<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>1519-7654</journal-id>
<journal-title><![CDATA[ComCiência]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[ComCiência]]></abbrev-journal-title>
<issn>1519-7654</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Universidade Estadual de Campinas - Labjor]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S1519-76542010000200003</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Do analógico ao digital: o longo caminho da experiência com a música]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Palharini]]></surname>
<given-names><![CDATA[Luciana]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2010</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2010</year>
</pub-date>
<numero>116</numero>
<fpage>0</fpage>
<lpage>0</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1519-76542010000200003&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1519-76542010000200003&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1519-76542010000200003&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="top"></a><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="4"><b>Do    anal&oacute;gico ao digital: o longo caminho da experi&ecirc;ncia com a m&uacute;sica</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"><b>Por Luciana    Palharini</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">H&aacute; quem    pense que n&atilde;o h&aacute;, na hist&oacute;ria da m&uacute;sica, revolu&ccedil;&atilde;o    maior do que o formato digital. Mas do anal&oacute;gico ao digital, muita hist&oacute;ria    se passou. Para isso, &eacute; preciso voltar bem atr&aacute;s no tempo, em    meados do s&eacute;culo XIX, um tempo em que a m&uacute;sica exigia a espera    do evento que iria acontecer, quando a &uacute;nica possibilidade de experienci&aacute;-la    era assistir uma orquestra que estaria na cidade. Exigia tamb&eacute;m sil&ecirc;ncio,    aten&ccedil;&atilde;o, os ouvidos ficavam atentos tanto quanto os olhos, e o    que se levava para casa eram apenas a mem&oacute;ria e os sentidos.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A primeira inven&ccedil;&atilde;o    capaz de gravar e reproduzir o som e, consequentemente, de possibilitar a audi&ccedil;&atilde;o    dom&eacute;stica da m&uacute;sica, foi criada em 1877, por Thomas Alva Edison    (1847-1931), em Nova Jersey, nos Estados Unidos. O aparelho foi batizado de    <i>phonograph</i>, que poderia ser traduzido por fon&oacute;grafo, e consistia    num cone em cujo v&eacute;rtice era colocada uma membrana ou diafragma com uma    agulha no centro e um cilindro met&aacute;lico ligado a uma manivela que, acionada    manualmente, fazia o cilindro girar com o prop&oacute;sito de gravar ou reproduzir    um som. &Eacute; o per&iacute;odo dos cilindros, denominado por pesquisadores,    como Eduardo Andrade, professor do curso de m&uacute;sica do Instituto de Artes    da Unicamp, como "per&iacute;odo ac&uacute;stico mec&acirc;nico". Ou seja, interven&ccedil;&atilde;o    el&eacute;trica zero.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O disco, na forma    circular como conhecemos, hoje apelidado carinhosamente de "bolach&atilde;o",    foi criado em 1887 por um imigrante alem&atilde;o, Emile Berliner, e era tocado    pelo gramofone, aparelho constru&iacute;do por Eldridge R. Johnson e que tinha    um motor helicoidal. No in&iacute;cio, era feito de goma-laca, uma secre&ccedil;&atilde;o    vegetal importada da &Aacute;sia. Caros, pesados e fr&aacute;geis, os primeiros    discos variavam de 60 a 120 rpm (rota&ccedil;&otilde;es por minuto). Com o tempo,    essa disparidade de velocidades logo caiu para um intervalo entre aproximadamente    76 e 82 rpm. E por volta de 1910, a Victor Talking Machine Company, antecessora    da RCA Victor, adotou o 78 rpm como a velocidade padr&atilde;o, e essa foi adotada    por toda a ind&uacute;stria de discos. Os 78 rpm eram fabricados em sete polegadas    de di&acirc;metro e comportavam no m&aacute;ximo uma m&uacute;sica de cada lado.