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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="verdana" size="2"><b>ARTIGO</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="4"><b>Silêncios: presença e ausência</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Eni P. Orlandi</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">Na teorização que propus do silêncio (Orlandi,    1992) pensando a relação sujeito-linguagem-história, meu objetivo principal    era justamente desestabilizar a idéia pré-concebida, que se tinha, de que o    silêncio é o vazio. O silêncio é prenhe de sentidos. Ao tratar o silêncio de    modo a incluí-lo na perspectiva analítica do discurso, não pensamos o silêncio    místico, nem o silêncio empírico, mas o silêncio que tem sua materialidade definida    pela relação estabelecida entre dizer e não dizer.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Nessa forma de reflexão, também o político adquire    sua especificidade. É, então, enquanto relações de poder simbolizadas, e que    dividem os sentidos, que nos interessa o político investido na significação.    Nesta, finalmente, é que podemos observar a articulação entre o que é dito e    o que é silenciado.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Vamos falar dessas relações de poder simbolizadas    na constituição e silenciamento de uma função-sujeito fundamental na organização    da vida intelectual: a função de autoria. Nosso objeto de reflexão é aqui o    silenciamento e as políticas científicas. Estamos menos interessados em falar    do silenciamento sobre o autor, como plágio, e mais interessados em mostrar    como o silenciamento produz uma "versão" da autoria com efeitos teóricos decisivos    (perversos?) para as políticas científicas.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Do ponto de vista teórico, queremos dar maior    espessura à noção de intertextualidade, pensando-se as relações entre textos,    tomadas enquanto formulações, versões que põem em cena os sujeitos, os processos    de textualização e seus mecanismos, assim como o que é particular às diferentes    formas de discursos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>A função-autor e a produção das suas versões    </b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Tenho distinguido o sujeito, enquanto posição,    e sua função-autor. Estabeleço que a função autor se dá quando o sujeito se    coloca - no imaginário constituído pelo que Michel Pêcheux (1975) chama "esquecimento    número 1" - na origem do que diz. Este gesto o constitui em autor ao mesmo tempo    em que constitui o texto como unidade de sentidos em relação à situação.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Assim como, enquanto sujeito pragmático, o sujeito    tem necessidade de um mundo semanticamente normal, ele também tem imaginariamente    necessidade de um dizer com começo, meio e fim, com progressão, coerência, constituindo    uma unidade fechada. Mas temos de ir mais adiante e pensarmos que o texto se    "apresenta" como uma unidade fechada sem que no entanto o seja realmente. O    texto não começa em sua primeira palavra (é sempre possível começá-lo em outro    lugar) e não termina em seu "fim" pois é sempre possível acrescentar-lhe algo.    Para compreendermos bem isto vamos utilizar a distinção que estabelecemos (Orlandi,    2001a) entre: constituição, formulação e circulação dos sentidos em sua textualização.    Nesta, veremos como funcionam as "formulações" e o que temos chamado "versões"<a name="top"></a><b><a href="#nt"><sup>1</sup></a></b>.    </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">No processo de <i>constituição </i>dos sentidos,    temos o trabalho da memória (interdiscurso), a interpelação do indivíduo em    sujeito, a constituição de sua forma histórica e os efeitos que produz a partir    de sua posição sujeito; no processo de <i>formulação,</i> temos a relação do    discurso com o texto que atualiza a memória em presença, a individualização    do sujeito pela sua função autor; na <i>circulação,</i> temos o funcionamento    das circunstâncias de enunciação e a experiência de mundo (os "fatos", os "acontecimentos",    os "seres") como elementos desencadeadores e os sujeitos sociais que encarnam    a função autor em seus percursos (por onde circulam), nos diferentes "meios"    (verbal, não-verbal, etc). Estes três processos funcionam simultaneamente e    tanto o sujeito, como o sentido são afetados por eles. Um sentido é como ele    se constitui como se formula e como circula. E o sujeito em sua função-autor    tem sua forma afetada pelo "meio" em que se constitui. O autor de um enunciado    estampado em uma camiseta e o autor do "mesmo" enunciado em um livro distinguem-se    em sua forma e modo de funcionamento.