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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Dist&uacute;rbios mentais inspiram cinema</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Carolina Ramos</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma lista infind&aacute;vel de produ&ccedil;&otilde;es nas &aacute;reas de literatura, cinema e teatro manifesta o interesse de seus autores pelo conhecimento cient&iacute;fico. Isso acontece principalmente entre os cineastas, especialmente em uma &aacute;rea de estudo que desperta a curiosidade por tentar desvendar e compreender melhor a natureza humana: os transtornos mentais analisados pela psican&aacute;lise e psiquiatria.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Rico em obras inspiradas nos mais diversos campos da ci&ecirc;ncia, o cinema se destaca por apresentar em algumas produ&ccedil;&otilde;es uma forte cr&iacute;tica &agrave; psiquiatria, mais especificamente no que diz respeito ao tratamento dos dist&uacute;rbios mentais que, em determinada &eacute;poca, podiam ser interpretados como brutais. "Temos um longo per&iacute;odo de cr&iacute;tica contra a psiquiatria nos anos 70 do s&eacute;culo passado, ilustrado especialmente pelo filme <i>Um estranho no ninho"</i>, comenta o m&eacute;dico Jos&eacute; Paulo Fiks, doutor em comunica&ccedil;&atilde;o social e autor de quatro livros relacionando psiquiatria e cultura.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O filme mencionado por Fiks - cujo t&iacute;tulo original &eacute; <i>One flew over the cuckoo's nest</i>, de 1975, de grande sucesso e ganhador de muitos pr&ecirc;mios, entre eles cinco Oscars - &eacute; estrelado pelo ator Jack Nicholson, interpretando um detento rebelde chamado Randall McMurphy que finge ser louco para ser transferido para um asilo onde, ele imaginou, seria mais f&aacute;cil viver. L&aacute;, &eacute; submetido &agrave; lobotomia, t&eacute;cnica que consiste na retirada de uma parte do c&eacute;rebro de pacientes com certos tipos de doen&ccedil;as mentais como forma de acalm&aacute;-los. Para casos assim, a lobotomia n&atilde;o &eacute; mais praticada, dando lugar aos medicamentos ou psicoterapia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para Fiks, as pazes da psiquiatria com as artes come&ccedil;aram a ser feitas pela literatura. "V&aacute;rios autores, como William Syron em <i>A escolha de Sofia</i>, e outros, abriram suas depress&otilde;es via literatura. Hoje, vemos entre os livros mais vendidos v&aacute;rios t&iacute;tulos que tratam de desordens mentais, a exemplo de depress&atilde;o, transtorno bipolar, transtorno de d&eacute;ficit de aten&ccedil;&atilde;o e hiperatividade (TDAH) e transtornos de personalidade".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">J&aacute; no cinema, &eacute; a partir dos anos 90 que tem in&iacute;cio a produ&ccedil;&atilde;o de alguns filmes que tentam retratar o transtorno mental de forma mais pr&oacute;xima &agrave; cl&iacute;nica, muito provavelmente acompanhando a evolu&ccedil;&atilde;o dos tratamentos psiqui&aacute;tricos, que passaram de t&eacute;cnicas de tratamento como a lobotomia para a medica&ccedil;&atilde;o e a psicoterapia. Exemplos n&atilde;o faltam. Destacando-se apenas alguns, tem-se o retrato do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) em <i>Melhor &eacute; imposs&iacute;vel (As good as it gets,</i> 1997<i>)</i>, protagonizado pelo ator Jack Nicholson que, novamente, encarna um personagem fora dos padr&otilde;es de comportamento estabelecidos; o transtorno bipolar como foco em <i>Mr. Jones (Mr. Jones,</i> 1993), drama estreado pelo ator Richard Gere, e <i>Garota interrompida</i> (<i>Girl, interruped,</i> 1999<i>)</i> que trata de depress&atilde;o e de transtornos de conduta alimentar e que rendeu um Globo de Ouro e o Oscar de melhor atriz coadjuvante &agrave; atriz Angelina Jolie.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa ampla galeria de personagens portadores de transtornos mentais nem sempre &eacute; ficcional, mas tamb&eacute;m artistas e personalidades, v&iacute;timas desses dist&uacute;rbios t&ecirc;m sido retratados no cinema. S&atilde;o pessoas que fizeram hist&oacute;ria em v&aacute;rios campos art&iacute;sticos e na ci&ecirc;ncia. Dois deles s&atilde;o retratados nos filmes <i>As horas (The hours,</i> 2002) abordando v&aacute;rios quadros depressivos e de ansiedade que atormentavam a escritora Virginia Woolf, e <i>Uma mente brilhante (A beatiful mind</i>, 2001) contando a hist&oacute;ria do matem&aacute;tico John Nash, ganhador do Pr&ecirc;mio Nobel de Economia em 1994, portador de esquizofrenia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os filmes, pe&ccedil;as e livros que abordam essa quest&atilde;o, acabam provocando uma "divulga&ccedil;&atilde;o" das doen&ccedil;as mentais, o que tem como consequ&ecirc;ncia o aumento da procura pelos consult&oacute;rios m&eacute;dicos. "Os pacientes chegam em busca de esclarecimento. Mas outro aspecto importante &eacute; a diminui&ccedil;&atilde;o de preconceitos. Quando determinado assunto pol&ecirc;mico, como o transtorno mental, a psiquiatria, a psicoterapia e, especialmente, o uso de psicotr&oacute;picos &eacute; trazido &agrave; tona, o debate tem sido imediato. Isso ajuda a difundir as quest&otilde;es levantadas pelos diagn&oacute;sticos e pelos tratamentos, o que &eacute; extremamente positivo para todos", avalia Fiks.