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Ap&oacute;s a Segunda    Guerra Mundial, o Jap&atilde;o corta o suprimento de goma-laca que ia para os    Estados Unidos e a ind&uacute;stria fonogr&aacute;fica se v&ecirc; obrigada    a buscar outros materiais. O vinil, um pl&aacute;stico t&eacute;rmico muito    mais leve e resistente que a goma-laca, foi o material escolhido e trazia uma    nova vantagem sonora: estava totalmente apropriado &agrave; descoberta da grava&ccedil;&atilde;o    por microssulco (<i>microgroove</i>), entalhes de tamanho menor na superf&iacute;cie    do disco. Em 1949, a RCA lan&ccedil;a o disco de 45 rpm e um toca-discos especialmente    desenhado para reproduzi-lo. Tal inven&ccedil;&atilde;o s&oacute; n&atilde;o    fizera mais sucesso porque coexistiu com a chegada do disco de 33 1/3 rpm, que    recebeu o nome de LP, do ingl&ecirc;s <i>long play</i>, lan&ccedil;ado em 1948    pela Columbia, e que se popularizou nos anos 1950 e 1960.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">O LP foi, sem d&uacute;vida,    a grande revolu&ccedil;&atilde;o musical da primeira metade do s&eacute;culo    XX. Com o advento do LP, o evento da audi&ccedil;&atilde;o musical passou a    acontecer no ambiente dom&eacute;stico. "O som ficava no meio da sala. Voc&ecirc;    comprava um disco do Chico Buarque, vinha o vizinho, vinha o amigo, ouvia-se    o disco todo, um lado, depois o outro, discutindo o disco, acompanhado por uma    bebida, era um evento. Tinha a coisa do fetiche da mercadoria, era um ritual",    conta o DJ Paul&atilde;o, pesquisador e produtor musical, dono de uma respeit&aacute;vel    cole&ccedil;&atilde;o de discos. A denomina&ccedil;&atilde;o, <i>long play</i>,    que abandona a refer&ecirc;ncia t&eacute;cnica das rota&ccedil;&otilde;es por    minuto, diz tudo: o disco permite um maior armazenamento de informa&ccedil;&otilde;es    em cada lado, passando a comportar muito mais m&uacute;sicas. De acordo com    o jornalista Leonardo De Marchi, no artigo "A ang&uacute;stia do formato: uma    hist&oacute;ria dos formatos fonogr&aacute;ficos", publicado na revista eletr&ocirc;nica    <i>e-compos</i>, da Universidade Federal Fluminense, fruto de sua pesquisa sobre    a ind&uacute;stria fonogr&aacute;fica independente e novas tecnologias de comunica&ccedil;&atilde;o,    o nome <i>long play</i> sugere uma "nova experi&ecirc;ncia de consumo sonoro,    temporalmente 'alongada' em rela&ccedil;&atilde;o aos formatos anteriores",    e &eacute;, a partir de ent&atilde;o, o preferido pelo grande p&uacute;blico    e pela ind&uacute;stria fonogr&aacute;fica.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Agrave; medida    que houve melhora da alta fidelidade da grava&ccedil;&atilde;o, da durabilidade    do material suporte em que o som era gravado (vinil) e da possibilidade de portar    esse som, aumenta tamb&eacute;m o consumo, e &eacute; nos anos 1960 e 1970 que    se tem um <i>boom</i> comercial na venda de discos. Nesse sentido, o padr&atilde;o    de consumo do LP merece aten&ccedil;&atilde;o. A capa, com um grande volume    de informa&ccedil;&otilde;es sobre o &aacute;lbum e trabalhada com um requinte    gr&aacute;fico cada vez maior, coloca o disco na mesma categoria de valores    do livro. "Com o surgimento da est&eacute;tica do &aacute;lbum, os discos passam    a ser vistos como obras de arte em si. O LP passa a ser consumido como livros,    ou seja, um suporte fechado, pass&iacute;vel de cole&ccedil;&atilde;o em discotecas    privadas - com status de objeto cultural, afinal julga-se a cultura musical    de uma pessoa pela discoteca que possui", afirma De Marchi.