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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana"><B>REPORTAGEM</B></font></p>    <p>&nbsp;</p>    <p><font size="4" face="Verdana"><b>A  transforma&ccedil;&atilde;o do mundo pela escrita </b></font></p>    <p>&nbsp;</p>    <p>&nbsp;</p>    <p><font size="2" face="Verdana"><b>Por  Ma&iacute;ra Valle e Alessandra Pancetti</b></font></p>    <p>&nbsp;</p>    <p>&nbsp;</p>    <p><font size="2" face="Verdana">&Eacute;  dif&iacute;cil imaginar o mundo que conhecemos sem a escrita. A maior parte dos  avan&ccedil;os cient&iacute;ficos e tecnol&oacute;gicos, ao longo da hist&oacute;ria,  est&aacute; direta ou indiretamente associada ao armazenamento e transmiss&atilde;o  de informa&ccedil;&otilde;es. Mas a escrita n&atilde;o esteve sempre presente:  considerando a hist&oacute;ria do <I>Homo sapiens</I>, que tem por volta de duzentos  e cinquenta mil anos de exist&ecirc;ncia, ela &eacute; uma inven&ccedil;&atilde;o  bastante recente. Com toda a certeza, a linguagem oral precedeu muito o in&iacute;cio  da express&atilde;o dos homens atrav&eacute;s de s&iacute;mbolos gr&aacute;ficos.  A raz&atilde;o do hiato entre a fala e a escrita deve se relacionar ao alto grau  de abstra&ccedil;&atilde;o exigido por essa forma de express&atilde;o.</font></p>    <p><font size="2" face="Verdana">Inicialmente,  os elementos gr&aacute;ficos utilizados eram apenas desenhos que representavam  diretamente aquilo que se queria expressar, como mostram as pinturas rupestres.  Assim, uma cabe&ccedil;a de um boi, por exemplo, representava esse animal. Tr&ecirc;s  cabe&ccedil;as de boi representavam tr&ecirc;s bois, e assim por diante. Entretanto,  por mais simpl&oacute;rio que isso possa parecer hoje, para se criar e reconhecer  os pictogramas, como s&atilde;o chamados esses s&iacute;mbolos figurativos, foi  necess&aacute;ria uma grande dose de abstra&ccedil;&atilde;o do homem primitivo.  Afinal, esses desenhos s&atilde;o uma representa&ccedil;&atilde;o bastante diversa  da realidade, colorida e em tr&ecirc;s dimens&otilde;es. E apesar da alta exig&ecirc;ncia  cognitiva, &eacute; poss&iacute;vel que a escrita tenha se iniciado diversas vezes,  em diferentes locais, em &eacute;pocas pr&oacute;ximas, como ocorreu com quase  todas as grandes inven&ccedil;&otilde;es humanas.</font></p>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Atualmente,  acredita-se que a escrita foi criada atrav&eacute;s de um processo de evolu&ccedil;&atilde;o  lento, que levou milhares de anos e foi gerado a partir da ideia de registro de  propriedade ou objetos. Segundo Marcelo Rede, professor da Universidade de S&atilde;o  Paulo (USP) especializado em hist&oacute;ria da Mesopot&acirc;mia, a teoria da  cria&ccedil;&atilde;o &uacute;nica da escrita, cuja difus&atilde;o posterior teria  derivado em todos os outros tipos, n&atilde;o &eacute; plaus&iacute;vel. Para  ele, n&atilde;o h&aacute; apenas uma raz&atilde;o para o aparecimento da escrita,  e sim in&uacute;meros fatores, dentro de um contexto hist&oacute;rico espec&iacute;fico,  que levaram as sociedades pr&eacute;-hist&oacute;ricas a desenvolverem esse modo  de express&atilde;o.