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<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Ciência, música e sociedade: relações mais intrínsecas do que imaginamos]]></article-title>
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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="top"></a><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>Ci&ecirc;ncia,    m&uacute;sica e sociedade: rela&ccedil;&otilde;es mais intr&iacute;nsecas do    que imaginamos</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Por Cristiane    Pai&atilde;o</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">1960. Era dos grandes    festivais da m&uacute;sica popular brasileira, e de grandes acontecimentos hist&oacute;ricos,    que interferiram de diversas formas em todos os setores da sociedade. Uma d&eacute;cada    que definitivamente entrou para a hist&oacute;ria, de todas as formas poss&iacute;veis    e imagin&aacute;veis. Na dif&iacute;cil tarefa de compreender per&iacute;odos    como esse e pensar a realidade que nos cerca, a m&uacute;sica vem sendo percebida    cada vez mais como um objeto importante de estudos, e nada melhor que o Brasil,    celeiro de grandes sucessos e talentos conhecidos internacionalmente no cen&aacute;rio    musical, para alavancar a produ&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica na &aacute;rea.    Afinal, momentos marcantes em que essa rela&ccedil;&atilde;o intr&iacute;nseca    entre a m&uacute;sica e a sociedade estejam evidenciadas n&atilde;o faltam!</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Como parte de todo    um sistema de c&oacute;digos e pr&aacute;ticas que regem a cultura e as sociedades,    a m&uacute;sica vem despertando o interesse das mais distintas &aacute;reas    do conhecimento, tanto no campo das ci&ecirc;ncias humanas e sociais quanto    no campo das j&aacute; tradicionais ci&ecirc;ncias da m&uacute;sica, como a    musicologia e a <u>etnomusicologia</u>. A partir dos anos 1970, estudos nas    &aacute;reas de sociologia, antropologia, hist&oacute;ria, teoria liter&aacute;ria    e teorias da comunica&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m se debru&ccedil;ado cada vez    mais sobre o tema.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Para entender a    m&uacute;sica e os diferentes g&ecirc;neros musicais, &eacute; preciso entender    a sociedade na qual ela est&aacute; inserida, assim como para entender uma sociedade,    &eacute; preciso, entre outros fatores, entender a "m&uacute;sica" que nela    se insere. Em <i>Mozart: sociologia de um g&ecirc;nio</i>, o soci&oacute;logo    alem&atilde;o Norbert Elias nos mostra que, para uma biografia ou an&aacute;lise    de uma obra ter sentido, &eacute; preciso ter conhecimento dos processos sociais    e das estruturas de poder em que elas se inserem; &eacute; preciso reconstruir    o universo social em que se enra&iacute;za esse objeto de estudo, ao mesmo tempo    em que se desenvolve uma an&aacute;lise da inflex&atilde;o do simb&oacute;lico    na vida social. Isso porque os fatores que influenciam a produ&ccedil;&atilde;o    musical e o gosto de seu tempo s&atilde;o os mais diversos poss&iacute;veis,    e est&atilde;o sempre interligados, passam por quest&otilde;es culturais, pol&iacute;ticas,    econ&ocirc;micas, sociais, e at&eacute; por fatores cient&iacute;ficos e tecnol&oacute;gicos    - como se pode ver na leitura desta edi&ccedil;&atilde;o da <i>ComCi&ecirc;ncia</i>    sobre a rela&ccedil;&atilde;o entre ci&ecirc;ncia e m&uacute;sica.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Para Jos&eacute;    Geraldo Vinci, historiador da Universidade de S&atilde;o Paulo (USP), por ser    uma dimens&atilde;o da cultura humana, a m&uacute;sica est&aacute; completamente    assentada na sociedade da qual faz parte. "A m&uacute;sica revela e constroi    a sociedade da qual participa, e &eacute;, ao mesmo tempo, constru&iacute;da    por ela. A m&uacute;sica faz parte do universo humano, da cultura humana, e    obviamente influencia os modos de vida e as rela&ccedil;&otilde;es sociais dos    que est&atilde;o a sua volta; e a sociedade, por outro lado, est&aacute; construindo    a m&uacute;sica a todo momento, reconstruindo e repensando. Essas rela&ccedil;&otilde;es    s&atilde;o como uma via de m&atilde;o dupla, n&atilde;o d&aacute; para separar    uma coisa da outra", afirma.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Segundo Vinci,    a m&uacute;sica foi - e ainda &eacute; - no Brasil uma forma de express&atilde;o    escolhida pela sociedade para se comunicar de maneira geral, e tamb&eacute;m    para protestar. Isso est&aacute; relacionado com o processo de forma&ccedil;&atilde;o    da sociedade brasileira e seu hist&oacute;rico de exclus&otilde;es. "A m&uacute;sica    aqui est&aacute; muito entranhada na nossa mentalidade, no nosso universo cultural    e rela&ccedil;&otilde;es sociais. A m&uacute;sica tem papel fundamental para    n&oacute;s e a vivemos cotidianamente com muito &acirc;nimo e energia", observa.    