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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A internet na história dos movimentos anti-vacinação]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="top"></a><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>A    internet na hist&oacute;ria dos movimentos anti-vacina&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Por Paulo Roberto    Vasconcellos-Silva e Luis David Castiel</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <blockquote>        <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><i>H&aacute;      informa&ccedil;&atilde;o demais por a&iacute;. Uma habilidade fundamental      na sociedade de informa&ccedil;&atilde;o consiste em se proteger dos 99,99%      de informa&ccedil;&otilde;es oferecidas que s&atilde;o indesejadas.</i></font></p>       ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Eriksen, TH.      <i>Tyranny of the moment: Fast and slow time in the information age</i>. London:      Pluto Press, 2001, p. 92.</font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><i>Podemos dizer      que a linha divis&oacute;ria entre a mensagem importante, aparente objeto      da comunica&ccedil;&atilde;o, e o ru&iacute;do de fundo, seu reconhecido advers&aacute;rio      e obst&aacute;culo mais nocivo, foi quase removida.</i></font></p>       <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Bauman, Z. <i>Vida      para consumo. A transforma&ccedil;&atilde;o das pessoas em mercadoria</i>.      Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008, p. 55.</font></p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Introdu&ccedil;&atilde;o</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Muitos estudiosos    admitem um parentesco hist&oacute;rico entre a revolta da vacina - um dos maiores    e mais violentos levantes populares de nossa hist&oacute;ria - com a revolta    contra o "bota abaixo"1, ambos considerados como produto de maquina&ccedil;&otilde;es    pol&iacute;ticas golpistas das elites brasileiras, mediado pelo discurso contra    os atos de for&ccedil;a do Estado. O movimento anti-vacina&ccedil;&atilde;o    unia um amplo espectro pol&iacute;tico: do apostolado positivista, aos republicanos    e monarquistas mais radicais, assim como a popula&ccedil;&atilde;o desalojada    de suas habita&ccedil;&otilde;es e perfurada pelos imunizadores do governo.    A favor do direito &agrave; privacidade e ao livre arb&iacute;trio (e em "nome    do recato das mo&ccedil;as honestas", que deveriam expor seus bra&ccedil;os    a vacinadores com inten&ccedil;&otilde;es talvez libidinosas) muitos c&eacute;lebres    oradores atraiam as aten&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas. A ret&oacute;rica    de Rui Barbosa baseava-se no temor da exposi&ccedil;&atilde;o ao veneno vacinal    pela introdu&ccedil;&atilde;o no sangue "de um v&iacute;rus sobre cuja influ&ecirc;ncia    existem os mais bem fundados receios de que seja condutor da mol&eacute;stia    ou da morte". Bem antes do exemplo brasileiro, a vacina&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m    se tornara compuls&oacute;ria na Inglaterra de 1853, por for&ccedil;a do <i>compulsory    vaccination act</i> igualmente admitido como atitude de for&ccedil;a inadmiss&iacute;vel    em um Estado liberal. Os pais ingleses se organizaram em defesa da liberdade    de arbitrar sobre o que se poderia inocular em seus filhos por ordem do Estado    - o que lhes trouxe aumentos de mortalidade por doen&ccedil;as transmiss&iacute;veis    n&atilde;o observadas nos territ&oacute;rios que aderiram &agrave; vacina&ccedil;&atilde;o,    como a Irlanda. &Agrave; &eacute;poca, tanto na Inglaterra quanto no Brasil,    os ciclos de interesse social e, consequentemente, o poder de mobiliza&ccedil;&atilde;o    de grandes grupos, se restringia a textos impressos e discursos p&uacute;blicos,    o que tendia a reduzir-lhes o alcance. A ret&oacute;rica anti-imuniza&ccedil;&atilde;o    alcan&ccedil;ava somente o segmento alfabetizado com acesso privilegiado &agrave;s    informa&ccedil;&otilde;es, que tamb&eacute;m contava com maior poder de press&atilde;o    pol&iacute;tica sobre os legisladores.