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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana"><B>REPORTAGEM</B></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana"><B>Homem&#45;m&aacute;quina e o progresso da ci&ecirc;ncia</B></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Daniela Ingui</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">De membros biomec&acirc;nicos a chips neurais, as pol&ecirc;micas s&atilde;o muitas acerca dos avan&ccedil;os tecnol&oacute;gicos, tais como a pr&oacute;tese Flex Foot Cheetah do corredor sul&#45;africano Oscar Pistorius ou os mai&ocirc;s LCZ&#45;Racer dos nadadores recordistas em 2008. Mas n&atilde;o &eacute; preciso ir t&atilde;o longe: o que seria de n&oacute;s sem o celular, o computador e a c&acirc;mera digital? A fus&atilde;o entre homem e m&aacute;quina, que vem se intensificando com o desenvolvimento da eletr&ocirc;nica, bi&ocirc;nica, nanotecnologia e engenharia gen&eacute;tica, j&aacute; n&atilde;o &eacute; mais tema restrito &agrave; fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, mas uma realidade que amea&ccedil;a mudar a maneira como percebemos o mundo. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Recentemente, o especialista em nanotecnologia    e pesquisador da Microsoft, Ramez Naam, declarou ao jornal <I>O Estado de S.    Paulo</I> que "as novas tecnologias preservar&atilde;o a juventude e a sa&uacute;de,    aumentar&atilde;o a capacidade de aprender e nos dar&atilde;o o poder de decidir    em que vamos nos transformar. A ci&ecirc;ncia dar&aacute; a cada um o poder    de decidir a pr&oacute;pria evolu&ccedil;&atilde;o" (Eu, Rob&ocirc;, 02/05/2010,    <U><I><a href="http://blogs.estadao.com.br/link/eu-robo/?replytocom=19240" target="_blank">Caderno    Link</a></I></U>). Pois que evolu&ccedil;&atilde;o seria essa? &Eacute; poss&iacute;vel    delimitar alguns aspectos que restringem a evolu&ccedil;&atilde;o do homem propiciada    pela tecnologia ou iremos nos tornar, inevitavelmente, uma m&aacute;quina em    todos os sentidos? Afinal, "somos a ponta da evolu&ccedil;&atilde;o do primata    ou somos a ponta de um primata em evolu&ccedil;&atilde;o?", questiona M&aacute;rcio    Barreto, professor da Faculdade de Ci&ecirc;ncias Aplicadas da Universidade    Estadual de Campinas, campus de Limeira. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><B>Da ci&ecirc;ncia moderna &agrave; contempor&acirc;nea</B></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Voltando um pouco na hist&oacute;ria, podemos dizer que o apagamento da fronteira entre homem e m&aacute;quina data no final da Idade M&eacute;dia, quando as transforma&ccedil;&otilde;es no mundo do trabalho serviram de base para uma revolu&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m no &acirc;mbito da ci&ecirc;ncia. De um lado, a expans&atilde;o do com&eacute;rcio levou &agrave; populariza&ccedil;&atilde;o da matem&aacute;tica entre os comerciantes e banqueiros, que passaram a utilizar os n&uacute;meros para representar seus lucros e preju&iacute;zos. De outro, a difus&atilde;o de m&aacute;quinas, como os moinhos, fez surgir um novo tipo de profissional, o t&eacute;cnico&#45;artes&atilde;o, cuja metodologia de trabalho era baseada na experimenta&ccedil;&atilde;o. Esse novo racionalismo que emergia na sociedade levou muitos intelectuais a pensarem num novo m&eacute;todo de produ&ccedil;&atilde;o do conhecimento.