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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="verdana"><b>Voc&ecirc; tem medo de qu&ecirc;? A pedagogiza&ccedil;&atilde;o    midi&aacute;tica do risco</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><b>Daniela Ripoll</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana">O programa Fant&aacute;stico da Rede Globo de    Televis&atilde;o e o Instituto Nacional de Metrologia (Inmetro) possuem, h&aacute;    13 anos, uma parceria para a divulga&ccedil;&atilde;o de resultados relativos    &agrave; testagem de produtos e servi&ccedil;os diversos, num segmento chamado    "Aten&ccedil;&atilde;o, consumidor!". Uma dessas reportagens do Fant&aacute;stico    levou o Inmetro "para o arraial" &#150; isto &eacute;, para verificar a qualidade    dos alimentos mais tradicionalmente comercializados e utilizados no preparo    de iguarias nas festas juninas (amendoim, fub&aacute; de milho e leite de coco).    Um dos riscos era o da contamina&ccedil;&atilde;o do amendoim pela aflatoxina,    que "pode provocar les&otilde;es graves no f&iacute;gado como cirrose e at&eacute;    c&acirc;ncer". Ainda segundo a reportagem &#150; que traz o depoimento de um engenheiro    do referido instituto &#150;, "os fabricantes t&ecirc;m hoje um programa de qualidade    que garante a seguran&ccedil;a alimentar do amendoim. &Eacute; uma boa not&iacute;cia    para os consumidores". Este &eacute; um exemplo prosaico de que o risco nos    dias atuais tornou&#45;se uma preocupa&ccedil;&atilde;o de todos e de cada um, n&atilde;o    mais apenas restrito ao terreno dos poucos investidores das bolsas de valores    ou aos casos isolados de indiv&iacute;duos extraordinariamente aventureiros:    o risco tornou&#45;se banal, normal e vulgar &#150; a come&ccedil;ar pelo amendoim que    voc&ecirc; come...</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">O termo risco &#150; t&atilde;o comum aos nossos olhos,    ouvidos, almas e mentes na contemporaneidade &#150; tem uma longa hist&oacute;ria    no que diz respeito a usos e mudan&ccedil;as de significado. Hoje associado    fortemente &agrave; no&ccedil;&atilde;o de que tanto o mundo social quanto o    mundo natural "seguem leis que podem ser mensuradas, calculadas e, por conseguinte,    previstas", de acordo com a soci&oacute;loga Deborah Lupton, &eacute; importante    ressaltar que os primeiros significados atribu&iacute;dos ao termo exclu&iacute;am    a id&eacute;ia de culpa e de responsabilidade humanas, pois estavam associados    ao in&iacute;cio das grandes navega&ccedil;&otilde;es na alta Idade M&eacute;dia    e aos perigos que poderiam comprometer as viagens (um ato ou vontade de Deus,    uma tempestade ou outro perigo qualquer do mar).</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana">O soci&oacute;logo alem&atilde;o Niklas Luhmann    conta que as antigas civiliza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o necessitaram da palavra    risco tal como a entendemos hoje, mas "elaboraram determinados mecanismos culturais    que dotavam de certeza a exist&ecirc;ncia futura". Nesse sentido, confiava&#45;se    grandemente na pr&aacute;tica da adivinha&ccedil;&atilde;o, embora esta n&atilde;o    garantisse uma seguran&ccedil;a plena com rela&ccedil;&atilde;o aos acontecimentos    vindouros. Mas ela permitia que a pr&oacute;pria decis&atilde;o n&atilde;o desencadeasse    a ira dos deuses ou de outras for&ccedil;as, e garantia o contato com os misteriosos    des&iacute;gnios do destino. Em muitos aspectos, o complexo sem&acirc;ntico    do pecado (conduta que viola os ordenamentos religiosos) ofereceria um equivalente    funcional, j&aacute; que poderia servir para explicar o surgimento da desgra&ccedil;a.