor Audubert e tive a felicidade de sortear como tema de exame Balzac    e sua obra. Era um dos autores franceses que mais conhecia na &eacute;poca e    um dos que mais admirava. Conhecia os m&uacute;ltiplos aspectos de sua vasta    produ&ccedil;&atilde;o e havia lido n&atilde;o s&oacute; seus principais romances,    como tamb&eacute;m folhetins e obras mais secund&aacute;rias. Foi um sucesso    total. Desde, ent&atilde;o, o professor Audubert, que tinha fama de dur&atilde;o    e de irasc&iacute;vel, passou a tratar-me com uma cordialidade e uma aten&ccedil;&atilde;o    que desmentiam, com justi&ccedil;a, a sua fama. Todas as vezes que nos encontr&aacute;vamos    dizia-me que eu devia retomar o franc&ecirc;s e que iria mandar-me para a Fran&ccedil;a,    mesmo contra minha vontade.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No meio do ano    de 1969, encontrei-me com o professor Audubert no pr&eacute;dio da Geografia    e Hist&oacute;ria, na Cidade Universit&aacute;ria. Confirmei-lhe minha disposi&ccedil;&atilde;o    em aceitar o seu convite. Combinamos um encontro em seu apartamento na alameda    Santos. Quando fui visit&aacute;-lo em agosto deu-me a not&iacute;cia que mudaria    definitivamente os rumos de minha vida intelectual: tinha algo mais interessante    a me propor. Estava sendo criado, na jovem Universidade Estadual de Campinas,    o Instituto de Filosofia e Ci&ecirc;ncias Humanas em cujo organograma estava    previsto um Departamento de Lingu&iacute;stica. Era para este departamento que    ele queria indicar o meu nome. O projeto era contratar quatro professores, envi&aacute;-los    imediatamente para Besan&ccedil;on, na Fran&ccedil;a, para fazerem uma licenciatura    em lingu&iacute;stica e, depois, um mestrado, na mesma &aacute;rea.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Resolvia-se, desse    modo, o problema da parcim&ocirc;nia da bolsa que antes ele me oferecia, ao    mesmo tempo em que me engajava com um projeto que me dava a seguran&ccedil;a    de um trabalho atraente e cheio de perspectivas, quando de meu retorno.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Talvez n&atilde;o    consiga reproduzir agora, passados j&aacute; tantos anos desse acontecimento,    a alegria sincera que experimentei. Disse-lhe, contudo, que n&atilde;o era um    especialista e nem tinha forma&ccedil;&atilde;o suficiente para aceitar a responsabilidade    de responder por cursos e de ajudar a criar um Departamento de Lingu&iacute;stica.    Reafirmou-me que s&oacute; come&ccedil;ar&iacute;amos a trabalhar de fato na    Unicamp depois do est&aacute;gio de forma&ccedil;&atilde;o e treinamento na    Fran&ccedil;a.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Aceitei o convite.    O professor Audubert deu-me uma carta de apresenta&ccedil;&atilde;o, dizendo-me    que fosse procurar em Campinas o professor Fausto Castilho, respons&aacute;vel    pela dire&ccedil;&atilde;o e pela implanta&ccedil;&atilde;o do IFCH.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Foi o que fiz.    Procurei-o em sua casa, conversamos, falou-me do projeto. Tinha estado em Besan&ccedil;on    como leitor da Facult&eacute; des Lettres et Sciences Humaines. L&aacute; conhecera    o professor Yves Gentilhomme, que j&aacute; estava convidado a vir a Campinas,    no ano seguinte, e era respons&aacute;vel pelos cursos de lingu&iacute;stica    geral na Univesidade de Besan&ccedil;on. O projeto era de que tiv&eacute;ssemos    n&atilde;o s&oacute; uma forma&ccedil;&atilde;o em lingu&iacute;stica, mas tamb&eacute;m    em matem&aacute;tica para que tiv&eacute;ssemos condi&ccedil;&otilde;es de desenvolver    na Unicamp um departamento que, al&eacute;m de suas atribui&ccedil;&otilde;es    espec&iacute;ficas na &aacute;rea, pudesse ainda fornecer as linhas metodol&oacute;gicas    de integra&ccedil;&atilde;o das diferentes ci&ecirc;ncias humanas. Eram os anos    em que o estruturalismo, Levi-Strauss principalmente, havia al&ccedil;ado a    lingu&iacute;stica &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de ci&ecirc;ncia-piloto.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O professor Fausto    Castilho pediu-me que lhe desse mais informa&ccedil;&otilde;es a meu respeito.    