<?xml version="1.0" encoding="ISO-8859-1"?><article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:xsi="http://www.w3.org/2001/XMLSchema-instance">
<front>
<journal-meta>
<journal-id>1519-7654</journal-id>
<journal-title><![CDATA[ComCiência]]></journal-title>
<abbrev-journal-title><![CDATA[ComCiência]]></abbrev-journal-title>
<issn>1519-7654</issn>
<publisher>
<publisher-name><![CDATA[Universidade Estadual de Campinas - Labjor]]></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
<article-id>S1519-76542008000300018</article-id>
<title-group>
<article-title xml:lang="pt"><![CDATA[Por uma leitura crítica da ciência]]></article-title>
</title-group>
<contrib-group>
<contrib contrib-type="author">
<name>
<surname><![CDATA[Natércia]]></surname>
<given-names><![CDATA[Flavia]]></given-names>
</name>
</contrib>
</contrib-group>
<aff id="A">
<institution><![CDATA[,  ]]></institution>
<addr-line><![CDATA[ ]]></addr-line>
</aff>
<pub-date pub-type="pub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2008</year>
</pub-date>
<pub-date pub-type="epub">
<day>00</day>
<month>00</month>
<year>2008</year>
</pub-date>
<numero>100</numero>
<fpage>0</fpage>
<lpage>0</lpage>
<copyright-statement/>
<copyright-year/>
<self-uri xlink:href="http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1519-76542008000300018&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S1519-76542008000300018&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri><self-uri xlink:href="http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_pdf&amp;pid=S1519-76542008000300018&amp;lng=en&amp;nrm=iso"></self-uri></article-meta>
</front><body><![CDATA[ <p align="right"><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>RESENHA </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="4" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Por uma leitura cr&iacute;tica da ci&ecirc;ncia </b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Flavia Nat&eacute;rcia</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n100/a18img01.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif"><b>Por diversos rumos e estilos, autores voltam-se para a divulga&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia. Em meio a diferentes gostos e verdades transit&oacute;rias, importa realizar outra leitura </b></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Pode-se dizer que h&aacute; livros de divulga&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica para diversos gostos, interesses e n&iacute;veis de familiaridade com a ci&ecirc;ncia. Eles podem ser escritos por jornalistas ou escritores profissionais, mas os cientistas que se aventuram a escrev&ecirc;-los inserem-se numa longa tradi&ccedil;&atilde;o que se iniciou com a assim-chamada Revolu&ccedil;&atilde;o Cient&iacute;fica. Galileu Galilei foi o primeiro "delineador do campo da natureza" - na bela defini&ccedil;&atilde;o que Giordano Bruno faz da atividade dos fil&oacute;sofos naturais em <i>Sobre o infinito, o universo e os mundos </i>-a escrever n&atilde;o em latim, mas num idioma vern&aacute;culo, o italiano. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Uma arrebatadora descri&ccedil;&atilde;o da chuva despencando na floresta amaz&ocirc;nica abre o livro <i>Biodiversidade, </i>de Edward O. Wilson. A teoria de Einstein &eacute; apresentada aos n&atilde;o-iniciados, de forma compreens&iacute;vel, pelo matem&aacute;tico e fil&oacute;sofo Bertrand Russell em <i>ABC da relatividade. </i>Movido pelo entusiasmo provocado pela descoberta da radia&ccedil;&atilde;o de microondas, Steve Weinberg, pr&ecirc;mio Nobel de f&iacute;sica em 1979, descreve como teria sido o in&iacute;cio do universo em <i>Os tr&ecirc;s primeiros minutos. </i>As raz&otilde;es para o dom&iacute;nio europeu por s&eacute;culos sobre o restante do mundo s&atilde;o investigadas por Jared Diamond em <i>Armas, germes e a&ccedil;o. </i>Do mesmo autor, o instigante <i>Colapso </i>busca compreender por que algumas civiliza&ccedil;&otilde;es sobreviveram e at&eacute; prosperaram, enquanto outras entraram em decad&ecirc;ncia ou desapareceram completamente. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Stephen Jay Gould aventura-se pela descoberta do "tempo profundo" em geologia, indo do reverendo Thomas Burnet, autor da <i>Teoria sagrada da Terra, </i>no s&eacute;culo XVII, a Charles Lyell e seus <i>Princ&iacute;pios de geologia, </i>no s&eacute;culo XIX, no fascinante <i>Seta do tempo, ciclo do tempo. </i>Gould escreveu diversos livros em que tratou principalmente, de paleontologia e evolu&ccedil;&atilde;o, os temas que pesquisava, como <i>Darwin e os enigmas da vida, O polegar do panda </i>e <i>Vida maravilhosa. </i>O comportamento social de primatas e humanos &eacute; tema do bem-humorado Robert Sapolsky em <i>Confiss&otilde;es de um primata </i>e do habilidoso Frans de Waal em <i>Eu, primata. </i>Muitos outros exemplos poderiam ser citados: toda lista &eacute; parcial. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">S&atilde;o livros que delineiam o mundo passado, presente e futuro com suas escritas mais ou menos ferozes, mais ou menos contundentes, mais ou menos bem-sucedidas na tarefa de transpor a barreira do jarg&atilde;o e do conhecimento estritamente t&eacute;cnico para atingir audi&ecirc;ncias mais amplas que as formadas por seus pares. Seus autores enfrentam o risco de usar met&aacute;foras, analogias e imagens cotidianas para ilustrar o que se passa no interior dos laborat&oacute;rios - an&aacute;lise, s&iacute;ntese, busca de rela&ccedil;&otilde;es causais- ou nos campos onde fazem observa&ccedil;&otilde;es, coletas, manipula&ccedil;&otilde;es ou nos computadores nos quais simulam realidades. No entanto, um dos grandes divulgadores da ci&ecirc;ncia em atividade, Richard Lewontin, da Universidade Harvard, adverte em <i>A tripla h&eacute;lice </i>que se torna um problema quando as met&aacute;foras s&atilde;o tomadas como reais - "o pre&ccedil;o da met&aacute;fora &eacute; a eterna vigil&acirc;ncia". Lewontin &eacute; dono de uma escrita envolvente que parte da compreens&atilde;o da ci&ecirc;ncia como parte da sociedade. A palavra desenvolvimento, por exemplo, em ingl&ecirc;s, &eacute; a mesma para a sucess&atilde;o de est&aacute;gios na forma&ccedil;&atilde;o do organismo e para a amplia&ccedil;&atilde;o de um filme ("to develop"). Embora pare&ccedil;a inofensiva, a palavra remete ao preformacionismo. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n100/a18img02.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Muitas contribuem para semear o gosto pela ci&ecirc;ncia, o que se confirma no depoimento de cientistas como Carl Sagan, que "queria ser cientista desde os primeiros dias de escola", mas cujo interesse pelo tema foi mantido nos anos escolares "pela leitura de livros e revistas sobre a realidade e a fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;ficas". Mas as obras de divulga&ccedil;&atilde;o da ci&ecirc;ncia foram e s&atilde;o escritas tamb&eacute;m com outras finalidades. Por exemplo, tornar p&uacute;blicas descobertas capazes de alterar vis&otilde;es de mundo, como fez Galileu. Ou explicar ao p&uacute;blico geral conceitos, teorias e disciplinas cuja sofistica&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica parece ter afastado da cultura dos que n&atilde;o pertencem ao seleto grupo de pesquisadores daquela &aacute;rea ou daquele campo. Pode-se citar como exemplo disso <i>Uma breve hist&oacute;ria do tempo, </i>de Stephen Hawking. </font></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/revistas/cci/n100/a18img03.