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Se a função-autor é a que torna o sujeito mais    visível, o mostra mais afetado pelas determinações sociais, e é de quem se cobra    a responsabilidade pelo texto produzido (pelo que disse), também o texto é o    lado mais visível do discurso, o que se organiza segundo injunções da sociedade,    das instituições e que se apresenta com dimensões e textura. Mas assim como    há uma incompletude do sujeito e do discurso, sendo a identidade um movimento    na história, também a textualidade é uma, entre outras, versão praticada entre    as inúmeras possíveis (Orlandi, 2001b).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Nesse sentido, no modo como tenho considerado    a relação sujeito/discurso e função-autor/texto, não há senão versões; de-sacralizando    a noção de texto, considero que não há um texto "original" do qual os outros    são "comentários". Do ponto de vista histórico e da imprensa, em que isto é    pensado assim, temos um texto (obra) e a garantia de sua autoria que se reproduz    em uma multiplicidade de exemplos. Todas eles exemplares do "mesmo", garantia    esta firmada pela assinatura. Os "outros" textos seriam seus comentários (Foucault,    1971). No caso em que penso as formulações (que refere a produção pelo sujeito-autor)    e as versões (que são versões do texto), não se trata do mesmo texto/obra (impresso)    e suas cópias, mas uma formulação em relação a outras possíveis, suas versões    (e não cópias). Nessa perspectiva, todo sítio de significação é passível de    ser trabalhado por muitas formulações (versões). Cada uma delas sendo uma forma    entre muitas, tendo em sua "fonte" um sujeito que se individualiza em sua função-autor,    de modo específico à memória discursiva, ao discurso que pratica e às condições    em que funciona. E, ao fazê-lo, experimentando a sua representação (imaginária)    como origem do texto, torna-se seu autor.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="3"><b>A autoria silenciada </b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Cada ordem de discurso tem suas formas de autoria    e seus modos de produzi-la. Vamos nos ater à forma de autoria do discurso científico    e vamos falar sobre o que pode ser uma das formas de silenciamento, tal como    tenho considerado, e que afeta a função-autor.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Lembremos que faz parte do discurso científico    a citação de outros textos, com seus autores, ou seja, é da ordem do discurso    da ciência a explicitação da intertextualidade que sustenta suas formulações    e o reconhecimento das diferentes funções-autor, que intervêm ao longo do texto,    reconhecimento garantido pelas citações. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Entre as formas do silêncio que tenho considerado    que são o "silêncio fundador" (base de produção dos sentidos) e a "política    do silêncio" ou "silenciamento" que, por sua vez, subdivide-se em "silêncio    constitutivo" e "silêncio local" (ou censura), vou aqui trabalhar o silenciamento.    E, em relação a este, interessa-me particularmente o que chamo de silêncio local    ou censura. O silêncio local (ou censura), como sabemos, é aquele em que entra    a interdição por alguma forma de poder da palavra (interno ou externo). Não    falaremos tampouco do silenciamento local em geral mas da censura relacionada    ao modo como se produz ciência, apagando aspectos característicos de suas formulações.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>Grilagem intelectual e descaracterização da    autoria no mundo das letras</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Não parece um título compatível com a vida intelectual.    E não é. Mas a universidade não é feita só de intelectuais, de pensadores. Há    muitas razões, todas elas pouco intelectuais, pelas quais sujeitos apresentam-se    como detentores do saber. E o fazem respeitando ou não os princípios da autoria.