Quando soube que eu era aluno do professor Ant&ocirc;nio C&acirc;ndido ficou    muito satisfeito porque ele era uma das pessoas respons&aacute;veis em orientar    a forma&ccedil;&atilde;o do que viria, mais tarde, a ser chamado Grupo de Campinas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">De volta a S&atilde;o    Paulo, fui procurar o professor C&acirc;ndido para falar-lhe de meu contacto    com o professor Fausto Castilho e da indica&ccedil;&atilde;o que havia sido    feita pelo professor Audubert.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O incentivo que    recebi foi total e envolvente. Antes mesmo que lhe falasse da carta de refer&ecirc;ncia,    anunciou-me que a escreveria. Esse &eacute; um documento que tenho como uma    esp&eacute;cie de totem de minhas transforma&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No dia 23 de outubro    de 1969, o professor Fausto Castilho solicitou ao professor Zeferino Vaz, ent&atilde;o    reitor da Unicamp, a minha e a contrata&ccedil;&atilde;o de tr&ecirc;s outros    colegas - Carlos Franchi, Haquira Osakabe e Rodolfo Ilari - como instrutores,    em regime de tempo parcial, junto ao Instituto de Filosofia e Ci&ecirc;ncias    Humanas. Em 1&ordm; de novembro, j&aacute; estava contratado e come&ccedil;ava    a preparar-me para a viagem.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Al&eacute;m do    contrato, tivemos as passagens e uma bolsa da Fapesp que, durante os dois anos    letivos de nossa perman&ecirc;ncia na Fran&ccedil;a, significou um apoio, ao    qual sou eternamente grato e devedor.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No termo de compromisso    assinado com a Unicamp, a ida para Besan&ccedil;on me obrigava, como aos outros,    a obter primeiro a licenciatura (1969-1970) e, em seguida, o mestrado, na Universidade    de Besan&ccedil;on, ou em outra universidade francesa, explicitando que o t&iacute;tulo    seria reconhecido pela Unicamp.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dever&iacute;amos    voltar ao Brasil at&eacute; o dia 15 de julho de 1971, assumindo fun&ccedil;&otilde;es    no IFCH, em regime de dedica&ccedil;&atilde;o exclusiva.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A partir dessa    data, nossas obriga&ccedil;&otilde;es de atividades na Unicamp, sempre segundo    o termo de compromisso, seriam:</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">a) ministrar aulas    de lingu&iacute;stica no &quot;Studium Generale&quot; de Ci&ecirc;ncias Humanas;</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">b) ser aprovado,    no mais tardar tr&ecirc;s anos ap&oacute;s o regresso ao Brasil, em uma das    disciplinas do Grupo Ci&ecirc;ncias Humanas dos dois anos do &quot;Studium Generale&quot;,    em obedi&ecirc;ncia &agrave;s normas de integra&ccedil;&atilde;o interdisciplinar    adotadas pelo IFCH;</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">c) ministrar, no    IFCH, ou nos cursos de complementa&ccedil;&atilde;o curricular dados pelo instituto    junto a outras unidades de ensino e pesquisa, aulas de lingu&iacute;stica ou    de outra disciplina para a qual tiv&eacute;ssemos qualifica&ccedil;&atilde;o    h&aacute;bil;</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">d) colaborar no    ensino e na pesquisa desenvolvida pelo CLA - Centro de Ling&uuml;&iacute;stica    Aplicada - &oacute;rg&atilde;o anexo ao IFCH.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O projeto do professor    Fausto Castilho revelava o grande idealismo humanista de seu coordenador e fazia    juz &agrave; intelig&ecirc;ncia, &agrave; imagina&ccedil;&atilde;o e ao empenho    que sempre predicaram a sua vida, desde os tempos em que mocinho, participava,    com outros intelectuais, das reuni&otilde;es na casa de Oswald de Andrade e    que certamente contribu&iacute;ram para provocar, quando esteve no Brasil nos    anos 60, a ida de Sartre a Araraquara, onde, ent&atilde;o, lecionava filosofia    o professor Castilho.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">N&atilde;o se falava    ainda em Departamento de Lingu&iacute;stica. Isto viria mais tarde, com o tempo,    com as lutas, com as necessidades surgidas ao longo do processo, com as mudan&ccedil;as    de rotas, que n&atilde;o foram poucas.