</font></p>    <p><font size="2" face="Verdana">&quot;De fato,  sobretudo como mostraram as pesquisas da arque&oacute;loga Denise Schmandt-Besserat,  desde o per&iacute;odo neol&iacute;tico, em plena pr&eacute;-hist&oacute;ria,  portanto, desde nove ou oito mil anos a.C., v&aacute;rias popula&ccedil;&otilde;es  do Oriente utilizavam sistemas de registros para efetuarem o armazenamento de  informa&ccedil;&otilde;es ou se comunicarem", explica o professor da USP. Inicialmente,  isso se deu atrav&eacute;s de pequenos objetos moldados a partir da pedra ou da  argila, cujo uso ajudava no controle de produ&ccedil;&atilde;o e circula&ccedil;&atilde;o  de bens. Os chamados token representavam diretamente o artefato em quest&atilde;o,  como uma pequena escultura da cabe&ccedil;a de um boi ou uma planta. Entretanto,  &agrave;s vezes eles tinham uma representa&ccedil;&atilde;o mais abstrata como,  por exemplo, uma pedra redonda representando um boi. Numa fase posterior, os tokens  passaram a ser envoltos por esferas de argila, as bullae. Segundo Rede, esse foi  um avan&ccedil;o no sistema de informa&ccedil;&otilde;es. &quot;Isso sugere um  acr&eacute;scimo importante na complexidade do sistema de registro, pois as bullae  permitem reunir em seu interior v&aacute;rios tokens, formando uma esp&eacute;cie  de unidade de conta, um arquivo de informa&ccedil;&otilde;es", explica o historiador.  &Agrave;s vezes, os tokens eram impressos na argila, determinando o que esta continha,  denotando uma complexidade ainda maior entre a representa&ccedil;&atilde;o e o  pr&oacute;prio objeto representado. Com o passar do tempo, as bullae esf&eacute;ricas  tamb&eacute;m desapareceram e surgiram tabletes achatados e, ao inv&eacute;s dos  tokens, passaram a ser utilizadas apenas as impress&otilde;es destes nos tabletes  de argila. Os s&iacute;mbolos iconogr&aacute;ficos impressos nesses tabletes de  argila constitu&iacute;ram os sinais proto-cuneiformes, pois j&aacute; se assemelhavam  &agrave; forma triangular, de cunha, da escrita cuneiforme.</font></p>    <p><font size="2" face="Verdana">A  escrita cuneiforme representa o mais antigo sistema de escrita de que se tem registro.  Ela apareceu na regi&atilde;o da Mesopot&acirc;mia &#150; atual Iraque &#150;  e, para alguns estudiosos, estaria associada a uma l&iacute;ngua &uacute;nica,  o sum&eacute;rio, tendo sido criada para expressar os elementos lingu&iacute;sticos  de maneira liter&aacute;ria, narrativa. Por essa raz&atilde;o, muito estudiosos  insistem em uma cria&ccedil;&atilde;o pontual ou &uacute;nica da escrita. "&Eacute;  uma vis&atilde;o que repercute muito e exagera a ideia de que o surgimento da  escrita foi um verdadeiro divisor de &aacute;guas, marcando o fim da pr&eacute;-hist&oacute;ria  e o in&iacute;cio da hist&oacute;ria propriamente dita", afirma Rede. Dentro dessa  perspectiva, o historiador explica que, apesar de a maioria dos estudiosos acreditar  que os hier&oacute;glifos eg&iacute;pcios sejam resultado de um processo local,  alguns ainda acreditam que houve uma importa&ccedil;&atilde;o da ideia do registro  da Mesopot&acirc;mia.</font></p>    <p><font size="2" face="Verdana">Embora n&atilde;o  haja consenso quanto &agrave; forma como a escrita se originou, o mesmo n&atilde;o  se d&aacute; para a inven&ccedil;&atilde;o do alfabeto, que surgiu depois. &quot;No  caso do sistema alfab&eacute;tico, o processo de difus&atilde;o funcionou largamente:  originado, ao que tudo indica, na regi&atilde;o do Levante (entre a costa de Gaza  e a Turquia), as v&aacute;rias formas de alfabeto foram se derivando umas das  outras e espalharam-se por todo o Mediterr&acirc;neo antigo, da Fen&iacute;cia  a Roma, passando pela Gr&eacute;cia. Assim sendo, as raz&otilde;es que levaram  ao aparecimento da escrita variam conforme os contextos hist&oacute;ricos e n&atilde;o  h&aacute; uma resposta &uacute;nica", completa o professor da USP. Quando o alfabeto  