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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>A cidade e a nega&ccedil;&atilde;o do outro</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Lucas Melga&ccedil;o</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Historicamente as cidades nunca foram locais igualmente acolhedores a todos. Elas nascem justamente do encontro e identifica&ccedil;&atilde;o entre um grupo de "iguais" interessados em se enriquecer e se defender da presen&ccedil;a indesejada do "outro". Os outros na cidade grega cl&aacute;ssica eram, por exemplo, os estrangeiros e os prisioneiros de guerra. Na cidade medieval europeia, doentes como os leprosos eram os detentores dessa alcunha de "indesej&aacute;veis". Atualmente, os imigrantes latinos nos Estados Unidos, os &aacute;rabes e os negros africanos na Europa Ocidental e os nordestinos, homossexuais, negros, prostitutas, usu&aacute;rios de drogas, portadores de necessidades especiais, mendigos e desempregados no Brasil, s&atilde;o aqueles mais comumente considerados como os outros. A principal mudan&ccedil;a em rela&ccedil;&atilde;o ao passado &eacute; que, mais do que quest&otilde;es de ra&ccedil;a, credo, sa&uacute;de ou nacionalidade, no atual per&iacute;odo de globaliza&ccedil;&atilde;o neoliberal tem sido a pobreza o principal atributo de diferencia&ccedil;&atilde;o.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Muitas vezes a nega&ccedil;&atilde;o do outro n&atilde;o se d&aacute; apenas no &acirc;mbito das falas e das a&ccedil;&otilde;es, mas se materializa em formas urbanas voltadas a separar e afastar os indesej&aacute;veis. Um exemplo muito presente na arquitetura das casas e apartamentos brasileiros s&atilde;o as depend&ecirc;ncias de empregada e as entradas e elevadores de servi&ccedil;o. Tais formas t&ecirc;m a fun&ccedil;&atilde;o de demarcar os espa&ccedil;os de circula&ccedil;&atilde;o e presen&ccedil;a dos empregados e de lhes assinalar sua condi&ccedil;&atilde;o de outro.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Mais do que o interior das casas, por&eacute;m, grandes complexos urban&iacute;sticos t&ecirc;m sido constru&iacute;dos como resposta a esse desejo de segrega&ccedil;&atilde;o. Os condom&iacute;nios fechados, por exemplo, sejam horizontais ou verticais, t&ecirc;m no argumento da exclusividade o seu principal apelo publicit&aacute;rio. O ideal de felicidade vendido pelos agentes imobili&aacute;rios passa pelo conceito de que &eacute; bom aquilo que pode ser usufru&iacute;do de modo individual ou no m&aacute;ximo por um grupo de "semelhantes". Muitas campanhas refor&ccedil;am, por exemplo, o privil&eacute;gio de se ter &aacute;reas verdes e pra&ccedil;as de lazer exclusivas e sem a inc&ocirc;moda presen&ccedil;a de "estranhos". Ao inv&eacute;s de ter que lidar com o outro em uma pra&ccedil;a p&uacute;blica de esportes, prefere-se o privil&eacute;gio de se ter um campo de futebol particular, mesmo que ele passe a maior parte do tempo subutilizado por falta de jogadores.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Talvez seja, por&eacute;m, um pouco demasiado dizer que os condom&iacute;nios sejam totalmente intolerantes aos outros. Algumas dessas pessoas podem se tornar "desej&aacute;veis" quando &uacute;teis para o cumprimento de servi&ccedil;os pouco nobres, como a limpeza ou a vigil&acirc;ncia. Sem faxineiros, empregadas dom&eacute;sticas e porteiros, fun&ccedil;&otilde;es geralmente delegadas a nordestinos, negros e pobres, seria invi&aacute;vel a exist&ecirc;ncia dos condom&iacute;nios fechados nos moldes em que foram pensados. Contudo, basta um furto dentro de um condom&iacute;nio para que, de desej&aacute;veis, essas pessoas retornem &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de indesej&aacute;veis. Na ocorr&ecirc;ncia de um crime, os primeiros suspeitos s&atilde;o sempre os outros, e nunca, por exemplo, um jovem morador do condom&iacute;nio que faz pequenos furtos internos para manter seu v&iacute;cio em drogas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A mesma l&oacute;gica de criminaliza&ccedil;&atilde;o do outro est&aacute; presente tamb&eacute;m nas recentes estrat&eacute;gias de monitoramento das cidades atrav&eacute;s de c&acirc;meras de vigil&acirc;ncia. Os suspeitos ali apontados s&atilde;o na maior parte das vezes aqueles que se enquadram no estere&oacute;tipo do "marginal", ou seja, cujos tra&ccedil;os f&iacute;sicos, modo de vestir e de se comportar n&atilde;o est&atilde;o dentro dos modelos considerados "normais". As c&acirc;meras tamb&eacute;m s&atilde;o usadas como instrumentos de repulsa dos indesej&aacute;veis, como ocorre em S&atilde;o Paulo, onde elas foram instaladas