</font></p>     <p align=center><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>III</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No dia 04 de janeiro    de 1970, tomei o avi&atilde;o da Varig com destino a Paris. No mesmo voo seguiam    os outros tr&ecirc;s colegas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em Paris, nos esperava    o professor Luiz Orlandi, da filosofia, que juntamente com os professores Arantes,    da antropologia, Villalobos, da sociologia e Barone, da matem&aacute;tica, constitu&iacute;am    o primeiro grupo do projeto do professor Castilho para a forma&ccedil;&atilde;o    de um instituto de integra&ccedil;&atilde;o das ci&ecirc;ncias humanas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em Besan&ccedil;on,    onde chegamos dois dias depois, encontramos os cursos j&aacute; em andamento,    pois, como se sabe, o ano letivo na Fran&ccedil;a come&ccedil;a em setembro.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dificuldades e    processos de adapta&ccedil;&atilde;o, cada um a seu modo, foram sendo vencidas    umas e realizados outros.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O inverno foi bravo    naquele ano, sobretudo para quem s&oacute; tinha visto e vivido neve em filmes,    livros ou cart&atilde;o postal.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Fomos morar na    Planoise, uma <i>cit&eacute; </i>distante uns 5 km do centro da cidade, que,    por sinal, &eacute; muito bonita, cortado pelo Doub, rio alongando-se em <i>peniches</i>    que o cortavam, apontando para europas ainda desconhecidas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Est&aacute;vamos    no Jura, perto de Lausanne e de G&eacute;n&eacute;ve, na Su&iacute;&ccedil;a.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Come&ccedil;amos,    ent&atilde;o, a frequentar os cursos com vistas &agrave; obten&ccedil;&atilde;o    da <i>Licence &eacute;s Lettres de Linguistique</i>. Eram v&aacute;rios os que    compunham o certificado (C1) de lingu&iacute;stica geral: lingu&iacute;stica    matem&aacute;tica, com o professor Gentilhomme, sintaxe, com a professora Fisher,    sem&acirc;ntica, com a professora Gazal e fon&eacute;tica e fonologia, com a    professora Konopchensky. Este &uacute;ltimo integrava tamb&eacute;m o certificado    (C1) de lingu&iacute;stica francesa, que contava ainda com o curso de po&eacute;tica,    dado pelo professor Aron e o curso de estil&iacute;stica do franc&ecirc;s, com    o professor Peytard.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Alguns desses professores    - Gentilhomme, Konopchensky e Peytard - estiveram na Unicamp, em &eacute;pocas    diferentes e contribu&iacute;ram, cada um a seu modo, para a implanta&ccedil;&atilde;o    e o desenvolvimento das atividades em nosso departamento.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Obtive minha <i>Licence    &eacute;s Lettres</i>, com &ecirc;nfase em lingu&iacute;stica francesa, e em    ling&uuml;&iacute;stica geral.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Tinha cumprido    a primeira parte de meus compromissos, no que dizia respeito &agrave; viagem    &agrave; Fran&ccedil;a.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">De todos esses    cursos o que mais me atraiu foi o do professor Peytard. Certamente porque trabalhava    com lingu&iacute;stica e literatura e porque sempre teve uma forma inteligente    e intrigante de utilizar o instrumental lingu&iacute;stico no tratamento do    fen&ocirc;meno liter&aacute;rio.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O curso de fon&eacute;tica    e fonologia era muito bem estruturado e madame Konop, como era chamada, tinha    rara compet&ecirc;ncia e dedica&ccedil;&atilde;o no seu trabalho. Mas n&atilde;o    era esse o meu assunto.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os cursos de sintaxe    e de sem&acirc;ntica voltavam-se ambos para a discuss&atilde;o do problema dos    modelos te&oacute;ricos de an&aacute;lise e como as duas professoras eram ambas    alunas do professor Culioli, em Paris, os cursos eram muito parecidos na inten&ccedil;&atilde;o,    diferentes na realiza&ccedil;&atilde;o e confusos nos resultados.