<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>1519-7654</journal-id>
<journal-title><![CDATA[ComCiência]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[ComCiência]]></abbrev-journal-title>
<issn>1519-7654</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Universidade Estadual de Campinas - Labjor]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S1519-76542008000400002</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[A física do "vazio"]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Reynol]]></surname>
<given-names><![CDATA[Fabio]]></given-names>
</name>
</contrib>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Belisário]]></surname>
<given-names><![CDATA[Roberto]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2008</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2008</year>
</pub-date>
<numero>101</numero>
<fpage>0</fpage>
<lpage>0</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1519-76542008000400002&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1519-76542008000400002&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1519-76542008000400002&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font face="verdana" size="2"><b>REPORTAGEM</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="4"><b>A física do "vazio"</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font face="verdana" size="2">Fabio Reynol; Roberto Belisário</font></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="2">No princípio era a matéria. Até que foi concebida    a idéia de vazio, de que em algum lugar no espaço haveria o "nada". A partir    daí, uma celeuma foi aberta e travada ao longo da história da ciência entre    os que defendiam a existência do vácuo e os que acreditavam que haveria sempre    alguma coisa permeando tudo. Guardadas as peculiaridades de cada época, podemos    dizer que, ao longo dos séculos, vacuístas (adeptos da idéia do vácuo) e plenistas    (defensores da matéria onipresente) se revezaram nos fóruns acadêmicos trocando    farpas e apresentando argumentos em prol de suas idéias. Não podemos dizer que    seus trabalhos deram em nada. Chegamos ao século XXI com a convicção quase unânime    da comunidade científica de que a existência do nada absoluto é mais do que    improvável, pois até o que chamamos de "vácuo" possui partículas e energia.    Mas, para chegar até aqui, muito bate-boca aconteceu, muitas experiências foram    realizadas e repetidas e, entre os protagonistas da discussão, estavam personagens    tão notáveis e distantes entre si como Aristóteles e Einstein.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A "bola" do vácuo foi levantada por filósofos    gregos pré-socráticos chamados "atomistas", a partir do século V a.C. Foram    eles que conceberam a idéia de que as coisas eram feitas de minúsculas partículas    que não poderiam ser divididas - por isso, as chamaram de "indivisíveis" que,    em grego, se diz "átomo". Parece estranho que os idealizadores dos tijolinhos    da matéria também tenham sido os primeiros defensores do vazio de que temos    notícia. "Mas, para eles, tão importante quanto a idéia de matéria era a idéia    do vácuo", conta Osvaldo Pessoa Júnior, filósofo e historiador da ciência da    Universidade de São Paulo (USP). Na verdade, os atomistas valiam-se do vácuo    para explicar o movimento dos corpos. O raciocínio era simples: se um corpo    vai de um lugar a outro, é necessário que ele se direcione para um espaço vazio,    uma vez que dois corpos não se interpenetram. E o vácuo atomista ia além da    física: "a ele estava ligada a idéia de não-ser e de onde não poderia surgir    nada. Analogamente, a matéria tinha, para eles, a noção de ser", detalha Pessoa.    O vazio seria uma espécie de palco, onde a matéria, formada por átomos, atuaria.    O maior nome entre os filósofos atomistas era Demócrito, cujas idéias enfrentariam    opositores de peso na própria Grécia Antiga, anos depois de sua morte.