<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>1519-7654</journal-id>
<journal-title><![CDATA[ComCiência]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[ComCiência]]></abbrev-journal-title>
<issn>1519-7654</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Universidade Estadual de Campinas - Labjor]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S1519-76542011000100011</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Uma nova visão da universidade como produtora de conhecimento]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Paula]]></surname>
<given-names><![CDATA[Luciane Miranda de]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>10</day>
<month>02</month>
<year>2011</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>10</day>
<month>02</month>
<year>2011</year>
</pub-date>
<numero>125</numero>
<fpage>0</fpage>
<lpage>0</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1519-76542011000100011&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1519-76542011000100011&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1519-76542011000100011&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Uma nova vis&atilde;o da universidade como produtora de conhecimento</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Luciane Miranda de Paula</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O conhecimento &eacute; o objetivo primeiro e principal e a ess&ecirc;ncia de todas as propostas dos sistemas de educa&ccedil;&atilde;o superior. Ele &eacute; inerente a todo e a qualquer um desses sistemas, independentemente de seu pa&iacute;s e sua estrutura social. Nenhum conjunto de organiza&ccedil;&otilde;es abrange t&atilde;o largo campo de conhecimento como as universidades. A raz&atilde;o &eacute; simples: com a divis&atilde;o do trabalho na sociedade, todas as produ&ccedil;&otilde;es e resultados advindos de pesquisadores que est&atilde;o na educa&ccedil;&atilde;o superior s&atilde;o definidos como avan&ccedil;os. Este componente pr&aacute;tico de conhecimento avan&ccedil;ado configura-se juntamente com alguns diferenciais human&iacute;sticos e filos&oacute;ficos que s&atilde;o especificamente encontrados no perfil de tais pesquisadores.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Burton Clark faz uma considera&ccedil;&atilde;o elementar sobre tipos de conhecimento e grupos de conhecimento: "O conhecimento &eacute; o material b&aacute;sico ou subst&acirc;ncias, como corpos de ideias avan&ccedil;adas e redes relacionadas, que abrangem muito mais que culturas espec&iacute;ficas de cada na&ccedil;&atilde;o. Os acad&ecirc;micos t&ecirc;m se comprometido a descobrir novas facetas desse material b&aacute;sico e, atrav&eacute;s dessas descobertas, manipular, conservar, refinar e transmitir esses conhecimentos".(Clark,1983, p. 11)</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os autores Helga Nowotny, Peter Scott e Michael Gibbons (2003), em "<i>Mode 2" revisited: the new production of knowledge.</i> ("Modo 2" revisitado: a nova produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento), abordam a din&acirc;mica da ci&ecirc;ncia e da pesquisa em sociedades contempor&acirc;neas. Eles reuniram, nessa obra, alguns fil&oacute;sofos, historiadores e soci&oacute;logos da ci&ecirc;ncia prontos a discutir de que maneira a produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento e o processo de pesquisa est&atilde;o sendo radicalmente transformados em um novo paradigma.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">E sse novo paradigma da produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento foi chamado de "Modo 2" e envolve o conceito de um novo formato de produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento, um exemplo de distribui&ccedil;&atilde;o social de conhecimento. Nele, h&aacute; melhores mecanismos de ligar ci&ecirc;ncia e inova&ccedil;&atilde;o; seria o conhecimento "socialmente distribu&iacute;do", transdisciplinar e sujeito &agrave;s m&uacute;ltiplas responsabilidades.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O "Modo 1", descrito por Michael Gibbons e outros (Gibbons <i>et al.</i>, 1994), seria caracterizado pela teoria hegem&ocirc;nica ou ci&ecirc;ncia experimental, e tamb&eacute;m por uma dire&ccedil;&atilde;o interna de classifica&ccedil;&atilde;o de disciplinas e pela autonomia de cientistas e suas institui&ccedil;&otilde;es, como as universidades. Este seria o modelo acad&ecirc;mico centrado no pesquisador e em disciplinas, e a produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento seguiria um padr&atilde;o linear, da ci&ecirc;ncia b&aacute;sica &agrave; aplicada e, depois, ao desenvolvimento e &agrave; produ&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ao contr&aacute;rio disso, no "Modo 2", a produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento seria mais contextualizada, focada em problemas e capacitada a explorar caminhos da interdisciplinaridade.