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Monsieur Aron era    um professor correto, objetivo e dotado de um forte esp&iacute;rito anal&iacute;tico.    Dava, contudo, a impress&atilde;o de que n&atilde;o se sentia seguro no que    fazia, de que n&atilde;o vestia bem as roupas de suas fun&ccedil;&otilde;es    em Besan&ccedil;on. Alguma coisa estava fora de lugar, o qu&ecirc;, eu nunca    soube e, certamente, n&atilde;o saberei jamais, descontando, &eacute; l&oacute;gico,    a real possibilidade de que tudo possa ter sido apenas impress&atilde;o errada    de estrangeiro ainda bastante <i>depays&eacute;</i> em terra estranha, procurando    os rumos de sua identidade entre gente alheia.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Monsieur Gentilhomme,    respons&aacute;vel pela disciplina de lingu&iacute;stica geral, ao contr&aacute;rio,    era descontra&iacute;do, &aacute;gil e atento como um jovem que aprendesse a    viver, embora estivesse, ao menos na apar&ecirc;ncia, para al&eacute;m dos seus    cinquenta anos. Dominava bem a matem&aacute;tica, principalmente a teoria dos    conjuntos e navegava &agrave; vontade pela lingu&iacute;stica funcional de Martinet    e pela sem&acirc;ntica de Pottier.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Seu curso, contudo,    concentrava-se mais em exerc&iacute;cios de tradu&ccedil;&atilde;o de express&otilde;es    lingu&iacute;sticas para f&oacute;rmulas matem&aacute;ticas do que na atividade    cr&iacute;tica e te&oacute;rica da reflex&atilde;o sobre essas rela&ccedil;&otilde;es.    Fazia uma lingu&iacute;stica mais ou menos na linha de Salomon Marcus, cuja    obra vim logo a conhecer, por obriga&ccedil;&atilde;o curricular, e cujo autor    conheci em 1975 no congresso da Linguistic Society of America, em Tampa, Fl&oacute;rida,    e depois voltei a encontrar em 1981, num congresso em Bruxelas sobre a semi&oacute;tica    do teatro.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O professor Peytard,    ligado ao professor Dubois e ao Grupo de Nanterre, apesar, &agrave;s vezes,    de seu estruturalismo um pouco dogm&aacute;tico, mostrava-se mais cheio de inven&ccedil;&otilde;es,    de forma&ccedil;&atilde;o humanista e pol&iacute;tica, de aventuras e hermen&ecirc;uticas    e, sobretudo, de um grande amor pela literatura.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; evidente    que tudo s&atilde;o impress&otilde;es de viagens: viagem sentimental, ao redor    do meu quarto, ao redor de mim mesmo, ao redor dos outros de mim, ao redor do    outro dos outros, eu mesmo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Como tinha obtido    o certificado de <i>Licence &eacute;s Lettres de Linguistique</i> e obtido a    equival&ecirc;ncia de minha licenciatura no Brasil com vistas &agrave; inscri&ccedil;&atilde;o    na <i>maitrise de lettres modernes</i>, optei por realiz&aacute;-la sob a orienta&ccedil;&atilde;o    do professor Jean Peytard.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Esta op&ccedil;&atilde;o    teve, se bem me lembro, duas motiva&ccedil;&otilde;es principais: a primeira    &eacute; aquela que acabo de expor; a segunda, a possibilidade, logo acentada    pelo professor Peytard, de que eu poderia ir para Paris, se quisesse, fazer    ali outros cursos, apresentar-lhe um relat&oacute;rio de minhas atividades e    a minha disserta&ccedil;&atilde;o de mestrado, cujo tema eu teria inteira liberdade    de escolher.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Aceitei o generoso    oferecimento do professor Peytard e, assim, ficou decidido o caminho formal    para a realiza&ccedil;&atilde;o de meu mestrado. Estava ao mesmo tempo tra&ccedil;ando,    sem que soubesse, o caminho para o encontro com o professor Oswald Ducrot.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Comecei a percorrer    os cursos que eram oferecidos nas diversas universidades de Paris, na &Eacute;cole    des Hautes &Eacute;tudes, no Coll&eacute;ge de France, e acabei mesmo me fixando    de modo regular nos semin&aacute;rios do professor Oswald Ducrot, na ent&atilde;o    famosa VIe Section-Sciences &Eacute;conomiques et Sociales da &Eacute;cole Pratique    des Hautes &Eacute;tudes, 54, Rue de Varenne, Paris, 7&ordm;.