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font face="verdana" size="2">Entre os adversários do vácuo na Grécia, já depois    dos pré-socráticos, estavam Platão (428-348 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.),    para os quais o universo estava totalmente preenchido de matéria. A questão    do movimento para eles era resolvida com a idéia da troca de lugares: um corpo    se movia no espaço porque um outro saía trocando de posição com ele. Para Aristóteles,    a resistência do meio era algo importante. "Um de seus argumentos era que, se    um corpo em movimento não encontrasse resistência alguma do meio, sua velocidade    seria infinita", expõe Pessoa. Por isso, seria impossível que existissem lugares    totalmente vazios, onde não houvesse um meio material. Aristóteles também dizia    que, se não fosse a resistência do ar, objetos de massas diferentes cairiam    à mesma velocidade, o que não era observado - mas essa idéia que seria verificada    e aperfeiçoada pelas experiências de Galileu Galilei (1564-1642), no século    XVI, e comprovada com glamour em agosto de 1971, quando o astronauta norte-americano    David Scott deixou cair na Lua um martelo e uma pena mostrando que, sem o ar,    ambos atingem simultaneamente o solo. Após Aristóteles, o vácuo seria reabilitado    ainda na antiguidade por Heron de Alexandria (século I d.C.) que, embora não    acreditasse na existência de um vazio contínuo, concebeu um mundo onde o vácuo    estaria distribuído em minúsculas porções no interior de todas as coisas.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>Quem tem medo do vazio?</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Aristóteles foi o filósofo mais influente na    Idade Média européia. Através dos estudos dos seus escritos, a questão do vazio    foi retomada nesse período, quando surgiu a célebre expressão "a natureza tem    horror ao vácuo", para dizer que qualquer porção de matéria retirada é logo    ocupada por outra - fenômeno observado em alguns experimentos hidráulicos, por    exemplo. Já no período da Renascença, os estudiosos do tema eram tão numerosos    que não seria possível descrever suas experiências e contribuições em uma única    reportagem. Mas alguns episódios marcantes valem ser destacados daquele período,    como o caso do sifão de Giovanni Baliani (1582-1666). Esse italiano tentava    levar água de um reservatório a um vale mais elevado através de um sifão. O    processo tradicional de encher o tubo com água, fechar suas extremidades e abri-las    unindo os reservatórios desnivelados não estava dando certo. Baliani levou o    problema a Galileu Galilei, que atribuiu à altura entre os reservatórios (cerca    de 20 metros) a causa do fracasso da manobra. Para Galileu, o vácuo teria uma    força limitada, comprovadamente eficaz até 12 metros de altura. Baliani, por    sua vez, enxergou nessa experiência uma maneira eficiente de se produzir vácuo.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Foi de um discípulo de Galileu uma das mais famosas    e intrigantes experiências a respeito do vácuo. Evangelista Torricelli (1608-1647),    em 1644, encheu um longo tubo de vidro com mercúrio, fechou sua abertura e o    emborcou dentro de uma bacia, também com mercúrio. A coluna do líquido dentro    do tubo desceu até certo ponto e parou. No topo do tubo, portanto, ficou uma    área aparentemente sem nada. O que havia lá? Eis a pergunta que intrigou os    observadores. O próprio Torricelli não se arriscou a dizer que a resposta era    o vácuo. Mas supôs que o efeito era devido à pressão do ar sobre o mercúrio    da cuba, que "empurrava" o mercúrio no tubo até um certo ponto - que é a explicação    atual. Ele também notou que a altura da coluna de mercúrio variava de um dia    para outro: era como se "o peso" do ar variasse. Estava esboçada a noção de    pressão atmosférica e o princípio de funcionamento do barômetro. A experiência    de Torricelli ficou tão famosa que foi repetida por inúmeros outros curiosos    por toda a Europa. Em 1646, na cidade de Rouen na França, Pierre Petit refez    um experimento similar para o conterrâneo Etiénne. O evento serviu de inspiração    para o filho de Etiénne, o jovem Blaise Pascal (1623-1662).