foi inventado, as formas escritas passaram a representar n&atilde;o mais coisas,  mas os sons da l&iacute;ngua falada. Segundo ele, o registro de uma l&iacute;ngua  n&atilde;o pode se esgotar na representa&ccedil;&atilde;o pictogr&aacute;fica,  pelo simples fato de que nem todas as coisas podem ser representadas em s&iacute;mbolos  pict&oacute;ricos. Como Rede explica, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; escrita  sum&eacute;ria: &quot;Como dizer, a partir de uma imagem semelhante, o verbo &quot;du"(&quot;falar")  ou &quot;gu"(&quot;gritar")? E como distinguir &quot;gritar"(verbo) de &quot;grito"(substantivo)?  Ou &quot;boca"de &quot;palavra"(&quot;inim")? Do mesmo modo, como inserir as flex&otilde;es  de pessoa: eu falo, tu falas etc? Ou, ainda, como indicar tempo: eu falava, eu  falo, eu falarei? Para tudo isso, um sistema puramente pictogr&aacute;fico se  presta mal; &eacute; necess&aacute;rio introduzir sinais de abstra&ccedil;&atilde;o  de v&aacute;rios tipos".</font></p>    <p><font size="2" face="Verdana">Segundo Margarida  Salom&atilde;o, linguista e professora da Universidade Federal de Juiz de Fora  (UFJF), na hist&oacute;ria da escrita ocidental, existiu um momento em que os  sinais ideogram&aacute;ticos, os hier&oacute;glifos eg&iacute;pcios, se convencionalizaram  e, a partir disso, existiu uma simplifica&ccedil;&atilde;o. Os ideogramas simplificados  passaram a ser interpretados foneticamente na escrita fen&iacute;cia e, depois,  na grega, que &eacute; basicamente a que perdura at&eacute; os dias de hoje. &quot;A  escrita &eacute; baseada na significa&ccedil;&atilde;o. O primeiro per&iacute;odo  da escrita ocidental foi ideogram&aacute;tico, escrevia-se uma representa&ccedil;&atilde;o  da significa&ccedil;&atilde;o. E depois, para obter-se mais capacidade expressiva,  para evoluir-se tecnologicamente, &eacute; que de fato passou-se a fazer an&aacute;lise  f&ocirc;nica, e hoje, tem-se a escrita fon&eacute;tica, que &eacute; a mais pr&aacute;tica  de todas", explica Salom&atilde;o. Para a linguista, a inven&ccedil;&atilde;o  da escrita conferiu uma dimens&atilde;o de poder aos povos que a possu&iacute;am,  pela perspectiva de avan&ccedil;o tecnol&oacute;gico advinda dela. &quot;A partir  do momento que se tem a escrita, passa-se a ter uma mem&oacute;ria social. E,  na verdade, os avan&ccedil;os tecnol&oacute;gicos obtidos foram pautados ou tiveram  como patamar a sistematiza&ccedil;&atilde;o e organiza&ccedil;&atilde;o dos conhecimentos,  que passaram a ser, inclusive, coletivamente partilhados. E quanto maior a dissemina&ccedil;&atilde;o  dessa mem&oacute;ria social, mais r&aacute;pida e mais violenta se tornou a evolu&ccedil;&atilde;o  tecnol&oacute;gica e cient&iacute;fica", completa.</font></p>    <p><font size="2" face="Verdana">Historicamente,  junto com a escrita e logo no seu in&iacute;cio, formou-se um grupo de especialistas  da escritura, os chamados escribas. A cultura escribal foi uma das caracter&iacute;sticas  das sociedades do antigo Oriente M&eacute;dio. Para Marcelo Rede, da USP, foi  a classe dos escribas que conferiu grande longevidade &agrave; escrita cuneiforme,  que perdurou por mais de tr&ecirc;s mil&ecirc;nios. Mas, enquanto parte deles  se dedicava ao registro das coisas cotidianas, como contabilidade e correspond&ecirc;ncia,  outros se especializavam em textos de &aacute;reas espec&iacute;ficas do saber,  como textos liter&aacute;rios, textos em medicina, matem&aacute;tica e astronomia.  &quot;N&atilde;o &eacute;, portanto, apenas uma quest&atilde;o de ler e escrever,  mas de dom&iacute;nio de um campo de saber", completa Rede. Tal saber n&atilde;o  era totalmente difundido pela popula&ccedil;&atilde;o, mas privil&eacute;gio de  poucos. Ainda assim, para al&eacute;m dos textos espec&iacute;ficos redigidos  pelos escribas, a sociedade mesopot&acirc;mica parece ter tido um grande n&uacute;mero  de pessoas capazes de registrar a vida cotidiana, que est&aacute; muito bem documentada  nos escritos cuneiformes. &quot;A tal ponto que os textos cuneiformes formam o  maior conjunto unit&aacute;rio de registros escritos antes da inven&ccedil;&atilde;o  da impress&atilde;o por Gutemberg", explica o professor da USP.</font></p>    <p><font size="2" face="Verdana">Entretanto,  o aparecimento e a evolu&ccedil;&atilde;o da escrita n&atilde;o foi, e n&atilde;o  &eacute;, uma caracter&iacute;stica de todas as sociedades humanas. Mesmo com  o aparecimento e a evolu&ccedil;&atilde;o de diversos tipos de escrita, ainda  hoje temos muito mais l&iacute;nguas faladas (cerca de 7000), do que l&iacute;nguas  escritas, que s&atilde;o algumas centenas. Com certeza, quest&otilde;es hist&oacute;ricas  se encontram na base da discrep&acirc;ncia entre o n&uacute;mero de l&iacute;nguas  escritas e faladas, em especial a estrutura da sociedade em que a l&iacute;ngua  escrita &eacute; usada. O linguista e professor da Universidade do Estado do Rio  de Janeiro (UERJ), Jos&eacute; Pereira da Silva, explica que apesar de as raz&otilde;es  para o surgimento da escrita n&atilde;o estarem totalmente esclarecidas, um dos  fatores em comum na maioria das sociedades foi a exist&ecirc;ncia da agricultura,  da permuta ou do com&eacute;rcio, o que exigia um alto grau de complexidade de  governan&ccedil;a, em que havia uma necessidade pr&aacute;tica do registro. &quot;Esses  primeiros documentos eram, quase sempre, registros de bens e indica&ccedil;&atilde;o  dos seus propriet&aacute;rios e herdeiros. A contabilidade foi, de in&iacute;cio,  a atividade mais documentada por escrito", completa. Por isso, os povos cujas  sociedades eram menos complexas, como os &iacute;ndios americanos, que antes da  chegada dos europeus eram coletores e ca&ccedil;adores, n&atilde;o desenvolveram  a escrita &#150; afinal, n&atilde;o havia uma grande necessidade da mesma. E isso  se repete para os povos coletores e ca&ccedil;adores ainda existentes no mundo.</font></p>    <p><font size="2" face="Verdana">Se,  por um lado, fatores hist&oacute;ricos parecem predominantes para a inven&ccedil;&atilde;o  da escrita em uma sociedade, por outro lado, o grande n&uacute;mero de l&iacute;nguas  faladas com rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s escritas demonstra o grau de dificuldade  da constru&ccedil;&atilde;o de um sistema de representa&ccedil;&atilde;o da fala.  Na verdade, nossa express&atilde;o plena em um idioma exige habilidades distintas.  A linguista Margarida Salom&atilde;o, da UFJF, explica que o fato de sabermos  ler em uma determinada l&iacute;ngua, n&atilde;o significa que saibamos nos comunicar  por ela escrevendo ou falando, ou que possamos compreend&ecirc;-la atrav&eacute;s  da audi&ccedil;&atilde;o. Ou seja, a escrita, a leitura, a fala e a audi&ccedil;&atilde;o  s&atilde;o habilidades cognitivas distintas, muito embora relacionadas. Para termos  compet&ecirc;ncia em cada uma delas, &eacute; necess&aacute;ria a pr&aacute;tica  das diferentes habilidades.