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outra finalidade pode ser justificar ou defender um projeto, o que fez Steve Weinberg em <i>Sonhos de uma teoria final </i>em rela&ccedil;&atilde;o ao supercolisor de part&iacute;culas que acabou sendo constru&iacute;do na Europa, e n&atilde;o nos Estados Unidos. Ou ainda interferir num debate sobre id&eacute;ias, conceitos, teorias em voga (ou decad&ecirc;ncia) na &eacute;poca em que s&atilde;o escritos, como os livros de Lewontin que procuram desmontar o determinismo subjacente &agrave; divulga&ccedil;&atilde;o de feitos recentes da biotecnologia, como o projeto Genoma e a transfer&ecirc;ncia nuclear de c&eacute;lula som&aacute;tica ("clonagem"): <i>A tripla h&eacute;lice,It ain't necessarily so, Not in our genes, Biology as ideology. </i></font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Richard Dawkins, por sua vez, fez <i>O gene ego&iacute;sta </i>para divulgar as id&eacute;ias desenvolvidas a partir dos anos 1930 com os trabalhos de Robert A. Fisher, John Maynard-Smith e outros pioneiros do neodarwinismo e tornadas expl&iacute;citas somente nos anos 1960 por C. George Williams e William D. Hamilton. Em pref&aacute;cio a uma reedi&ccedil;&atilde;o portuguesa de seu livro mais pol&ecirc;mico, publicado originalmente em 1972, disse: </font></p> <font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">    <blockquote>"Para mim, suas id&eacute;ias eram vision&aacute;rias. Mas achei que as exprimiram muito laconicamente e que n&atilde;o as espalharam e divulgaram suficientemente. Estava convencido de que o desenvolvimento e a amplifica&ccedil;&atilde;o de uma vers&atilde;o podiam fazer com que todos os fatos da vida tivessem sentido, tanto no cora&ccedil;&atilde;o como no c&eacute;rebro. Eu escreveria um livro para enaltecer a evolu&ccedil;&atilde;o vista pelos genes. Ele concentrar-se-ia em exemplos sobre o comportamento social para ajudar a corrigir a febre de sele&ccedil;&atilde;o de grupo inconsciente que ent&atilde;o invadia o darwinismo popular".</blockquote></font>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">O embri&atilde;o de sua cruzada contra a religi&atilde;o encontra-se no livro <i>O relojoeiro cego, </i>em que rebate o argumento teol&oacute;gico do fil&oacute;sofo William Paley (1743-1805), segundo o qual Deus &eacute; um relojoeiro e o olho humano, t&atilde;o complexo, organizado, adaptativo era evid&ecirc;ncia de que o homem era fruto da cria&ccedil;&atilde;o por um designer inteligente. Depois vieram <i>O rio que sa&iacute;a do &Eacute;den </i>e, mais recentemente, <i>Deus, um del&iacute;rio. </i>Dawkins teve como um grande interlocutor outro importante divulgador da ci&ecirc;ncia, Stephen Jay Gould. Em geral, batiam de frente. Um dos pontos em que convergiram, por&eacute;m, est&aacute; a nega&ccedil;&atilde;o do car&aacute;ter teleol&oacute;gico da evolu&ccedil;&atilde;o, que teria no homem sua obra mais perfeita e acabada. Afinal, lembra Dawkins, todos os seres vivos evolu&iacute;ram a partir de um ancestral comum por mais de 3 bilh&otilde;es de anos, por sele&ccedil;&atilde;o natural: "reprodu&ccedil;&atilde;o diferencial, n&atilde;o aleat&oacute;ria, dos genes". Gould, por outro lado, insistia no car&aacute;ter contingente da evolu&ccedil;&atilde;o que, se fosse um filme e se pusesse a rodar novamente, teria certamente outro resultado. </font></p>     <p><font size="2" face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif">Outro cientista que se dedicou intensamente &agrave; divulga&ccedil;&atilde;o foi Carl Sagan, que escreveu, entre outros, <i>P&aacute;lido ponto azul, Os drag&otilde;es do &Eacute;den </i>e <i>O mundo assombrado pelos dem&ocirc;nios - a ci&ecirc;ncia vista como uma vela no escuro. </i>Este &uacute;ltimo tem como alvo a pseudoci&ecirc;ncia e o misticismo, mas tamb&eacute;m a rever&ecirc;ncia excessiva &agrave; autoridade cient&iacute;fica, e busca equipar seu leitor com um kit de ferramentas para o pensamento c&eacute;tico. Sagan concorda com Einstein, que disse: "Toda a nossa ci&ecirc;ncia, comparada com a realidade, &eacute; primitiva e infantil - e, no entanto, &eacute; a coisa mais preciosa que temos." Diante de verdades que, se existem, s&atilde;o provis&oacute;rias, transit&oacute;rias, ef&ecirc;meras, o que resta &eacute; ler ci&ecirc;ncia criticamente. </font></p>      ]]></body>

</article>
