<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>1519-7654</journal-id>
<journal-title><![CDATA[ComCiência]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[ComCiência]]></abbrev-journal-title>
<issn>1519-7654</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Universidade Estadual de Campinas - Labjor]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S1519-76542008000400004</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[O vazio funcional da química]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Borja]]></surname>
<given-names><![CDATA[Caroline]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2008</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2008</year>
</pub-date>
<numero>101</numero>
<fpage>0</fpage>
<lpage>0</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1519-76542008000400004&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1519-76542008000400004&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1519-76542008000400004&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="verdana" size="2"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="4"><b>O vazio funcional da química</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Caroline Borja</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">O vazio existe? "Essa é uma das questões mais    debatidas através dos tempos e, portanto, mais instigantes para serem estudadas    à luz da história e da filosofia da química", avalia Luciana Zaterka, integrante    do grupo de História e Teoria da Ciência da Universidade Estadual de Campinas    (Unicamp). A filosofia considera que as primeiras idéias acerca da existência    do vazio surgiram, de forma sistemática, por volta do século V antes de Cristo    com os gregos Demócrito e Leucipo. Eles propuseram a teoria da matéria, na qual    a natureza era basicamente constituída por átomos e vazio.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O filósofo Jorge Lucio de Campos, da Universidade    Estadual do Rio de Janeiro, <a href="http://sincronia.cucsh.udg.mx/Panofsky.htm" target="_blank">explica</a>    que Demócrito concebeu o espaço como "uma extensão vazia (<i>kené diastolé</i>),    sem influência alguma sobre a matéria, cujo movimento dar-se-ia em conseqüência    das constantes colisões dos átomos". A teoria da matéria, proposta por ele e    Leucipo, estruturou, atomicamente, a realidade, afirmando-se contrária à postulação    de que o vazio não poderia existir.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Mas, nem todos os pensadores antigos acreditavam    na existência do vazio. Aristóteles (384-322 a.C.), lembra Zaterka, defendia    que a natureza tem horror ao vazio. Para ele, reconhecer a existência do vazio    na natureza seria, antes de mais nada, ir contra o princípio de não contradição,    que afirma que uma coisa não pode ser e, ao mesmo tempo, não ser. "Segundo essa    tradição, um espaço vazio seria privado de coisas, ou seja, no limite, seria    o nada. Mas o nada não existe, temos aí portanto uma contradição", explica.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Aristóteles julgava que certos fenômenos dos    corpos, tais como dilatação e crescimento, não deviam ser explicados a partir    da existência do vazio, como faziam os atomistas antigos. Esses estudiosos acreditavam    que algumas coisas se contraiam e eram comprimidas - o corpo comprimido se contraia    justamente nos vazios nele existentes. Mas o filósofo do século II a.C. discordava.    "As coisas podem ser comprimidas sem ser por seus vazios, mas porque elas    espremem para fora aquilo que continham", diz Zaterka, parafraseando Aristóteles.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A existência do vazio foi defendida novamente    por pensadores como Lucrécio, no século I a.C, para quem o espaço vazio era    o local do movimento dos átomos - se o espaço estivesse pleno de matéria seria    impossível termos o movimento contínuo. </font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Só nos séculos XVI e XVII d.C., com a chamada    revolução científica, é que a questão da experimentação e dos estudos químicos    e biológicos se tornam fundamentais. O químico irlandês Robert Boyle (1627-1691),    por exemplo, defendia que não se pode simplesmente afirmar, sem demonstrar experimentalmente,    que a natureza abomina o vácuo. Foi por isso que ele investigou o modo de ação    da sua famosa bomba de vácuo, com a qual aspirava o ar contido em recipientes    de vidro nos quais aprisionava pequenos animais, que morriam durante a ação    da máquina. Seu objetivo principal foi demonstrar que é perfeitamente possível    produzir vácuo em laboratório.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Para esses pensadores, os experimentos só faziam    sentido se fossem guiados por determinadas perguntas formuladas de modo que    a própria natureza pudesse responder. "Tais respostas são arrancadas da    natureza violentamente, ou com o ato de a atormentarmos, sobretudo pela intervenção    do homem nos seus processos e fenômenos. Assim, conseguimos penetrar nas suas    estruturas e atingir seus segredos mais ocultos. Aqui encontramos, sem dúvida,    o homem - ministro - tentando dominar a natureza", analisa a filósofa.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Zaterka, que é autora do livro <i>Filosofia experimental    na Inglaterra do século XVII: Francis Bacon e Robert Boyle,</i> ressalta que    ainda hoje o homem pretende comandar a natureza, mas acredita que os valores    subjacentes às atividades do filósofo natural seiscentis ta e às do cientista    contemporâneo são bastante distintos. No século 17, pensadores como Boyle e    seu filósofo influenciador Francis Bacon (1561-1626) liam o livro da Natureza,    antes de tudo, para se aproximarem de Deus. "Afinal, segundo eles, foi Deus    quem construiu o mundo e, portanto, conhecendo cientificamente sua obra poderíamos    chegar mais perto de seu autor ", lembra.