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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="verdana" size="2"><b>RESENHA</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="4"><b>Vazio palpável</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Chris Bueno</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n101/a12img.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2"><b>O vazio é o protagonista dos filmes <i>A casa    vazia</i> e <i>Tocando o vazio</i>, que refletem sobre o papel do vazio na existência    humana</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Um vazio tão denso que chega a ser palpável.    Esta talvez seja a característica em comum dos filmes <i>A casa vazia </i>(<i>Bin    jip,</i> Coréia do Sul, 2004) e <i>Tocando o vazio </i>(<i>Touching the void,</i>    Inglaterra, 2003), tão distintos em suas formas e origem - o primeiro é um filme-arte    oriental, enquanto o segundo é um documentário ocidental. Ambos os filmes usam    o vazio como matéria-prima, fazendo com maestria a relação com a existência    humana.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">No filme <i>A casa vazia,</i> de Kim Ki-duk,    isso fica evidente através da arte. O roteiro apresenta um jovem, Tae-suk, que    tem um modo bastante peculiar de viver: sem moradia fixa, ele leva a vida pregando    anúncios de um restaurante nas portas de residências, voltando pouco tempo depois    para conferir quais não foram retirados - o que pode ser um sinal de que os    moradores não estão. Então, invade a casa e confere, através das mensagens nas    secretárias eletrônicas, se os moradores estão realmente ausentes. A partir    daí, passa não apenas a viver na casa das pessoas ausentes, mas como essas pessoas    ausentes: usa suas roupas, lê seus livros, ouve seus CDs. Tae-suk "paga"    pela hospitalidade fazendo a limpeza e pequenos reparos na residência. Em uma    de suas invasões, porém, ele se depara com a jovem Su-hwa, que sofria agressões    do marido e era prisioneira em sua própria casa. Su-hwa passa a acompanhar Tae-suk    em suas invasões até que os dois são encontrados pelo marido e levados às autoridades.    O final, poético e surpreendente, evidencia a metáfora do filme: não só as casas    são vazias, mas as vidas dos personagens também (tanto dos proprietários das    casas quanto dos protagonistas invasores), que passam toda a história tentando    preencher esse vazio vivendo a vida de outras pessoas.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A cena da invasão da mansão onde mora Su-hwa    é particularmente interessante por ser emblemática de todo o filme. Após invadi-la,    Tae-suk certifica-se que não há ninguém na casa, percorrendo os vários cômodos,    sem se dar conta da presença de Su-hwa, encolhida em um canto de seu quarto.    Ela aparece, desta forma, como uma invasora de sua própria casa, uma estranha    em sua própria vida. Ao se dar conta da presença de outra pessoa na mansão,    Su-hwa passa a seguir Tae-suk pela residência, refazendo seus passos como um    fantasma, sem ser percebida pelo invasor. Tae-suk só se dá conta de sua presença    quando ela se apresenta a ele.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Interessante também perceber a relação que o    filme faz com a fotografia. As casas invadidas estão vazias, mas seus moradores    se fazem presentes através das fotos penduradas nas paredes ou espalhadas em    porta-retratos pelas residências. É assim que é possível saber que numa das    casas mora um lutador de boxe, na outra um fotógrafo, na outra, um casal com    uma criança. O casal de invasores também se faz presente através da fotografia:    em cada casa que entram, tiram fotos próximas aos retratos dos moradores e de    seus objetos de estimação. A foto não apenas dá a falsa sensação de pertencimento    a algum lugar aos protagonistas, como também, de certa forma, é uma prova de    sua existência - já que vivem como fantasmas nas casas vazias sem deixar marcas    que denunciem que algum dia estiveram lá.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O vazio entremeia todo o enredo do filme. As    grandes avenidas movimentadas e os enormes prédios de apartamento do centro    urbano contrastam com o silêncio e a solidão das personagens, evidenciando uma    das marcas da modernidade: o sentir-se só em meio a uma multidão. O que une    o casal de protagonistas é a solidão de cada um, e, mesmo juntos, não deixam    de serem solitários. A solidão marca o vazio de relações, de entendimento, de    contato humano. O silêncio é outra marca que reforça isso: são pouquíssimos    os diálogos existentes, e o casal de invasores não troca uma só palavra durante    todo o filme. E é aí que se mostra arte de Kim Ki-duk ao fazer o filme usando    apenas gestos e olhares de mínima expressividade.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Em <i>Tocando o vazio,</i> de Kevin MacDonald,    troca-se a ficção pela realidade, e os grandes e movimentados centros pela vastidão    dos montes peruanos. O filme, baseado no livro homônimo escrito por Joe Simpson,    conta a história real da escalada trágica do Siula Grande, a 6.300 metros de    altura, nos Andes peruanos, em 1985. Uma dupla de alpinistas britânicos - Joe    Simpson e Simon Yates - tenta realizar o feito inédito de atingir o cume da    montanha por sua face oeste. Apesar de terem conseguido realizar a façanha,    é na descida que as coisas começam a se complicar: Joe quebra a perna e, para    descer, tem que ser suspenso por uma corda amarrada a seu companheiro. Porém,    a descida é longa e logo anoitece. As dificuldades se acumulam e Joe acaba pendurado    sobre uma parede da montanha. Sem poder ver ou ouvir o amigo, Simon presume    que ele esteja morto e corta a corda que os une. Joe despenca quarenta metros    no interior de uma greta de gelo e se arrasta durante dias por mais de vinte    quilômetros, até chegar ao acampamento onde Simon e outro companheiro se preparavam    para partir, certos de que ele morrera.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O filme tem todos os elementos para se tornar    um <i>blockbuster </i>de aventura, mas não foi assim que o diretor decidiu fazer.    Ao contrário, trata-se de uma história que se passa essencialmente na cabeça    do personagem principal, apenas um ser humano se arrastando durante dias pela    neve, gelo e pedras. O filme mescla cenas com atores e depoimentos dos personagens    reais e é complementado por um documentário e um <i>making of </i>que mostram    o retorno de Joe e Simon ao Siula Grande para as filmagens. Todas as panorâmicas    e cenas gerais foram feitas no próprio Siula, com Joe e Simon representando    a si mesmos.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O drama psicológico vivido por Joe, enquanto    se arrasta sozinho pelo gelo até o acampamento, é o que torna esse filme tão    precioso. Sua solidão e seu medo são tão reais e densos como o vazio que o cerca.    A vastidão dos Alpes peruanos, branco, frio e infinito, apresenta um vazio tão    denso que seria possível tocá-lo - como aponta o próprio nome do filme. É este    vazio que faz companhia para o protagonista, e deve ser vencido por ele em sua    luta por sobrevivência. Aliás, toda a brutalidade selvagem do Siula Grande faz    com que ele surja como um gigante monstro branco que os alpinistas tentam vencer    a grande custo. Sua imensidão, ainda mais quando colocada em proporção com os    alpinistas tão pequenos que chegam a ser insignificantes, também traz a questão    do vazio do homem frente à força da natureza.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Os dois filmes evidenciam a fragilidade da existência    e das relações humanas - seja sozinho em meio a uma multidão, em um grande centro    urbano, senha abandonado em uma vastidão gelada. De qualquer modo, mostram que    o vazio faz parte do mundo e da vida, e, especialmente, da arte.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">Filme: <i>A casa vazia </i>(<i>Bin jip</i>)    <br>   Direção: Kim Ki-duk     <br>   Coréia do Sul, 2004</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Filme: <i>Tocando o vazio </i>(<i>Touching the    void</i>)     <br>   Direção: Kevin MacDonald     <br>   Inglaterra, 20.</font></p>      ]]></body>

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