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</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="verdana" size="2"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="4"><b>"Vazios" que revolucionaram a matemática</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2"><b>Cristina Caldas</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">Nós em cordões, cortes em pedras, varinhas de    plantas, entalhes em pedaços de ossos são apenas alguns exemplos de métodos    de contagem utilizados pelo homem ao longo de sua história. Mas foi a invenção    do zero, cuja etimologia remonta ao vazio, que revolucionou o sistema de numeração,    impactando inúmeras sociedades, principalmente após o século XIII. O que seria    da ciência atual sem o zero?</font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n101/a03img1.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">"A matemática, na antiguidade, era um sistema    de contagem e você só conta o que está ali para contar", explica Ubiratan D'Ambrósio,    da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). No entanto, chega um momento    na história onde escrever números torna-se complicado. O sistema de numeração    dos romanos, por exemplo, era extremamente complexo - e não existe algarismo    romano para o zero. "Surge então, vindo da Índia, a idéia de uma notação posicional,    onde com alguns símbolos você pode escrever qualquer número. O zero passou a    ser um instrumento para escrever qualquer número", complementa D'Ambrósio, que    se dedica ao estudo da história e filosofia da matemática.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Usamos a tal "notação posicional" o tempo todo.    No nosso sistema numérico hindu-arábico, o número três pode representar diferentes    valores dependendo da sua posição: se estiver sozinho significa três unidades,    se estiver na frente de outros números, pode representar dezenas, centenas,    milhares, e assim por diante. Por exemplo, no número 388, o três está representando    três centenas. Hoje em dia pode parecer simples, mas não foi sempre assim.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">E como se deu o processo de construção lógica    que culminou na notação posicional e invenção do zero? Fabiane Guimarães, que    defendeu recentemente a dissertação de mestrado <a href="http://www.pucsp.br/pos/edmat/ma/dissertacao_fabiane_guimaraes.pdf" target="_blank">Sentidos    do zero</a> pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), sob    orientação de D'Ambrósio, fez um passeio pelos diferentes sistemas de numeração    desde o ano 5000 a.C.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Começando com os egípcios, que representavam    os números por meio de combinações de poucas figuras, como flor de lótus, homem    e peixe, Guimarães destaca que "o sistema numérico dos egípcios não necessitava    do zero porque os algarismos egípcios tinham valores fixos não importando a    posição que se encontrassem". Por exemplo, o símbolo de um peixe representava    sempre o valor cem mil, independentemente de sua posição.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Guimarães explica que os gregos absorveram e    ampliaram a cultura egípcia, substituindo figuras por letras, tirando do seu    alfabeto símbolos para representar uma quantidade maior de números. Tanto os    egípcios quanto os gregos usavam o princípio aditivo: para saber os números    que os símbolos representavam era preciso somar os valores dos diferentes símbolos.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n101/a03img2.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Já os romanos, tiveram contato com o sistema    grego, mas tinham seu próprio sistema de numeração que utilizava letras relacionadas    a quantidades, faziam agrupamentos e utilizavam tanto o princípio aditivo quanto    subtrativo (nove em algarismo romano é representado pelo IX, ou seja, dez menos    um).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Foram os indianos, influenciados pelas idéias    dos babilônios, que criaram o sistema de numeração decimal que utilizamos até    hoje, segundo Guimarães. "Os numerais indianos passaram por uma longa evolução",    esclarece Dick Teresi, no livro <i>Descobertas perdidas.</i> Utilizando tábuas    de contar divididas em colunas para as unidades, dezenas, centenas, milhares,    e assim por diante, os indianos preenchiam as diferentes colunas com os símbolos    relativos às diferentes quantias.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n101/a03img3.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">No começo, representavam os números através da    escrita, onde cada um dos nove números inteiros tinha um nome: eka - 1; dvi    - 2; tri - 3; catur - 4; pãnca - 5; Sat - 6; sapta - 7; asta - 8; nava - 9.    Assim, explica Guimarães, ainda numa forma verbal e já adotando a base dez,    nasceu o sistema de posição indiano. E quando não havia unidade alguma em determinada    ordem decimal, utilizaram a palavra <i>s&#363;nya,</i> vazio. Por exemplo, o    número 1001 era escrito "eka <i>s&#363;nya s&#363;nya </i>eka". Nascia o zero    indiano.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">D'Ambrósio não vê, no momento da gênese do zero,    reflexão filosófica alguma a respeito da natureza do zero, do vazio. "Ele aparece    como uma conveniência de poder fazer operações mais elaboradas", diz. Depois    disso sim, uma série de biografias do zero surgem, como o livro <i>O nada que    existe - uma história natural do zero,</i> de Robert Kaplan (leia <a href="http://cienciahoje.uol.com.br/controlPanel/materia/view/2970" target="_blank">resenha</a>    do livro). </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>Sucesso do zero: uma conjunção de fatores</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O zero entra na Europa entre os anos de 900 e    1000 d.C., mas não chama a atenção naquele momento. Já por volta de 1200 d.C.,    aparece o italiano Leonardo de Pisa, conhecido como Fibonacci, que escreveu    o <i>Líber abaci,</i> apresentando o novo sistema de numeração hindu-arábico    que havia aprendido com os árabes. Foi o maior <i>best-seller </i>da história,    várias pessoas publicaram livros parecidos, segundo D'Ambrósio. O ponto forte    da obra era a notação posicional que possibilitava a construção de tabelas de    operações, multiplicações, adição que, na época, eram extremamente complicadas.    E qual é a explicação para tamanho sucesso?