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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Silvio Meira: em entrevista à ComCiência, Silvio Meira fala sobre o Porto Digital de Recife que, com apenas dez anos de existência, é referência em tecnologia da informação]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ENTREVISTA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Silvio Meira: em entrevista &agrave; ComCi&ecirc;ncia, Silvio Meira fala sobre o Porto Digital de Recife que, com apenas dez anos de exist&ecirc;ncia, &eacute; refer&ecirc;ncia em tecnologia da informa&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Leonor Assad</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n125/a13fig01.jpg"></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Presidente do Conselho de Administra&ccedil;&atilde;o do Porto Digital de Recife h&aacute; dez anos, <b>Silvio Meira</b> &eacute; um entusiasmado pelo seu trabalho. Al&eacute;m de professor titular de engenharia de software do Centro de Inform&aacute;tica da universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e cientista-chefe do Centro de Estudos e Sistemas Avan&ccedil;ados do Recife (C.E.S.A.R.), ele &eacute; presidente do Conselho Gestor do Porto Digital em Recife. &Eacute; tamb&eacute;m membro de v&aacute;rios conselhos e comiss&otilde;es na &aacute;rea de tecnologia da informa&ccedil;&atilde;o, colunista e comentarista em r&aacute;dio e jornal, blogueiro e batuqueiro de maracatu.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ComCi&ecirc;ncia - O Porto Digital, no Recife, &eacute; definido como um Arranjo Produtivo de Tecnologia da Informa&ccedil;&atilde;o e Comunica&ccedil;&atilde;o, com foco no desenvolvimento de software. Como surgiu essa ideia de criar esse arranjo produtivo em Recife?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Silvio Meira</b> - O Porto Digital foi uma conjun&ccedil;&atilde;o de muitas coisas que j&aacute; existiam. Em meados da d&eacute;cada de 1980, constatou-se que havia em Recife um conjunto de pr&eacute;-condi&ccedil;&otilde;es para a instala&ccedil;&atilde;o de um polo na &aacute;rea de tecnologia da informa&ccedil;&atilde;o. &Eacute; preciso ressaltar que Pernambuco tem duas das dez mais antigas empresas de software no Brasil. Assim, t&iacute;nhamos empres&aacute;rios do setor de tecnologia da informa&ccedil;&atilde;o de Pernambuco, alguns muito antigos, e novas empresas, que se articulavam a partir de compet&ecirc;ncias criadas pelas institui&ccedil;&otilde;es de ensino na &aacute;rea de ci&ecirc;ncia da informa&ccedil;&atilde;o, primeiro no Centro de Inform&aacute;tica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e depois em v&aacute;rias outras como a rural Universidade Federal Rural de Pernambuco, a estadual Universidade de Pernambuco e a cat&oacute;lica Universidade Cat&oacute;lica de Pernambuco. Paralelamente, tinha-se tamb&eacute;m a percep&ccedil;&atilde;o dos agentes de pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, do Estado e do terceiro setor, de que havia oportunidade para se criar um polo aglutinador para a ind&uacute;stria de tecnologia da informa&ccedil;&atilde;o de Pernambuco. E, finalmente, e no topo de tudo, havia uma percep&ccedil;&atilde;o de pessoas do servi&ccedil;o p&uacute;blico de que aglomerar ind&uacute;stria em torno de algo como um parque ou um polo de tecnologia, podia servir como mecanismo para re-invadir o centro de Recife,</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ComCi&ecirc;ncia - Mas por que o centro de Recife? A maioria dos parques tecnol&oacute;gicos, tanto no Brasil como em outros pa&iacute;ses, situa-se na periferia de cidades ou dentro de um campus universit&aacute;rio.