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mas os anos de    gl&oacute;ria do LP, que n&atilde;o foram poucos, estavam prestes a ter um fim.    Em 1983, surge um novo suporte, o <i>compact disc</i> ou CD, feito de alum&iacute;nio,    menor e mais leve do que um LP e com capacidade para armazenar aproximadamente    70 minutos de m&uacute;sica. Est&aacute; inaugurada a era digital, que tem como    caracter&iacute;sticas praticidade e portabilidade: f&aacute;cil de gravar,    f&aacute;cil de reproduzir, f&aacute;cil de carregar.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">A fita magn&eacute;tica    j&aacute; havia trazido as mudan&ccedil;as para o estabelecimento dessa nova    fase. Criado bem antes, em 1935, o princ&iacute;pio magn&eacute;tico revolucionou    os m&eacute;todos de grava&ccedil;&atilde;o em est&uacute;dio. "N&atilde;o apenas    as fitas magn&eacute;ticas eram o suporte adequado &agrave;s inova&ccedil;&otilde;es    tecnol&oacute;gicas como tamb&eacute;m eram male&aacute;veis, podendo ser cortadas    e editadas, criando novas t&eacute;cnicas de manipula&ccedil;&atilde;o sonora    no est&uacute;dio", conta De Marchi. E trouxe, tamb&eacute;m, transforma&ccedil;&otilde;es    no consumo da m&uacute;sica: a possibilidade de se carregar o som no corpo,    de ouvi-lo ao andar pelas ruas, com o surgimento da fita cassete e do <i>walkman</i>.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Com o CD, o princ&iacute;pio    da portabilidade &eacute; o mesmo, o produto &eacute; inclusive mais delicado    do que as fitas cassetes e exige um cuidado maior para se carregar. Mas a qualidade    sonora do CD em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; fita cassete carimbou a inova&ccedil;&atilde;o    do <i>disc man</i>, que se disseminou rapidamente em poucos anos. Tamb&eacute;m    de forma r&aacute;pida se deu a ado&ccedil;&atilde;o da tecnologia no ambiente    caseiro: em poucos anos, os aparelhos de som &agrave; base de madeira e a&ccedil;o    que comportavam toca-discos foram substitu&iacute;dos por aparelhos mais modernos,    feitos de pl&aacute;stico, com um <i>CD player</i>. Melhor dizendo, n&atilde;o    havia op&ccedil;&atilde;o: em menos de dez anos, n&atilde;o era mais poss&iacute;vel    comprar um aparelho de som para uso dom&eacute;stico que tocasse LPs. Enquanto    isso, cole&ccedil;&otilde;es de discos eram colocadas no lixo por milhares de    fam&iacute;lias e as f&aacute;bricas de vinil foram desaparecendo. Foi a ditadura    do CD.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>A era da informa&ccedil;&atilde;o    digital&nbsp;</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">N&atilde;o duraria    muito tempo esse sucesso. Menos ainda do que o vinil foram os anos de gl&oacute;ria    do CD. A nova fase estreia com a chegada do <i>motion picture expert group-layer</i>    3, ou <i>MP3</i>. Totalmente popularizado nos dias de hoje, o MP3 &eacute; um    arquivo compacto (1/12 do formato wav do CD) para transfer&ecirc;ncia de dados.    Em termos de ind&uacute;stria fonogr&aacute;fica, entramos na era da mobilidade    da informa&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o est&aacute; mais fechada em um suporte    material. Como afirma DJ Paul&atilde;o, "o digital &eacute; o imaterial. Voc&ecirc;    cria meios de acessar, mas o inv&oacute;lucro da m&uacute;sica nem existe".