</font></p>    <p><font size="2" face="Verdana">Al&eacute;m  da exig&ecirc;ncia de diferentes habilidades cognitivas, e talvez por isso mesmo,  as l&iacute;nguas faladas e escritas tamb&eacute;m evoluem por caminhos diversos:  &eacute; fato que em nenhuma l&iacute;ngua h&aacute; total concord&acirc;ncia  entre sons e letras. Para Margarida Salom&atilde;o, enquanto a fala, que &eacute;  a experi&ecirc;ncia cognitiva prim&aacute;ria, evolui no tempo morfol&oacute;gica  e fonicamente, a escrita fica presa &agrave; sua hist&oacute;ria, depende da ortografia  vigente, que normalmente &eacute; conservadora. Sendo assim, a escrita sempre  &quot;fica para tr&aacute;s", numa vers&atilde;o mais antiga da l&iacute;ngua,  o que gera a discrep&acirc;ncia entre fala e escrita. &quot;A escrita &eacute;  datada historicamente. Como a l&iacute;ngua prossegue mudando, do ponto de vista  f&ocirc;nico, do ponto de vista morfol&oacute;gico, ent&atilde;o a escrita &eacute;  sempre uma vers&atilde;o mais velha da l&iacute;ngua que se fala, e da&iacute;  tem-se esse desacordo", completa.</font></p>    <p><font size="2" face="Verdana">Em  rela&ccedil;&atilde;o &agrave; l&iacute;ngua escrita, podemos dizer que, historicamente,  as l&iacute;nguas escritas nem sempre &quot;evolu&iacute;ram"de uma forma pict&oacute;rica  para uma forma abstrata, como em uma s&eacute;rie de etapas pr&eacute;-determinadas  que foram alcan&ccedil;adas paulatinamente. Em especial, podemos dizer que a hist&oacute;ria  da escrita no Ocidente, da qual viemos falando at&eacute; ent&atilde;o, n&atilde;o  reflete necessariamente a hist&oacute;ria de todas as l&iacute;nguas escritas.  &quot;A evolu&ccedil;&atilde;o do pict&oacute;rico para os s&iacute;mbolos concretos  dos hier&oacute;glifos, por exemplo, para os abstratos que representam os sons,  n&atilde;o &eacute; t&atilde;o generalizada como nos parece. Pois, no Oriente,  a escrita ideogr&aacute;fica ainda permanece", diz Jos&eacute; Pereira, da UERJ.  E, certamente, em pa&iacute;ses como Jap&atilde;o, China, as Coreias do Norte  e do Sul, entre outros, a escrita ideogr&aacute;fica ainda &eacute; utilizada.</font></p>    ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">Segundo  explica&ccedil;&atilde;o da linguista e professora da USP, Leiko Morales, a primeira  apari&ccedil;&atilde;o da escrita ideogr&aacute;fica ou logogr&aacute;fica chinesa  &eacute; datada de meados do s&eacute;culo VII, e tal maneira de registrar foi,  depois, &quot;importada"pelo Jap&atilde;o, onde apareceu na literatura japonesa  do s&eacute;culo VIII. Para Morales, as principais causas que levaram ao aparecimento  da escrita no Jap&atilde;o foram a necessidade de desenvolvimento e de ser reconhecido  como uma na&ccedil;&atilde;o pela China, o grande centro cultural asi&aacute;tico  da &eacute;poca. &quot;No come&ccedil;o, era apenas um emprego fon&eacute;tico  dos logogramas, respeitando-se o som chin&ecirc;s; mas &agrave; medida que os  japoneses iam dominando e compreendendo o significado dos logogramas, come&ccedil;aram  a atribuir leituras para os s&iacute;mbolos e, a partir da&iacute;, come&ccedil;a  toda a complexidade", explica a pesquisadora. &quot;A partir do s&eacute;culo  IX a X, j&aacute; surgem os hiragana e katakana, que s&atilde;o fonogramas, conhecidos  como silab&aacute;rios, pois cada letra representa um som", continua.