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Atualmente, nos    Estados Unidos as leis de obrigatoriedade vacinal s&atilde;o bastante flex&iacute;veis    - h&aacute; exclus&otilde;es de ilicitude que liberam as cren&ccedil;as religiosas    (em 47 estados) e as absten&ccedil;&otilde;es tidas como "filos&oacute;ficas"    em 15 estados - o que representa nacionalmente menos de 1% de crian&ccedil;as    n&atilde;o cobertas. N&atilde;o obstante, h&aacute; um n&uacute;mero crescente    de crian&ccedil;as em idade pr&eacute;-escolar cujos pais se mostram insens&iacute;veis    aos programas educativos de vacina&ccedil;&atilde;o e inalcan&ccedil;&aacute;veis    pelas leis de imuniza&ccedil;&atilde;o escolar. No que concerne aos pais americanos    (e muitos europeus) que n&atilde;o vacinam seus filhos, n&atilde;o se pode afirmar    que h&aacute; injustas exclus&otilde;es do sistema p&uacute;blico de sa&uacute;de.    H&aacute; fam&iacute;lias que, paradoxalmente "vulnerabilizadas" por seu elevado    padr&atilde;o s&oacute;cio-econ&ocirc;mico-educacional, inadvertidamente criaram    condi&ccedil;&otilde;es ideais para a propaga&ccedil;&atilde;o de uma peculiar    "epidemia de desinforma&ccedil;&otilde;es", que ora se materializa em adoecimento    e mortes. H&aacute; princ&iacute;pios epidemiol&oacute;gicos que admitem que    a din&acirc;mica das infec&ccedil;&otilde;es se apoia na expans&atilde;o de    grupos pr&oacute;ximos de infectados, chamados de <i>clusters</i>, mesmo nas    regi&otilde;es nas quais tais doen&ccedil;as j&aacute; tenham sido consideradas    erradicadas. As condi&ccedil;&otilde;es e velocidade de transmiss&atilde;o est&atilde;o    assim vinculadas &agrave; aglutina&ccedil;&atilde;o dos <i>clusters</i> em uma    massa cr&iacute;tica de suscet&iacute;veis e contaminados que, quando alcan&ccedil;ada,    tende a gerar epidemias, n&atilde;o raro em bairros de classe m&eacute;dia.    Algu&eacute;m n&atilde;o imunizado est&aacute; mais seguro quando cercado de    indiv&iacute;duos vacinados do que ao contr&aacute;rio e &eacute; justamente    isso que parece ocorrer em v&aacute;rios estados americanos. A t&iacute;tulo    de ilustra&ccedil;&atilde;o do que se afirma, h&aacute; um website que se vale    do nome de uma not&oacute;ria expoente do ativismo anti-vacinal - encontram-se    ali, periodicamente atualizados, uma "contagem de corpos" e de casos ligando    a vacina&ccedil;&atilde;o ao autismo (zero at&eacute; o momento) (ver <u>Jenny    McCarthy body count</u>).</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Interessante lembrar    que o fen&ocirc;meno aqui descrito - imaterial, intang&iacute;vel e refrat&aacute;rio    &agrave;s interven&ccedil;&otilde;es sanit&aacute;rias - teve origem e exponencial    ciclo de reprodu&ccedil;&atilde;o gerado por obra de fant&aacute;stica inven&ccedil;&atilde;o    humana que deveria operar no sentido oposto. As tecnologias de informa&ccedil;&atilde;o    e comunica&ccedil;&atilde;o serviram de ber&ccedil;o e suporte &agrave; catastr&oacute;fica    resson&acirc;ncia de um falso debate, potencializado pelas m&iacute;dias de    maior influ&ecirc;ncia cultural - o que tem a nos revelar o efeito devastador    de vozes t&eacute;cnicas (de veracidade e inten&ccedil;&otilde;es question&aacute;veis)    quando potencializadas por celebridades influentes nos ciclos de aten&ccedil;&atilde;o    social.