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">"Alguns nomes importantes do Renascimento, como Willian Gilbert, Galileu e Francis Bacon, contribu&iacute;ram para a incorpora&ccedil;&atilde;o da experimenta&ccedil;&atilde;o e da linguagem matem&aacute;tica &agrave; pr&aacute;tica cient&iacute;fica, inaugurando o que chamamos de ci&ecirc;ncia moderna", explica Barreto. Nesse novo m&eacute;todo, a racionalidade deixa de ser sustentada apenas pelo racioc&iacute;nio l&oacute;gico e abstrato, como faziam os pensadores e fil&oacute;sofos da Antiguidade, sendo ressignificada com a experimenta&ccedil;&atilde;o. As inova&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas da &eacute;poca tamb&eacute;m influenciaram a ci&ecirc;ncia moderna, que passa a compreender a natureza como se ela funcionasse com a regularidade de uma m&aacute;quina, o que permitiria que seus fen&ocirc;menos pudessem ser medidos e previstos por meio de equa&ccedil;&otilde;es matem&aacute;ticas. Tal forma de pensar o mundo ficou conhecida como mecanicismo e teve seu auge nos s&eacute;culos XVIII e XIX. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">N&atilde;o s&oacute; aquilo que nos cerca, mas o pr&oacute;prio homem passou tamb&eacute;m a ser comparado a uma m&aacute;quina. Analogias como "o cora&ccedil;&atilde;o &eacute; uma bomba" ou "o sistema circulat&oacute;rio &eacute; um sistema fechado de dutos", por exemplo, s&atilde;o resqu&iacute;cios do pensamento mecanicista no estudo do corpo humano. No livro o <I>Discurso do m&eacute;todo</I>, de 1637, essa ideia do universo&#45;m&aacute;quina fica bem clara quando Descartes afirma que "a ind&uacute;stria dos homens pode produzir, sem empregar nisso sen&atilde;o pouqu&iacute;ssimas pe&ccedil;as, em compara&ccedil;&atilde;o &agrave; grande multid&atilde;o de ossos, m&uacute;sculos, nervos, art&eacute;rias, veias e todas as outras partes existentes no corpo de cada animal, considerar&aacute; esse corpo como uma m&aacute;quina que, tendo sido feita pelas m&atilde;os de Deus, &eacute; incomparavelmente mais bem ordenada e cont&eacute;m movimentos mais admir&aacute;veis do que qualquer das que possam ser inventadas pelos homens". </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Levando essa mecaniza&ccedil;&atilde;o ao extremo, <I>O homem&#45;m&aacute;quina</I> (1747), do fil&oacute;sofo La Mettrie, subverte a autonomia da mente ao colocar o homem como um artefato mec&acirc;nico. Essa possibilidade de ruptura entre corpo e mente &eacute; o que constitui o cerne do questionamento sobre os efeitos dos avan&ccedil;os tecnol&oacute;gicos no homem. O jornalista e fil&oacute;sofo Adauto Novaes, em um dos cap&iacute;tulos do livro <I>O homem&#45;m&aacute;quina: a ci&ecirc;ncia manipula o corpo</I>, publicado em 2003, afirma que "Tudo caminha &#150; principalmente o corpo &#150; para o artif&iacute;cio. Ou melhor, observamos o in&iacute;cio de uma substitui&ccedil;&atilde;o do ser e de suas experi&ecirc;ncias da vida &#150; isto &eacute;, da antiga rela&ccedil;&atilde;o, em n&oacute;s, da natureza e do esp&iacute;rito (esp&iacute;rito entendido como intelig&ecirc;ncia, pot&ecirc;ncia de transforma&ccedil;&atilde;o) &#150; por mecanismos implantados em n&oacute;s. Poder&iacute;amos dizer, sem risco de erro, que um corpo tecnicizado guarda ainda 'qualidades ocultas' do corpo natural, enigmas que nos levam a pensar, permanentemente, o jamais pensado ainda?". Em outras palavras, indaga&#45;se se as tecnologias chegar&atilde;o ao ponto de anular a ess&ecirc;ncia humana, substituindo a criatividade e espontaneidade. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Para o fil&oacute;sofo Denis Rosenfield, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), n&atilde;o faz sentido pensar em ess&ecirc;ncia humana num mundo que a rela&ccedil;&atilde;o entre homem e tecnologia est&aacute; em constante muta&ccedil;&atilde;o. "O impens&aacute;vel est&aacute; se tornando pens&aacute;vel. Quem diria que, h&aacute; alguns anos, a reprodu&ccedil;&atilde;o<I> in vitro </I>seria poss&iacute;vel? </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O atual debate sobre o uso da tecnologia no futebol foi reacendido devido aos erros de arbitragem nessa Copa do Mundo. Diante da disponibilidade de tecnologias capazes de ampliar a percep&ccedil;&atilde;o humana, o ditado popular "errar &eacute; humano" deixa de ser admiss&iacute;vel. Mesmo assim a Federa&ccedil;&atilde;o Internacional de Futebol (Fifa) ainda &eacute; refrat&aacute;ria ao assunto. Apenas o temor ao modo como essas tecnologias podem influenciar nossa capacidade de decis&atilde;o explica tamanha resist&ecirc;ncia. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A lentid&atilde;o para a incorpora&ccedil;&atilde;o de uma nova tecnologia, como no caso da Fifa, &eacute;, muitas vezes, apenas um modo de reduzir os erros em sua utiliza&ccedil;&atilde;o. A m&aacute;quina s&oacute; n&atilde;o chegar&aacute; a substituir o homem porque &eacute; preciso que algu&eacute;m &#150; humano &#150; fa&ccedil;a a leitura dos dados", esclarece Rosenfield. A interpreta&ccedil;&atilde;o dos fen&ocirc;menos naturais implica, ent&atilde;o, em certos aspectos que n&atilde;o s&atilde;o inerentes ao universo das m&aacute;quinas, mas pr&oacute;prios do pensamento humano e do mundo natural ao seu redor, o que restringe o tipo de transforma&ccedil;&atilde;o que podemos sofrer pelas tecnologias. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A subjetividade e a imprevisibilidade s&atilde;o    alguns desses aspectos que n&atilde;o fazem parte da l&oacute;gica de funcionamento    das m&aacute;quinas. Sua percep&ccedil;&atilde;o s&oacute; emergiu com a ruptura    do paradigma mecanicista por volta de 1930, quando surgiram certas acep&ccedil;&otilde;es    na f&iacute;sica e na matem&aacute;tica que colocaram em xeque os postulados    da pr&aacute;tica cient&iacute;fica calcados na previsibilidade, objetividade    e neutralidade (O discurso da ci&ecirc;ncia na contemporaneidade: "nada existe    a menos que observemos", <U><a href="http://www.labeurb.unicamp.br/rua/pages/home/capaArtigo.rua?id=81" target="_blank">M&aacute;rcia    Martins</a></U>, 2009). Uma dessas acep&ccedil;&otilde;es foi o Princ&iacute;pio    da Incerteza, de Heisenberg (1927), que afirma ser imposs&iacute;vel medir com    precis&atilde;o e simultaneamente a velocidade e a posi&ccedil;&atilde;o de    uma part&iacute;cula at&ocirc;mica. Neste caso, a medi&ccedil;&atilde;o depende    de como as vari&aacute;veis ser&atilde;o tomadas pelo observador. </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Essa tend&ecirc;ncia anunciada pela mec&acirc;nica qu&acirc;ntica foi refor&ccedil;ada por outros teoremas que se disseminaram na &eacute;poca, como o Teorema da Indefinibilidade, de Tarski (1930), e o Teorema da Incompletude, de G&ouml;del (1931). No primeiro, rompeu&#45;se com a ideia de verdade absoluta, que d&aacute; lugar a uma concep&ccedil;&atilde;o relativista de acordo com o observador e as vari&aacute;veis por ele consideradas. No segundo, rompeu&#45;se com a ideia de que a resolu&ccedil;&atilde;o de uma quest&atilde;o envolve um conjunto certo de regras e procedimentos, uma vez que esses s&atilde;o determinados pelo observador que os opera. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A imprevisibilidade faz parte do modelo ca&oacute;tico e probabil&iacute;stico da ci&ecirc;ncia contempor&acirc;nea, da teoria do caos, que se torna ainda maior com o aumento da complexidade do sistema. Adepto &agrave; filosofia de Deleuze, Gregory Flaxman, professor do Departamento de Estudos da Comunica&ccedil;&atilde;o da Universidade da Carolina do Norte, defende que teorias complexas como a teoria das cordas, teoria f&iacute;sica capaz de explicar tudo, s&atilde;o mais incompletas do que teorias simples. Entretanto, mesmo essas, por terem algum grau de imprecis&atilde;o, est&atilde;o sujeitas &agrave; substitui&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><B>Renovando o conhecimento</B></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A substitui&ccedil;&atilde;o de teorias &eacute; o que o f&iacute;sico e fil&oacute;foso Thomas Kuhn chamou de revolu&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica. Em seu livro <I>A estrutura das revolu&ccedil;&otilde;es cient&iacute;ficas</I> (1962), Khun explica que o ac&uacute;mulo de anomalias, situa&ccedil;&otilde;es que o paradigma vigente n&atilde;o &eacute; capaz de explicar, instaura uma situa&ccedil;&atilde;o de crise que suscita a emerg&ecirc;ncia de reformula&ccedil;&otilde;es conceituais at&eacute; que surja um novo candidato a paradigma. Gradativamente, ent&atilde;o, a comunidade cient&iacute;fica passa a fazer ci&ecirc;ncia sob o novo paradigma at&eacute; que a sua aceita&ccedil;&atilde;o seja completa e o paradigma anterior seja abandonado definitivamente. Isso aconteceu, por exemplo, quando o modelo geoc&ecirc;ntrico de Ptolomeu foi abandonado em favor do modelo helioc&ecirc;ntrico de Cop&eacute;rnico, e tamb&eacute;m quando o modelo determin&iacute;stico da ci&ecirc;ncia moderna perdeu for&ccedil;a para o caos probabil&iacute;stico da ci&ecirc;ncia contempor&acirc;nea.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">&Eacute; claro que uma teoria falseada n&atilde;o necessariamente &eacute; derrubada de imediato, como defendia o fil&oacute;sofo Karl Popper. Enquanto n&atilde;o houver uma alternativa melhor dispon&iacute;vel, os fatos discordantes &agrave; teoria vigente v&atilde;o sendo ajustados por explica&ccedil;&otilde;es adicionais, chamadas de hip&oacute;teses <I>ad hoc</I>. Contudo, as ideias de Popper tiveram um grande impacto na sociologia da ci&ecirc;ncia ao mostrar que o ac&uacute;mulo de fatos concordantes n&atilde;o legitima uma teoria cient&iacute;fica, j&aacute; que as hip&oacute;teses nunca podem ser demonstradas como verdadeiras. Se o conhecimento cient&iacute;fico fosse preciso e completo, ele seria verdadeiro e, consequentemente, est&aacute;vel. Mas, como afirma Flaxman, tudo o que acreditamos &eacute; flu&iacute;do porque nossas explica&ccedil;&otilde;es s&atilde;o imprecisas e ca&oacute;ticas. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Desse modo, colocar um &aacute;rbitro eletr&ocirc;nico no lugar do homem em uma partida de futebol n&atilde;o &eacute; garantia de uma arbitragem imune de erros. As vari&aacute;veis s&atilde;o muitas, ou melhor, infinitas, e sua interpreta&ccedil;&atilde;o, embora ampliada com a incorpora&ccedil;&atilde;o da tecnologia, n&atilde;o exclui o homem do processo. Se por um lado n&atilde;o h&aacute; limite para os avan&ccedil;os tecnol&oacute;gicos, uma vez que o conhecimento est&aacute; em constante processo de substitui&ccedil;&atilde;o, ao menos temos a garantia de que ele nunca ir&aacute; nos transformar em seres previs&iacute;veis ou dispens&aacute;veis. O homem&#45;m&aacute;quina agradece.</font></p>      ]]></body>

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