no entorno do J&oacute;quei Clube com o objetivo de inibir a presen&ccedil;a de prostitutas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O uso de instrumentos de vigil&acirc;ncia tamb&eacute;m tem sido cada vez mais freq&uuml;ente em escolas brasileiras, especialmente nas privadas, muitas vezes com o curioso argumento de que s&atilde;o estrat&eacute;gias contra o chamado <i>bullying</i>: um tipo de viol&ecirc;ncia em que um grupo de estudantes promove humilha&ccedil;&otilde;es e viol&ecirc;ncia psicol&oacute;gica a colegas que n&atilde;o se enquadram nos padr&otilde;es de est&eacute;tica e comportamento considerados normais. O <i>bullying</i> &eacute; uma viol&ecirc;ncia de n&atilde;o aceita&ccedil;&atilde;o da diferen&ccedil;a, ou seja, de intoler&acirc;ncia ao outro. As c&acirc;meras, por&eacute;m, por serem instrumentos que primam pela homogeneiza&ccedil;&atilde;o de comportamentos, surtir&atilde;o efeito contr&aacute;rio ao esperado, pois refor&ccedil;ar&atilde;o a intransig&ecirc;ncia a tudo que for exc&ecirc;ntrico.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Ainda a prop&oacute;sito das escolas privadas, deve-se destacar que muitas delas t&ecirc;m servido como verdadeiros centros de forma&ccedil;&atilde;o para a n&atilde;o-aceita&ccedil;&atilde;o da diferen&ccedil;a. Desde cedo, as crian&ccedil;as que as frequentam s&atilde;o expostas a ambientes ultra-controlados e ultra-exclusivos. Na cidade de Campinas (S&atilde;o Paulo), por exemplo, o excesso de prote&ccedil;&atilde;o fica claro no caso de uma escola que escolheu o interior de um <i>shopping-center</i> como local para a constru&ccedil;&atilde;o de uma de suas filiais. N&atilde;o satisfeita, por&eacute;m, apenas com a seguran&ccedil;a fornecida pelo estabelecimento comercial, a dire&ccedil;&atilde;o da escola resolveu instalar c&acirc;meras de vigil&acirc;ncia nos corredores do col&eacute;gio e, at&eacute; mesmo, no interior das salas de aula. O excesso de seletividade &eacute; evidente tamb&eacute;m gra&ccedil;as aos altos valores das mensalidades praticados, o que faz com que apenas crian&ccedil;as de fam&iacute;lias com certas condi&ccedil;&otilde;es financeiras possam frequentar esses locais. Assim, ao inv&eacute;s de educarem as crian&ccedil;as a conviverem na diferen&ccedil;a, essas institui&ccedil;&otilde;es privadas inculcam, desde cedo, naquelas pequenas mentes, ideias de seletividade e de segrega&ccedil;&atilde;o. Al&eacute;m disso, enquanto a porcentagem de negros dentre os alunos de escolas particulares est&aacute; evidentemente muito abaixo da m&eacute;dia nacional, a porcentagem de negros em servi&ccedil;os de vigil&acirc;ncia e limpeza desses estabelecimentos &eacute; certamente bem mais elevada.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">A intoler&acirc;ncia ao outro se faz ainda mais evidente em formas urbanas que s&atilde;o explicitamente constru&iacute;das para impedir a presen&ccedil;a dos indesej&aacute;veis. Em diversos lugares da cidade de Campinas podem ser vistos objetos pontiagudos cuja fun&ccedil;&atilde;o &eacute; a de evitar que pessoas "estranhas" se sentem e ali permane&ccedil;am. Tais arquiteturas s&atilde;o muito comuns em frente a estabelecimentos comerciais (figura 1), mas podem tamb&eacute;m ser encontradas em lugares mais inusitados, como nas escadarias da Catedral de Campinas (figura 2).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a href="/img/revistas/cci/n118/a10img01.jpg"><img src="/img/revistas/cci/n118/a10img01tumb.jpg" border="0">    <br>   <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Clique para ampliar</font></a></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a href="/img/revistas/cci/n118/a10img02.jpg"><img src="/img/revistas/cci/n118/a10img02tumb.jpg" border="0">    <br>   <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Clique para ampliar</font></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">At&eacute; mesmo a prefeitura da cidade, que deveria ser a principal representante do interesse p&uacute;blico, tem o seu exemplar de arquitetura anti-indesej&aacute;veis. Na reforma de um viaduto em um bairro nobre, pedras pontiagudas foram instaladas com o intuito de afugentar moradores de rua e pedintes (figura 3). Essas s&atilde;o, obviamente, pol&iacute;ticas que combatem o pobre, como ser indesej&aacute;vel na paisagem, e n&atilde;o exatamente a pobreza.