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Embora alguns soci&oacute;logos atribuam a origem    etimol&oacute;gica do termo risco &agrave; palavra renascentista italiana para    "desafiar", risicare, outros afirmam desconhec&ecirc;&#45;la por completo. Na Europa    h&aacute;, desde o in&iacute;cio da Modernidade, uma larga utiliza&ccedil;&atilde;o    da palavra risco relacionada ao com&eacute;rcio e &agrave;s grandes navega&ccedil;&otilde;es,    sendo que os seguros mar&iacute;timos (efetuados quando conversas informais    com viajantes estrangeiros sinalizassem a necessidade) foram os primeiros exemplos    de planifica&ccedil;&atilde;o do controle dos riscos. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">As incorpora&ccedil;&otilde;es e expans&otilde;es    da no&ccedil;&atilde;o de risco &#150; em virtude das mudan&ccedil;as significativas    ocorridas no Ocidente durante os s&eacute;culos XVIII e XIX e da ascens&atilde;o    da racionalidade cient&iacute;fica &#150; s&atilde;o estudadas por Deborah Lupton    no livro Risk (1999). Segundo ela, a id&eacute;ia do risco surgiu "como um meio    de se calcular a norma e de se identificar os desvios da norma", promovendo    a incorpora&ccedil;&atilde;o da cren&ccedil;a de que "a enumera&ccedil;&atilde;o    e o ordenamento racional poderia fazer com que a desordem fosse controlada".    A autora afirma que o conceito de risco come&ccedil;ou a ser constru&iacute;do    cientificamente no s&eacute;culo XVIII, principalmente atrav&eacute;s da matem&aacute;tica,    da probabilidade e da estat&iacute;stica, e que, no s&eacute;culo XIX, ele passou    "a n&atilde;o estar/ser localizado exclusivamente na natureza, mas tamb&eacute;m    nos seres humanos, em suas condutas, em suas liberdades, nas rela&ccedil;&otilde;es    entre eles, em suas associa&ccedil;&otilde;es e na sociedade." A id&eacute;ia    de risco passou a substituir as no&ccedil;&otilde;es de "incerteza", "indetermina&ccedil;&atilde;o"    e "destino", atrav&eacute;s da possibilidade do c&aacute;lculo matem&aacute;tico.    Assim, determinados fatores que afetavam apenas um indiv&iacute;duo foram se    tornando "riscos" &#150; mais amplos (envolvendo determinados grupos ou popula&ccedil;&otilde;es),    sistematicamente causados, estat&iacute;stica e objetivamente descritos e, nesse    sentido, eventos previs&iacute;veis, mensur&aacute;veis e control&aacute;veis.    Lupton acredita que essa concep&ccedil;&atilde;o de risco representa uma nova    maneira de ver o mundo e suas "manifesta&ccedil;&otilde;es ca&oacute;ticas",    bem como suas conting&ecirc;ncias e incertezas &#150; porque "assume&#45;se que resultados    ou desfechos inesperados podem ser conseq&uuml;&ecirc;ncias da a&ccedil;&atilde;o    humana".</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">At&eacute; o in&iacute;cio do s&eacute;culo XIX    existiam riscos "bons" e "ruins", principalmente associados ao campo atuarial.    A no&ccedil;&atilde;o de risco, tal como desenvolvida na &aacute;rea dos seguros,    estava associada, por um lado, &agrave; id&eacute;ia de "acaso" ou de "probabilidade"    e, por outro lado, &agrave; id&eacute;ia de "perda", "dano" e "repara&ccedil;&atilde;o"    &#150; isto &eacute;, ao contratar um seguro contra acidentes pessoais, pode&#45;se ganhar    alguma coisa caso o acidente se concretize, havendo, nessa perspectiva, "perdas"    e "ganhos" associados. Mas o psic&oacute;logo da Universidade de Stanford Amos    Tversky &#150; que estudou a cogni&ccedil;&atilde;o humana associada ao risco &#150; chegou    &agrave; conclus&atilde;o de que, na vida cotidiana (e na matem&aacute;tica    di&aacute;ria do medo), as pessoas est&atilde;o mais preocupadas com as perdas    do que com os ganhos quando correm riscos