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Já na ciência contemporânea teríamos o predomínio    da relação instrumental do homem com seu objeto, com uma intensa aposta na funcionalidade    e utilidade. O vazio interessa na medida em que faz funcionar mecanismos e desenvolver    produtos. A química moderna investe não no vazio do vácuo, mas do vazio do vaso    - espaços cheios de ar ou de água e plenos de efeito ou ação. Entre macro, micro    e nano ocos hospedeiros de moléculas, tonalizantes e isolantes térmicos, a ciência    tem ainda a natureza como cenário, fonte, motivo e inspiração.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>A bordo das nanopartículas ocas</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Os debates dos filósofo s antigos sobre corpos    que se comprimem em espaços vazios ou que ocupam tais espaços espremendo para    fora o que eles continham até fazem lembrar as nanopartículas ocas do mundo    moderno. Entre elas, destacam-se as ciclodextrinas, anéis formados por unidades    de glicose, com cavidades centrais - seus vazios funcionais - que possibilitam    o embarque de medicamentos e outras s ubstâncias.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">A estrutura espacial cônica (ver figura) desses    açúcares cíclicos permite que eles se solubilizem em meio aquoso, enquanto encapsulam    e acomodam compostos insolúveis em seu vazio interno. Nessas circunstâncias,    as cavidades centrais espremem para fora moléculas de água para dar lugar às    moléculas hóspedes. A bordo das ciclodextrinas, esses compostos tornam-se solúveis    e menos irritantes, protegem-se contra a ação de microorganismos, oxidação,    degradação pela luz e calor e perdas por volatilidade. A encapsulação pode ainda    mascarar odores e sabores desagradáveis, uma propriedade que torna estratégico    o emprego das ciclodextrinas na indústria de alimentos e farmacêutica.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n101/a04img.gif"  usemap="#Map" border="0">    <map name="Map">     <area shape="rect" coords="149,261,223,279" href="http://www.scielo.br">   </map> </p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">Todavia, as aplicações das ciclodextrinas são    quase incontáveis. Em um <a href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0100-40422008000200032&amp;lng=pt&amp;nrm=isso">artigo</a>    recente publicado na revista <i>Química Nova,</i> p esquisadores da Universidade    de Blumenau enumeram algumas dessas mil e uma utilidades. Para essas nanopartículas    e seus vazios funcionais, as possibilidades soam mesmo infinitas. "Ao pensar    nelas, torna-se impossível deixa r de evocar o célebre princípio formulado por    Paul Ehrlich em sua forma proverbial: <i>corpora non agunt nisi fixata,</i>    isto é, 'os corpos não agem a menos que eles estejam ligados'. É precisamente    na sua capacidade de ligação aos que reside sua força para transformá-los e    amplificar a sua ação", comemoram os autores. E essa capacidade reside    no vazio. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>A opacidade dos vazios nanométricos</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">E a intervenção do homem - descrita por Zaterka    - nos processos e fenômenos da natureza segue incansável seu rumo. Na busca    pela funcionalidade das cavidades, a química contemporânea reúne vazios para    dar o tom à tinta. Há mais de um século, o físico alemão Gustav Mie (1868-1957)    propôs a teoria do espalhamento da luz, segundo a qual vazios fechados dentro    de partículas ou filmes geram opacidade e produzem pigmentos brancos. São realmente    os vazios que fazem branco o pigmento nano-estruturado de fosfato de alumínio,    inspirado na teoria de Mie e denominado Biphor, que invadiu o mercado de tintas    em 2005.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Foi o químico Fernando Galembeck, do Instituto    de Química da Unicamp quem coordenou as pesquisas que possibilitaram a descoberta    do Biphor, lançado pela empresa multinacional Bunge. Em seu <a href="http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0100-40422007000300041&amp;lng=in&amp;nrm=iso&amp;tlng=in">artigo</a>    publicado na revista <i>Química nova,</i> Galembeck faz analogias que remetem    ao efeito dos vazios do cotidiano que passam desapercebidos. "A cerveja Pilsen    é transparente e amarela, mas a sua espuma é opaca e branca devido ao espalhamento    da luz nas interfaces entre o líquido que rodeia as bolhinhas e o ar que está    no seu interior", aponta o artigo.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Mas mais do que efeitos, a química busca novas    funções. De acordo com Galembeck, as pesquisas sobre o novo pigmento continuam.    "Um desenvolvimento nunca termina; sempre há possibilidades novas a explorar",    diz. O químico acredita que os vazios das partículas ocas de fosfato de alumínio    podem revelar outros produtos, com diferentes funcionalidades para muitas aplicações.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">De fato, na química, cavidades funcionais não    se esgotam e elas estão mais perto de nós do que imaginamos. Galembeck exemplifica.    "Só se fazem boas geladeiras e congeladores se houver bons materiais isolantes    térmicos, que hoje são as espumas de poliuretanas. Nas espumas, quem isola não    é a poliuretana, e sim os vazios. A poliuretana apenas mantém os vazios no seu    lugar".</font></p>      ]]></body>

</article>
