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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[DSM: a (in)discreta relação entre ciência e política]]></article-title>
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<institution><![CDATA[,Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Programa de Estudos Pós-graduados em Ciências Sociais ]]></institution>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>DSM: a (in)discreta rela&ccedil;&atilde;o entre ci&ecirc;ncia e pol&iacute;tica</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Leandro Siqueira</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com a publica&ccedil;&atilde;o da terceira edi&ccedil;&atilde;o do Manual Diagn&oacute;stico e Estat&iacute;stico dos Transtornos Mentais (DSM III), em 1980, a psiquiatria biol&oacute;gica parecia ter ultrapassado a meta que sempre obcecara os psiquiatras, a de tornar sua disciplina uma verdadeira especialidade m&eacute;dica. O manual sinalizou a legitima&ccedil;&atilde;o da psiquiatria como um saber cient&iacute;fico, enfim dotado de uma classifica&ccedil;&atilde;o diagn&oacute;stica fundada sobre pesquisas emp&iacute;ricas e dados estat&iacute;sticos. A partir de testes com psicof&aacute;rmacos, exames de imageamento cerebral e outras tecnologias computo-informacionais, a psiquiatria biol&oacute;gica passou a traduzir em uma gram&aacute;tica biologicista o funcionamento do mental, que anteriormente dispunha principalmente de fundamentos psicol&oacute;gicos e psicanal&iacute;ticos para sua compreens&atilde;o. Desta forma, a psiquiatria emergiu como um saber capaz de regular disfun&ccedil;&otilde;es nos neurotransmissores cerebrais, terapeuticamente utilizado para reduzir o sofrimento e melhorar a qualidade de vida dos portadores de transtornos mentais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Desde ent&atilde;o, quase sempre, acontecimentos - como as recentes <u>cr&iacute;ticas</u> do psiquiatra Allen Frances &agrave; elabora&ccedil;&atilde;o do DSM 5 - desvelam ser a psiquiatria atravessada por quest&otilde;es n&atilde;o t&atilde;o cient&iacute;ficas, que colocam inclusive em quest&atilde;o a exist&ecirc;ncia de uma clara separa&ccedil;&atilde;o entre ci&ecirc;ncia e pol&iacute;tica. Na hist&oacute;ria da psiquiatria n&atilde;o faltam evid&ecirc;ncias disso. Particularmente, a elabora&ccedil;&atilde;o do DSM III &eacute; repleta de acontecimentos pol&iacute;ticos recobertos por um espesso verniz m&eacute;dico-cient&iacute;fico que, com o tempo, come&ccedil;ou a desgastar e rachar.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A publica&ccedil;&atilde;o do DSM III procurou responder a duras cr&iacute;ticas vindas de fora e do interior da psiquiatria. Desde os anos 1940, a psiquiatria encontrava-se em um profundo descr&eacute;dito. Sem oferecer " cura" para a doen&ccedil;a mental, os manic&ocirc;mios superlotados haviam se transformado em "dep&oacute;sitos", onde casos de tortura e desrespeito aos direitos humanos eram frequentemente denunciados. A partir dos anos 1960, as antipsiquiatrias, al&eacute;m de apontarem o car&aacute;ter autorit&aacute;rio, segregador e de controle social da psiquiatria, chegaram a colocar em cheque a pr&oacute;pria validade cient&iacute;fica do conceito de doen&ccedil;a mental e mostraram, por meio de experi&ecirc;ncias alternativas, a possibilidade de tratar fora dos muros do asilo os estigmatizados como loucos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Internamente, os psiquiatras alinhados a uma vertente mais biol&oacute;gica, atribu&iacute;am &agrave; psican&aacute;lise a