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Distanciando-nos de uma posição moralista ou    administrativa, não vamos aqui elencar e analisar essas razões. Vamos ver alguns    efeitos sobre a questão da autoria. Vamos também realçar a relação de poder    e de disputa de legitimidade que acompanha esses gestos de autoria. Importando    um termo muito ao gosto da psicanálise, vou procurar mostrar alguns aspectos    do que é "autorizar-se", quando se trata da instituição acadêmica e de formas    de relações entre sujeitos que ela propicia, estabelecendo certas condições    de sua produção. Como veremos, autorizar-se pode muitas vezes significar fazer    uma violência intelectual contra a posição-sujeito de ciência em sua função    de autoria. Isto porque o gesto de autorizar-se pode-se dar simultaneamente    à instituição de uma imagem de autoria que silencia, em outro sujeito, aspectos    importantes de sua função-autor funcionando como uma censura que cria assim,    no outro, uma versão de autoria marcada por esse silenciamento. Faz parte das    relações do saber/poder a disputa pelos sentidos e pela autoria (função-autor).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A legitimidade rege fortemente a produção científica.    Manter-se no campo da legitimidade de uma dada ciência ou disciplina e ousar    o irrealizado, o ainda não significado, nem sempre é possível. E há os que se    expõem e os que não se expõem a esse risco, a essa impossibilidade. Onde a legitimidade    se expõe a uma ruptura. Nessas condições, nem sempre aquele que "descobre" é    aquele que "diz" em termos de legitimidade.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Vou dar um exemplo dessa situação, em que jogam    a função-autoria e sua versão, para analisarmos e chegarmos à compreensão de    um dos aspectos do funcionamento dessa discursividade e do silenciamento que    a acompanha.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Há o silenciamento para fora, no plano da política    científica internacional (Orlandi, 2003) que apaga a nossa autoria frente aos    autores estrangeiros e, um silenciamento para dentro, próprio às relações científicas    em um mesmo país, que é a de que me ocuparei a seguir e que afeta fundamente    a relação com a vida intelectual e a ciência em geral.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Todos conhecemos notícias de cientistas que se    apropriam do texto de outro pura e simplesmente (citando ou não seu autor),    adaptando-o a sua produção sem referir a formulação de onde vem e, ao integrá-lo,    apagam o que é sua autoria e sua força teórica própria, produzindo uma versão    "domesticada" do texto e do autor. Ou seja, ele perde, junto com sua autoria,    o que traz de diferente em termos de sua "formulação" porque é dito de outro    lugar, de outra posição-sujeito de ciência, de uma "outra" filiação teórica.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O que há de grave nesse procedimento retórico    (pragmático) é que a formulação é o lugar da autoria, aquele em que o sujeito    se coloca imaginariamente na origem do que diz e, ao fazê-lo, marca-se em seu    modo de produzir sentidos, em seus gestos de interpretação, em sua responsabilidade    de dizer. E é aí que a ciência pode(ria) fazer-se/dizer-se de outro modo. Portanto,    essa forma de censura, entre outros efeitos, tem o de funcionar na administração    do mesmo, na imobilização do discurso científico. Mas esse mesmo procedimento,    da política científica, tem um outro efeito que passarei a explorar.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>A versão da autoria </b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">No mesmo gesto em que o autor apropria-se da    função-autor de outro, há o silenciamento daquilo que está na formulação deste    autor expropriado. Digamos que a retomada do texto, embora não se mostre como,    representa um "comentário". Na perspectiva em que estamos trabalhando, os "comentários"    são na realidade argumentos que procuram dar uma direção aos sentidos, fixá-los    em certas regiões, além, claro, de subtrair-lhes a autoria (função-autor). Com    isso se cria uma "versão" do outro texto. Nesse procedimento, através da produção    de um efeito-leitor em que está inscrita a censura (e este é o ponto), se produz    uma imagem "do que o texto diz" (já com o silenciamento funcionando).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Constrói-se assim um estereótipo, uma "versão"    apagada do que efetivamente estava formulado. E o que é o fundamento do que    permite essas formulações, no referido trabalho, fica apropriado mas silenciado.    Com isso, realçam-se certos aspectos significativos em detrimento de outros.    Produz-se assim uma versão da autoria, perdendo a sua singularidade. Resulta    daí o que comumente chama-se "vulgata" do texto e perde-se, em geral, a característica    mais forte, a sua propriedade intelectual e científica. Silencia-se a função-autor.