</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Silvio Meira</b> - Pois &eacute;, o centro de Recife &eacute; um lugar problem&aacute;tico, como todo centro de grande cidade do mundo. E o centro de Recife tem grande valor hist&oacute;rico, pois &eacute; o lugar onde a cidade nasceu, onde Nassau invadiu Pernambuco, de onde n&oacute;s expulsamos Nassau, &eacute; onde foi constru&iacute;da a primeira sinagoga da Am&eacute;rica Latina, onde foi constru&iacute;da a primeira ponte da Am&eacute;rica Latina... &Eacute; um lugar de valor hist&oacute;rico, cultural, urban&iacute;stico, arquitet&ocirc;nico muito forte. Mas esse centro tem um problema: l&aacute; est&aacute; o porto e o porto de Recife se acabou, num processo que come&ccedil;ou na d&eacute;cada de 70 do s&eacute;culo passado e se acabou completamente por volta da metade da d&eacute;cada de 90. Percebeu-se que havia um valor urban&iacute;stico nisso de criar um polo de tecnologia e tentar aglutinar as ind&uacute;strias e centros de inova&ccedil;&atilde;o no centro da cidade de Recife. Pois uma ind&uacute;stria de conhecimento baseada em tecnologia da informa&ccedil;&atilde;o, que &eacute; s&oacute; gente, &eacute; uma ind&uacute;stria limpa, que ocuparia de volta o lugar ou que ajudaria significativamente a ocupar o lugar com a din&acirc;mica do setor privado, com a din&acirc;mica do setor de software, que &eacute; uma din&acirc;mica muito r&aacute;pida e de grande potencial. Isso que foi pensado em 1998 -1999, e come&ccedil;ou a ser feito em 2000.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ComCi&ecirc;ncia - Pois &eacute;, o Porto Digital de Recife comemorou em 2010 seus primeiros dez anos de vida e, a julgar pelas not&iacute;cias, s&atilde;o dez anos de muito trabalho e de importantes realiza&ccedil;&otilde;es. O que o Porto Digital representa hoje em termos de desenvolvimento local?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Silvio Meira</b> - Por meio dos empres&aacute;rios que se instalaram, o Porto Digital j&aacute; recuperou mais de 50 mil m2 de pr&eacute;dios numa regi&atilde;o hist&oacute;rica onde ainda h&aacute; um n&uacute;mero assustador de pr&eacute;dios que est&atilde;o, como se diz aqui no Recife, em peti&ccedil;&atilde;o de mis&eacute;ria. Est&atilde;o literalmente caindo, interditados por a&ccedil;&atilde;o do Minist&eacute;rio P&uacute;blico. Na ilha ainda h&aacute; uma quantidade gigantesca de pr&eacute;dios que est&atilde;o em estado catastr&oacute;fico. Para se ter uma ideia, na d&eacute;cada de 70 a ilha foi em parte favelizada. No centro hist&oacute;rico do Recife, dentro do Porto, havia uns armaz&eacute;ns que foram derrubados, e no lugar deles n&atilde;o foi constru&iacute;do nada. Numa parte do centro de Recife - no centro mesmo, como se fosse a Candel&aacute;ria no Rio de Janeiro ou na Pra&ccedil;a da Rep&uacute;blica em S&atilde;o Paulo - existe uma comunidade que tem o menor IDH &Iacute;ndice de Desenvolvimento Humano da cidade. Nessa comunidade, situada em frente ao pr&eacute;dio da administra&ccedil;&atilde;o municipal, a prefeitura est&aacute; investindo em requalifica&ccedil;&atilde;o urbana.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ComCi&ecirc;ncia    - Quer dizer que houve uma inten&ccedil;&atilde;o deliberada, por parte dos    criadores do Porto Digital, de recuperar o centro de Recife em termos urban&iacute;sticos,    arquitet&ocirc;nicos e culturais?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Silvio Meira</b> - Sim, isso foi intencional, isso foi planejado. Mas, diga-se de passagem: no come&ccedil;o eu era contra. No come&ccedil;o eu estava profundamente envolvido com a universidade e o C.E.S.A.R., que estava dentro da UFPE. E a minha ideia pessoal era de que, em vez de querer recuperar o centro de Recife, - que para mim era um problema enorme, que eu sempre disse que era uma &aacute;rea hist&oacute;rica, uma &aacute;rea tombada -, dev&iacute;amos fazer isso na universidade, junto do campus da universidade. Chegamos a fazer um projeto de duas torres, de 20 andares, que criariam uma &aacute;rea de 40 mil m 2 na universidade. Essa proposta chegou a ser discutida internamente. Mas eu fui convencido por Claudio Marinho, secret&aacute;rio de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia de Pernambuco, um urbanista, uma pessoa extremamente humanista, muito mais consciente do que eu, pelo menos na &eacute;poca, sobre o valor do territ&oacute;rio urbano, sobre a import&acirc;ncia