responsabilidade pela disciplina ter se distanciado do modelo m&eacute;dico. Manifestavam um perturbador desconforto em rela&ccedil;&atilde;o ao diagn&oacute;stico das doen&ccedil;as mentais. Em diversas pesquisas, a confiabilidade e a validade do sistema de classifica&ccedil;&atilde;o das doen&ccedil;as mentais foram apresentadas como s&eacute;rios entraves para o desenvolvimento da psiquiatria como especialidade m&eacute;dica. A discuss&atilde;o sobre confian&ccedil;a e validade dos diagn&oacute;sticos serviu ainda de pretexto para que, nos anos 1970, as grandes seguradoras de sa&uacute;de dos Estados Unidos limitassem a cobertura de procedimentos psiqui&aacute;tricos devido &agrave; falta de clareza e uniformidade na terminologia dos diagn&oacute;sticos e nos tratamentos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Diante deste quadro cr&iacute;tico, a American Psychiatric Association (APA) prop&ocirc;s a revis&atilde;o da segunda edi&ccedil;&atilde;o do DSM, de 1968<sup>1</sup>, que acabou resultando na publica&ccedil;&atilde;o do DSM III. N&atilde;o &eacute; por acaso que logo na introdu&ccedil;&atilde;o do novo manual, o psiquiatra Robert Spitzer, coordenador do grupo de trabalho de sua elabora&ccedil;&atilde;o, destacou o aspecto "cient&iacute;fico" da obra, que a partir de ent&atilde;o se fundava sobre "evid&ecirc;ncias de pesquisa relevantes para a validade dos v&aacute;rios tipos de diagn&oacute;stico"<sup>2</sup>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A APA pode contar mais do que com as qualifica&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas de Robert Spitzer, um reconhecido especialista em classifica&ccedil;&otilde;es diagn&oacute;sticas e apoiador da psiquiatria biol&oacute;gica. Antes mesmo de ser escolhido para comandar os trabalhos do DSM III, o psiquiatra havia mostrado uma preciosa habilidade pol&iacute;tica para gerenciar a reivindica&ccedil;&atilde;o de grupos gays de retirar a homossexualidade da lista de psicopatologias. Durante os seis anos de prepara&ccedil;&atilde;o do novo manual, Spitzer soube lidar diplomaticamente com a press&atilde;o de outros grupos organizados, dentre eles os psicanalistas, no caso envolvendo a subtra&ccedil;&atilde;o do termo " neurose" do manual, e as propostas de incluir o racismo e o estresse p&oacute;s-traum&aacute;tico entre seus transtornos<sup>3</sup>.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Demandas de minorias</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A homossexualidade constava na segunda edi&ccedil;&atilde;o do manual como um " desvio sexual". Ativistas e psiquiatras gays exigiram, por meio de regulares protestos durante os congressos anuais da associa&ccedil;&atilde;o psiqui&aacute;trica, sua retirada da classifica&ccedil;&atilde;o dos transtornos mentais. A quest&atilde;o da exclus&atilde;o ou n&atilde;o da homossexualidade no DSM criou tamanha pol&ecirc;mica que teve de ser decidida, em 1974, por um referendo interno da associa&ccedil;&atilde;o, no qual 58% dos membros optaram pela sua retirada. No seu lugar, a terceira edi&ccedil;&atilde;o do manual trouxe uma nova categoria, a "homossexualidade egodist&ocirc;nica", entendida como o sofrimento ps&iacute;quico resultante do desconforto do indiv&iacute;duo quanto &agrave; sua orienta&ccedil;&atilde;o sexual que, por sua vez, foi suprimida na revis&atilde;o do DSM III, de 1987.