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a href="/img/revistas/cci/n118/a10img03.jpg"><img src="/img/revistas/cci/n118/a10img03tumb.jpg" border="0">    <br>   <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Clique para ampliar</font></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Esse tipo de arquitetura voltada &agrave; expuls&atilde;o dos indesej&aacute;veis n&atilde;o &eacute;, contudo, exclusividade de Campinas, mesmo que nessa cidade a sua concentra&ccedil;&atilde;o seja incrivelmente alta. As duas fotos a seguir, a primeira de uma cal&ccedil;ada de Londres e a segunda da entrada da Faculdade de Direito da Sorbonne em Paris, mostram que essas formas arquitet&ocirc;nicas t&ecirc;m sido presentes em paisagens as mais diversas.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a href="/img/revistas/cci/n118/a10img04.jpg"><img src="/img/revistas/cci/n118/a10img04tumb.jpg" border="0">    <br>   <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Clique para ampliar</font></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><a href="/img/revistas/cci/n118/a10img05.jpg"><img src="/img/revistas/cci/n118/a10img05tumb.jpg" border="0">    <br>   <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Clique para ampliar</font></a></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">&Eacute; lament&aacute;vel constatar como alguns arquitetos direcionam sua imensa capacidade criativa em projetos como esses. H&aacute;, todavia, casos ainda mais engenhosos como o que ocorre na regi&atilde;o da "Cracol&acirc;ndia" em S&atilde;o Paulo onde, para afastar usu&aacute;rios de craque, um equipamento gerador de "chuva artificial" foi instalado sob a marquise de um pr&eacute;dio. Outro exemplo inusitado pode ser encontrado em algumas cidades inglesas que instalaram aparelhos emissores de ru&iacute;dos ultra-agudos impercept&iacute;veis para os maiores de 25 anos de idade, mas extremamente inc&ocirc;modo para os jovens. Contudo, o mais curioso deles &eacute; certamente o da tamb&eacute;m inglesa Mansfield: luzes r&oacute;seas, como aquelas utilizadas por dermatologistas, foram colocadas em algumas ruas da cidade com o objetivo de real&ccedil;ar as espinhas dos adolescentes arruaceiros e com isso desestimular a presen&ccedil;a dos mesmos naqueles locais.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">H&aacute;, assim, uma deliberada adapta&ccedil;&atilde;o das cidades para que elas se tornem receptivas para alguns e repulsivas para os indesej&aacute;veis. Mais do que uma quest&atilde;o est&eacute;tica, por&eacute;m, essas arquiteturas carregam uma profunda carga simb&oacute;lica. Quando uma prefeitura chega ao ponto de construir formas urbanas para expulsar os pobres, ela revela que suas preocupa&ccedil;&otilde;es n&atilde;o s&atilde;o coletivas, mas direcionadas a servir aos interesses de uma pequena classe hegem&ocirc;nica.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Por fim, &eacute; importante que n&atilde;o nos esque&ccedil;amos da forma espacial que mais claramente revela o objetivo de negar e segregar os indesej&aacute;veis: a pris&atilde;o. Independente do local onde tenham sido constru&iacute;das, as pris&otilde;es s&atilde;o sempre majoritariamente povoadas pelos outros, o que no caso brasileiro s&atilde;o, sobretudo, os pobres. Al&eacute;m disso, h&aacute; muito, a preocupa&ccedil;&atilde;o da Justi&ccedil;a brasileira n&atilde;o &eacute; a de recuperar seus presidi&aacute;rios e trazer esses outros para perto dos iguais, mas sim mant&ecirc;-los o maior tempo poss&iacute;vel isolados e na eterna condi&ccedil;&atilde;o de outro. Assim como os espetos anti-indesej&aacute;veis, as pris&otilde;es n&atilde;o resolvem os problemas estruturais e profundos da sociedade, mas se contentam em promover uma "limpeza da paisagem", tirando da vista dos iguais a inc&ocirc;moda presen&ccedil;a dos "diferentes".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pode se, ent&atilde;o, concluir que a cidade de hoje, mais do que aquela do passado, nega ao outro a condi&ccedil;&atilde;o de cidad&atilde;o, nega&ccedil;&atilde;o esta que tem na pobreza o seu principal argumento. E, como p&ocirc;de ser visto, essa intransig&ecirc;ncia n&atilde;o se restringe aos atos, pois se concretiza em formas urbanas repulsivas e segregadoras. Com a exist&ecirc;ncia dessas formas, as cidades passam a criar as condi&ccedil;&otilde;es para que a intoler&acirc;ncia seja n&atilde;o s&oacute; mantida como tamb&eacute;m reproduzida. Confirmando-se essa tend&ecirc;ncia, chegar&aacute; certamente o momento em que as cidades de poucos "iguais" se tornar&atilde;o insuport&aacute;veis para uma grande maioria de "outros".</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><i>Lucas de Melo Melga&ccedil;o &eacute; ge&oacute;grafo e doutorando em geografia, em co-tutela de tese entre a Universidade de S&atilde;o Paulo (USP) e a Universidade de Paris 1- Panth&eacute;on Sorbonne.</i></font></p>      ]]></body>

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