da renova&ccedil;&atilde;o, sobre a import&acirc;ncia de trazer as pessoas de volta para o centro da cidade, de recondicionar o centro urbano. E a&iacute;, numa reuni&atilde;o numa pra&ccedil;a no centro hist&oacute;rico de Recife, no fim de 1999, eu disse para o Claudio: "est&aacute; bem, voc&ecirc; venceu. Vamos fazer no centro de Recife. Eu vou mudar de ideia, vou pular de cabe&ccedil;a nessa proposta e vou trabalhar com todas as minhas for&ccedil;as para ela dar certo". Porque ali, naquela reuni&atilde;o eu comecei a ver que o Claudio tinha um conjunto de argumentos que eram muito mais fortes do que os meus. Ele nos convenceu e n&oacute;s nos tornamos at&eacute; mais radicais na defesa dessa ideia, como n&atilde;o podia deixar de ser, pois os crist&atilde;os novos s&atilde;o sempre mais radicais risos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ComCi&ecirc;ncia - Como s&atilde;o os investimentos para o Porto Digital? Existem recursos p&uacute;blicos aplicados diretamente ou &eacute; apenas redu&ccedil;&atilde;o de impostos para as empresas?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Silvio Meira</b> - O investimento da prefeitura &eacute; todo indireto, por meio da desonera&ccedil;&atilde;o de impostos. As empresas de inform&aacute;tica que se instalam na ilha, que &eacute; o centro de Recife, t&ecirc;m 60% de abatimento no ISS Imposto Sobre Servi&ccedil;os - imposto pago por ind&uacute;strias de software - com o compromisso de aumentar o faturamento baseado no aumento da qualifica&ccedil;&atilde;o, da certifica&ccedil;&atilde;o e da competitividade de pessoas e de empresas instaladas no Porto Digital. Assim, a cidade do Recife hoje recebe muito mais imposto do setor de software do que em 2000. Ou seja, o setor produtivo &eacute; menos taxado, mas paga mais imposto porque aumenta o seu faturamento.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O estado de Pernambuco investe de forma direta e indireta. O Estado entra com contrapartidas em projetos por meio dos quais o N&uacute;cleo de Gest&atilde;o do Porto Digital capta no pa&iacute;s e, em alguns casos, no exterior. Al&eacute;m disso, o Estado cedeu um pr&eacute;dio ao Porto Digital por 10 anos cuja rentabilidade mobili&aacute;ria financia a&ccedil;&otilde;es do Porto Digital, como, por exemplo, remunerar gerentes, pessoas que trabalham na articula&ccedil;&atilde;o do Porto Digital, no marketing, no treinamento, na capacita&ccedil;&atilde;o etc. Tem-se tamb&eacute;m recursos diretos do Sebrae Servi&ccedil;o Brasileiro de Apoio &agrave;s Micro e Pequenas Empresas, extremamente importantes na inova&ccedil;&atilde;o, na cria&ccedil;&atilde;o de um novo neg&oacute;cio, no empreendedorismo; recursos do Minist&eacute;rio da Ci&ecirc;ncia e Tecnologia; do Minist&eacute;rio da Cultura, porque o Porto Digital tamb&eacute;m articula diversas a&ccedil;&otilde;es na dire&ccedil;&atilde;o da economia criativa; do Minist&eacute;rio da Integra&ccedil;&atilde;o Nacional; da Finep Financiadora de Estudos e de Projetos, porque o Porto Digital &eacute; um parque tecnol&oacute;gico, &eacute; uma incubadora de empresas. Mas, mais do que tudo isso, tem-se os investimentos dos empres&aacute;rios e empreendedores.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ComCi&ecirc;ncia - &Eacute; poss&iacute;vel se ter uma ideia de quantas empresas e quantas pessoas est&atilde;o atualmente envolvidas diretamente com as atividades do Porto Digital?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Silvio Meira</b> - Eu tenho dados, que acabaram de sair ontem 3 de fevereiro de 2011, n&atilde;o foram publicados ainda e eu vou te passar em primeira m&atilde;o: no Porto Digital de Recife em dezembro de 2010, t&iacute;nhamos 170 empresas, com 700 milh&otilde;es de reais de faturamento, 6.000 colaboradores e 450 empreendedores, ou seja, de 2-3 empreendedores por empresa. Se tomarmos por base o dado anterior que t&iacute;nhamos, em dezembro de 2008 eram 140 empresas, com 450 milh&otilde;es de reais de faturamento, e 4.000 colaboradores. E isso com o ano de 2009, que foi uma cat&aacute;strofe do ponto de vista dos neg&oacute;cios, quando a ind&uacute;stria brasileira como um todo diminuiu de 7 ou 8%, dependendo do segmento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ComCi&ecirc;ncia    - O Porto Digital &eacute; hoje uma realidade. O senhor nos mostrou sua import&acirc;ncia    para o desenvolvimento local, mas essa import&acirc;ncia &eacute; tamb&eacute;m    regional, para Pernambuco e para o Nordeste, n&atilde;o?