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para refor&ccedil;ar o car&aacute;ter cient&iacute;fico do DSM III, anunciado com um manual "ate&oacute;rico" e de "racioc&iacute;nio sindr&ocirc;mico", o grupo de trabalho chefiado por Spitzer decidiu excluir da classifica&ccedil;&atilde;o toda refer&ecirc;ncia &agrave; psican&aacute;lise que as edi&ccedil;&otilde;es anteriores traziam. Os psicanalistas estadunidenses reagiram &agrave; proposta de mudan&ccedil;as e depois de v&aacute;rias reuni&otilde;es conseguiram manter o termo neurose nas nomenclaturas, mas colocado entre par&ecirc;nteses ap&oacute;s a nova terminologia adotada para todas as psicopatologias sem etiologia cientificamente atestada, a partir de ent&atilde;o denominadas "transtornos" (do ingl&ecirc;s, " disorders"). Na quarta edi&ccedil;&atilde;o do DSM, de 1990, a palavra " neurose" foi completamente abolida.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outro grupo que n&atilde;o obteve sucesso com suas reivindica&ccedil;&otilde;es foi o movimento negro. Um comit&ecirc; de psiquiatras negros recomendou a inclus&atilde;o do racismo entre os transtornos mentais do DSM III e que as minorias raciais participassem das discuss&otilde;es do manual. Spitzer rejeitou as propostas, mas em correspond&ecirc;ncia, acenou com a possibilidade de o racismo ser citado como um exemplo de " funcionamento psicol&oacute;gico n&atilde;o-&oacute;timo", que fragiliza o indiv&iacute;duo e poderia conduzir &agrave; apari&ccedil;&atilde;o de sintomas. Quando saiu o manual, nenhuma men&ccedil;&atilde;o ao racismo fora feita.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A associa&ccedil;&atilde;o dos veteranos da guerra do Vietn&atilde; conseguiu fazer constar no novo manual um diagn&oacute;stico espec&iacute;fico para os transtornos relacionados a traumas de guerras. Mesmo antes do projeto do DSM III, campanhas nacionais defendiam o reconhecimento dos transtornos que dificultavam a reinser&ccedil;&atilde;o dos ex-combatentes na sociedade estadunidense. No DSM I, havia a figura da "rea&ccedil;&atilde;o de estresse", na qual eram enquadradas as neuroses de guerra. Por&eacute;m, no DSM II, ela foi suprimida. Psiquiatras e psic&oacute;logos defensores da causa dos veteranos se reuniram com Spitzer e a subcomiss&atilde;o dos transtornos reativos, a qual deliberou, em 1978, a inclus&atilde;o do transtorno de estresse p&oacute;s-traum&aacute;tico no novo manual.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pol&ecirc;micas relacionadas &agrave; outra "minoria", desta vez as mulheres, voltaram a acontecer nas edi&ccedil;&otilde;es posteriores do DSM. Na revis&atilde;o da terceira edi&ccedil;&atilde;o, foram listados no ap&ecirc;ndice como "categorias diagn&oacute;sticas que necessitam de mais estudos" dois transtornos que desagradaram as feministas: o transtorno de personalidade autodestrutiva, cujo manual apontava ser mais comum em mulheres do que em homens, na propor&ccedil;&atilde;o de dois para um; e o transtorno disf&oacute;rico da fase l&uacute;tea tardia, evidenciado somente em mulheres por estar relacionado ao ciclo menstrual. Por press&atilde;o de grupos feministas, o primeiro foi eliminado da quarta edi&ccedil;&atilde;o do DMS, de 1994, mas o segundo recebeu um novo nome: transtorno disf&oacute;rico pr&eacute;-menstrual<sup>4</sup>.