</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Considerando as reflexões filosóficas do momento,    as observações dos movimentos dos planetas (o que se passa no céu? Céu considerado    como a obra mais visível de Deus; Deus estaria se manifestando nesses movimentos,    brincando com os astros, jogando-os de um lado para o outro), as contagens dos    objetos, com todo esse pano de fundo o sistema de numeração hindu-arábico encontrou    solo fértil para se desenvolver e se espalhar. "Uma conjunção de fatores levou    ao sucesso do zero", segundo o matemático. "Existia a necessidade de explicar    todos esses fenômenos, ligado a um Deus que você quer entender e isto só foi    possível com um sistema prático de medir tudo isto". Daí a explicação do sucesso    do zero naquele momento, naquele lugar.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Ao mesmo tempo, explica D'Ambrósio, esses mesmos    padres e esses mesmos filósofos também estavam interessados no desenvolvimento    de uma economia que foi fundamental para o desenvolvimento da igreja. Os grandes    astrônomos e os grandes filósofos naturais eram também os grandes economistas    e entra em jogo toda a questão do mercado, já que uma série de instrumentos    - dentre eles, os números - tornavam-se necessários ao desenvolvimento econômico    e mercantil.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Daí a explicação para a citação de Tobias Dantzig.    Em seu livro <i>Número: a linguagem da ciência, </i>o matemático chama o zero    de "uma das maiores realizações singulares da humanidade". D'Ambrósio concorda:    "O que distingue o grande desenvolvimento que ocorreu na Europa foi justamente    a fusão de todos os fatores que listei e um instrumento básico para permitir    esta fusão foi a numeração, e este sistema de numeração só funciona porque tem    o zero". O que seria de toda a ciência moderna, com suas contagens e observações    sem um sistema de numeração adequado? "Sem dúvida o zero foi uma das maiores    realizações. Sem ele, estaríamos fazendo conta com pedrinhas", brinca o matemático.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Não é possível atribuir a criação do zero a uma    única cultura e este é um campo controverso dentro da história da matemática.    Os maias tinham também um zero, "com uma conotação mística mais explícita, que    é o componente do vazio teológico. Deus é infinito, o que acaba criando um vazio    sobre o que não é Deus. Este tipo de interpretação, de natureza religiosa, mística,    aparece mais explícito no zero maia", segundo D'Ambrósio.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>O conjunto-vazio</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A matemática foi impactada também pelo chamado    conjunto vazio. "O conjunto vazio desempenha, na teoria dos conjuntos, um papel    dual do zero na teoria dos números. Uma de suas maiores importâncias reside    neste fato, pois várias propriedades na álgebra dos conjuntos são definidas    analogamente àquelas da teoria dos números", explica o matemático Gauss Cordeiro,    da Universidade Federal Rural de Pernambuco.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O campo é árido e de difícil compreensão para    os distantes da matemática. "Georg Cantor era além de tudo um espiritualista,    e principalmente o começo da teoria dos conjuntos é de difícil compreensão,    pois ele era muito ligado também às reflexões teológicas e filosóficas, o que    torna suas idéias mais inacessíveis ainda", pondera D'Ambrósio.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Mas imagine uma sacola cheia de números pares    e outra cheia de números ímpares. O que as duas sacolas têm em comum? Nada.    É uma explicação simples para o conjunto vazio. D'Ambrósio conta que, com a    chegada da teoria dos conjuntos, os matemáticos começam a tentar fazer operações    com eles. "Nessas operações, é muito conveniente você representar o que é comum    entre dois conjuntos que não têm nada em comum", explica. A operação intersecção    exige que exista um vazio.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Tal conceito é parte da teoria dos conjuntos,    teoria esta que impactou muito a matemática. "Praticamente não há hoje nenhum    campo da matemática que não tenha recebido o impacto da teoria dos conjuntos",    afirma Howard Eves em seu livro <i>Introdução à história da matemática.</i>    De acordo com ele, a descoberta de paradoxos ou antinomias nas bordas de tal    teoria foi a última das três crises profundamente perturbadoras que os fundamentos    da matemática sofreram, antecedida pela criação do cálculo por Newton e Leibniz    e a noção de que nem todas as grandezas geométricas da mesma espécie são comensuráveis.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n101/a03img4.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">O conjunto vazio impactou também a probabilidade    e estatística. "Sem o conjunto vazio, todos os métodos de contagem (combinações,    arranjos e permutações) não poderiam ser a base de toda a teoria da probabilidade,    pois o conjunto vazio permite 'mostrar' que o fatorial de zero é igual a um",    destaca Erick de Paula Crisafuli, mestre em história da matemática pela Pontifícia    Universidade Católica de São Paulo. Assim sendo, explica, as principais distribuições    discretas de probabilidades (binomial, poisson, hipergeométrica e geométrica)    poderiam apresentar uma falha epistemológica de grande magnitude. Os teoremas    de Poisson e de Bernoulli consideram o vazio, pois dependem dos métodos de contagem    além das séries de logaritmos.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Tais "vazios" revolucionaram a matemática. Cheios    de sentido, se aproximam do quadro <i>O grito </i>de Edvard Munch. " <i>O grito    </i>é a expressão de não perceber nada", conclui D'Ambrósio.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">E, como diria Chico Buarque,</font></p>     <p><font face="verdana" size="2"><i>"É sempre bom lembrar</i>    <br>   <i>que um copo vazio </i>    <br>   <i>está cheio de ar. </i>    <br>   <i>Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho, </i>    ]]></body>
<body><![CDATA[<br>   <i>que o vinho busca ocupar o lugar da dor. </i>    <br>   <i>que a dor ocupa metade da verdade, </i>    <br>   <i>a verdadeira natureza interior"</i>.</font></p>      ]]></body>

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