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Silvio Meira</b> - Eu acho que podemos afirmar isso sim. O Porto Digital tem import&acirc;ncia regional porque atrai muita gente na regi&atilde;o para trabalhar no Recife. Dessas 6.000 pessoas que trabalham no Porto Digital atualmente, podemos contar que seguramente umas 2000 n&atilde;o s&atilde;o daqui, vieram para c&aacute;. Isso porque, em todo processo de pico de desenvolvimento, quando se induz a acelera&ccedil;&atilde;o do desenvolvimento de algum lugar, atrai-se muita gente de fora porque se cria um conjunto de picos de oferta de trabalho com o qual as regi&otilde;es ao redor n&atilde;o conseguem competir. E isso cria um influxo muito grande de capital humano. Eu acho que o Porto Digital hoje, pela forma como foi feito, &eacute; uma pol&iacute;tica p&uacute;blica de estado e de cidade. Est&aacute; localmente codificado e aprovado pela Assembl&eacute;ia Legislativa e pelo governo do estado de Pernambuco, bem como pela C&acirc;mara de Vereadores e pela prefeitura da cidade de Recife.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mas, eu acho que podemos ser mais radicais. H&aacute; muito Recife tem uma compet&ecirc;ncia instalada em tecnologia da informa&ccedil;&atilde;o e forma gente, que acaba indo trabalhar na Microsoft nos Estados Unidos, na Nokia na Finl&acirc;ndia, para citar apenas dois exemplos. Esses lugares s&atilde;o picos mundiais de compet&ecirc;ncia, nos seus cen&aacute;rios econ&ocirc;micos ou tecnol&oacute;gicos. Essas pessoas, pelo reconhecimento de suas compet&ecirc;ncias nos lugares para onde v&atilde;o, passam a apontar de volta para os lugares de onde vieram. Ou seja, saem daqui para Finl&acirc;ndia, por exemplo, e depois apontam de volta para c&aacute;. E a&iacute;, projetos na Finl&acirc;ndia acabam sendo contratados e feitos aqui em Recife. Tem pessoas aqui que v&atilde;o para a Sony dos Estados Unidos e de repente subcontratam empresas do Porto Digital para fazer grandes projetos de jogos. Essa &eacute; uma das peculiaridades do que poder&iacute;amos chamar de vai e vem tecnol&oacute;gico internacional. Esse movimento valioso, de recupera&ccedil;&atilde;o e de trocas globais, aconteceria com intensidade muito menor se as pessoas s&oacute; ficassem aqui em Recife.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ComCi&ecirc;ncia - Como se d&aacute; a gest&atilde;o do Porto Digital?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Silvio Meira</b> - Logo ap&oacute;s a cria&ccedil;&atilde;o do Porto Digital foi criada uma legisla&ccedil;&atilde;o, que transformou o Porto Digital em pol&iacute;tica p&uacute;blica, e um &oacute;rg&atilde;o chamado N&uacute;cleo de Gest&atilde;o do Porto Digital, uma OS Organiza&ccedil;&atilde;o Social, para gerir o espa&ccedil;o e criar o melhor ambiente de neg&oacute;cio de tecnologia da informa&ccedil;&atilde;o da Am&eacute;rica Latina.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ComCi&ecirc;ncia    - Tem havido (ou houve) resist&ecirc;ncia de algum setor para a implanta&ccedil;&atilde;o    do Porto Digital?