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O que interessa a esta an&aacute;lise n&atilde;o &eacute; fazer um balan&ccedil;o de quem ganhou ou perdeu com as edi&ccedil;&otilde;es do DSM, mas evidenciar que mesmo a psiquiatria biol&oacute;gica - com seu pressuposto de que o "c&eacute;rebro &eacute; o &oacute;rg&atilde;o da mente", fundada sobre pesquisas e evid&ecirc;ncias cient&iacute;ficas - n&atilde;o est&aacute; imune ao jogo pol&iacute;tico que estabelece (1) o que dever&aacute; ser tomado e catalogado como transtorno (a homossexualidade? os sintomas do ciclo menstrual?); (2) quem o constr&oacute;i (psiquiatras, psic&oacute;logos, minorias etc.) e (3) a partir de quais fundamentos te&oacute;ricos (biol&oacute;gicos ou psicanal&iacute;ticos?). Os exemplos acima citados devem ser analisados n&atilde;o s&oacute; como resultados cient&iacute;ficos, mas dentro de um contexto espec&iacute;fico da hist&oacute;ria da psiquiatria, no qual a linha biol&oacute;gica despontava como a de maior influ&ecirc;ncia no campo psi, e da pr&oacute;pria hist&oacute;ria dos Estados Unidos, em que a articula&ccedil;&atilde;o de minorias pelo reconhecimento de direitos civis obrigou o Estado a atender demandas que implicaram no reconhecimento de direitos espec&iacute;ficos para os negros, mulheres, homossexuais etc.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Farmacologia e psiquiatria</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O DSM III marca tamb&eacute;m o momento que a farmacologia tornou-se um elemento reorganizador da pr&aacute;tica e dos saberes psiqui&aacute;tricos, aproximando assim a psiquiatria da ind&uacute;stria farmac&ecirc;utica. N&atilde;o &eacute; que a pr&aacute;tica de receitar psicof&aacute;rmacos tenha surgido com o manual, ela come&ccedil;ou antes, no final dos anos 1950, com a inven&ccedil;&atilde;o do primeiro antipsic&oacute;tico. Todavia, foi a partir do DSM III e sua defini&ccedil;&atilde;o dos crit&eacute;rios diagn&oacute;sticos dos sintomas a serem observados na cl&iacute;nica, que os medicamentos come&ccedil;aram a ser empregados como instrumentos de confirma&ccedil;&atilde;o do pr&oacute;prio diagn&oacute;stico. O psiquiatra Peter Kramer<sup>5</sup>, da Brown University, denomina "ouvir as drogas" o processo de observar as rea&ccedil;&otilde;es dos pacientes aos psicof&aacute;rmacos, como se fosse uma "disseca&ccedil;&atilde;o farmacol&oacute;gica" dos transtornos, ou seja, " deixar que a resposta &agrave; droga informe ou mesmo comande nosso sentido de perceber como o comportamento humano pode ser melhor categorizado". Para o psiquiatra, essa pr&aacute;tica transformou a psiquiatria ao fornecer um retorno sobre a exatid&atilde;o do diagn&oacute;stico. Receitar medicamentos tornou-se t&atilde;o importante para a cl&iacute;nica psiqui&aacute;trica que a revis&atilde;o do DSM III foi vendida juntamente com um guia complementar que trazia refer&ecirc;ncias sobre psicofarmacologia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">As preocupa&ccedil;&otilde;es que Allen Frances afirma ter sobre a rela&ccedil;&atilde;o entre a psiquiatria e as companhias farmac&ecirc;uticas n&atilde;o s&atilde;o novidades, principalmente para ele que coordenou os trabalhos de elabora&ccedil;&atilde;o do DSM IV e sua revis&atilde;o, o DSM IV TR. O estudo "Financial ties between DSM IV panel members and the pharmaceutical industry", de Lisa Cosgrovea e colegas, publicado na revista <i>Psychotherapy and Psychosomatics</i>, em abril de 2006<sup>6</sup>, revela que dos psiquiatras membros dos grupos de trabalho da elabora&ccedil;&atilde;o desses manuais, 56% tinham uma ou mais liga&ccedil;&otilde;es financeiras com a ind&uacute;stria farmac&ecirc;utica, recebendo por servi&ccedil;os de pesquisa, consultoria ou comunica&ccedil;&atilde;o. Nos grupos de trabalho sobre transtornos do humor e esquizofrenia, 100% dos psiquiatras participantes recebiam recursos de companhias de medicamentos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Que as ind&uacute;strias farmac&ecirc;uticas financiem pesquisas n&atilde;o causa