Ele lembra que sempre foi pequena a parcela da popula&ccedil;&atilde;o com acesso    &agrave; cultura escrita e &agrave; leitura de jornais e revistas, especialmente    at&eacute; o in&iacute;cio do s&eacute;culo XX, o que torna a m&uacute;sica    um mecanismo fundamental e diversificado de mobiliza&ccedil;&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o    social. "Isso significa que ela pode apresentar tem&aacute;ticas que passam    por quest&otilde;es como amor, at&eacute; as quest&otilde;es pol&iacute;ticas    e de protestos sociais", continua. Para Vinci, o universo musical no Brasil    est&aacute; extremamente entranhado na sociedade brasileira e se apresenta de    maneira dispersa, diversificada e pluralizada. Al&eacute;m disso, "historicamente    ela se tornou um fator de identidade nacional bastante importante. As pessoas    se identificam com ela, a gente se v&ecirc; nela e se imagina, com ela, participando    de uma mesma comunidade e tem orgulho dela (da comunidade e da m&uacute;sica).    Assim, a m&uacute;sica serve para nos entendermos e nos caracterizar como sociedade,    e tamb&eacute;m para que o outro - as outras sociedades - nos veja desse modo    singular", completa.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">De acordo com Rita    de C&aacute;ssia Lahoz Morelli, antrop&oacute;loga da Universidade Estadual    de Campinas (Unicamp), h&aacute; uma percep&ccedil;&atilde;o cada vez mais aguda    do poder de mobiliza&ccedil;&atilde;o que envolve a m&uacute;sica, e da sua    capacidade de "linkar" dimens&otilde;es da cultura e da sociedade, por um lado;    e por outro, de "linkar-nos" uns aos outros em totalidades raras e importantes    para nossa sobreviv&ecirc;ncia como seres afetivos, criadores de cultura e atuantes    na sociedade. "Eu gosto de uma afirma&ccedil;&atilde;o do Anthony Seeger (antrop&oacute;logo    e etnomusic&oacute;logo americano) segundo a qual a gente procura estudar a    sociedade e a cultura por meio do estudo da m&uacute;sica porque h&aacute; algumas    coisas que n&atilde;o se pode conhecer a n&atilde;o ser por meio dela", diz    Morelli.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; o caso,    por exemplo, dos momentos em que a m&uacute;sica pode influenciar ou refletir    as transforma&ccedil;&otilde;es sociais de um pa&iacute;s, como a m&uacute;sica    que &eacute; produzida para agradar ao p&uacute;blico de um determinado contexto    hist&oacute;rico e social, por um lado; e, por outro, a m&uacute;sica que chega    para "mudar um paradigma", para causar algum tipo de mudan&ccedil;a no que j&aacute;    existe, e tempos depois, acaba se tornando aquela do gosto do tempo e do meio,    se torna "cl&aacute;ssica", e at&eacute; chega a ser consumo de massa.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Na d&eacute;cada    de 1960, &eacute;poca dos grandes festivais da m&uacute;sica popular brasileira,    surgiram no mundo todo projetos culturais e ideol&oacute;gicos alternativos    - os movimentos pela busca de direitos civis, como o feminismo, os movimentos    em favor dos negros e dos homossexuais, e os movimentos indutores de mudan&ccedil;as    de comportamento, como os hippies,por exemplo; o mundo vivia a Guerra Fria,    que dividiu o planeta em dois polos distintos: capitalistas e socialistas; &eacute;    a &eacute;poca da revolu&ccedil;&atilde;o cubana,Fidel Castro ao poder, e dos    golpes militares que assolaram a Am&eacute;rica Latina com os regimes ditatoriais.    Talvez por isso, essa d&eacute;cada tenha ficado t&atilde;o conhecida como um    dos grandes momentos da hist&oacute;ria, em que o idealismo e o entusiasmo pelo    esp&iacute;rito de luta do povo ficaram mais evidentes, nas mais distintas formas    de express&atilde;o promovidas pela arte, afinal, o mundo todo estava fervilhando    e, como n&atilde;o podia deixar de ser, um cen&aacute;rio como esses s&oacute;    poderia provocar grandes inspira&ccedil;&otilde;es no cen&aacute;rio cultural!</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">No Brasil, marcado    pelo golpe militar de 1964, surgem os protestos juvenis contra a amea&ccedil;a    de endurecimento dos governos, e &eacute; nesse cen&aacute;rio que os festivais    da MPB se destacam, atrav&eacute;s das met&aacute;foras presentes nas letras    musicais, como uma forma alternativa de express&atilde;o pol&iacute;tico-ideol&oacute;gica    da juventude naquele momento diante da repress&atilde;o da ditadura militar.    