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">&Eacute; exatamente    disso que se est&aacute; falando. Como aponta De Marchi, "com os formatos virtuais    - que n&atilde;o se restringem ao MP3 -, o pr&oacute;prio padr&atilde;o de consumo    se altera. Ao inv&eacute;s de se restringir a um objeto em si, surge um consumo    diretamente on-line, transformando a grava&ccedil;&atilde;o sonora numa informa&ccedil;&atilde;o    transfer&iacute;vel de suportes (do CD para um HD, para o iPod, para o CD, por    exemplo). Isso significa que o formato fonogr&aacute;fico f&iacute;sico tornou-se    uma tecnologia para armazenamento da informa&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o mais    um s&iacute;mbolo cultural em si, como o LP. Mais do que isso, com a converg&ecirc;ncia    tecnol&oacute;gica, o consumo sonoro se expande por diversos meios de comunica&ccedil;&atilde;o,    abrindo o mercado fonogr&aacute;fico a outros setores industriais - empresas    de telefonia, por exemplo".</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Se a pirataria,    que j&aacute; era poss&iacute;vel desde o aparecimento da fita cassete, tomou    propor&ccedil;&otilde;es exorbitantes com a digitaliza&ccedil;&atilde;o do processo    de grava&ccedil;&atilde;o e reprodu&ccedil;&atilde;o e a populariza&ccedil;&atilde;o    do computador no come&ccedil;o dos anos 1990, seu espa&ccedil;o agora estava    ainda mais garantido: o padr&atilde;o de consumo da m&uacute;sica passou por    uma nova transforma&ccedil;&atilde;o, a possibilidade de acesso direto, sem    media&ccedil;&otilde;es nem custo, aos arquivos digitais pela internet. "Essa    facilidade tinha que ser vista pela gravadora como um convite &agrave; pirataria",    afirma enfaticamente DJ Paul&atilde;o. Para ele, a maior responsabilidade da    queda de vendas do CD &eacute; das pr&oacute;prias gravadoras. "Se o pre&ccedil;o    de consumo de um CD fosse bem mais em conta, desestimularia a ind&uacute;stria    da pirataria e animaria as pessoas a investirem no artista. S&oacute; para dar    um exemplo em reais, se o disco fosse algo em torno de R$ 8 e o disco pirata    sa&iacute;sse a R$ 6 - porque, al&eacute;m do custo de produ&ccedil;&atilde;o,    o vendedor tamb&eacute;m tem que ganhar -, dificilmente o cara iria se envolver    na pirataria. A pessoa n&atilde;o vai piratear a R$ 6, algo que &eacute; legal,    regular a R$ 8. Ent&atilde;o, essa falta de vis&atilde;o da gravadora fez com    que a pirataria ocupasse muito espa&ccedil;o e, a partir do momento em que ela    est&aacute; estabelecida, n&atilde;o tem mais volta", completa.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Uma op&ccedil;&atilde;o    ao combate &agrave; pirataria tem movimentado o <u>mercado na internet</u>:    a compra de m&uacute;sicas online. A Apple, fabricante do mais popular tocador    de MP3, o iPod, desenvolveu recentemente um software de reprodu&ccedil;&atilde;o    de &aacute;udio, o iTunes, compat&iacute;vel com computadores e sistemas operacionais    utilizados comumente e que cont&eacute;m um componente, o iTunes Store, pelo    qual os usu&aacute;rios podem comprar arquivos de m&iacute;dia digital, como    m&uacute;sicas. Alguns artistas e bandas, inclusive, t&ecirc;m lan&ccedil;ado    suas m&uacute;sicas na web para compra online em v&aacute;rios pa&iacute;ses.    No Brasil, Roberto Carlos lan&ccedil;ou pela primeira vez na web, em dezembro    do ano passado, a can&ccedil;&atilde;o "A mulher que eu amo", tema da novela    <i>Viver a vida</i>, da Rede Globo.