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Silvio Meira</b> - Muitos obst&aacute;culos existiram e continuam a existir. O processo de desenvolvimento de um sistema local de inova&ccedil;&atilde;o, como o Porto Digital, &eacute; interpretado por uns como um parque tecnol&oacute;gico urbano, e est&atilde;o certos de fazer isso. Mas, do nosso ponto de vista, &eacute; um sistema local de inova&ccedil;&atilde;o, quero dizer, &eacute; um modelo de re-desenvolvimento, de re-encontro de uma parte da cidade com um futuro potencial com o qual talvez ela nunca tenha pensado. N&oacute;s estamos pensando em novos modelos de neg&oacute;cio, estamos pensando n&atilde;o s&oacute; em empresa de tecnologia, fazendo tecnologia das mais limpas do mundo, mas em novos modos de viver o centro da cidade. Quando olhamos para a hist&oacute;ria mundial de parque tecnol&oacute;gico &eacute; sempre uma a&ccedil;&atilde;o estruturante, de pol&iacute;tica p&uacute;blica, com financiamentos muito grandes e de muito longo prazo - que &eacute; uma coisa que n&atilde;o ocorre no Brasil - e com uma perspectiva de tempo de matura&ccedil;&atilde;o muito longa - que tamb&eacute;m &eacute; uma coisa que n&atilde;o estamos acostumados a pensar no Brasil. O horizonte de desenvolvimento e de estabiliza&ccedil;&atilde;o de um parque tecnol&oacute;gico &eacute; normalmente de uns 25 anos. Ent&atilde;o, quando vemos a Sic&iacute;lia, ou o parque ao redor de Cambridge, ou o cintur&atilde;o ao redor de Boston, ou mesmo o Silicon Valley, n&atilde;o s&atilde;o parques; s&atilde;o regi&otilde;es de inova&ccedil;&atilde;o. No Jap&atilde;o, ao redor de Tsukuba, na Coreia, na China, em Taiwan, temos regi&otilde;es que levam um quarto de s&eacute;culo para criar empresas &acirc;ncoras, que por sua vez irrigam empresas pequenas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">N&oacute;s, no Porto Digital, estamos no fim da primeira d&eacute;cada de um processo que interpretamos como sendo de um quarto de s&eacute;culo. Vamos saber se Porto Digital deu certo ou n&atilde;o e a que ele veio e o que ele fez ao redor de 2025, quando ele ter&aacute; passado por quatro ou cinco transi&ccedil;&otilde;es de governo estadual, municipal, federal; quando as empresas ter&atilde;o se estabelecido no lugar, quando o papel do Estado ser&aacute; bem menos relevante do que &eacute; hoje, quando as figuras de proa que propuseram, incentivam e tocam o neg&oacute;cio, tiverem sido substitu&iacute;das. Eu, por exemplo, sou presidente do conselho do Porto Digital h&aacute; 10 anos, investindo meu tempo, meu conhecimento, minhas conex&otilde;es nesse neg&oacute;cio, assim como muitas outras pessoas. &Agrave; medida que a primeira gera&ccedil;&atilde;o de empreendedores sociais for substitu&iacute;da - por necessidade, por cansa&ccedil;o, por aparecimento de uma nova leva de empreendedores - e que os governos passarem a tratar o Porto Digital n&atilde;o mais como uma inst&acirc;ncia temporal, mas como parte do cen&aacute;rio, como uma pol&iacute;tica p&uacute;blica com dois p&ecirc;s mai&uacute;sculos, uma pol&iacute;tica de Estado e n&atilde;o de um partido, a&iacute; ent&atilde;o poderemos saber o que aconteceu. Mas precisamos esperar. O Brasil n&atilde;o &eacute; um pa&iacute;s para principiante, n&atilde;o &eacute; um pa&iacute;s para amador. &Eacute; um pa&iacute;s para profissionais que est&atilde;o dispostos a tratar o neg&oacute;cio no longo prazo.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ComCi&ecirc;ncia    - O senhor mencionou seu envolvimento, desde a cria&ccedil;&atilde;o, com o    Porto Digital e com o C.E.S.A.R.; o que &eacute; o C.E.S.A.R.? Qual a import&acirc;ncia    dele no contexto do Porto Digital?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Silvio Meira</b> - O C.E.S.A.R. &eacute; um instituto de inova&ccedil;&atilde;o criado a partir da ideia de um conjunto de professores do Centro de Inform&aacute;tica da UFPE, cujo papel original, e que depois transcendeu muito a isso, era criar relev&acirc;ncia econ&ocirc;mica para o trabalho que faz&iacute;amos. O C.E.S.A.R. foi criado numa &eacute;poca em que um grande n&uacute;mero de alunos que se formava na UFPE acabava indo para fora de Recife. Nesse cen&aacute;rio, criou-se uma institui&ccedil;&atilde;o cujo objetivo era atrair para Recife os problemas de um grau de complexidade que estavam atraindo os nossos alunos para fora de Recife. Ao fazer isso, t&iacute;nhamos dois objetivos: manter aqui uma propor&ccedil;&atilde;o maior de nossos alunos (n&oacute;s sab&iacute;amos que n&atilde;o &iacute;amos manter todos) e atrair para Recife ex-alunos de outros lugares que poderiam identificar aqui problemas