nenhum espanto. Este &eacute; o seu <i>business</i>.O problema est&aacute;, como aponta o psiquiatra David Healy, no livro <i>The antidepressant era</i>, que a ind&uacute;stria, al&eacute;m de drogas, tamb&eacute;m produz "vis&otilde;es sobre as doen&ccedil;as", selecionando possibilidades de elas serem enxergadas<sup>7</sup> (p.181). Frances diz se sentir culpado pela explos&atilde;o dos diagn&oacute;sticos de transtorno bipolar e de transtorno de d&eacute;ficit de aten&ccedil;&atilde;o e hiperatividade em crian&ccedil;as, dois neg&oacute;cios extremamente lucrativos para as farmac&ecirc;uticas. Mas antes dessas, outras epidemias foram "enxergadas" por psiquiatras a partir de disseca&ccedil;&otilde;es farmacol&oacute;gicas. Al&eacute;m do caso da depress&atilde;o com os antidepressivos, refiro-me &agrave; s&iacute;ndrome do p&acirc;nico, ap&oacute;s a comercializa&ccedil;&atilde;o nos anos 1980 do ansiol&iacute;tico Alprazolam (Xanax, nos EUA, e Frontal, no Brasil) e ao transtorno obsessivo compulsivo (TOC), com o antidepressivo clomipramina (Anafranil), na d&eacute;cada de 1990. Especialmente no caso do TOC, &eacute; incr&iacute;vel como uma neurose rara e praticamente desconhecida da popula&ccedil;&atilde;o, aparece nos anos 1990 como o quarto transtorno psiqui&aacute;trico mais comum e considerado atualmente pela OMS a 10ª maior causa de incapacita&ccedil;&atilde;o no mundo, logo ap&oacute;s a libera&ccedil;&atilde;o da venda no mercado estadunidense da clomipramina. Este medicamento foi um fator decisivo para essa "peste" se alastrar<sup>8</sup>.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Pol&iacute;tica de subjetividades</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Michel Foucault<sup>9</sup> mostrou como a "peste", mais do que uma quest&atilde;o de sa&uacute;de p&uacute;blica, configurou um problema pol&iacute;tico no s&eacute;culo XVIII. As sociedades disciplinares por ele estudadas valeram-se das pr&aacute;ticas de distribui&ccedil;&atilde;o, classifica&ccedil;&atilde;o, isolamento, vigil&acirc;ncia e hierarquiza&ccedil;&atilde;o dos indiv&iacute;duos, desenvolvidas no combate &agrave;s pestes que assolaram a Europa, para aperfei&ccedil;oar uma tecnologia positiva de governo dos homens, depois empregada pelos Estados para gerir a popula&ccedil;&atilde;o. Segundo o autor, as disciplinas e o controle da popula&ccedil;&atilde;o est&atilde;o na base dessa nova tecnologia de poder &agrave; qual denominou biopol&iacute;tica. No lugar de excluir e matar, como fazia a soberania para exercer o poder, a biopol&iacute;tica procura maximizar a vida para govern&aacute;-la. Outro aspecto pol&iacute;tico destacado por Foucault nas sociedades disciplinares, que nos interessa abordar, diz respeito &agrave; produ&ccedil;&atilde;o de subjetividades assujeitadas, ou seja, o forjamento de indiv&iacute;duos a partir da submiss&atilde;o de seus corpos a determinadas rela&ccedil;&otilde;es de saber e poder. Nesse sentido, o manic&ocirc;mio e a pris&atilde;o foram os confinamentos mais explorados por Foucault para mostrar como o indiv&iacute;duo n&atilde;o passa de um efeito das rela&ccedil;&otilde;es de poder.