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os movimentos do    s&eacute;culo XIX na Inglaterra e XX no Brasil se limitavam a condi&ccedil;&otilde;es    hist&oacute;rico-culturais peculiares que se encontram com casos contempor&acirc;neos    de exce&ccedil;&atilde;o. H&aacute; descri&ccedil;&atilde;o de surtos de coqueluche    entre os membros de uma comunidade Amish americana, que certamente n&atilde;o    se deveu &agrave; expans&atilde;o da grande rede como vetor de influ&ecirc;ncia    no campo da sa&uacute;de. Passado mais de um s&eacute;culo das primeiras manifesta&ccedil;&otilde;es    anti-vacina&ccedil;&atilde;o, as aten&ccedil;&otilde;es do imagin&aacute;rio    popular nos pa&iacute;ses industrializados se desviou das doen&ccedil;as infecciosas    para ocupar-se agora de outros males cr&ocirc;nicos, ainda mal compreendidos    pelo senso comum e n&atilde;o plenamente esclarecidos em sua g&ecirc;nese. As    estat&iacute;sticas extra&iacute;das de inqu&eacute;ritos nacionais americanos    descrevem um panorama preocupante a cercar os "pais n&atilde;o-vacinadores".    As condi&ccedil;&otilde;es de vulnerabilidade incluem os filhos (sexo masculino    predomina); de m&atilde;es casadas; com alto n&iacute;vel de escolaridade; acesso    &agrave; internet; vivendo em vizinhan&ccedil;as com renda anual acima da m&eacute;dia    nacional americana; residente em estados com exclus&otilde;es de ilicitude da    lei de vacina&ccedil;&atilde;o escolar por motivos filos&oacute;ficos; e que    expressa s&eacute;rias preocupa&ccedil;&otilde;es acerca dos efeitos colaterais    das vacinas. Al&eacute;m disso, tais fam&iacute;lias admitem que os m&eacute;dicos    exer&ccedil;am pouca ou nenhuma influ&ecirc;ncia sobre as decis&otilde;es nesse    campo, o que &eacute; condizente com os estudos que indicam a internet como    grande influenciadora nas opini&otilde;es - acima at&eacute; dos profissionais    de sa&uacute;de. Sob o ponto de vista epidemiol&oacute;gico, &eacute; importante    apontar para a distribui&ccedil;&atilde;o geogr&aacute;fica dessas fam&iacute;lias    - aglutinavam-se em agrupamentos - o que tenderia a potencializar o risco de    contamina&ccedil;&atilde;o e transmiss&atilde;o de doen&ccedil;as infecciosas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Rostos famosos    e conden&aacute;veis vozes t&eacute;cnicas.</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">As suspeitas sobre    a preval&ecirc;ncia de eventos adversos ap&oacute;s vacina&ccedil;&otilde;es    j&aacute; aparecem nos peri&oacute;dicos cient&iacute;ficos h&aacute; mais de    tr&ecirc;s d&eacute;cadas, principalmente em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;    vacina tr&iacute;plice - sarampo, caxumba e rub&eacute;ola (MMR em pa&iacute;ses    de l&iacute;ngua inglesa). Na Europa e no Jap&atilde;o, a preocupa&ccedil;&atilde;o    acerca da seguran&ccedil;a na imuniza&ccedil;&atilde;o com uma esp&eacute;cie    de vacina contra a coqueluche derivou em cobertura insuficiente e surtos da    doen&ccedil;a. Especula-se sobre uma variada gama de malef&iacute;cios, envolvendo    desde as doen&ccedil;as inflamat&oacute;rias intestinais at&eacute; a morte    s&uacute;bita. Nos parece que os perigos comprovados, eventuais, implaus&iacute;veis    ou ainda n&atilde;o estabelecidos se manifestam da mesma forma aos olhares leigos,    agora instrumentalizados pelo Pubmed que possibilita um acesso r&aacute;pido    a resumos de artigos em peri&oacute;dicos m&eacute;dicos especializados.