</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Pascal então desenvolveu uma série de experimentos    sobre o vácuo e os registrou em vários escritos. Graças ao seu trabalho, o barômetro    foi aperfeiçoado e o conceito de pressão atmosférica foi lapidado. Encontrou    oposição em seu contemporâneo René Descartes (1596-1650), o mais ferrenho opositor    ao vácuo do século XVII. Defensor do éter, uma "matéria sutil" que tudo permeia,    Descartes duvidava que era vácuo o que havia no tubo acima do mercúrio, contrapondo-se    a Pascal, que admitiu isso em seu estudo "Novas experiências sobre o vácuo",    de 1647. Num capítulo pitoresco da história, Descartes afirmou ter dado a Pascal    a idéia de testar o barômetro no alto de uma montanha. A experiência foi feita    pelo cunhado de Pascal, o que comprovou a redução da pressão atmosférica com    o aumento da altitude. Pascal afirmava que a experiência fora uma iniciativa    própria, negando a alegação de Descartes. O debate foi desnecessário, pois ambos    entraram para a história por suas contribuições à ciência independentemente    de quem teria mandado o barômetro subir à montanha.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>Ascenção e queda do éter: o "nada" leva tudo</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">A idéia do éter, defendida por Descartes, havia    sido concebida na antiguidade para explicar fenômenos remotos e Aristóteles    já o mencionava. "Ele vem da idéia de que não há ação à distância, ou seja,    uma coisa não pode agir onde ela não está", explica Roberto de Andrade Martins,    físico especialista em história da ciência, da Unicamp. São Tomás de Aquino    (1227-1274) levou o conceito aristotélico de éter para a teologia, ao dizer    que, como Deus age em todos os lugares, Ele está presente em todos os lugares    - ou seja, "para São Tomás de Aquino, nem Deus poderia agir à distância", brinca    Martins.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">O éter seria reincorporado à ciência moderna    com a descoberta de que a luz é uma onda eletromagnética, em 1889, por Heinrich    Hertz. Ora, a luz das estrelas atravessava o espaço vazio até a Terra. Mas o    próprio conceito de onda, uma vibração, supõe a existência de um meio a ser    vibrado - ou, nas palavras do físico escocês James Clerk Maxwell: "quem seria    o sujeito do verbo 'ondular'?" Conclusão: sai o vácuo e volta o éter para solucionar    a questão. Porém, ainda no fim do século XIX, uma forte corrente de filósofos    da ciência pregava a rejeição sumária de todo elemento inobservável das teorias    científicas. Por sua notória fama, o éter foi um de seus alvos prediletos. A    desqualificação dessa idéia espalhou-se e o termo ganhou uma pecha pejorativa    para muitos cientistas. Um deles foi Albert Einstein, que chegou a propor a    eliminação do éter na física. A teoria da relatividade especial, de 1905, da    qual ele foi um dos principais autores, tornou o éter ainda mais fantasmagórico,    pois mostrou que era impossível identificar o referencial no qual ele estaria    em repouso. Foi o golpe final. O éter foi novamente desbancado do mundo científico,    apesar das ondas, e o vácuo voltava a ser reabilitado.</font></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>No século XX, o vazio não tem vez</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Mas a posição de Einstein não duraria para sempre.    Entre 1907 e 1916, ele e, independentemente, o matemático alemão David Hilbert    publicaram a teoria da relatividade geral, que substituía a lei da gravitação    de Newton, que falha para campos gravitacionais muito fortes ou em regiões muito    extensas (galácticas). Nessa teoria, espaço e tempo - tomados conjuntamente    como uma só entidade, o espaço-tempo - se curvam ante a presença de matéria;    o efeito dessa curvatura é interpretado como uma força gravitacional que desvia    a trajetória dos corpos. Além disso, não só a matéria, mas o próprio o espaço-tempo    curvo também é fonte de campo gravitacional. Assim, mesmo o "espaço vazio" poderia    conter energia gravitacional e agir fisicamente sobre a matéria! Diante disso,    Einstein mudou de posição e passou a defender abertamente que sua teoria da    relatividade geral só fazia sentido se o espaço não fosse vazio e o éter existisse.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Mais ataques ao vazio absoluto ainda viriam.    