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Cria-se uma versão-autor. O que quero dizer,    em termos de política científica, é que é menos a expropriação do que foi dito    (o apagamento do autor) e muito mais a criação dessa versão-autor que é decisiva.    Porque, junto ao apagamento da formulação específica à função-autor apagam-se    também filiações teóricas em suas elaborações, singularidades do modo de fazer    ciência, conseqüências ideológicas na história da ciência. Nas ciências humanas,    isso produz efeitos muito negativos. Porque não temos como garantia senão as    nossas formulações, nossa escrita.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>Então</b></font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Retornemos ao início do texto em que falávamos    do silêncio, da autoria, das versões e das políticas científicas. Em um mesmo    lugar textual (sítio de significação) são muitas as formulações possíveis abrindo    para a possibilidade de interpretar e estabelecendo a possibilidade de muitas    formas de autoria. Ao silenciar o modo como se constitui uma função-autor com    sua formulação, é todo um processo de significação que fica apagado. Por outro    lado, a ciência certamente ficaria mais interessante se não houvesse um acúmulo    em um mesmo lugar e se a função-autor fosse considerada como um ponto de relações    possíveis oferecendo a possibilidade de um trabalho de sentidos que se expandissem    em várias direções. Mas o que há é uma enorme variação do mesmo.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Desse modo, na perspectiva da ciência, da sua    divulgação e de seus efeitos - enquanto parte do funcionamento da sociedade    e do Estado (Orlandi, 2000) - isto pode-nos mostrar o alcance de um pequeno    gesto desencadeado por razões nem sempre científicas sobre o próprio modo como    se constrói ciência e como se constroem autores, sujeitos de ciência.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Se dissermos que a formulação (também) em ciência    está necessariamente sujeita a versões, no entanto isso não significa que o    texto, a formulação, não resiste em sua estrutura, não se particulariza em seu    acontecimento. Dizer que estamos sempre em face de versões possíveis em um sítio    de significação, não significa dizer que 1. o texto (a formulação) não tem sua    especificidade; 2. qualquer versão é boa 3. que, no discurso científico, pode-se    dizer qualquer coisa de um texto (formulação), podendo-se mesmo ficar em suas    versões (vulgatas) não havendo então necessidade de irmos às "fontes", ou seja,    à versão produzida pela função-autor; 4. e, talvez, o mais importante: que a    posição-sujeito científico apaga a função-autor. Ao contrário, é no corpo a    corpo com as "fontes" (texto/autor), com as formulações, que a ciência faz seu    caminho mais interessante e mais produtivo, movendo-se na rede de suas filiações.    Passar do discurso à sua formulação, é justamente dar-se corpo em sua função    de autoria e individualizar o dito em suas especificidades.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A diferença entre formulações - versões - é significativa    e não ocasional, como se pretende. Ela representa uma relação (filiação) do    texto com o discurso e deste com a memória discursiva. Portanto situa-se nas    mediações entre o real da língua e o real da história, fazendo sentido na medida    mesmo em que materializa sua especificidade.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Em meus trabalhos tenho ressignificado a noção    de autoria e procurado deslocar também a de comentário/versões que não se limita    apenas a uma questão formal, de repetição, mas de formulação, tendo a ver com    a função-autoria tal como a concebo. Na função-autor efetiva o sujeito não reformula    apenas em um sentido superficial, ele entra na relação com o corpo do discurso,    com o acesso ao seu acontecimento. Ele desliza, produz efeitos metafóricos,    faz funcionar sua memória discursiva.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Como hoje temos as novas tecnologias da linguagem,    temos então uma nova organização do trabalho intelectual, novas tecnologias    da escrita, novas formas de autoria. A variança - e não a falha - nos traz novas    formas de organização da escrita (o que chamo escritoralidade) e também afeta    a autoria mais formal (a da "obra", como define Foucault, 1971) na relação com    o impresso, com a assinatura. Ao institucionalizar as relações sócio-históricas,    a escrita (científica) determina aspectos da autoria (e da relação com o texto    na função-autor) que levam à autenticidade e unicidade da obra. Sua "assinatura".    