complexos o suficiente para eles trabalharem. H&aacute; menos de cinco anos, o C.E.S.A.R. tinha menos de 10 clientes. Hoje s&atilde;o mais de 50 com cerca de 100 projetos. S&atilde;o projetos de inova&ccedil;&atilde;o para clientes de todo o Brasil, da Coreia, da Europa, dos Estados Unidos, da China. Hoje somos cerca de 500 pessoas trabalhando no C.E.S.A.R. propriamente dito e mais duzentas e poucas pessoas trabalhando numa f&aacute;brica de software chamada Pitang.com - de pitanga - de propriedade do C.E.S.A.R.. Quando come&ccedil;ou o Porto Digital, o C.E.S.A.R. saiu paulatinamente da UFPE e hoje est&aacute; totalmente instalado no Porto Digital. A interpreta&ccedil;&atilde;o do C.E.S.A.R. &eacute; que inova&ccedil;&atilde;o se aprende, se testa, se tenta, se faz e se ganha dinheiro no mercado. Inova&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se faz na universidade. Inclusive, inova&ccedil;&atilde;o em centros de informa&ccedil;&atilde;o isolados do mercado &eacute; fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ComCi&ecirc;ncia - Em que o pr&ecirc;mio 'Faz Diferen&ccedil;a' do jornal</b> <i>O Globo,</i> <b>com o qual voc&ecirc; foi recentemente contemplado, pode contribuir para consolidar o Porto Digital?</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Silvio Meira</b> -Todos n&oacute;s temos necessidade de personalizar um determinado n&uacute;mero de coisas no imagin&aacute;rio socioecon&ocirc;mico, cultural, pol&iacute;tico etc. Para mim o pr&ecirc;mio &eacute; o reconhecimento do trabalho de milhares de pessoas do Porto Digital, da UFPE, do C.E.S.A.R.. &Eacute; um incentivo gigantesco para essas pessoas todas continuarem fazendo o que est&atilde;o fazendo de uma forma muito mais intensa, muito mais competente, muito mais competitiva no cen&aacute;rio nacional e internacional. Para mim o que o pr&ecirc;mio representa &eacute; a recompensa e remunera&ccedil;&atilde;o psicol&oacute;gica, quase que ideol&oacute;gica, para um conjunto muito grande de pessoas que h&aacute; muito tempo v&ecirc;m tentando fazer da periferia um novo centro, sem deixar de ser periferia. Eu n&atilde;o sinto como se o pr&ecirc;mio fosse meu. Nunca senti. Eu nunca trabalhei para ganhar aplauso ou para ganhar pr&ecirc;mio. Eu digo isso de uma forma muito tranquila. Acho que pr&ecirc;mios s&atilde;o efeitos colaterais de um trabalho, no qual podemos agregar muita gente, at&eacute; sem querer. &Agrave;s vezes, as pessoas dizem: "escuta aqui esse neg&oacute;cio que voc&ecirc;s est&atilde;o fazendo a&iacute; &eacute; radical demais, eu n&atilde;o quero participar disso". Tem um n&uacute;mero suficientemente grande das empresas de tecnologia da informa&ccedil;&atilde;o no Recife que ainda n&atilde;o fazem parte do Porto Digital; preferem ficar do lado de fora e pagar mais imposto, porque acham que n&atilde;o compensa mudar. &Eacute; um processo no qual ainda estamos trabalhando. Mas quando se olha para 2000, quando o Porto Digital come&ccedil;ou, &eacute;ramos 3 ou 4 empresas. Hoje somos 170. N&atilde;o estamos falando de uma nem duas. Tenho certeza que eu n&atilde;o fui indicado para o pr&ecirc;mio "Faz Diferen&ccedil;a" porque eu sou Silvio Meira. Mas porque eu estava l&aacute; junto com as pessoas, olhando para esse neg&oacute;cio do Porto Digital, olhando para uma esp&eacute;cie de desenvolvimento de mundo, de uma forma totalmente diferente do que se prop&ocirc;s at&eacute; aqui. E ainda bem que isso est&aacute; acontecendo agora. Durante muito tempo Pernambuco ficou pensando em ind&uacute;stria e na falta da ind&uacute;stria que perdemos. Pernambuco j&aacute; foi um lugar industrialmente muito denso e por muito tempo. Essa ind&uacute;stria est&aacute; voltando, mas codificada de outra forma. O cen&aacute;rio que estamos trabalhando no Porto Digital &eacute; o de ind&uacute;strias criativas, centradas em conhecimento, sofisticada, complexa, e que sabemos fazer. Durante d&eacute;cadas formamos pessoas para fazer isso aqui. N&oacute;s estamos apontando para o futuro!</font></p>      ]]></body>

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