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">No s&eacute;culo XXI, as coisas n&atilde;o s&atilde;o id&ecirc;nticas ao que Foucault observara em suas an&aacute;lises. Hoje, o confinamento do manic&ocirc;mio n&atilde;o &eacute; mais o espa&ccedil;o por excel&ecirc;ncia para a produ&ccedil;&atilde;o do indiv&iacute;duo louco. Al&eacute;m disso, outros atores (fora a psiquiatria e o Estado) como a ind&uacute;stria farmac&ecirc;utica, minorias e os meios de comunica&ccedil;&atilde;o participam das rela&ccedil;&otilde;es de poder que produzem indiv&iacute;duos, ou melhor, neste caso, subjetividades transtornadas. Paul Rabinow<sup>10</sup> usa o conceito de biossociabilidade para abordar a produ&ccedil;&atilde;o de identidades na contemporaneidade. Ele aponta para a possibilidade da gen&eacute;tica, por meio de pr&aacute;ticas m&eacute;dicas, remodelar todo o tecido social, criando identidades definidas a partir de termos biol&oacute;gicos. Entretanto, essa nova sociabilidade baseada na vida j&aacute; &eacute; impulsionada pela psiquiatria biol&oacute;gica. Dela vemos surgir biosubjetividades que se definem a partir de categorias diagn&oacute;sticas de transtornos mentais e se agrupam em associa&ccedil;&otilde;es de defesa de seus interesses.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Um exemplo dessas associa&ccedil;&otilde;es &eacute; a International Obsessive Compulsive Foundation (IOCF), uma associa&ccedil;&atilde;o que congrega portadores de TOC e seus familiares. As estat&iacute;sticas estimam existir 120 milh&otilde;es de portadores de TOC em todo o planeta, uma popula&ccedil;&atilde;o maior do que a de muitos pa&iacute;ses. Fundada em 1986, nos Estados Unidos, a IOCF rapidamente se transformou de pequeno grupo de autoajuda em uma organiza&ccedil;&atilde;o de &acirc;mbito internacional, cuja miss&atilde;o &eacute; educar o p&uacute;blico e a comunidade profissional sobre o TOC; providenciar assist&ecirc;ncia a portadores, familiares e amigos; apoiar pesquisas cient&iacute;ficas e acompanhar as pol&iacute;ticas p&uacute;blicas de sa&uacute;de, intercedendo em favor dos portadores desse transtorno.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Com objetivos semelhantes, h&aacute; a Children and Adults with Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder (1987); a National Association of Anorexia Nervosa and Associated Disorders (1976) e a Tourette Syndrome Association (1972), entre outras. A exemplo da IOCF, todas nasceram de iniciativas da sociedade civil organizada, inicialmente voltadas para reunir portadores, mas hoje possuem escrit&oacute;rios de "lobby" e "advocacy" para cobrar do Estado pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, legisla&ccedil;&otilde;es especiais e recursos or&ccedil;ament&aacute;rios. Elas desempenham um papel pol&iacute;tico parecido com o que tiveram durante o s&eacute;culo XX, com mais for&ccedil;a do que hoje, os sindicatos na organiza&ccedil;&atilde;o e defesa dos direitos das diversas categorias de trabalhadores.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; interessante observar que o corpo do louco, antes arbitrariamente sequestrado e confinado em institui&ccedil;&otilde;es, emerge hoje na figura do transtornado constru&iacute;do cientificamente por uma gram&aacute;tica biol&oacute;gica dos neurotransmissores e sistemas cerebrais e recoberto por direitos que o tornam mais um ator pol&iacute;tico. Neste sentido, as subjetividades transtornadas parecem ser efeito desse t&ecirc;nue limiar em que &eacute; imposs&iacute;vel se distinguir o que &eacute; cient&iacute;fico do que &eacute; pol&iacute;tico. Apesar de a psiquiatria afirmar-se como uma ci&ecirc;ncia, seu car&aacute;ter de dispositivo pol&iacute;tico para o governo das popula&ccedil;&otilde;es persiste em se apresentar. Assim, essas subjetividades transtornadas tendem cada vez mais a proliferar e a participar ativamente da movimenta&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia, de mercados e democracias. Mesmo sendo alvo de mais cr&iacute;ticas, o DSM 5 n&atilde;o dever&aacute; mudar isso. Pelo contr&aacute;rio, poder&aacute; expandi-lo a uma escala planet&aacute;ria.