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Mas para que comprar    uma m&uacute;sica na internet se &eacute; t&atilde;o f&aacute;cil encontr&aacute;-la    para "baixar" gratuitamente? Essa &eacute; uma pergunta que muitas pessoas fariam    hoje. Para DJ Paul&atilde;o, &eacute; o que evidencia a mudan&ccedil;a da rela&ccedil;&atilde;o    com o trabalho do artista provocada pelo f&aacute;cil acesso digital &agrave;s    obras e pelo alto custo dos originais em CD. "A rela&ccedil;&atilde;o com o    artista se perdeu, a pessoa que consome o produto hoje n&atilde;o pensa em investir    no artista, isso est&aacute; muito distante", comenta. Por esse motivo, existe    uma tend&ecirc;ncia cada vez maior de disponibiliza&ccedil;&atilde;o do trabalho    pelo pr&oacute;prio artista. O maranhense Zeca Baleiro, por exemplo, tem lan&ccedil;ado    gratuitamente algumas de suas produ&ccedil;&otilde;es em seu site oficial.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Outra tend&ecirc;ncia    s&atilde;o os sites de relacionamento entre artistas, utilizados cada vez mais    para lan&ccedil;arem seus trabalhos e que oferecem espa&ccedil;o para postagem    de composi&ccedil;&otilde;es pr&oacute;prias, release, fotos e coment&aacute;rios    de "amigos". DJ Goya, pesquisador e produtor musical em Campinas (SP), teve    uma carreira breve e faleceu em dezembro de 2008. Mas &eacute; poss&iacute;vel    que sua filha, Clara, que n&atilde;o chegou a conhecer o pai, al&eacute;m de    outros usu&aacute;rios da web, possam tomar contato com parte de suas produ&ccedil;&otilde;es    gra&ccedil;as ao Myspace, um dos sites de relacionamentos mais acessados em    todo o mundo. Ao lado dele, existem outros, como o Last.fm e, mais recente,    o Soundcloud.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="3"><b>Decad&ecirc;ncia    das gravadoras - o retorno do vinil &nbsp;</b></font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">N&atilde;o &eacute;    mais poss&iacute;vel viver com lucro de CDs hoje em dia. Os artistas s&atilde;o    pagos basicamente pelos shows que apresentam. Mas, com a queda de vendas das    gravadoras, elas acabam escolhendo produzir apenas o que &eacute; sin&ocirc;nimo    de lucro garantido, os campe&otilde;es em audi&ecirc;ncia, rejeitando muitos    artistas e gerando uma classe de "&oacute;rf&atilde;os" de gravadoras. Essa    situa&ccedil;&atilde;o, ao lado de toda a facilidade de acesso ao desenvolvimento    tecnol&oacute;gico digital, tem feito aumentar o n&uacute;mero de est&uacute;dios    de grava&ccedil;&atilde;o independentes e, gra&ccedil;as a isso, muitos artistas    t&ecirc;m conseguido penetrar no cen&aacute;rio da m&uacute;sica.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Al&eacute;m disso,    existe atualmente um interesse muito grande por parte de um n&uacute;mero crescente    de artistas em lan&ccedil;ar sua obra em vinil. "O vinil, eu n&atilde;o sei    se &eacute; o futuro, mas o CD n&atilde;o &eacute;", responde taxativamente    DJ Paul&atilde;o. "O vinil n&atilde;o &eacute; um formato que estimula a pirataria.    A aparelhagem de vinil para a pirataria &eacute; muito cara. N&atilde;o &eacute;    barato, nem t&atilde;o simples quanto a produ&ccedil;&atilde;o de um CD. A produ&ccedil;&atilde;o    de CD &eacute; desburocratizada, voc&ecirc; seleciona, baixa, queima e pronto.    O vinil, neste momento, est&aacute; enterrando o CD, porque o CD simplesmente    como proposta comercial n&atilde;o contempla mais", conclui.