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os cursos e semin&aacute;rios    do professor Oswald Ducrot funcionavam, contudo, numa sala do Coll&eacute;ge    de France, na Rue des &Eacute;coles, a quinhentos metros do <i>studio</i> da    Rue des Carmes.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Depois de uma entrevista    com o professor Ducrot que, na &eacute;poca, era <i>directeur d'&eacute;tudes    suppl&eacute;ant</i> na EPHE, fui admitido como estudante de <i>troisi&egrave;me    cycle.</i></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Aos poucos, na    medida em que assistia aos semin&aacute;rios, fui identificando no professor    Ducrot algumas origens intelectuais que para mim j&aacute; eram muito caras:    a literatura, a filosofia, Saussure e Benveniste. S&oacute; mais tarde, quando    por minha conta comecei a descobrir a filosofia anal&iacute;tica inglesa, &eacute;    que percebi que em suas an&aacute;lises e discuss&otilde;es dos temas dos semin&aacute;rios    j&aacute; despontavam caminhos que nasciam em Austin e em outros fil&oacute;sofos    de Oxford, Strawson, entre eles.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">L&oacute;gica e    linguagem natural foi o tema predominante desses semin&aacute;rios. O contraponto    de todas as discuss&otilde;es era, contudo, a gram&aacute;tica gerativo-transformacional    de Noam Chomsky que fazia muito sucesso tamb&eacute;m na Fran&ccedil;a.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Desde Besan&ccedil;on,    me vi &agrave;s voltas com a necessidade de estudar l&oacute;gica. Aprofundei    um pouco meus conhecimentos e j&aacute; conseguia, se n&atilde;o operar com    os seus s&iacute;mbolos e deriva&ccedil;&otilde;es, ao menos entend&ecirc;-los    e acompanhar-lhes o sentido.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Frege, Russell    e Strawson constitu&iacute;ram durante algum tempo o meu Tri&acirc;ngulo das    Bermudas. Nele naufraguei frequentemente, mas sempre me sa&iacute; n&aacute;ufrago    recolhido pela ajuda de colegas e sobretudo do professor Ducrot.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ainda em Besan&ccedil;on,    havia lido <i>Syntactic structures</i>, de Chomsky. O original era de 1957 e    a tradu&ccedil;&atilde;o francesa a que tive acesso, de 1969. Lera tamb&eacute;m    o livro de Nicolas Ruwet, <i>Introduction &agrave; la grammaire g&eacute;n&eacute;rative</i>,    de 1967, livro que mais tarde eu traduziria e adaptaria para o portugu&ecirc;s    e que sairia publicado pela Editora Perspectiva e pela Editora da Universidade    de S&atilde;o Paulo, em 1975.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Havia come&ccedil;ado    a ler <i>Cartesian linguistics</i>, 1966, de Chomsky e me inteirava das pol&ecirc;micas    que envolviam a sem&acirc;ntica e o seu lugar ontol&oacute;gico e metodol&oacute;gico    numa teoria lingu&iacute;stica.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nos semin&aacute;rios    acompanhava as an&aacute;lises de detalhe que o professor Ducrot contrapunha    &agrave;s propostas dos gerativistas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Depois de ler <i>Aspects    of the theory of syntax</i>, 1965, no qual Chomsky, como que em resposta &agrave;s    cr&iacute;ticas que lhe haviam sido feitas, dava uma import&acirc;ncia ao componente    sem&acirc;ntico, que este n&atilde;o conhecera em <i>Synctactic structures</i>    e depois de ler artigos de Lakoff e McCawley e de outros linguistas americanos,    Katz, entre eles, sempre por motiva&ccedil;&otilde;es dos semin&aacute;rios    fui sendo, quase que imperceptivelmente, conduzido a definir o assunto da minha    tese de mestrado que deveria apresentar para o professor Peytard na Universidade    de Besan&ccedil;on: ia tratar da pol&ecirc;mica envolvendo as duas tend&ecirc;ncias    sem&acirc;nticas que, ent&atilde;o, se contrapunham no interior da gram&aacute;tica    transformacional: sem&acirc;ntica interpretativa <i>versus </i>sem&acirc;ntica    gerativa.