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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>O lugar das    iluminuras medievais nas bibliotecas de obras raras</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Raquel de Fátima    Parmegiani</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Historiadora e    professora da Universiade Federal de Alagoas</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A sociedade medieval    teve uma relação muito próxima com o livro. Herança direta da veneração judaica    à palavra escrita, o cristianismo, um dos elementos mais importante dessa sociedade,    fundou-se sobre uma <i>Revelação</i> que passou inteiramente pela intermediação    da tradição das letras. A frequência com que o livro aparece como elemento central    dos acontecimentos milagrosos que constituem o núcleo das tópicas hagiográficas    medievais, deixa claro o valor desse objeto para a cultura do período.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Para essa sociedade    oral e de poucos leitores, a raridade do material, ou seja, das folhas de pergaminho    ou de vitela, e a dificuldade na reprodução dos livros, transcritos à mão nos    chamados <i>escriptorium </i>– não devemos nos esquecer que uma boa biblioteca    no século X, não contava com mais de dez exemplares –, acabou instaurando no    imaginário medieval uma relação com esse material cultural próxima a um talismã,    associado ao uso arcaico de escrever e pintar para fins mágicos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A sempre presente    preocupação do homem medieval em salvar, organizar e conservar a herança cultural    escrita, em meio a desestruturação material que marcou esse período da história    europeia, acabaram por fazer dele um objeto de dimensões às vezes excessivamente    imponentes; livros enormes, no qual eram reunidos, por exemplo, todos os textos    da Bíblia e seus comentários. Grandes, pesados e de uso penoso, os livros tornaram-se,    muitas vezes, menos para serem lidos do que para serem apreciados, acentuando    um caráter sacral e misterioso, posto que privilegiavam-se os aspectos visuais    – solenidade e grandeza do formato – relativamente aos aspectos gráficos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Dentro dessa perspectiva,    a Idade Média deu às imagens um importante papel ao lado da escrita, produzindo    um riquíssimo material artístico visual que completava e enriquecia os manuscritos:    a arte das iluminuras ou miniaturas. Apoiada numa tradição que vem da antiguidade,    a prática da ilustração dos textos ganhou nesse período uma riquíssima técnica    pictórica que envolvia desde a produção das tintas – propriedades dos materiais,    a importância da orientação das proteínas de colágeno nas propriedades físicas    da folha de pergaminho –, até as características relacionadas às escolas artísticas    que contemplavam a arquitetura, a escultura, a pintura e os vitrais das igrejas    medievais, como por exemplo, o romântico, o gótico, o mozárabe.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A produção cada    vez mais frequente, ao longo da Idade Média, da ilustração dos manuscritos,    foi possível graças às mudanças no suporte da escrita trazidas pelo uso do códice    – formato muito parecido com o livro moderno, que era mais manejável do que    o rolo, possibilitando que as iluminuras pudessem acompanhar o texto, auxiliando    a sua compreensão.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Com os códices    os copistas e iluminadores introduziram mudanças substanciais na relação texto/imagem.    As iluminuras passaram a ocupar a esquerda e a direita da coluna escrita. Aos    poucos se generalizou e predominou o uso da imagem intercalada com a escritura,    o que permitiu uma relação orgânica com o texto, como é possível ver neste fólio    da Bíblia de São Luís.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n127/a11fig1.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O processo de dissociar    o discurso escrito do visual foi paulatino e irreversível. A princípio se utilizou    a metade inferior da página para as iluminuras, logo depois elas ocupavam uma    página inteira. Nesse processo de separação da imagem em relação ao texto escrito,    foi se gestando um discurso paralelo ao textual e assumindo uma função própria,    a de produzir um discurso visual. Em definitivo, a imagem adquiriu um poder    comunicativo próprio.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n127/a11fig2.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As iluminuras completavam    as páginas dos códices dos mais diversos assuntos tratados na Idade Média: a    Bíblia e os comentários aos seus livros, saltérios, livro das horas, livros    de medicina, bestiários etc. Algumas obras, tendo a transcrição do seu texto    integral repetida de forma relativamente frequente ao longo dos séculos medievais,    provavelmente pela boa recepção que tiveram no período, receberam um tratamento    especial para suas iluminuras, ganhando a cada edição peculiaridades próprias,    como é o caso dos “Beatos” – série de iluminuras que compõem os diversos códices    produzidos entre os séculos VIII e X na península ibérica, de um <i>Comentário    ao apocalipse</i> escrito por um monge das Astúrias e que carregam em cada um    dos seus exemplares, características particulares do iluminador, que as interpretou    de acordo com suas regras artísticas, cultura e talento próprio.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Pela dificuldade    na produção e conservação desses manuscritos iluminados, que sempre contaram    com poucos exemplares devido à carestia de folhas e de tintas, e das condições    das técnicas rudimentares e manuais nas quais eram editados, os que chegaram    até nós são de valor inestimável, posto que guardam em suas páginas parte dos,    relativamente modestos, vestígios materiais que compõem a herança da cultura    medieval ocidental, além do seu valor artístico inquestionável.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na atualidade podemos    encontrar originais desses códices em bibliotecas de obras raras como a do Metropolitan    Museum of Art e Pierpont Morgan Library, de Nova Iorque, Museu Arqueológico    Nacional e Biblioteca Francisco Zabálburu y Basabe, ambas de Madri, Santa Igreja    Catedral Primada, de Toledo, Catedral Metropolitana de Oviedo, Biblioteca Casanatense,    de Roma, Museu Diocesano de Arte, de Girona, Biblioteca Nazionale Marciana,    de Veneza, Biblioteca Nacional da Rússia, em São Petersburgo, Bibliothèque Nationale    de França, The British Library, Museu Calouste Gulbenkian, de Lisboa.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na Europa, casas    editoriais como “Moleiros editores”, têm realizado um trabalho importante de    reprodução desses códices compostos de iluminuras, a partir de técnicas tanto    de produção do suporte, como de método de escrita e iluminação que reproduzem    todos os matizes das pinturas e da escrita dos manuscritos originais. Embora    essas obras sejam de alto valor comercial e, muitas vezes, destinados à bibliófilos,    podemos afirmar que essas edições têm contribuído de forma efetiva para que    as iluminuras medievais, que até pouco tempo não eram valorizadas artisticamente,    ganhem seu lugar de importância na história da arte e da cultura do mundo ocidental.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A produção de imagens    tendo como suporte as folhas dos códices pode ser pensada, também, para além    do seu valor artístico, como um campo de investigação importante e ainda pouco    explorado pelo historiador no que concerne à compreensão da sociedade medieval.    Entendida dentro da perspectiva de que elas significam, em grande medida, uma    experiência cultural e social transformada em representação, as imagens ganham    um caráter de documento. Segundo Eduardo Neiva em um artigo publicado nos Anais    do Museu Paulista sobre história e cultura material em 1993, as imagens estão    sempre saturadas de cultura. Elas estruturam historicamente formas da experiência    humana. São simultaneamente reflexo e esboço de comportamentos. Da imagem à    ação, os vários níveis possíveis da experiência cultural estão articulados.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Por conseguinte,    seja pensando na perspectiva da história da escrita e da leitura, fruto do desenvolvimento    das técnicas de produção do livro, como documentos históricos que carregam vestígios    da sociedade medieval, ou ainda pelo seu riquíssimo caráter artístico, as iluminuras    são, com certeza, repletas de valor histórico, que justificam o seu lugar dentro    das bibliotecas de obras raras.</font></p>      ]]></body>

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