</font></p>     <p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Apesar de ter sofrido    um golpe nos anos 1980, o vinil n&atilde;o desapareceu e manteve uma classe    de f&atilde;s e colecionadores. Entre eles, est&atilde;o os DJs. Mesmo no universo    da <u>m&uacute;sica eletr&ocirc;nica</u>, que &eacute; composta e gravada atrav&eacute;s    do formato digital, o n&uacute;mero de DJs que defendem o uso do vinil &eacute;    bastante grande. &Eacute; o que mostra o trabalho de Pedro Peixoto Ferreira,    apresentado na 24ª Reuni&atilde;o da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de    Antropologia, em 2004, cujo t&iacute;tulo &eacute; bastante esclarecedor: "Anal&oacute;gico    ou digital: a politiza&ccedil;&atilde;o nos discursos dos DJs". Analisando f&oacute;runs    de discuss&atilde;o virtuais frequentados pelos profissionais, Ferreira aponta    duas naturezas diversas e imbricadas no discurso de argumenta&ccedil;&atilde;o    dos DJs: uma ligada &agrave; est&eacute;tica que esse suporte proporciona, outra    de natureza t&eacute;cnica. A quest&atilde;o de ser mais bonito um DJ tocar    vinil, das mixagens serem mais "calorosas" em contrapartida &agrave; "frieza"    do CD, s&atilde;o alguns dos argumentos est&eacute;ticos que aparecem em suas    falas. Entre os argumentos t&eacute;cnicos est&atilde;o a seguran&ccedil;a proporcionada    pelo vinil no processo de mixagens, ao contr&aacute;rio do CD, que &eacute;    um meio inseguro; o fato de ser uma m&iacute;dia f&iacute;sica e proporcionar    uma "materialidade imediata" ao uso das m&atilde;os e dos olhos, contra a invisibilidade    do que est&aacute; sendo tocado em um CD ; a possibilidade de se atingir efeitos    sonoros que dependem da materialidade do vinil, que os torna mais reais do que    as simula&ccedil;&otilde;es digitais "n&atilde;o convincentes" e a impossibilidade    do meio digital em atingir frequ&ecirc;ncias mais graves, ou "subgraves", t&atilde;o    importantes aos ouvidos na opini&atilde;o dos f&atilde;s do vinil.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2">Esse &uacute;ltimo    argumento t&eacute;cnico &eacute;, geralmente, o mais citado entre os colecionadores    e amantes desse suporte. O digital, como diria DJ Paul&atilde;o, "sempre vai    ser uma maneira de copiar o anal&oacute;gico. O anal&oacute;gico &eacute; nossa    voz, &eacute; o instrumento da maneira como a gente ouve, &eacute; um comportamento    de onda. O digital s&atilde;o quadradinhos que imitam a onda. Tecnologicamente,    cada vez mais os quadradinhos est&atilde;o menores e a c&oacute;pia cada vez    mais perto da onda, mas nunca vai ser a onda". &Eacute; o que explica Ferreira    em seu artigo, que traz imagens ampliadas dos sulcos em um disco de vinil e    das micro-covas de um CD, mostrando a diferen&ccedil;a entre eles. "N&atilde;o    se trata de uma disputa meramente simb&oacute;lica. Enquanto a grava&ccedil;&atilde;o    anal&oacute;gica &eacute; realizada atrav&eacute;s da transdu&ccedil;&atilde;o    do som, a grava&ccedil;&atilde;o digital &eacute; realizada atrav&eacute;s da    sua codifica&ccedil;&atilde;o. A diferen&ccedil;a n&atilde;o &eacute; superficial    e interfere infra-estruturalmente na experi&ecirc;ncia sonora", explica o pesquisador.    "Na transdu&ccedil;&atilde;o, h&aacute; sempre uma abertura para o caos, para    o imprevisto, para o indeterminado, ao passo que a codifica&ccedil;&atilde;o    se define justamente pela organiza&ccedil;&atilde;o e pelo controle dos processos.    A principal consequ&ecirc;ncia dessa codifica&ccedil;&atilde;o &eacute; a necess&aacute;ria    elimina&ccedil;&atilde;o de todas aquelas dimens&otilde;es sonoras que n&atilde;o    podem ser controladas e organizadas, de tudo o que n&atilde;o cabe na 'grade'    da digitaliza&ccedil;&atilde;o", complementa.</font></p>      ]]></body>

</article>
