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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="verdana" size="2"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="4"><b>O vazio, as marmotas e a arte</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Affonso Romano de Sant'Anna</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">No dicionário, o termo vazio remete para aquilo    "que não contém nada ou só contém ar". Está correlacionado a desabitado,    frívolo, vão, fútil, falto, destituído de inteligência. Na matemática, um conjunto    vazio é aquele destituído de elementos.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A arte que se tornou oficial na moderna contemporaneidade    lida, de forma mais radical do que a arte que a antecedeu, de diversas formas    com o vazio. De alguma forma, ela potencializou o vazio, maximizou-o, trazendo-o    para o primeiro plano da obra. Já não se trata mais de ter, como na música,    um intervalo silencioso entre dois sons, mas o próprio intervalo, o próprio    silêncio, ele mesmo, convertido em obra, como no trabalho ("4,33")    de John Cage, em que o pianista fica 4 minutos e 33 segundos parado diante do    piano e não toca uma única nota.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Na poesia seria o mesmo que valorizar, de tal    modo, o espaço em branco entre as palavras e os versos que, ao fim, as letras    se tornariam desimportantes e o branco da página bastaria a si mesmo, compondo    um poema sem palavras. Na escultura seria o mesmo que potencializar os "buracos",    ou seja, os vazios de uma escultura de Henry Moore, convertendo-os na própria    obra. Marcel Duchamp, pioneiro da arte do vazio, no princípio do século XX,    apresentou uma ampola vazia com o "ar de Paris" como obra de arte,    reafirmando a definição dicionarizada que mencionamos, de vazio como o que "não    contém nada ou só contém ar".</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Pode-se fazer muita metafísica com isto, através    de associações entre o "nada", o "vazio", o "ausente",    o "abstrato". Proponho aqui uma reflexão que deve estar no meu próximo    livro com o significativo título de <i>O enigma vazio </i>(Ed. Rocco, 2008),    no qual tento analisar essa questão dentro da arte do nosso tempo. Vejamos.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">As marmotas são conhecidas pela curiosidade,    um traço que sempre permitiu o sucesso dos caçadores de marmotas. Qualquer coisa    branca as hipnotiza. Acenar um pano branco ou uma pena branca faz com que elas    entrem em transe, tornando-as presas fáceis. Há até cães brancos especiais,    caçadores de marmotas, treinados para agitar a cauda, deixando a marmota impotente,    enquanto se aproximam o suficiente para dominá-las. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A alegoria das marmotas talvez explique grande    parte da arte do século XX: o fascínio pelo branco, ou melhor, pelo vazio, pelo    avesso ou anulação de todas as cores (e significados). Neste sentido, os diversos    quadros - "Branco sobre branco" que Malevitch pintou, há cerca de    cem anos, funcionam duplamente, como metáfora de uma busca e sintoma de uma    aporia.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A "ausência" suscita várias interpretações.    A peça "Art" de Yasmina Reza, que teve enorme sucesso em 36 países,    mostra as diversas reações de três personagens diante de um quadro em branco    que custou 200.000 dólares ao seu proprietário. Este apresenta essa obra de    arte a um amigo esperando que ele veja naquela superfície branca tantas metafísicas    e significados quantos os que os marchands e os críticos diziam ali existir.    O amigo olha o quadro atentamente e conclui: <i>"This is a white piece    of shit"</i>, ou seja, "Isto não é nada, é uma merdinha branca", e não    acredita que o amigo tenha pago aquela fortuna pelo engodo. Eles se envolvem    numa discussão, e um terceiro amigo é convocado a opinar. Este fica em cima    do muro, como se a peça mostrasse um personagem a favor, outro contra e outro    nem contra, nem a favor, deixando para o público uma espécie de "você decide".