nas suas carreiras ou nos seus casamentos,    bem como nas mesas de jogo... Assim, para ele, as pessoas, de modo geral, concentram&#45;se,    emocionalmente, nas perdas (isto &eacute;, s&atilde;o muito mais sens&iacute;veis    &agrave;s perdas), sendo que os c&aacute;lculos matem&aacute;ticos e outras    racionaliza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o conseguiriam destronar os aspectos    psicol&oacute;gicos envolvidos na an&aacute;lise de um risco. Se uma m&atilde;e    teve um filho doente e tem um risco de recorr&ecirc;ncia de 25% em uma nova    gravidez, ela pode achar "muito" ou "pouco", dependendo do seu desejo de engravidar    novamente (e de ser m&atilde;e de um filho saud&aacute;vel) bem como de uma    s&eacute;rie de outros fatores (sociais, culturais, familiares, econ&ocirc;micos,    etc).</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Uma epidemia de riscos</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">De acordo com Lupton, nas sociedades ocidentais    contempor&acirc;neas, o substantivo "risco" e o adjetivo "arriscado" tornaram&#45;se    comuns tanto no discurso popular (na m&iacute;dia, nas conversas di&aacute;rias    entre as pessoas) quanto no discurso dos especialistas &#150; e um exemplo dessa    verdadeira "epidemia" dos riscos nos peri&oacute;dicos m&eacute;dicos pode ser    encontrado no trabalho do soci&oacute;logo John&#45;Arne Skolbekken. O referido    pesquisador realizou uma an&aacute;lise das bases de dados do Medline, mostrando    "um r&aacute;pido aumento no n&uacute;mero de artigos com o termo 'risco(s)',    tanto no t&iacute;tulo dos mesmos quanto nos resumos, no per&iacute;odo entre    1967 e 1991". Essa tend&ecirc;ncia pode ser encontrada tanto em peri&oacute;dicos    m&eacute;dicos que cobrem a medicina de uma maneira mais ampla quanto naqueles    peri&oacute;dicos envolvidos com as quest&otilde;es da obstetr&iacute;cia e    da ginecologia, mas o maior e mais r&aacute;pido aumento pode ser verificado    nos peri&oacute;dicos da &aacute;rea da epidemiologia. A hip&oacute;tese levantada    por Skolbekken, em 1995, &eacute; de que tal tend&ecirc;ncia &eacute; um resultado    dos avan&ccedil;os da ci&ecirc;ncia e da tecnologia que t&ecirc;m modificado    nossos entendimentos e cren&ccedil;as sobre o locus do controle &#150; de fatores    fora do alcance humano para fatores que estariam (supostamente) dentro do nosso    controle.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Do final dos anos 1960 at&eacute; o final dos    anos 1980, Dorothy Nelkin &#150; pesquisadora comumente vinculada aos estudos de    ci&ecirc;ncia e tecnologia &#150; refere que as preocupa&ccedil;&otilde;es dos p&uacute;blicos    acerca dos riscos das tecnologias foram ostensivamente expressas atrav&eacute;s    de uma intensa cobertura da m&iacute;dia norte&#45;americana. &Agrave;quela ocasi&atilde;o,    segundo ela, todos os dias os cidad&atilde;os norte&#45;americanos eram "bombardeados    com avisos sobre os 'perigos/inimigos invis&iacute;veis' &#150; a radia&ccedil;&atilde;o,    a dioxina, o freon, e mais uma s&eacute;rie de outras subst&acirc;ncias e aditivos    qu&iacute;micos". De acordo com ela, n&atilde;o existiria quem n&atilde;o se    preocupasse com tais perigos presentes em toda parte ("em nossos locais de trabalho,    em nossas casas e em toda comida que comemos") e, nesse contexto de medo generalizado,    o campo da avalia&ccedil;&atilde;o de riscos tornou&#45;se uma verdadeira ind&uacute;stria    (pelo menos, nos Estados Unidos), envolvendo um processo complexo e bastante    controverso de avalia&ccedil;&atilde;o dos perigos das tecnologias, de comunica&ccedil;&atilde;o    de informa&ccedil;&otilde;es sobre riscos em potencial e de desenvolvimento    de aspectos regulat&oacute;rios apropriados.