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Talvez o tema mais    pol&ecirc;mico e de maior repercuss&atilde;o, embora suficientemente estudado    h&aacute; mais de uma d&eacute;cada, envolva a associa&ccedil;&atilde;o entre    a vacina tr&iacute;plice (MMR) e o autismo. A condi&ccedil;&atilde;o &eacute;    duas a quatro vezes mais prevalente em meninos, o que explicaria a frequente    n&atilde;o vacina&ccedil;&atilde;o destes, e sua origem &eacute; ainda desconhecida,    embora os estudos com g&ecirc;meos monozig&oacute;ticos indiquem que esta talvez    se deva a fatores gen&eacute;ticos. As manifesta&ccedil;&otilde;es relacionadas    &agrave; s&iacute;ndrome crescem em preval&ecirc;ncia, gra&ccedil;as aos instrumentos    de diagn&oacute;stico e identifica&ccedil;&atilde;o precoce. Os sinais usualmente    aparecem no primeiro ano de vida e sempre antes dos tr&ecirc;s anos, &eacute;poca    na qual &eacute; administrada a maioria das vacinas. As primeiras suspeitas    foram levantadas h&aacute; 12 anos pelo Dr. Andrew Wakefield que associara uma    condi&ccedil;&atilde;o inflamat&oacute;ria intestinal a expor crian&ccedil;as    vacinadas &agrave;s toxinas causadoras do autismo. Suas afirma&ccedil;&otilde;es    originaram rea&ccedil;&otilde;es enf&aacute;ticas em vista das excessivas extrapola&ccedil;&otilde;es    e a question&aacute;vel metodologia empregada, o que levou o General Medical    Council - GMC (conselho federal de medicina ingl&ecirc;s) a cassar seu registro    profissional. O GMC identificou conflito de interesses na sua associa&ccedil;&atilde;o    com advogados que buscavam indeniza&ccedil;&otilde;es e na descoberta de uma    patente de vacina anti-sarampo (supostamente segura) registrada em seu nome,    al&eacute;m de procedimentos invasivos e desnecess&aacute;rios impostos &agrave;s    crian&ccedil;as sob investiga&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o obstante, as d&uacute;vidas    persistiram embora j&aacute; suficientemente refutadas pela ci&ecirc;ncia -    no campo da epidemiologia h&aacute; dados suficientes para convencer o mais    zeloso dos pais. Demonstrou-se que na Pol&ocirc;nia e no Jap&atilde;o - pa&iacute;ses    nos quais a vacina MMR foi suspensa temporariamente por motivos diversos - encontrou-se    um risco menor de autismo entre as crian&ccedil;as vacinadas.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Nos Estados Unidos    a cren&ccedil;a anti-vacinal parece crescer impulsionada por for&ccedil;a de    rostos c&eacute;lebres e numerosos s&iacute;tiosdedicados &agrave; pol&ecirc;mica.    Jennifer McCarthy firmou-se como celebridade a partir de suas apari&ccedil;&otilde;es    no programa de Oprah Winfrey e Larry King. McCarthy exp&otilde;e como evid&ecirc;ncia    o caso do pr&oacute;prio filho, v&iacute;tima da "sobrecarga t&oacute;xica",    assim como muitos dos ativistas que se fundamentam em experi&ecirc;ncias pessoais    a desprezar dados epidemiol&oacute;gicos. Barbara Loe Fisher, presidente do    National Vaccine Information Center, tamb&eacute;m &eacute; m&atilde;e de um    portador da condi&ccedil;&atilde;o e usa seu site para chamar a aten&ccedil;&atilde;o    sobre o n&uacute;mero considerado excessivo de imuniza&ccedil;&otilde;es obrigat&oacute;rias2.    Outras personalidades se juntam a esses, como Curt Linderman, apresentador de    r&aacute;dio de um programa de expressiva audi&ecirc;ncia (<i>Linderman live!</i>)    e Robert F.Kennedy Jr., que publicou informa&ccedil;&otilde;es incorretas acerca    da presen&ccedil;a de elevadas concentra&ccedil;&otilde;es de uma subst&acirc;ncia    organomercurial, usada desde 1930 como conservante que j&aacute; havia sido    retirada das prepara&ccedil;&otilde;es em 2001. Apesar disso o aumento dos casos    de autismo se manteve.