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Refer&ecirc;ncias:</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">1. American Psychiatric Association. <i>Diagnostic and statistical manual of mental disorders:</i> (DSM). 2<sup>nd</sup> ed. Washington, DC: American Psychiatric Association, 1968.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">2. American Psychiatric Association. <i>Diagnostic and statistical manual of mental disorders:</i> (DSM). 3<sup>rd</sup> ed. Washington, DC: American Psychiatric Association,1980.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">3. Kirk, Stuart; Kutchins, Herb. <i>Aimez -vous le DSM? le triomphe de la psychiatrie am&eacute;ricaine.</i> Tradu&ccedil;&atilde;o O. R. Gille. Le Plessis-Robinson: Institut Synth&eacute;labo, 1998.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">4. Shorter, Edward. <i>Uma hist&oacute;ria da psiquiatria: da era do maninc&ocirc;mio &agrave; idade do Prozac</i>. Tradu&ccedil;&atilde;o F. Andersen. Lisboa: Climepsi, 2001.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">5. Kramer, Peter D. <i>Ouvindo o Prozac: uma abordagem profunda e esclarecedora da "P&iacute;lula da Felicidade"</i>. Tradu&ccedil;&atilde;o G. Hirata. Rio de Janeiro: Editora Record, 1994.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">6. Cosgrovea, Lisa; Krimsky, Sheldon; Vijayaraghavana, Manisha e Schneidera, Lisa. "Financial Ties between DSM IV Panel Members and the Pharmaceutical Industry", <i>Psychotherapy and Psychosomatics</i>, 2006, v.75, pp.154-160.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">7. Healy, David. <i>The antidepressant era</i>. Cambridge: Harvard University Press, 1999.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">8. Siqueira, Leandro A. de P. "O (in)div&iacute;duo compulsivo: uma genealogia na fronteira entre a disciplina e o controle". 294 p. Disserta&ccedil;&atilde;o (Mestrado em Ci&ecirc;ncias Sociais) - Programa de Estudos P&oacute;s-graduados em Ci&ecirc;ncias Sociais, Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica de S&atilde;o Paulo, S&atilde;o Paulo, 2009.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">9. Foucault, Michel. <i>Os anormais: curso no Coll&egrave;ge de France (1974-1975).</i> Tradu&ccedil;&atilde;o E. Brand&atilde;o. S&atilde;o Paulo: Martins Fontes, 2002.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">______. <i>O poder psiqui&aacute;trico: curso dado no Coll&egrave;ge de France (1973-1974).</i> Tradu&ccedil;&atilde;o E. Brand&atilde;o. S&atilde;o Paulo: Martins Fontes, 2006.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">______. <i>Seguran&ccedil;a, territ&oacute;rio e popula&ccedil;&atilde;o: curso dado no Coll&egrave;ge de France (1977-1978)</i>. Tradu&ccedil;&atilde;o E. Brand&atilde;o. S&atilde;o Paulo: Martins Fontes, 2008.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">10. Rabinow, Paul. "Artificialidade e ilustra&ccedil;&atilde;o: da sociobiologia &agrave; bio-sociabilidade". <i>Novos Estudos CEBRAP</i>, S&atilde;o Paulo, 1991,v. 31, pp. 79-93.    </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Leandro Siqueira &eacute; doutorando no Programa de Estudos P&oacute;s-graduados em Ci&ecirc;ncias Sociais da Pontif&iacute;cia Universidade Cat&oacute;lica de S&atilde;o Paulo (PUC-SP), pesquisador do N&uacute;cleo de Sociabilidade Libert&aacute;ria (Nusol), da PUC-SP, e jornalista.</i></font></p>      ]]></body>
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