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Assim que conheci    pessoalmente o professor Ducrot, na entrevista, ele passou-me alguns de seus    artigos sobre a no&ccedil;&atilde;o de pressuposi&ccedil;&atilde;o. Li-os com    o maior interesse, vendo em cada um deles a possibilidade de fazer uma lingu&iacute;stica    que n&atilde;o me distanciasse demais da literatura. Nos semin&aacute;rios,    as discuss&otilde;es em torno dessa no&ccedil;&atilde;o eram as mais estimulantes,    porque aguerridas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Estava, contudo,    decidido a me situar melhor dentro dos pressupostos e das an&aacute;lises gerativistas,    contrapondo-lhes as cr&iacute;ticas que, aos poucos, ia sendo capaz de formular    por influ&ecirc;ncia marcante das posi&ccedil;&otilde;es do professor Ducrot,    em particular no que dizia respeito &agrave; contraposi&ccedil;&atilde;o de    um tratamento sem&acirc;ntico-lingu&iacute;stico a um tratamento puramente l&oacute;gico    para os problemas de significa&ccedil;&atilde;o em l&iacute;nguas naturais.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ao mesmo tempo    em que frequentava esses semin&aacute;rios, frequentava tamb&eacute;m os cursos    de Greimas e as grandes sess&otilde;es em que se constitu&iacute;am as aulas    de Roland Barthes, acompanhadas sempre por uma plateia enorme que as transformava,    mal comparando, a grandes espet&aacute;culos de teatro, pelo formid&aacute;vel    do autor, ator, narrador e personagem que as vivia como ningu&eacute;m. Balzac,    Flaubert, Proust, grandes temas de literatura, de semiologia e de mitologias    modernas pude acompanhar atento e apaixonado, satisfazendo a curiosidade e confirmando    a admira&ccedil;&atilde;o intelectual que desde o Brasil me foram provocadas    pela leitura de seus <i>Elementos de semiologia</i> e de suas <i>Mitologias</i>    e de seu <i>Grau zero da escritura.</i></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Fui muito ao cinema,    sobretudo &agrave; Cinemateca, conversei muito com colegas, fiz amizades, participei    com os exilados de muitos encontros e debates sobre a situa&ccedil;&atilde;o    pol&iacute;tica no Brasil e nunca me esque&ccedil;o das conversas longas, suaves    e cr&iacute;ticas que mantinha todas as sextas-feiras com Rodolfo Ilari, num    caf&eacute; da Rue des &Eacute;coles, depois que sa&iacute;amos dos semin&aacute;rios    do professor Ducrot.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A tese estava caminhando;    ia tomando forma; os relat&oacute;rios para a Fapesp ganhavam corpo e j&aacute;    falavam de resultados mais palp&aacute;veis do que nos anteriores, nos quais    o substancial eram os cursos, os trabalhos de aproveitamento e as aprova&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O professor Fausto    Castilho queria que convid&aacute;ssemos um intelectual de peso para a lingu&iacute;stica    na Unicamp. Sugeri-lhe o nome do professor Ducrot. Aceitou. Lembro-me bem da    noite em que fui ao apartamento de Ducrot na Rue Cambronne. Era um domingo,    ele tinha rec&eacute;m-chegado em casa e a sua express&atilde;o ao me atender    era de surpresa e de divers&atilde;o diante do entusiasmo com que lhe transmiti    a not&iacute;cia do convite. Aceitou. Viria, ent&atilde;o, &agrave; Unicamp,    pela primeira vez, em 1972.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Defendi minha tese    de mestrado - &quot;Une introduction au probl&eacute;me de la s&eacute;mantique    dans la grammaire g&eacute;n&eacute;rative&quot; - em Besan&ccedil;on e no dia    17 tomei o trem para Dijon e, da&iacute;, um outro at&eacute; Cannes; no dia    19 embarquei no Augusto C; treze dias depois descia no porto de Santos.</font></p>     <p align=center><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>IV</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Foi desse modo    que vim a conhecer a Fapesp e que a Fapesp cruzou definitivamente o caminho    das decis&otilde;es que marcaram os rumos de minha vida intelectual e acad&ecirc;mica.