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Essa tens&atilde;o existente na pesquisa cient&iacute;fica refere-se &agrave; dicotomia entre pesquisa b&aacute;sica e pesquisa aplicada e, embora conceitualmente diferentes, analiticamente e do ponto de vista de seus objetivos, o que podemos destacar como relevante &eacute; a atual discuss&atilde;o de mudan&ccedil;a de paradigmas no conflito entre conhecimento e uso.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nowotny, Scott e Gibbons (2003) argumentam que a nova produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento &eacute; o resultado de uma vis&atilde;o p&oacute;s-moderna de pesquisa. Nesse processo, uma nova linguagem foi inventada: a linguagem da aplica&ccedil;&atilde;o, da relev&acirc;ncia, da contextualiza&ccedil;&atilde;o, do alcance, da transfer&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica e da gest&atilde;o do conhecimento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Os autores argumentam, ainda, que a natureza do processo da pesquisa est&aacute; sendo transformada, e descrevem algumas das tend&ecirc;ncias mais aceitas nessa transforma&ccedil;&atilde;o: a dire&ccedil;&atilde;o de prioridades da pesquisa, a comercializa&ccedil;&atilde;o da pesquisa e a responsabilidade da ci&ecirc;ncia. Como resultado dessas tend&ecirc;ncias, temos que o conhecimento &eacute; agora visto n&atilde;o como um bem p&uacute;blico, mas como uma propriedade intelectual, que &eacute; produzida, acumulada e comercializada como outros bens e servi&ccedil;os na sociedade do conhecimento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O conhecimento advindo da ci&ecirc;ncia e aplicado na sociedade, consequentemente, &eacute; o diferencial para a atra&ccedil;&atilde;o de mais investimentos para a pr&oacute;pria ci&ecirc;ncia. A organiza&ccedil;&atilde;o sist&ecirc;mica que se estende desde a aquisi&ccedil;&atilde;o do conhecimento at&eacute; a sua aplicabilidade &eacute; o que poder&aacute; refluir em financiamentos para a pr&oacute;pria universidade. E, embora consideradas como elementos de vanguarda pela sociedade contempor&acirc;nea - por sua miss&atilde;o institucional -, as universidades veem-se subordinadas a um sistema de economia global e obrigadas a adequar-se &agrave;s demandas desse sistema. Como um caminho, a transforma&ccedil;&atilde;o de sua pesquisa em inova&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A ideia que temos da universidade como centro de pesquisa, que pode estar associada hoje ao modelo norte-americano, tem, na verdade, suas ra&iacute;zes no idealismo germ&acirc;nico do in&iacute;cio do s&eacute;culo XIX, e uma marca disso pode ser a funda&ccedil;&atilde;o da Universidade de Berlim em 1810, sob a lideran&ccedil;a de Humboldt. Esse modelo alem&atilde;o chegou aos Estados Unidos apenas na segunda metade do s&eacute;culo XIX, com a cria&ccedil;&atilde;o da Universidade de Cornell, em 1865, e tamb&eacute;m da Universidade Johns Hopkins, em 1876. Por&eacute;m, somente ap&oacute;s a Segunda Guerra Mundial a pesquisa cient&iacute;fica ganha proemin&ecirc;ncia. Desde ent&atilde;o e at&eacute; hoje &eacute; desenvolvida pelos americanos em igualdade de import&acirc;ncia, paralelamente alinhada com a fun&ccedil;&atilde;o do ensino.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Podemos perceber que a conex&atilde;o e o relacionamento entre ensino superior e economia norte-americana, em alguns dos mais renomados centros de educa&ccedil;&atilde;o - como Universidade Stanford e Instituto de Tecnologia de Massachussets, por exemplo -, t&ecirc;m se provado extremamente adepta da concep&ccedil;&atilde;o do "Modo 2" de produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento (Gibbons <i>et al.</i>, 1994 apud Bernasconi, 2008, p. 46).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para ilustrar essa quest&atilde;o da transforma&ccedil;&atilde;o do conhecimento, um estudo que vale ressaltar aqui &eacute; <i>Pasteur's quadrant: basic science and technological innovation</i> (O quadrante de Pasteur: ci&ecirc;ncia b&aacute;sica e inova&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica), de Donald Stokes (1997).