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>O amparo da    grande rede</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Os fen&ocirc;menos    aqui descritos, talvez se localizem no instinto evolutivamente preservado de    perceber o perigo no ambiente para agir de forma instintiva e &aacute;gil para    preserva&ccedil;&atilde;o da prole. O autismo, condi&ccedil;&atilde;o de crescente    interesse pelo tremendo fardo emocional a ele associado, conquista um espa&ccedil;o    crescente nas m&iacute;dias pela evoca&ccedil;&atilde;o da dor expressa nos    rostos de pais que buscam causas e curas. Acrescente-se a tal cen&aacute;rio    a reduzida percep&ccedil;&atilde;o de risco acerca de doen&ccedil;as "erradicadas"    e teorias persecut&oacute;rias que colocam sob suspei&ccedil;&atilde;o as opini&otilde;es    dos experts. O "cidad&atilde;o consciente de si" se torna, solitariamente, seu    pr&oacute;prio expert, lutando contra as prolifera&ccedil;&otilde;es imagin&aacute;rias    que lhe parecem mais amea&ccedil;adoras. No &acirc;mbito da sa&uacute;de, os    discursos das institui&ccedil;&otilde;es cl&aacute;ssicas perdem seu poder de    influ&ecirc;ncia na polifonia de mensagens, abrindo terrenos espa&ccedil;osos    e f&eacute;rteis &agrave;s redes de expertise informal como a que aqui se descreve.    Novas tens&otilde;es perante riscos vividamente pressentidos geram buscas por    informa&ccedil;&otilde;es na propor&ccedil;&atilde;o da relev&acirc;ncia atribu&iacute;da    ao tema nos c&iacute;rculos de aten&ccedil;&atilde;o gerados pelas vozes mais    influentes.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em 2005, Zimmerman    identificou um n&uacute;cleo de tais ciclos de interesse ao estudar 78 s&iacute;tios    com conte&uacute;dos cr&iacute;ticos acerca das vacina&ccedil;&otilde;es. Concluiu    que quase todos baseavam suas obje&ccedil;&otilde;es na suposta correla&ccedil;&atilde;o    entre prepara&ccedil;&otilde;es vacinais e males de causa debilmente esclarecida;    subestimando a gravidade das doen&ccedil;as infecciosas (atribu&iacute;das ao    Terceiro Mundo); denunciando os compostos mercuriais; defendendo as liberdades    civis em vista do car&aacute;ter compuls&oacute;rio da vacina&ccedil;&atilde;o;    e apelando &agrave; resist&ecirc;ncia contra as lucrativas corpora&ccedil;&otilde;es    farmac&ecirc;uticas. Estes s&iacute;tios pareciam se organizar em redes consistentes,    confluindo em c&iacute;rculos de informa&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas de    variadas origens e vers&otilde;es. Estabeleciam-se como uma esp&eacute;cie de    sub-sistema cultural, ofertando links para conte&uacute;dos equivalentes: comunidades    virtuais solid&aacute;rias partilhando cren&ccedil;as e informa&ccedil;&otilde;es    consideradas relevantes.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O desgaste emocional    que incide sobre as fam&iacute;lias envolvidas no problema nunca &eacute; desprez&iacute;vel,    o que as torna especialmente suscet&iacute;veis a qualquer tipo de aceno de    esperan&ccedil;a, o que talvez as incite &agrave; busca do apoio de redes sociais.    Todos parecem consumir produtos que lhes amparem na dimens&atilde;o material.    Textos sobre dietas sem gl&uacute;ten, megadoses de vitamina D, tratamentos    em c&acirc;maras hiperb&aacute;ricas, neuro-<i>feedback</i>, enemas, saunas    de infra-vermelho e as controvertidas terapias de bloqueio da s&iacute;ntese    da testosterona.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Deve-se enfatizar    que o cen&aacute;rio hist&oacute;rico anti-vacina&ccedil;&atilde;o do s&eacute;culo    XXI concentra diversas peculiaridades que o distingue de &eacute;pocas passadas.    