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Para Nelkin, tanto fabricantes (preocupados com    a regula&ccedil;&atilde;o de suas pr&aacute;ticas e com o mercado de seus produtos)    quanto consumidores (preocupados com os efeitos de potenciais perigos &agrave;    sua sa&uacute;de) tinham interesse em definir os riscos e os benef&iacute;cios    das novas tecnologias ou produtos de consumo; al&eacute;m deles, v&aacute;rios    outros grupos &#150; cientistas, profissionais da sa&uacute;de p&uacute;blica, ativistas    ambientais, advogados, administradores e jornalistas &#150; queriam comunicar tais    riscos ao p&uacute;blico em geral para tentar mudar os comportamentos das pessoas,    para ensinar um jeito de melhor lidar com algumas emerg&ecirc;ncias, para tentar    resolver disputas diversas ou para convencer os p&uacute;blicos sobre a ado&ccedil;&atilde;o    de determinadas pol&iacute;ticas e medidas.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">A comunica&ccedil;&atilde;o dos riscos pela m&iacute;dia    envolve o que se chama hoje de flexibilidade interpretativa, intr&iacute;nseca    &agrave; percep&ccedil;&atilde;o do risco (se o risco &eacute; entendido como    uma constru&ccedil;&atilde;o social e cultural, a avalia&ccedil;&atilde;o do    mesmo por parte dos sujeitos tamb&eacute;m o &eacute;). Assim, o que parece    uma conduta arriscada para alguns sujeitos (por exemplo, n&atilde;o usar preservativo    em todas as rela&ccedil;&otilde;es sexuais) pode n&atilde;o o ser para outros.    Al&eacute;m disso, h&aacute; muito mais na comunica&ccedil;&atilde;o do risco    que, mera e simplesmente, a exposi&ccedil;&atilde;o/divulga&ccedil;&atilde;o    de informa&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas &#150; ou seja, h&aacute; respostas    concretas dos p&uacute;blicos perante a informa&ccedil;&atilde;o/men&ccedil;&atilde;o    ao risco e que v&atilde;o muito al&eacute;m do simples "entendimento t&eacute;cnico".    O exemplo que abre o presente trabalho &eacute; bastante esclarecedor nesse    sentido, j&aacute; que o Inmetro e o programa Fant&aacute;stico desejam conscientizar    os p&uacute;blicos sobre os perigos que podem estar escondidos em um brinquedo    fabricado na China ou no p&eacute;&#45;de&#45;moleque do arraial de S&atilde;o    Jo&atilde;o (e, ao fazerem isso, tamb&eacute;m intentam mudar h&aacute;bitos    e desmotivar o consumo e a venda de determinados produtos). O que &eacute; definido    como "risco" (para a sa&uacute;de coletiva, para a ind&uacute;stria nacional,    etc) expressa as disputas inerentes a determinados segmentos sociais e contextos    culturais, e essas disputas, freq&uuml;entemente, viram o foco das aten&ccedil;&otilde;es    quando se trata da &aacute;rea da comunica&ccedil;&atilde;o e da m&iacute;dia<a name="tx01"></a><a href="#nt01"><sup>1</sup></a>.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="verdana"><b>Voc&ecirc; tem medo de qu&ecirc;? Aprendendo    a (con)viver com os riscos</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Os autores Alan Petersen e Deborah Lupton apontam,    no livro The new public health. Health and self in the age of risk (1996), que,    a partir da metade dos anos 1970, houve um deslocamento das preocupa&ccedil;&otilde;es    (tanto midi&aacute;ticas quanto acad&ecirc;micas) anteriormente centradas no    "risco das novas tecnologias" para uma prolifera&ccedil;&atilde;o de novos conhecimentos,    pr&aacute;ticas e atividades focalizadas, principalmente, no status de sa&uacute;de    das popula&ccedil;&otilde;es &#150; como os grupos humanos comem, se exercitam, fazem    sexo, etc. &#150; e houve, tamb&eacute;m, uma nova consci&ecirc;ncia do risco como    