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Recebi, como tantos    de n&oacute;s professores e pesquisadores do estado de S&atilde;o Paulo, outros    apoios importantes da institui&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mas aqui nessa    hist&oacute;ria entro pelas duas pontas - sem at&aacute;-las - da narrativa    que os diversos depoimentos integrantes do livro v&atilde;o tecendo como um    mosaico de fatos, impress&otilde;es, lembran&ccedil;as, representa&ccedil;&otilde;es,    mem&oacute;ria.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A professora Am&eacute;lia    Hamburger, organizadora do volume, pediu-me que lhe escrevesse uma introdu&ccedil;&atilde;o,    j&aacute; que cheguei &agrave; Fapesp, como presidente (a outra ponta), no dia    13 de junho de 2002, ano em que o per&iacute;odo abarcado pela obra termina.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Am&eacute;lia,    por delicada generosidade, considerou que eu deveria participar da edi&ccedil;&atilde;o    e acabou por me convencer a faz&ecirc;-lo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">E fazendo-o, vejo    o quanto a inscri&ccedil;&atilde;o da Fapesp na minha hist&oacute;ria de vida,    pelos diferentes pap&eacute;is que foram sendo constitu&iacute;dos, aos poucos    excedeu a sua import&acirc;ncia profissional para instalar-se definitivamente    como refer&ecirc;ncia &eacute;tica, afetiva e intelectual no universo de valores    das rela&ccedil;&otilde;es pessoais e institucionais que com ela aprendi a prezar    e a respeitar.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Se como no romance    de Machado de Assis, <i>Dom Casmurro</i>, n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel    atar as duas pontas da vida, quer dizer da hist&oacute;ria, ou seja da hist&oacute;ria    de vida, porque tudo falta, at&eacute; mesmo o personagem a ela atado, no caso    das institui&ccedil;&otilde;es, e mais particularmente no caso da Fapesp, nossa    passagem por ela &eacute; obriga&ccedil;&atilde;o de ser breve, mas na brevidade    sermos duradouros no reconhecimento e eternos na obriga&ccedil;&atilde;o de    preserv&aacute;-la e desenvolv&ecirc;-la em sua miss&atilde;o de excel&ecirc;ncia    no apoio &agrave; ci&ecirc;ncia, &agrave; cultura e &agrave; tecnologia.</font></p>     <p align=center><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>V</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A Fapesp, no dia    23 de maio de 2012, completar&aacute; meio s&eacute;culo de efetivo funcionamento    e 50 anos de plenas realiza&ccedil;&otilde;es.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Modelo e origem    do sistema de FAP's hoje espalhados por quase todos os estados da federa&ccedil;&atilde;o    (s&oacute; 3 estados ? Rond&ocirc;nia, Roraima e Amap&aacute; ? n&atilde;o t&ecirc;m    ainda suas funda&ccedil;&otilde;es de amparo &agrave; pesquisa), a Fapesp contribui    fortemente para a situa&ccedil;&atilde;o distinguida que S&atilde;o Paulo ocupa    no cen&aacute;rio da produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica do pa&iacute;s.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No come&ccedil;o    de abril deste ano, no dia 1&ordm; , morreu em S&atilde;o Paulo, aos 78 anos,    Am&eacute;lia Hamburger, f&iacute;sica, pesquisadora, professora e divulgadora    incans&aacute;vel da cultura cient&iacute;fica.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A hist&oacute;ria    de vida de Am&eacute;lia est&aacute;, sob v&aacute;rias formas, ligada &agrave;    hist&oacute;ria de sucesso do desempenho da Fapesp no fomento &agrave; pesquisa    e &agrave; forma&ccedil;&atilde;o de compet&ecirc;ncia no estado de S&atilde;o    Paulo e no Brasil, n&atilde;o fosse j&aacute; o importante livro por ela organizado    e editado por ocasi&atilde;o dos 40 anos da Funda&ccedil;&atilde;o, no qual    tive a honra de participar, a seu convite, com o texto que agora aqui, na <i>ComCi&ecirc;ncia</i>,    se republica.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><a name="nt1"></a><a href="#top">*</a>    Publicado originalmente in: Hamburger, Am&eacute;lia Imp&eacute;rio (Org. e    Ed.). <i>Fapesp 40 anos abrindo fronteiras</i>. S&atilde;o Paulo: Edusp, 2004.    p. 29-40.</font></p>      ]]></body>

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