Isto é que lhe é retirado quando se assalta a função-autor, produzindo-se de    um lado um silenciamento, de outro, uma versão do autor que não coincidente    com sua autoria.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Pensando a questão das relações de poder, inclusive    na ciência, nos bastidores da encenação dos sujeitos e dos sentidos, as formações    discursivas e o interdiscurso fazem seu jogo, a ideologia produz seus efeitos.    Pensado dessa perspectiva que estamos elaborando, na ciência, o fato de "ter    uma idéia" e de saber "dizê-la" implica pois elaborados processos de formulação    pois não se passa direta e automaticamente da memória para o discurso e deste    para a formulação (textualização). São complexos processos e mediações que presidem    esse funcionamento e a função-autor é uma função nodal nesse processo. Nessas    circunstâncias, uma formulação de um autor que projeta uma imagem viezada da    função de autoria de outro é um jogo de política científica que funciona justamente    porque a versão é uma questão técnica (e não de variança por erro, como se considera    no impresso, ou por falha, como seria na Idade Média) que afeta a produção científica,    tanto pelo aspecto da função-autor, como da própria formulação na produção de    sentidos e de suas conseqüências no campo da ciência. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A variança, na análise de discurso, tal como    tenho estabelecido (Orlandi, 2001b), tem outro estatuto heurístico quando penso    o texto como unidade de análise e de significação em relação à situação. Se    a incompletude é parte incontornável dessas relações, e se os sujeitos e os    sentidos estão sempre em movimento, é a abertura do simbólico materializada    no texto, pela sua formulação, que pode nos dar a dimensão do realizado e do    irrealizado, na procura da presença-ausente das formulações e seus confrontos    em diferentes versões. O que é fundamental para que a ciência não seja mera    repetição e que a função-autor na ciência faça sentido pela maneira mesma com    que se constroem as (diferentes) formulações. A variança não é um mero acaso,    na ciência, ela é seu cerne.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Por isso, ao silenciar, o grileiro de autoria    pensa enganosamente estar produzindo ali um vazio. Não. O silenciamento deixa    seus vestígios e o real dessa história lateja no jogo das versões. Presença-ausente.    Em que o sentido silenciado pode ainda sempre irromper. Talvez por isso, o autor    silenciado torna-se ainda mais forte. Porque é o indício de um espaço de significação    que não está vazio.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="3"><b>Bibliografia </b></font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">Foucault, M. (1971) <i>L'ordre du discours, </i>Seuil,    Paris.    </font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">Orlandi, E. (1993) <i>As formas do silêncio,    </i>Unicamp, Campinas.     </font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">Orlandi, E. (2001a) "Tralhas e troços: flagrantes    urbanos" in <i>Cidade atravessada </i>Eni Orlandi (org.), Pontes, Campinas.        </font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">Orlandi, E. (2001b) <i>Discurso e texto, </i>Pontes    eds, Campinas.     </font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">Orlandi, E. (2003) "Tradução e política científica"    in <i>Produção e circulação do conhecimento, vol. II, </i>Eduardo Guimarães    (org.), Pontes, Campinas.     </font></p>     <!-- ref --><p><font face="verdana" size="2">Pêcheux, M. (1975) <i>Les vérités de la palice,    </i>Maspero, Paris.    </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">Eni P. Orlandi é professora titular de análise    de discurso do Departamento de Lingüística, do Instituto de Estudos da Linguagem    (IEL); coordenadora do Laboratório de Estudos Urbanos (Labeurb) da Unicamp.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>Notas </b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><b><a name="nt"></a><a href="#top">1</a> </b>Quando    falo em versões, a perspectiva é o texto, quando penso a formulação, a perspectiva    é a relação ao sujeito (constituição, formulação e circulação de sentidos).</font></p>     ]]></body>
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