</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Malevitch, antes do "Branco sobre branco"    de 1918, havia pintado vários quadros monocromáticos, inclusive o "Quadrado    negro" em 1915. A síndrome da marmota confirma-se nas interpretações oficiais    dadas ao "branco" de Malevitch, inclusive usando a palavra "excitação"    que caracteriza também a marmota em situação semelhante.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Tomemos, por exemplo, a enciclopédia <i>Chronologie    de l'art du XXe siècle </i>(Michel Draquet). Ela assinala que "os"    "Branco sobre Branco" consagram esta ontologia do nada fundada sobre    o princípio da excitação. E ainda vai mais fundo: "A forma, entidade essencial    sobre a qual se constrói a diversidade, se desagrega em um movimento sutil que    arranca a forma do nada antes de a mergulhar em uma mesma continuidade".    Outros pintores, posteriormente, lá pelos anos 50, repetiram ociosamente o mesmo    gesto de Malevitch, exercitando o monocromatismo e o minimalismo. E as raposas    da crítica ficaram de novo excitadas diante do nada.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Poder-se-ia, é claro, de forma talvez irônica,    dizer que essa plurivalência gélida do branco na modernidade tem nos aproximado    não só das marmotas, mas dos esquimós pois, como se sabe, à força de viverem    no branco universo do gelo, os esquimós têm diversas palavras para designar    os diversos tipos de branco. De tanto conviverem com o branco descobriram-lhe    várias tonalidades.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Essa metafísica do branco, sobre a qual Malevitch    em suas crises místicas também perorou, está presente também em vários críticos,    como no correr do meu livro demonstrei analisando a interpretação de diversas    obras críticas de Octavio Paz, Jean Clair, Roland Barthes, Jacques Derrida,    e outros. É a "falta", o "ausente", o "branco"    suscitando "alucinações" nos críticos tomados pela síndrome da marmota.    Isto tem a ver também com o fenômeno de ilusionismo operado pela ciência usando    várias cores, que explica como você acaba vendo alguma coisa que não está no    mundo físico, e que Maturana chama de "emergência das cores na linguagem".</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Os quadros monocromáticos, como esses "brancos"    de Malevitch, na verdade metaforizam um impasse, que é dele e da arte de seu    tempo. O quadro não é mais uma "janela" como o era no Renascimento.    Ou, se o for, é uma janela para o nada. É uma sem saída, uma aporia. E é a partir    daí que se poderia tentar resumir uma série de aporias a que chegaram os paradigmas    estéticos e críticos no século passado. O primeiro deles, sem dúvida, é o cultivo    do não-significado. Quanto mais vazio, confuso, inacabado o produto, mais provocador    de interpretações. Exatamente como o já citado Jean Clair reconhecia: "mais    a obra é minguada, mais sábia sua exegese. Uma dobra na tela, um traço, um simples    ponto vira pretexto para extraordinários anfiguri, nos quais se expõem diferentes    jargões das ciências humanas".</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">E o que espanta, não é que em 1918 alguém tivesse    pintado o "branco", mas que século adentro isso se repetisse e que    as marmotas continuassem excitadas. E torna-se ainda mais preocupante o fato    de que a alucinação diante do nada confirma uma outra tendência da arte contemporânea,    a do artista sem obra, o que convence aos demais que ele é a própria obra de    arte que autoriza obras.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Isto vai ter um desdobramento ainda mais patético,    porque se por um lado temos artistas sem obra, por outro, "críticos cada    vez mais, criam artistas. O que se subentende é que, quanto menos artistas querem    criar arte, mais urgentemente os críticos parecem querer criar novos artistas"</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">Affonso Romano de Sant'Anna é doutor em literatura    brasileira pela Universidade Federal de Minas Gerais, poeta, ensaísta, cronista    e autor, dentre inúmeras obras, do recém-lançado O enigma vazio - impasses da    arte e da crítica (Rocco, 2008) e Desconstruir Duchamp (Vieira &amp; Lent, 2003).</font></p>      ]]></body>

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