Atualmente existe uma crescente credibilidade da internet nas quest&otilde;es    de sa&uacute;de, ultrapassando mesmo a confian&ccedil;a antes atribu&iacute;da    aos m&eacute;dicos. A oferta de recursos para acesso &agrave; informa&ccedil;&atilde;o    se expandiu de forma impressionante - h&aacute; websites usados para controvertidos    autodiagn&oacute;sticos - uma possibilidade t&atilde;o atraente (porque acess&iacute;vel),    quanto arriscada (porque perigosamente simplificadora). As vers&otilde;es, conte&uacute;dos    e formatos de informa&ccedil;&otilde;es variam amplamente entre textos, estabelecendo    um insuport&aacute;vel desafio aos pais leigos que se valem das TICs como recurso    ao esclarecimento acerca de temas (talvez falsamente) pol&ecirc;micos. A rede    mundial de computadores, al&eacute;m de dar suporte e agregar fam&iacute;lias    em situa&ccedil;&atilde;o de desesperan&ccedil;a, tamb&eacute;m se tornou uma    esp&eacute;cie de mercado de variadas vers&otilde;es de verdades plaus&iacute;veis    - subitamente urgentes - a nos exigir decis&otilde;es inequ&iacute;vocas. Indo    al&eacute;m dos numerosos textos jornal&iacute;sticos que descrevem a internet    como uma forma de acesso ao Olimpo das divindades tecnocient&iacute;ficas, uma    forma de emancipa&ccedil;&atilde;o da minoridade leiga que em outros tempos    n&atilde;o ousaria confrontar o poder m&eacute;dico, suspeitamos que algo de    novo paira pela grande rede.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Conclus&atilde;o</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Em s&iacute;ntese,    da sociedade do s&eacute;culo XIX/XX, orientada aos debates pelas m&iacute;dias    impressas em papel (dedicadas &agrave;s minorias alfabetizadas), evolu&iacute;mos    para a era da satura&ccedil;&atilde;o de informa&ccedil;&otilde;es advindas    de meios e fontes plurais das quais se servem aqueles que se percebem sob os    maiores riscos. Sob o mantra jornal&iacute;stico das "vers&otilde;es equilibradas",    os ru&iacute;dos e rumores de riscos, amplificados pelo "efeito celebridade",    n&atilde;o raro promovem debates onde n&atilde;o deveria haver nenhum, gerando    um ciclo de enuncia&ccedil;&otilde;es falaciosas que elegem conte&uacute;dos    que ocupar&atilde;o os espa&ccedil;os reservados &agrave;s verdades de mais    vigoroso apelo. A algazarra de opini&otilde;es se ampliou pelos recursos das    novas TICs nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, sobrecarregando de d&uacute;vidas    os pais que n&atilde;o mais se permitem t&ecirc;-las. Estes n&atilde;o mais    aceitam seus erros pressionados pelo dil&uacute;vio de verdades conflitantes    e indetermina&ccedil;&otilde;es que os conduzem na dire&ccedil;&atilde;o dos    oniscientes motores de busca. No que se refere &agrave;s decis&otilde;es sobre    a sa&uacute;de de nossas crian&ccedil;as, as op&ccedil;&otilde;es pesam sob    o imperativo das verdades e certezas absolutas. Paira a crescente necessidade    de escolhas entre m&uacute;ltiplas op&ccedil;&otilde;es que podem conduzir tanto    &agrave; tomada de posi&ccedil;&otilde;es tidas como respons&aacute;veis frente    aos riscos iminentes, como a outras que levam a consequ&ecirc;ncias adversas    insuport&aacute;veis.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><i>Paulo Roberto    Vasconcellos-Silva &eacute; pesquisador e professor da Funda&ccedil;&atilde;o    Oswaldo Cruz e da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e Luis David    Castiel &eacute; pesquisador e professor da Escola Nacional de Sa&uacute;de    P&uacute;blica, tamb&eacute;m da Funda&ccedil;&atilde;o Oswaldo Cruz.</i></font></p>      ]]></body>

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