A partir de 1928, a relatividade especial foi unificada com a teoria quântica,    formando a "teoria quântica do campo". O que emergiu dela foi surpreendente:    o vácuo não está vazio, mas cheio de partículas subatômicas que aparecem e desaparecem    muito rapidamente, chamadas "partículas virtuais". Isso acontece porque, pela    teoria quântica, há um limite na precisão com que se pode determinar os valores    de certos pares de grandezas físicas medidas simultaneamente, incluindo o par    "energia e intervalo de tempo" (é o "princípio da incerteza" ou "da indeterminação").    O que impediria até mesmo de se dizer que o vácuo tem energia "precisamente"    zero - o que se traduz fisicamente na existência de diminutos resquícios de    campos (elétricos, magnéticos, nucleares) e dessas partículas virtuais. Apesar    de parecerem fantasmagóricas, elas produzem conseqüências mensuráveis, como    uma minúscula força de atração entre placas metálicas paralelas, chamada efeito    Casimir, prevista em 1948, pelo holandês Hendrik Casimir (1909-2000), e confirmada    em 2001.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Em 1998, apareceu uma terceira ameaça fatal ao    vácuo absoluto. Descobriu-se que a expansão do universo está se acelerando.    Sabe-se, desde os anos 1920, que os grupos de galáxias que formam o cosmo estão    afastando-se uns dos outros. Mas esperava-se que essa expansão cósmica estivesse    se desacelerando, por causa da ação da gravidade. A aceleração da expansão indica    que há uma força repulsiva agindo, e a fonte dessa força parece ser algo que    permeia todo o espaço. Deu-se o nome de "energia escura" a essa fonte desconhecida.    E mais: nos anos seguintes, medidas da radiação cósmica de fundo - uma radiação    sutil que permeia todo o espaço cósmico e que contém registros do conteúdo médio    de matéria e energia do universo conhecido - indicaram que a maior parte desse    conteúdo, nada menos que 75%, é de energia escura! Se somarmos isso com a dita    matéria escura - que se revela apenas por sua influência gravitacional e é de    natureza também desconhecida -, conclui-se que sabemos o que forma apenas 4%    do conteúdo do cosmo.</font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font face="verdana" size="3"><b>E o "tudo ou nada" continua</b></font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Além de tudo isso, sabe-se que, mesmo que não    houvesse nenhum desses "éteres" modernos, o espaço interestelar e intergaláctico    não é vazio. Há partículas espalhadas por ele, emitidas pelo Sol e pelas estrelas    (são os ditos "ventos solares" e "estelares"), por supernovas ou por outros    fenômenos astrofísicos. No espaço entre estrelas, a densidade típica de matéria    das regiões mais densas é de um milésimo de trilionésimo da pressão atmosférica    na Terra. A região entre as galáxias é cem milhões de vezes mais rala: um átomo    a cada 10 litros. Como diz o físico Walter Maciel, da USP, no seu livro "Astrofísica    do meio interestelar", da Edusp, "um copo de vácuo" feito pelo ser humano "contém    muito mais partículas pelo menos mil vezes que em qualquer situação usual no    meio interestelar." Isso é pequeno, sim, mas não é zero. O "vácuo" interestelar    é denso o suficiente para que as ondas de choque causadas pelo encontro do vento    solar com os ventos estelares produzam algumas estruturas nesse diáfano "meio    interestelar" ao redor do sistema solar - a principal delas é chamada "heliopausa".    Os dados enviados pelas sondas Voyager 1 e 2, lançadas nos anos 1970, indicam    que elas estão começando a penetrar nessas estruturas. Deverão nos enviar informações    muito preciosas sobre elas nos próximos anos.</font></p>     <p><font face="verdana" size="2">Ainda que esses elementos sejam diferentes do    éter do século XIX, eles mostram que o espaço sem matéria não pode ser identificado    com o "nada". Mas, sendo assim, como fica o espaço "vazio" na extremidade do    tubo de mercúrio de Torricelli? Ora, como diz Martins, "ninguém pode mostrar    que existe vácuo", pois apenas "o que se pode estabelecer pela experiência é    que em certo lugar não há certas coisas". Torricelli viu que não havia ar ou    mercúrio no seu tubo; mas não "provou" que lá havia vácuo - seus seguidores,    como Pascal, apenas interpretaram assim. Nunca poderemos dizer tudo sobre o    nada.</font></p>      ]]></body>

</article>