</font></p>    <p><font size="2" face="Verdana">Nesse  caso, a escrita ideogr&aacute;fica n&atilde;o foi nunca substitu&iacute;da, mas  outros s&iacute;mbolos foram sendo acrescidos, conforme a necessidade. &quot;Os  pict&oacute;ricos fazem alus&atilde;o direta aos desenhos, depois estes passam  a constituir partes de outros ideogramas ou logogramas mais complexos, mas n&atilde;o  desaparecem em definitivo. Eles foram preservados e s&atilde;o utilizados at&eacute;  hoje", completa. Dessa forma, no Jap&atilde;o, existiram desde o princ&iacute;pio  m&uacute;ltiplas leituras dos mesmos ideogramas, por conta das tradu&ccedil;&otilde;es  dos logogramas chineses. Na pr&oacute;pria China, entretanto, as leituras dos  logogramas podem ser diferentes, dependendo da &eacute;poca ou da regi&atilde;o.  Como ressalta Morales, &quot;mesmo os sons chineses s&atilde;o v&aacute;rios,  uma vez que houve incorpora&ccedil;&atilde;o de leitura de regi&otilde;es e &eacute;pocas  diferentes, o que fez aumentar a multiplicidades de leitura sobre o mesmo ideograma".</font></p>    <p><font size="2" face="Verdana">Certamente,  a evolu&ccedil;&atilde;o da l&iacute;ngua escrita &eacute; um tema de grande interesse.  N&oacute;s, hoje, vivemos em um mundo cada vez mais dominado pela tecnologia e  pela escrita, onde os relacionamentos, tanto pessoais quanto profissionais, v&atilde;o  muitas vezes se limitar ao contato via internet e onde as pessoas se &quot;falam"apenas  escrevendo. Al&eacute;m disso, os recursos da web oferecem uma grande oportunidade  de dissemina&ccedil;&atilde;o e difus&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o escrita.  Nas palavras da professora Margarida Salom&atilde;o, existe o &quot;potencial  para a universaliza&ccedil;&atilde;o do conhecimento". Entretanto, falar e escrever  n&atilde;o s&atilde;o a mesma coisa. Enquanto vivemos em sociedade, todos aprendemos  a falar, ainda bem jovens, tendo como instrutores as pessoas pr&oacute;ximas junto  &agrave;s quais crescemos. Por outro lado, a escrita tem que ser ensinada, normalmente  em escolas, por pessoas que tamb&eacute;m foram treinadas para tal. Existe uma  &quot;formalidade"na aquisi&ccedil;&atilde;o da escrita, uma intencionalidade,  uma vez que n&atilde;o aprendemos a escrever simplesmente convivendo com quem  escreve. Essa intencionalidade tamb&eacute;m existiu na cria&ccedil;&atilde;o  das l&iacute;nguas escritas e em sua evolu&ccedil;&atilde;o, para acompanhar o  ritmo das sociedades e as v&aacute;rias modifica&ccedil;&otilde;es que a pr&oacute;pria  l&iacute;ngua falada foi sofrendo.</font></p>    <p><font size="2" face="Verdana">N&atilde;o  h&aacute; d&uacute;vida de que a inven&ccedil;&atilde;o dessa forma de express&atilde;o  delineou a hist&oacute;ria do mundo desde a sua cria&ccedil;&atilde;o e propaga&ccedil;&atilde;o  at&eacute; alcan&ccedil;ar a nossa condi&ccedil;&atilde;o atual, de &quot;aldeia  global", na qual pessoas de culturas diversas e regi&otilde;es muito distantes  geograficamente entre si, podem se comunicar atrav&eacute;s do mesmo tipo de escrita  numa mesma l&iacute;ngua, que por sua vez tamb&eacute;m foi ainda mais disseminada.  Dos desenhos pict&oacute;ricos &agrave; era da informa&ccedil;&atilde;o, a hist&oacute;ria  da escrita &eacute; um cap&iacute;tulo fundamental na hist&oacute;ria da humanidade.  Tudo que conhecemos hoje, que transforma e valoriza nosso mundo, os livros, os  filmes, a internet, a ci&ecirc;ncia, entre tantas outras coisas, s&oacute; existe  devido ao sucesso dessa ferramenta. &quot;Eu considero que a inven&ccedil;&atilde;o  da escrita tenha sido a mais importante de todas as evolu&ccedil;&otilde;es tecnol&oacute;gicas  da humanidade, porque sem ela, &eacute; muito dif&iacute;cil imaginar que as outras  tivessem acontecido", conclui Salom&atilde;o.</font></p>      ]]></body>

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