Os festivais foram um g&ecirc;nero de programa televisivo apresentados entre    1965 e 1985 por v&aacute;rias emissoras de televis&atilde;o brasileiras (Excelsior,    Record, TV Rio, Tupi e Rede Globo), em que int&eacute;rpretes e compositores    da m&uacute;sica popular brasileira, como Elis Regina, Edu Lobo, Vinicius de    Moraes, Elza Soares, Geraldo Vandr&eacute;, Chico Buarque e Caetano Veloso,    por exemplo, competiam em batalhas musicais ovacionadas pelo p&uacute;blico,    que al&eacute;m acompanhar tudo pela TV, lotava os teatros durante as apresenta&ccedil;&otilde;es    realizadas em grandes noites de gala.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Al&eacute;m de    envolver uma grande pol&ecirc;mica com a can&ccedil;&atilde;o <i>Sabi&aacute;</i>,    de Chico Buarque e Tom Jobim, com a qual disputava o primeiro lugar do festival    - e para a qual perdeu no voto do juri oficial - a can&ccedil;&atilde;o <i>Pra    n&atilde;o dizer que n&atilde;o das falei de flores</i>, de Geraldo Vandr&eacute;    - a favorita do juri popular -, virou hino da resist&ecirc;ncia &agrave; ditadura    e serviu como uma das motiva&ccedil;&otilde;es para os militares decretarem    o Ato Institucional nº 5 (AI-5), que impunha o recesso do Congresso, das Assembleias    Legislativas e C&acirc;mara dos Vereadores, e suspendia os direitos pol&iacute;ticos    por at&eacute; 10 anos e o <i>habeas corpus</i> nos casos de crime pol&iacute;tico    contra a seguran&ccedil;a nacional. Depois de ficar em segundo lugar naquele    Festival Internacional da Can&ccedil;&atilde;o de 1968, a m&uacute;sica de Vandr&eacute;    teve sua execu&ccedil;&atilde;o proibida durante anos pela ditadura militar    brasileira.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mas o festival    daquele ano tamb&eacute;m ficou famoso por uma outra pol&ecirc;mica: na noite    da final, em 28 de setembro de 1968, Caetano Veloso foi quase que literalmente    espinafrado pelo p&uacute;blico no palco do Tuca, Teatro da Universidade Cat&oacute;lica    de S&atilde;o Paulo. O epis&oacute;dio - que fez Caetano reagir a uma chuva    de ovos e tomates com um dos mais contundentes discursos da hist&oacute;ria    recente do pa&iacute;s - faz parte de um dos mais interessantes cap&iacute;tulos    da m&uacute;sica popular brasileira. Pouco tempo depois, as inova&ccedil;&otilde;es    na m&uacute;sica representadas pelo tropicalismo liderado por Caetano e Gilberto    Gil cairiam no gosto popular e, anos mais tarde, as can&ccedil;&otilde;es do    movimento, como <i>Alegria alegria e Domingo no parque</i>, se tornariam cl&aacute;ssicos    da MPB.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">"Eu n&atilde;o    sei se a m&uacute;sica provoca transforma&ccedil;&atilde;o, mas eu acho que    ela expressa uma experi&ecirc;ncia subjetiva que, num determinado momento, pode    ser compartilhada, e por isso o sucesso dela", explica Morelli, ao falar sobre    a rela&ccedil;&atilde;o entre a m&uacute;sica e o contexto pol&iacute;tico e    social da &eacute;poca, objeto de estudo de sua pesquisa atual. "A cultura &eacute;    um fluxo, n&atilde;o &eacute; algo parado no tempo. Cada um l&ecirc; o mundo    de uma maneira diferente, experimenta de uma forma diferente, e tudo isso vai    sendo expresso de uma forma diferente pelos artistas, que, de certa forma, v&atilde;o    tendo um papel de difus&atilde;o dessas mudan&ccedil;as que eles v&atilde;o    experimentando. E as pessoas, que estavam sentindo, mas que ainda n&atilde;o    tinham como se expressar, se identificam com elas. Acho que &eacute; por isso    que vira cl&aacute;ssico, porque responde a uma demanda coletiva", acrescenta.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Para saber mais:</b>    </font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Liderado por Vinci,    o grupo de pesquisa <u>Entre a mem&oacute;ria e a hist&oacute;ria da m&uacute;sica</u>    possui uma p&aacute;gina eletr&ocirc;nica na internet em que disponibiliza um    balan&ccedil;o de parte dessa produ&ccedil;&atilde;o universit&aacute;ria (<a href="http://www.memoriadamusica.com.br" target="_blank">www.memoriadamusica.com.br</a>    ). Por meio de um banco de dados que mapeia e quantifica essa nova produ&ccedil;&atilde;o    historiogr&aacute;fica realizada exclusivamente nos diversos programas de hist&oacute;ria,    &eacute; poss&iacute;vel ter acesso a artigos, disserta&ccedil;&otilde;es de    mestrado e teses de doutorado, e publica&ccedil;&otilde;es como revistas e peri&oacute;dicos    da &aacute;rea.</font></p>      ]]></body>

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