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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana"><B>EDITORIAL</B></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana"><b>Cartografia: entre ci&ecirc;ncia e poesia </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><B>Por Carlos Vogt </B></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">Sempre fui um aluno&#45;cart&oacute;grafo. Tinha fascina&ccedil;&atilde;o pelos mapas de todas as geografias. Pelos mapas TO, medievais, com os grandes continentes distribu&iacute;dos, tais como se concebiam &#151; &Aacute;sia, Europa, &Aacute;frica &#151;, distribu&iacute;dos pelo T e envolvidos no c&iacute;rculo do Mar Oceano; pelos mapas da Terra em disco, com bordas de precip&iacute;cios, precipitando a imagina&ccedil;&atilde;o nas profundezas profundas das &aacute;guas; pelos desenhos imaginados, corrigidos e acomodados a cada aproxima&ccedil;&atilde;o prov&aacute;vel do real; pelas cartas de navega&ccedil;&atilde;o; pela evolu&ccedil;&atilde;o dos mapas; pelos navegantes; pela teoria da evolu&ccedil;&atilde;o das esp&eacute;cies; pela viagem de Vasco da Gama &agrave;s &Iacute;ndias; pelos cart&oacute;grafos de Borges; pela cartografia de Marco P&oacute;lo apresentada a Kublai Khan no mapa das <i>Cidades Invis&iacute;veis</i>, de &Iacute;talo Calvino.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Com papel de seda para decalcar os mapas copiados dos Atlas contendo os contornos do mundo, fui um disciplinado copista do conhecimento que se conhecia nos bancos do Grupo, do Gin&aacute;sio e do Col&eacute;gio, nas escolas p&uacute;blicas do estado de S&atilde;o Paulo.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">O artesanato da c&oacute;pia, a sofistica&ccedil;&atilde;o dos tra&ccedil;os e dos detalhes, a curva em W do Rio Grande, l&aacute; em cima, dividindo S&atilde;o Paulo de Minas, as cores das matas, dos mares, das montanhas, os relevos secos e acidentados das terras, de suas vidas e mineralidades, o verde das planta&ccedil;&otilde;es, o adensamento urbano das costas litor&acirc;neas, dos litorais costeiros, o vazio da ocupa&ccedil;&atilde;o do solo, as eros&otilde;es das margens e dos sentimentos.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A primeira vez que naveguei por uma carta de descobrimento, seguindo a rota minuciosamente po&eacute;tica da grande aventura da expedi&ccedil;&atilde;o de Vasco da Gama no estabelecimento do novo e essencial Caminho das &Iacute;ndias, desci a costa da &Aacute;frica, contornei o Cabo das Tormentas e l&aacute; fui eu para&nbsp; Calecute no ritmo encantado das oitavas em decass&iacute;labos d'<i>Os Lus&iacute;adas</i>, de Luiz Vaz de Cam&otilde;es.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Da Pra&ccedil;a Santa Rita, em Sales Oliveira, perambulei pelas al&eacute;ias do jardim, lendo a &eacute;pica do descobrimento; nos bancos da pra&ccedil;a vazia, descansei das lides da aventura do real e do maravilhoso; sentado, ou caminhando, desenhei com o compasso da leitura, a rota das caravelas que rasgaram oceanos e costuraram a l&iacute;ngua portuguesa com o alinhavo da poesia. De Sales Oliveira, interior do estado de S&atilde;o Paulo, perto do Tri&acirc;ngulo Mineiro, fiz o contorno de um mundo que j&aacute; n&atilde;o existia, por ser historicamente passado, que n&atilde;o existe, por ser de fic&ccedil;&atilde;o po&eacute;tica, e que existir&aacute; sempre pelas mesmas raz&otilde;es de sua n&atilde;o exist&ecirc;ncia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Em que parte dos oceanos da volta estaria situada na geografia do mundo a Ilha dos Amores, que, nos contos IX e X, acolhe, como pr&ecirc;mio concedido por V&ecirc;nus, os navegadores, com as del&iacute;cias de um para&iacute;so m&iacute;tico&#45;pag&atilde;o e m&iacute;stico&#45;crist&atilde;o? E a m&aacute;quina do mundo apresentada pela ninfa T&eacute;tis a Vasco da Gama? E a Harmonia que ali se estabelece pela transcend&ecirc;ncia do Amor? E as desilus&otilde;es do poeta com o destino da p&aacute;tria e com o seu pr&oacute;prio destino?</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Depois da viagem d'<i>Os Lus&iacute;adas</i>, nos bancos de jardim, da Pra&ccedil;a Santa Rita, em Sales Oliveira, nunca mais, sem que ainda soubesse, deixei de perseguir o mapa que me levaria, anos depois, a encontrar&#45;me com o encontro da poesia com a cartografia: <i>Cantografia &#151; O itiner&aacute;rio do carteiro cart&oacute;grafo </i>&eacute; o t&iacute;tulo do primeiro livro, que publiquei em 1982.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Pelo lado da linguagem, com os estudos sem&acirc;nticos a que me dediquei, dediquei&#45;me tamb&eacute;m &agrave;s formas de representa&ccedil;&atilde;o e de apresenta&ccedil;&atilde;o do mundo, nela, dela no mundo, e de n&oacute;s no mundo dela.