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Nessa obra, o autor analisa como uma na&ccedil;&atilde;o pode ganhar em competitividade, capturando os frutos da pesquisa b&aacute;sica em novas tecnologias. Ele faz uma an&aacute;lise das transforma&ccedil;&otilde;es recentes das pol&iacute;ticas de ci&ecirc;ncia e tecnologia em diferentes pa&iacute;ses, tomando como refer&ecirc;ncia o tratamento dado &agrave; dicotomia "ci&ecirc;ncia b&aacute;sica e ci&ecirc;ncia aplicada". O autor toma como ponto de partida as premissas sobre a ess&ecirc;ncia da pesquisa b&aacute;sica, estabelecidas por Vanevar Bush, em 1944, que serviram de base para o desenvolvimento de toda a pol&iacute;tica cient&iacute;fica do p&oacute;s-guerra.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma das premissas de Bush era a necessidade de manter a pesquisa b&aacute;sica afastada do ambiente de aplica&ccedil;&atilde;o. O seu primeiro c&acirc;none sobre pesquisa b&aacute;sica expressa sua cren&ccedil;a na perda de criatividade da ci&ecirc;ncia b&aacute;sica caso ela seja circunscrita pelo objetivo pr&aacute;tico, motivada para o uso, n&atilde;o para a descoberta e avan&ccedil;o de conhecimento. Por&eacute;m, o progresso resultante do desenvolvimento da pesquisa aplicada converte muito depressa as descobertas de ci&ecirc;ncia b&aacute;sica em inova&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas que v&atilde;o ao encontro de um amplo espectro de demandas da sociedade, em &aacute;reas como economia, defesa, sa&uacute;de e outras. Bush expressa sua vis&atilde;o do relacionamento entre ci&ecirc;ncia fundamental e inova&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica e conclui que os pa&iacute;ses que mais investirem em ci&ecirc;ncia b&aacute;sica colher&atilde;o mais frutos em inova&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica, visto que os avan&ccedil;os da ci&ecirc;ncia tamb&eacute;m ser&atilde;o convertidos em inova&ccedil;&atilde;o pelos processos de transfer&ecirc;ncia de tecnologia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Para Bush, se a pesquisa b&aacute;sica &eacute;, em uma palavra, compreens&atilde;o, e a pesquisa aplicada, uso, elas s&atilde;o conceitual e analiticamente diferentes e antag&ocirc;nicas. Essa quest&atilde;o &eacute; um conflito j&aacute; na vis&atilde;o de Bush, em seu primeiro c&acirc;none, quando ele fala de "uma perversa lei governando a pesquisa, ou seja, a aplicabilidade a afasta da pureza". Essa &eacute; uma forma est&aacute;tica do paradigma. No segundo c&acirc;none de Bush, h&aacute; a descri&ccedil;&atilde;o de uma figura de "modelo linear", sustentada na cren&ccedil;a de que os avan&ccedil;os cient&iacute;ficos ser&atilde;o convertidos em uso pr&aacute;tico pelo fluxo din&acirc;mico da ci&ecirc;ncia para a tecnologia. Essa premissa tem sido usada ainda nos dias atuais pelos gestores de pesquisa e desenvolvimento como a "sequ&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica" da ci&ecirc;ncia b&aacute;sica para a tecnologia, que mais tarde ser&aacute; conhecida como "transfer&ecirc;ncia tecnol&oacute;gica". Essa defini&ccedil;&atilde;o deixa claro que cada est&aacute;gio sucessivo depende do seu precedente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Contrapondo-se a essas ideias, Donald Stokes (1997) prop&ocirc;s um modelo matricial, combinando as dimens&otilde;es de utilidade e fundamentalidade do conhecimento cient&iacute;fico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por esse modelo, a busca de um conhecimento &uacute;til n&atilde;o mais se op&otilde;e &agrave; preocupa&ccedil;&atilde;o com o avan&ccedil;o do entendimento fundamental da natureza. Ao contr&aacute;rio, utilidade e fundamentalidade do conhecimento aparecem como dimens&otilde;es independentes que se comp&otilde;em para formar um espa&ccedil;o onde podemos alocar diferentes estrat&eacute;gias de produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Portanto, toda pesquisa voltada para a produ&ccedil;&atilde;o de conhecimento &eacute; complementar. Uma nova vis&atilde;o da universidade como produtora de conhecimento contempla os diferentes objetivos da pesquisa, e com essa coopera&ccedil;&atilde;o ser&aacute; poss&iacute;vel alcan&ccedil;ar resultados importantes e transformadores.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Luciane Miranda de Paula &eacute; psic&oacute;loga e diretora do Universo do Conhecimento - F&oacute;rum de Educa&ccedil;&atilde;o e Cultura Contempor&acirc;nea, do qual &eacute; idealizadora, juntamente com Yves Michaud, da Universidade Paris 5</i></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[ ]]></body>

</article>