resultado da atividade humana. Os autores identificaram seis grandes categorias    discursivas de risco que parecem predominar atualmente nas preocupa&ccedil;&otilde;es    dos indiv&iacute;duos e institui&ccedil;&otilde;es nas sociedades ocidentais:    a) os riscos ambientais (aqueles causados pela polui&ccedil;&atilde;o, radia&ccedil;&atilde;o,    subst&acirc;ncias t&oacute;xicas, produtos qu&iacute;micos, enchentes, inc&ecirc;ndios,    etc); b) os riscos ligados ao estilo de vida (aqueles relacionados ao consumo    de bens e servi&ccedil;os, ingest&atilde;o de alimentos e drogas, participa&ccedil;&atilde;o    em atividades sexuais, relacionados ao stress, etc); c) os riscos m&eacute;dicos    (ligados aos cuidados ou tratamentos m&eacute;dicos, como terapias medicamentosas,    cirurgias, nascimentos, tecnologias reprodutivas, testes diagn&oacute;sticos,    etc); d) os riscos interpessoais (nos relacionamentos &iacute;ntimos, nas intera&ccedil;&otilde;es    sociais, no amor, nas amizades, nos casamentos, etc); e) os riscos econ&ocirc;micos    (implicados no desemprego e no subemprego, empr&eacute;stimos, investimentos,    fal&ecirc;ncias, etc); f) e riscos criminais (que emergem da participa&ccedil;&atilde;o    dos indiv&iacute;duos em atividades ilegais &#150; ativamente ou, ainda, na posi&ccedil;&atilde;o    de v&iacute;tima).</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Prestar aten&ccedil;&atilde;o a esses riscos    ou, ainda, ter conhecimento deles e de muitos outros, contribui na forma&ccedil;&atilde;o    de nossas subjetividades &#150; como n&oacute;s vivemos as nossas vidas di&aacute;rias    e cotidianas, como distinguimos n&oacute;s mesmos e os grupos dos quais somos    membros daqueles outros indiv&iacute;duos e grupos, como n&oacute;s percebemos    e experimentamos os nossos corpos e os nossos desejos, como n&oacute;s gastamos    o nosso dinheiro e onde n&oacute;s escolhemos viver e trabalhar, etc. Esse "prestar    aten&ccedil;&atilde;o" aos riscos (ou n&atilde;o, eventualmente...) constr&oacute;i    parte de nossos entendimentos acerca de n&oacute;s mesmos e do mundo ao nosso    redor: as sociedades &#150; e, no interior dessas, as institui&ccedil;&otilde;es,    os grupos e os indiv&iacute;duos &#150; precisam/necessitam desse processo seletivo    para que possam funcionar. A sele&ccedil;&atilde;o do risco, bem como as atividades    associadas ao manejo do risco, s&atilde;o centrais ao ordenamento social e cultural.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Mas h&aacute;, tamb&eacute;m, uma s&eacute;rie    de paradoxos envolvendo a estima&ccedil;&atilde;o da magnitude de diferentes    riscos e a percep&ccedil;&atilde;o (e aceita&ccedil;&atilde;o ou n&atilde;o)    subjetiva desses riscos. Segundo Skolbekken, as expectativas de vida ao nascer    nunca foram t&atilde;o grandes na Europa e na Am&eacute;rica do Norte quanto    hoje e, apesar disso, nunca houve tanta gente ocupada com a identifica&ccedil;&atilde;o    dos riscos &agrave; sa&uacute;de de norte&#45;americanos e europeus, regularmente    informando "as amea&ccedil;as da vida cotidiana" atrav&eacute;s de numerosos    estudos epidemiol&oacute;gicos, farta e amplamente divulgados atrav&eacute;s    dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o (e se pensarmos em termos de Brasil,    veremos que algo bastante semelhante ocorre &#150; nunca vivemos tanto quanto hoje,    mas somos informados sem cessar sobre os perigos da m&aacute; alimenta&ccedil;&atilde;o,    do sexo casual, da radia&ccedil;&atilde;o solar e por a&iacute; afora). Al&eacute;m    disso, a Am&eacute;rica do Norte e a Europa nunca tiveram uma tecnologia m&eacute;dica    t&atilde;o segura e t&atilde;o boa quanto hoje, e nunca houve tanta &ecirc;nfase    (tanto por parte da m&iacute;dia local quanto da pr&oacute;pria academia) nos    perigos e nos riscos dos erros m&eacute;dicos e da m&aacute; pr&aacute;tica    m&eacute;dica quanto nos dias atuais. Outro paradoxo que Skolbekken menciona    diz respeito &agrave; &aacute;rea da obstetr&iacute;cia &#150; nos Estados Unidos,    adota&#45;se a chamada worst case&#45;strategy, na qual todos os pacientes s&atilde;o    tratados como pacientes de alto risco, enquanto que na Holanda acontece o extremo    oposto do "p&ecirc;ndulo do risco", com parteiras assistindo os nascimentos    nas casas, como regra geral.</font></p>     <p><font size="2" face="Verdana">Os especialistas &#150; chamados a falar em congressos    cient&iacute;ficos, em reportagens de jornais e revistas, etc &#150; s&atilde;o centrais    &agrave; constitui&ccedil;&atilde;o do sujeito "empres&aacute;rio de si" (aquele    atento at&eacute; mesmo para o amendoim que consome...); al&eacute;m disso,    s&atilde;o os especialistas que fornecem as normas, as diretrizes e as recomenda&ccedil;&otilde;es    pelas quais as popula&ccedil;&otilde;es s&atilde;o vigiadas, comparadas &agrave;s    normas, treinadas para se conformarem a essas normas e tornadas (mais) produtivas.    O risco, nessa l&oacute;gica, pode ser entendido como tecnologia moral e estrat&eacute;gia    de governo pela qual as popula&ccedil;&otilde;es e os sujeitos s&atilde;o monitorados    e manejados. A m&iacute;dia &eacute; uma parte central da engrenagem de controle    social atrav&eacute;s do medo e do risco, cotidianamente nos ensinando quais    situa&ccedil;&otilde;es/pr&aacute;ticas/pessoas/coisas devemos temer, quais    riscos podem (e devem) ser evitados, o que devemos fazer para minimiz&aacute;&#45;los,    em quais institui&ccedil;&otilde;es (e especialistas) devemos confiar, etc.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Para saber mais</b></font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana">LUPTON, Deborah. Risk. London / New York: Routledge,    1999.     </font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana"> NELKIN, Dorothy. Selling Science: How the press    covers science and technology. New York: W.H. Freeman and Company, 1995.    </font></p>     <!-- ref --><p><font size="2" face="Verdana"> PETERSEN, Alan &amp; LUPTON, Deborah. The new    public health. Health and self in the age of risk. London: Sage Publications,    1996.    </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="3" face="Verdana"><b>Nota</b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana"><a name="nt01"></a><a href="#tx01">1</a> Nelkin    aprofundou o tema alguns anos mais tarde, em Selling science: how the press    covers science and technology (1995), principalmente no interessante cap&iacute;tulo    4 &#150; The perils of progress. &Eacute; nesse cap&iacute;tulo que a autora se vale    da cobertura jornal&iacute;stica acerca de tr&ecirc;s "controv&eacute;rsias    cient&iacute;ficas" &#150; a "controv&eacute;rsia do oz&ocirc;nio", a "disputa do    ado&ccedil;ante" e o "debate da dioxina" &#150; para discutir a constru&ccedil;&atilde;o    jornal&iacute;stica dos riscos associados a elas, bem como a constru&ccedil;&atilde;o    e a manuten&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria atividade cient&iacute;fica e    dos cientistas como detendo a solu&ccedil;&atilde;o para todos os riscos, males    e incertezas que afligiriam a humanidade.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana"><i>Daniela Ripoll &eacute; bi&oacute;loga e professora    do Programa de P&oacute;s&#45;Gradua&ccedil;&atilde;o em Educa&ccedil;&atilde;o    da Universidade Luterana do Brasil</i></font></p>     ]]></body>
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