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Nesse ponto do itiner&aacute;rio, encontrei as ru&iacute;nas do mapa perfeito de que fala Borges em sua <i>Hist&oacute;ria Universal da Inf&acirc;mia</i> e escrevi meu primeiro ensaio sobre significa&ccedil;&atilde;o lingu&iacute;stica e o sentido da linguagem. Chamei&#45;o "A palavra envolvente" e nele, at&eacute; hoje, fiquei enredado, como o marinheiro que enfrenta a f&uacute;ria do gigante Adamastor e que depois do susto do Cabo das Tormentas passa a cham&aacute;&#45;lo da Boa Esperan&ccedil;a, que assim perdura.</font></p>     <blockquote>       <p><font size="2" face="Verdana">"... Naquele imp&eacute;rio, a Arte da Cartografia alcan&ccedil;ou tal Perfei&ccedil;&atilde;o que o mapa duma Prov&iacute;ncia ocupava uma Cidade inteira, e o mapa do Imp&eacute;rio uma Prov&iacute;ncia inteira. Com o tempo esses Mapas Desmedidos n&atilde;o bastaram e os Col&eacute;gios de Cart&oacute;grafos levantaram um Mapa do Imp&eacute;rio, que tinha o Tamanho do Imp&eacute;rio e coincidia com ele ponto por ponto. Menos Dedicadas ao Estudo da Cartografia, as Gera&ccedil;&otilde;es Seguintes decidiram que esse dilatado Mapa era In&uacute;til e n&atilde;o sem Impiedades entregaram&#45;no &agrave;s Inclem&ecirc;ncias do Sol e dos Invernos. Nos desertos do Oeste perduram despeda&ccedil;adas Ru&iacute;nas do Mapa habitadas por Animais e Mendigos; em todo o Pa&iacute;s n&atilde;o h&aacute; outra rel&iacute;quia das Disciplinas Geogr&aacute;ficas."</font></p> </blockquote>     <p><font size="2" face="Verdana">Duas observa&ccedil;&otilde;es que poderiam ser sugeridas pelo texto, al&eacute;m de muitas outras que sua beleza exp&otilde;e: a primeira relacionada com a representa&ccedil;&atilde;o dos fen&ocirc;menos naturais e a segunda, com a natureza dos fen&ocirc;menos da representa&ccedil;&atilde;o.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">O conto de Borges, que "s&oacute; cita" um texto de Su&aacute;rez Miranda, de 1658, j&aacute; se apresenta como uma representa&ccedil;&atilde;o de uma representa&ccedil;&atilde;o do s&eacute;culo XVII, que na forma de uma alegoria, traz para o leitor o tema "Do rigor na ci&ecirc;ncia".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Os s&eacute;culos XVII e XVIII, que conheceram grandes transforma&ccedil;&otilde;es nas metodologias do conhecimento e no conhecimento metodol&oacute;gico do rigor do experimentalismo&nbsp; racionalista, viveram tamb&eacute;m o desenvolvimento acentuado das l&oacute;gicas baseadas nas estruturas das l&iacute;nguas naturais e cujos produtos mais conhecidos s&atilde;o a L<i>&oacute;gica</i> e a&nbsp; <i>Gram&aacute;tica de Port&#45;Royal.</i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Nesses casos, a fun&ccedil;&atilde;o principal da linguagem humana &eacute; a de representa&ccedil;&atilde;o do pensamento, que tem, por sua vez, a estrutura l&oacute;gica de uma segunda linguagem, ela pr&oacute;pria constru&iacute;da sobre o modelo de organiza&ccedil;&atilde;o e funcionamento das l&iacute;nguas naturais. Quer dizer, no limite, que a linguagem, se &eacute; representa&ccedil;&atilde;o do pensamento, e se o pensamento tem a estrutura l&oacute;gica da linguagem, ent&atilde;o a linguagem representa a pr&oacute;pria linguagem, abrindo uma vertigem de imagens, em espelho, em que o signo &eacute; representa&ccedil;&atilde;o de representa&ccedil;&atilde;o de representa&ccedil;&atilde;o e, assim, infinitamente.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Dessa tautologia a ci&ecirc;ncia precisa fugir e, pela cria&ccedil;&atilde;o do modelo te&oacute;rico da simula&ccedil;&atilde;o do fen&ocirc;meno, projetar no objeto discreto, assim criado, as propriedades e leis capazes de explicar, e mesmo predizer, o fen&ocirc;meno estudado.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Se o modelo te&oacute;rico quiser reproduzir, em extens&atilde;o, o fen&ocirc;meno na sua ocorr&ecirc;ncia, o fracasso do prop&oacute;sito ser&aacute; inevit&aacute;vel, como ocorre com o Mapa do Imp&eacute;rio, que se faz ru&iacute;na.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O conhecimento cient&iacute;fico e o conhecimento po&eacute;tico, distintos nos m&eacute;todos &#151; um digital, outro anal&oacute;gico; um demonstrativo, outro associativo; um abstraindo conceitos e conceituando abstra&ccedil;&otilde;es, outro tornando&#45;os sens&iacute;veis em imagens concretas de aproxima&ccedil;&otilde;es &#151; t&ecirc;m, contudo, em comum a formula&ccedil;&atilde;o do mundo em formas de representa&ccedil;&atilde;o, seja por linguagens&nbsp; sens&iacute;veis, seja por imagens em demonstra&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Num caso e noutro, a representa&ccedil;&atilde;o tem de estar pr&oacute;xima e distante do fen&ocirc;meno de modo que o mapa permita ver e prever a geografia sem que a geografia se confunda no mapa que a permitia.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A Cartografia tem muito desse ensinamento de tens&atilde;o e equil&iacute;brio entre a ci&ecirc;ncia e a poesia.</font></p>      ]]></body>

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