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa divulga&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se restringe ao campo psiqui&aacute;trico e colabora com a amplia&ccedil;&atilde;o do conhecimento na &aacute;rea das doen&ccedil;as neurol&oacute;gicas, a exemplo do autismo no caso do filme <i>Rain man</i> (<i>Rain man</i>, 1988) - que deu o Oscar de melhor ator a Dustin Hoffman em 1989. O filme contribuiu para a divulga&ccedil;&atilde;o do autismo mais do que todos os artigos cient&iacute;ficos j&aacute; escritos sobre o assunto, na avalia&ccedil;&atilde;o do m&eacute;dico neurologista Edson Jos&eacute; Am&acirc;ncio. J&aacute; o filme argentino <i>O filho da noiva</i> (<i>El hijo de la novia</i>, 2001), elogiado pelos cr&iacute;ticos e ganhador de muitos pr&ecirc;mios, retrata de maneira emocionante o caso da personagem Norma, uma v&iacute;tima de Alzheimer.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Al&eacute;m disso, o impacto das produ&ccedil;&otilde;es cinematogr&aacute;ficas pode, por outro lado, influenciar os caminhos da pr&oacute;pria ci&ecirc;ncia. Um exemplo &eacute;, mais uma vez, o filme <i>Um estranho no ninho</i>. "Essa produ&ccedil;&atilde;o ajudou a soterrar a lobotomia, usada at&eacute; pouco tempo", comenta o neurologista Am&acirc;ncio. A t&eacute;cnica foi desenvolvida pelo neurologista portugu&ecirc;s Ant&oacute;nio Egas Moniz (Egas), e garantiu a ele o Pr&ecirc;mio Nobel de Medicina e Fisiologia em 1949. Nos Estados Unidos, onde a lobotomia foi aprimorada, mais de 30 mil cirurgias foram realizadas. " Era uma t&eacute;cnica consagrada no tratamento de esquizofrenia, entre outros transtornos. Afinal, ainda n&atilde;o havia rem&eacute;dio para esses casos", diz Am&acirc;ncio.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Arte inspira ci&ecirc;ncia</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Se, por um lado, &eacute; poss&iacute;vel concluir que a ci&ecirc;ncia inspira a arte, seria poss&iacute;vel ent&atilde;o admitir que a rela&ccedil;&atilde;o &eacute; rec&iacute;proca? A resposta positiva em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; psican&aacute;lise, que encontra material f&eacute;rtil nos artistas e em suas produ&ccedil;&otilde;es para a constru&ccedil;&atilde;o de suas teorias situadas no campo dos dist&uacute;rbios mentais. O m&eacute;dico psiquiatra Cl&aacute;udio Rossi, em seu artigo <u>"Arte e psican&aacute;lise na constru&ccedil;&atilde;o do humano"</u>, coloca: "como se sabe, boa parte das teorias psicanal&iacute;ticas, posta em termos cient&iacute;ficos, baseou-se em obras de arte. Freud n&atilde;o escondia sua admira&ccedil;&atilde;o por Shakespeare e por Goethe. Seu estudo sobre a obra e a vida de Leonardo da Vinci foi fundamental para expor suas teorias sobre a sexualidade e em Wilhelm Jensen encontrou um bom apoio para sua teoria sobre a psicose. Isso para n&atilde;o dizer que a pedra angular de sua constru&ccedil;&atilde;o encontrou no <i>&Eacute;dipo rei</i>, de S&oacute;focles, sua possibilidade de vir &agrave; luz".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&atilde;o &eacute; s&oacute; na psican&aacute;lise que &eacute; poss&iacute;vel encontrar rela&ccedil;&otilde;es entre as produ&ccedil;&otilde;es art&iacute;sticas e a ci&ecirc;ncia. A neurologia tamb&eacute;m encontra na arte explica&ccedil;&otilde;es que contribuem para o avan&ccedil;o do conhecimento da &aacute;rea. Por exemplo, a primeira descri&ccedil;&atilde;o da epilepsia do lobo temporal foi feita por um escritor - Fi&oacute;dor Dostoi&eacute;vski - e n&atilde;o por um m&eacute;dico. "A neurologia rende tributo a Dostoi&eacute;vski. Ele - que sofria de epilepsia do lobo temporal - foi o autor da primeira descri&ccedil;&atilde;o, no romance <i>O idiota</i>, da aura (est&aacute;gio que antecede a crise epil&eacute;tica) com alegria e &ecirc;xtase", comenta Am&acirc;ncio, um profundo conhecedor da obra do escritor russo e autor de v&aacute;rios artigos, ensaios e de um romance, ainda n&atilde;o publicado, sobre ele.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O livro <i>Proust foi um neurocientista - como a arte antecipa a ci&ecirc;ncia</i> aborda justamente o fato de artistas tomarem a dianteira em alguns casos. Em seu artigo <u>"Madeleine, sinapses e neur&ocirc;nios"</u>, publicado na edi&ccedil;&atilde;o de 26 de fevereiro deste ano do jornal <i>O Estado de S. Paulo</i>, o autor S&eacute;rgio Augusto comenta o lan&ccedil;amento dessa obra: "Na capa poderia estar o pintor Paul C&eacute;zanne ou o compositor Igor Stravinsky ou o poeta Walt Whitman ou as escritoras Virginia Woolf, Gertrude Stein e George Eliot, pois todos estes (...) anteciparam descobertas da neuroci&ecirc;ncia e sacaram verdades (reais e tang&iacute;veis) sobre a mente humana que s&oacute; agora a ci&ecirc;ncia est&aacute; ' redescobrindo', segundo o autor do livro, Jonah Lehrer".</font></p>      ]]></body>

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